Oh minha esposa e senhora,

Já não tereis em poder

Vosso esposo que assim chora,

Pois a morte roubadora

Vos roubou todo o prazer.

Oh vida de meu viver,

Resplandecente narcizo,

Gram pena levo em saber,

Que nunca vos heide ver

Até o Dia de Juizo.

Oh esperança, por quem

Tinha victoria vencida!

Oh minha gloria, meu bem;

Porque não partis tambem,

Pois que sois a minha vida?

Se não fôr vossa vontade

De haver de mim compaixão,

Mandae-me meu coração,

Minha fé e liberdade,

Que está em vossa prisão.

Madre minha muito amada,

Que é do filho que paristes

De quem ereis consolada?

Como se ha tornado nada

Quanta gloria possuistes?

Já me não vereis reinar,

Já me não dareis conselho;

Nem eu o posso tomar,

Que quebrado é o espelho,

Em que vos sabeis olhar.

Já nunca me haveis de vêr

Fazer justas e torneios,

Nem vestir nobres arreios,

Nem Cavalleiros vencer,

Nem tomar bandos alheios.

Já não tomareis prazer

Quando me virdes armado,

Já vos não virão dizer

A fama de meu poder,

Nem louvar-me de esforçado.

Oh valentes Cavalleiros,

Reinaldos de Montalvão,

Oh esforçado Roldão,

Oh Marquez Dom Oliveiros,

Dom Ricardo, Dom Dudão,

Dom Gaiferos, Dom Beltrão,

Oh Grão Duque de Milão,

Que é da vossa companhia

Duque Maime de Baviera,

Que é de vosso Valdevinos?

Oh esforçado Guarinos,

Quem comsigo vos tivera!

Meu amigo Montesinhos,

Já nunca mais vos verei;

Dom Alonso de Inglaterra,

Já não acompanharei

O Conde Dirlos na guerra.

Oh esforçado Marquez

De Mantua, teu senhorio,

Já não me poreis arnez,

Nem me vereis outra vez

Gozar vosso poderio.

Já não quero vosso estado,

Já não quero ser pessoa,

Nem mandar, nem ter reinado,

Já não quero ter corôa

Nem quero ser venerado.

Oh Carlos Imperador,

Senhor de mui alta sorte,

Como sentireis grão dôr

Sabendo da minha morte,

E quem d'ella é causador!

Bem sei, se for informado

Do caso como passou,

Que serei mui bem vingado,

Ainda que me matou

Vosso filho mui amado.

Oh Principe Dom Carloto,

Quem, sendo tão desigual,

Te moveu a fazer mal

Em um logar tão remoto

A teu amigo leal?

Alto Deos omnipotente,

Juiz direito sem par,

Sobre essa morte innocente

Justiça queiraes mostrar,

Pois morro tão cruelmente.

Oh madre de Deos benigna,

E fonte de piedade,

Arca da santa Trindade,

De donde o Verbo divino

Trouxe sua humanidade.

Oh Santa _Dómina mea_,

Oh Virgem _gratia plena_.

Em que a alma se recreia

Dá remedio á minha pena,

Pois que morro em terra alheia.

Marquez:

Senhor, porque vos queixaes?

Quem vos tratou de tal sorte?

E quem é o que tal morte

Vos deu, como publicaes,

Que assás é esta má sorte!

Não me negueis a verdade,

Contae-me vosso pezar,

Que vos prometto ajudar

Com toda a força e vontade.

Valdevinos:

Muito me agasta, amigo,

Certamente teu tardar,

Dize se trazes comtigo,

Quem me haja de confessar?

Marquez:

Eu nao sou quem vós cuidaes;

Nunca comi vosso pão,

Mas vossos gritos e ais

Me trouxeram aonde estaes

Mui movido á compaixão.

Dizei-me vossa agonia,

Que, se remedio tiver,

Eu vos prometto fazer

Com que tenhaes alegria.

Valdevinos:

Meu senhor, muitas mercês

Por vossa bôa vontade!

Bem creio, que ma fareis

Muito mais do que dizeis,

Segundo vossa bondade.

Mas minha dor é mortal,

Meu remedio só é morte,

Porque estou parado tal,

Que nunca homem mortal

Foi tratado de tal sorte.

Tenho, senhor, vinte e duas

Feridas todas mortaes,

As entranhas rotas e nuas,

E passo penas tão cruas,

Que não poderão ser mais.

Ha-me morto á traição

O filho do Imperador,

Carloto a gram sem razão;

Mostrando-me todo o amor,

Não o tendo no coração.

Muitas vezes requeria

Minha esposa com maldade,

Mas ella não consentia,

Pelo bem que me queria,

Por sua grande bondade.

Carloto com grão pezar

Como mais traidor, que forte,

Ordenou de me matar,

Cuidando com minha morte

Com ella haver de casar.

Matou-me com gram falsia,

Trazendo cinco comsigo,

Sem eu trazer mais commigo,

Que um pagem por companhia.

A mim chamam Valdevinos,

Sou filho de El-Rei de Dacia,

E primo de El-Rei de Grecia,

E do forte Montesinos

Que é herdeiro de Dalmacia;

Dona Hermelinda formosa

Minha madre natural,

Sibylla minha esposa,

De graças especial,

Mas com primores famosa.

Esta nova contareis

Á triste de minha madre,

Que em Mantua achareis,

E ao honrado Marquez

Meu tio, irmão de meu padre.

Marquez:

Oh desastrado viver,

Oh amargosa ventura,

Oh ventura sem prazer,

Prazer cheio de tristura,

Tristura que não tem ser.

Oh desventurada sorte,

Oh sorte sem soffrimento,

Desamparado tormento,

Dôr muito peior que a morte,

Morte de desabrimento!

Oh meu sobrinho, meu bem,

Minha esperança perdida!

Oh gloria que me sustem,

Porque vos partís de quem

Sem vós não terá mais vida?

Oh desventurado velho,

Captivo sem liberdade!

Quem me póde dar conselho,

Pois perdido é o espelho

De minha gram claridade.

Oh minha luz verdadeira,

Trevas do meu coração,

Penas da minha paixão,

Cuidado que me marteira,

Tristeza de tal traição!

Porque não queres falar

A este Marquez coitado,

Que tio sohieis chamar?

Falae-me, sobrinho amado,

Não me façaes rebentar.

Valdevinos:

Meu tormento tão molesto

Me faz não vos conhecer,

Nem na fala, nem no gesto;

Nem entendo vosso dizer,

Se não fôr mais manifesto.

Estou tão posto no fim,

Que não sei se sou alguem,

Nem menos conheço a mi;

Pois quem não conhece a si

Mal conhecerá ninguem.

Marquez:

Como não me conheceis

Meu sobrinho Valdevinos?

Eu sou o triste Marquez,

Irmão de El-Rei Dom Salinos,

Que era o pae que vos fez.

Eu sou o Marquez sem sorte,

Que devêra rebentar

Chorando a vossa morte,

Por com vida não ficar

N'este mundo sem de porte.

Oh triste mundo coitado,

Ninguem deve em ti fiar

Pois és desaventurado,

Que o que tens mais exaltado

Mór quéda lhe fazes dar.

Valdevinos:

Perdoae-me, senhor tio,

A minha descortezia,

Que a minha grande agonia

Me pôz em tanto desvio,

Que já vos não conhecia.

Não me queiraes mais chorar,

Deveis de considerar

Que para isso é o mundo;

Que dobraes meu mal profundo,

Para bem é mal passar:

E bem sabeis que nascemos,

Para ir a esta jornada,

E que quanto mais vivemos,

Maior offensa fazemos

A quem nos criou de nada.

Assim que necessidade

Não tendes de me chorar,

Pois que Deos me quiz levar

No melhor de minha idade,

Para mais me aproveitar.

Mas o que haveis de fazer,

É por minha alma rogar,

Porque o muito chorar

Á alma não dá prazer,

Mas antes mui grão pesar.

Quero-vos encommendar

Minha esposa e minha madre,

Pois que não tem outro padre,

Que as haja de amparar,

Senão vós, como é verdade.

Mas o que me dá paixão

Em esta triste partida,

É morrer sem confissão,

Mas se parto d'esta vida,

Deos receberá a tenção.

(Vem o Ermitão e o Pagem)

Ermitão:

A paz de Deos sempiterno

Seja comvosco irmão,

Lembrae-vos da sua paixão

Que, por nos livrar do inferno,

Padeceu quanto a varão.

Valdevinos:

Com cousa mais não folgára

De que vêl-o aqui chegado,

Padre de Deos enviado,

Que se um pouco mais tardara,

Não me achára n'esté estado.

Pagem:

Oh que desastrada sorte

Meu senhor Dones Ogeiro!

Olhae vosso escudo forte

Olhae, senhor, vosso herdeiro,

Em que extremo o pôz a morte.

Oh desditoso caminho,

Caça de tanto pezar,

Que cuidando de caçar,

A morte a vosso sobrinho

Viestes, senhor, buscar.

Ermitão:

A gram pressa que trazia,

Não me deu, senhor, logar,

De conhecer, nem falar

A vossa gram senhoria.

N'este erro se ha culpa,

Peço-lhe d'elle perdão,

Ainda que a discrição

Sua me dará desculpa.

Marquez:

Rogae a Deos Padre honrado,

Que me queira dar paciencia,

Que o perdão é escusado,

Porque vossa diligencia

Vos não deixa ser culpado.

Ermitão:

O filho de Deos enviado

Vos mande consolação!

E pois que aqui sou chegado

Quero ouvir de confissão

Este ferido e angustiado.

Coisa é mui natural

A morte a toda a pessoa,

A todo o mundo em geral,

Pois que a nenhum perdôa,

Não a tenhamos por mais.

Porque o peccado de Adão,

Foi tão fero e de tal sorte,

Que não só por perdição.

Mas Deos, que é salvação,

Quiz tambem receber morte.

E por tanto, filho meu,

Não se deve de espantar,

Da morte que Deos lhe deu,

Pois que em provimento seu,

Lh'a deu o para salvar.

Lembre-lhe sua paixão:

Veja este mundo coitado,

E não o engode o malvado,

Que não dá por galardão

Senão tristeza e cuidado.

Em quanto, filho, tem vida,

Chame a Madre do Deos,

Aquella que foi nascida,

Sem peccado concebida,

E coroada nos céos.

Esta foi santificada,

E visitada dos Anjos;

E em corpo e alma levada

Á gloria, onde exaltada

Lá está sobre os archanjos.

Assim, que ao Redemptor,

E a esta Virgem sem par

Se hade, filho, encommendar,

Depois que os santos fôr

Sua vontade chamar.

As mãos levante aos céos,

Faça confissão geral,

Confessando-se a Deos,

E á Virgem celestial,

E a todos os santos seus.

Marquez:

Oh bonancia aborrecida,

Oh desastrada fortuna!

De prazeres gram tribuna!

Porque não desamparaes

A quem sois tam importuna?

Tristeza, desconfiança,

Porque não desesperaes

A quem não tem confiança?

Contae-me, pagem Burlor,

O caso como passou,

Quem foi aquelle traidor

Que matou vosso senhor,

Ou porque causa o matou.

Pagem:

Seria mui mal contado

Se a sua gram Senhoria

Não contasse o que é passado.

Eu sei certo que faria,

O que não é esperado

Contra quem me deu estado,

E ha feito tantas mercês,

Que nunca meu pae me fez,

Que é meu senhor amado,

E mais vós, senhor Marquez.

Estando pois em Paris,

O filho do Imperador,

Mandou chamar meu senhor

Nos paços da Imperatriz;

Falaram muitos a sabor,

O que falaram não sei,

Senão que logo n'essa hora

Sem fazerem mais demora,

Com quatro detraz de si

Foram da cidade fóra,

Armados secretamente,

Segundo depois ouvi.

Partimos todos d'aí.

E Dom Carloto presente,

Tambem armado outrosi.

E tanto que aqui chegaram,

N'este valle de pezar

Todos juntos se apearam,

E fizeram-me ficar

Com os cavallos que deixaram.

E logo todos entraram

Em este esquivo logar,

Onde meu senhor mataram;

E depois de o matar,

Nos cavallos se tornaram;

Como eu os vi tornar,

Sentindo muito tal dôr,

Temendo de lhe falar,

Não usei de perguntar

Onde estava meu senhor.

Vendo-os assim caminhar,

Porque nenhum me falava,

Quiz a meu senhor buscar,

Porque o coração me dava

Sobresaltos de pezar.

Não o podia topar,

Porque a grande espessura

E a noite medrosa, escura

Me fazia não o achar:

Do que tinha gram tristura.

Buscando-o com gram paixão,

N'aquelle logar remoto

O achei d'esta feição.

Disse como á traição

O matára Dom Carloto.

Perguntei porque rasão?

Triste, cheio de agonias,

Disse-me com afflicção:

«Vae-me buscar confissão,

Já se acabaram meus dias.»

Como taes novas ouvi,

Com grande tribulação

E pezar de vêl-o assi,

Me parti logo d'aqui

A buscar esse Ermitão.

Isto é, senhor, o que sei

D'este caso desastrado,

Quanto me ha perguntado,

Outra cousa não direi

Mais do que lhe hei contado.

Marquez:

Quando sua magestade

Justiça me não fizer

Com toda a rigoridade,

Á força de meu poder

Cumprirei minha vontade.

Ermitão:

Já, senhor, se ha confessado,

E fez actos de christão;

Morre com tal contricção,

Que eu estou maravilhado

De sua gram discrição.

Muito não pode tardar,

Segundo n'elle senti:

Acabei de lhe falar,

Porque lhe quero resar

Os psalmos de el-rei David.

Valdevinos:

Não tomeis, tio, pezar,

Que me parto de vos ver

Para nunca mais tornar;

Pois Deos me manda chamar

E não posso mais fazer.

Torno-vos a encommendar

Minha esposa e minha mãe,

Que as queiraes consolar,

E ambas as amparar,

Pois que não tem outro pae.

Oração de Valdevinos:

Em as tuas mãos, Senhor,

Encommendo meu espirito;

Pois que és Salvador meu,

Meu Deos, e meu Redemptor,

Não me falte favor teu;

Pois, Senhor, me redemiste,

Como Deos, que és de verdade,

Senhor de toda a piedade,

Lembra-te d'esta alma triste

Cheia de toda a maldade.

Salve, Senhora benigna,

Madre de misericordia,

Paz de nossa gram discordia,

Dos peccadores mesinha;

Vida doce e concordia,

_Spes nostra_, a ti invocamos,

Salva-nos da escura treva.

A ti, Senhora, chamamos

Desterrados filhos de Eva;

A ti, Virgem, suspiramos

A ti gemendo e chorando

Em aqueste lagrimoso

Valle sem nenhum repouso,

Sempre Virgem, a ti chamamos,

Que és nosso prazer e gôso.

Ora pois, nossa advogada,

Amparo da christandade,

Volve os olhos de piedade

A mim, Virgem consagrada,

Pois que és nossa liberdade.

Dá-me, Senhora, virtude

Contra todos meus imigos,

Pois que és a nossa saúde,

Eu te rogo, que me ajudes

Nos temores e perigos;

Roga tu por mim, Senhora,

Oh santa madre de Deos,

A quem minha alma adora,

Pois és rainha dos céos,

E dos anjos superiora.

(Aqui expira Valdevinos)

Marquez:

Oh triste velho coitado!

Oh cãs cheias de tristura!

Oh doloroso cuidado!

Oh cuidado sem ventura,

Sem ventura desterrado!

Quebrem-se minhas entranhas

Rompa-se meu coração

Com minha tribulação.

Chorem todas as campanhas

Minha grande perdição;

Escura-se o sol com dó,

Caiam estrellas do céo,

As trevas de Faraó

Venham já sobre mim só,

Pois minha luz se perdeu

Na luz de mui claro dia;

Claridade, sem clareza,

Minha doce companhia,

Onde está vossa alegria,

Que me deixa tal tristeza?

Oh velhice desastrada,

Sem gloria e sem prazer,

Para que me deixaes ser,

Pois que sendo, não sou nada,

Nem desejo de viver?

Porque não vens, padecer,

Porque não vindes, tormentos?

Para que são soffrimentos,

A quem os não quer já ter,

Nem busca contentamentos?

Para que quero rasão

Para que quero prudencia,

Nem saber, nem discrição?

Para que é paciencia,

Pois perdi consolação?

Pagem:

Oh meu senhor muito amado,

Porque vos tornastes pó!

Porque me deixastes só

Em este mundo coitado

Com tanta tristeza e dó?

Leváreis-me em companhia,

Pois sempre vos tive, vivo.

Oh minha grande alegria,

Porque me deixaes captivo,

Mettido em tanta agonia?

Meu senhor, minha alegria

Dizei, porque nos deixaes

Com tanta pena notoria!

Lembrae-vos, tende memoria,

De quantos desamparaes.

Oh sem ventura Burlor!

De quem serás amparado,

De quem terás o favor

Que tinhas do teu senhor,

Pois que já te ha faltado?

Ermitão:

Não tomeis, filho, pezar

Pois claramente sabeis,

Que pelo muito chorar

Não cobraes o que perdeis.

Deveis, filho, de cuidar,

Que nossa vida é um vento

Tão ligeiro de passar,

Que passa em um momento

Por nós, assim como o ár.

Quem viu o senhor Infante,

Tão pouco ha, fazer guerra,

E ser n'ella tão possante,

E agora em um instante,

Ser tornado escura terra,

Diria com gram rasão

Que este mundo coitado

Não dá outro galardão,

Senão tristeza e paixão,

Como a vós outros foi dado.

Olhae, el-rei Salomão

O galardão que lhe deu:

A Amão, e Absalão,

E ao valente Sansão,

E ao forte Macabeu.

Em a Sacra Escriptura

Muitos mais podia achar,

Se os quizesse contar;

Mas vossa grande cordura

Suprirá donde faltar,

E pois que não tem já cura

O mal feito e o passado,

Cesse a vossa tristura,

E demos á sepultura

Este corpo já finado.

Levemol-o onde convém

Para que seja enterrado;

E pode bem ser guardado

N'aquella ermida que vêem,

Até ser embalsamado.

(Aqui levam a Valdevinos á Ermida, e entra o Imperador e conde Ganalão)

Imperador:

Certo, Conde Ganalão,

Muito gram perda perdemos,

Pêza-me no coração,

Porque na côrte não temos

Reinaldos de Montalvão,

Nem o Conde Dom Roldão,

Nem o Marquez Oliveiros,

Nem o Duque de Milão,

Mem o Infante Gaifeiros,

Nem o forte Meredião.

Ganalão:

Muito alto Imperador,

Muito estou maravilhado

Porque mostraes tal favor

A quem vos ha deshonrado

Com tanta ira e rigor,

Que, chamando-se Almansor,

Com o seu rosto mudado

Aquelle falso traidor

Com mui grande deshonor,

Quiz deshonrar vosso estado:

Porque, senhor, não sentís,

Que este malvado ladrão

Vos prendeu de sua mão

Tomando-vos a París

Com muito grande traição?

Pondo-vos em Montalvão

Apesar de vosso imperio,

Onde com gram vituperio

Estivestes em prisão,

Sem ter nenhum refregerio?

Imperador:

Verdade é isso, cunhado,

Porém deveis de saber

Que em Reinaldos me prender

Eu mesmo sou o culpado:

Isto bem o podeis crêr.

Se então me quiz offender

Não é muita maravilha,

Pois já me quiz guarnecer

Matando el-rei Carmeser,

Que me trouxe a sua filha.

Ganalão:

Vossa real magestade

Dirá tudo o que quizer,

Mas eu espero a Beltrão...

Que se conheça a maldade,

De quem se hade conhecer.

(Aqui se vae Ganalão: e vem dois Embaixadores mandados pelo Marquez de

Mantua, chamados Dom Beltrão e Duque Amão: e virão vestidos de dó)

Beltrão:

Gram Cezar Octaviano,

Magno, augusto, forte rei,

Grande imperador romano

Amparo da nossa lei,

Poderosa magestade,

Senhor de toda a Magança,

Da Gascunha e da França,

Gram patrão da christande,

Esteio da segurança!

Pois sois senhor dos senhores,

Imperador dos christãos;

Somos vossos servidores,

Amigos leaes e sãos.

Imperador:

Eu me espanto, Dom Beltrão,

De vos vêr d'aquella sorte,

E a vós forte Duque Amão,

Não é esta disposição

E trajo da nossa Côrte.

Duque:

Muito mais será espantado

De nossa triste embaixada,

E do caso desastrado,

O qual lhe será contado,

Se seguro nos é dado.

Imperador:

Bem o podeis explicar

Sem ter medo, nem temor.

Para que he assegurar?

Pois sabeis que o embaixador

Tem licença de falar.

Duque:

Quiz senhor, nossa mofina

Que o infante Valdevinos,

Primo do forte Guarinos,

Filho da linda Hermelinda

E do grande rei Salinos,

Fosse morto á traição

Na floresta sem ventura.

A tão grande desventura

Haverá quem não procure

De vingar tal perdição?

Imperador:

É certa tam gram maldade,

Que o sobrinho do Marquez

É morto, como dizeis?

Duque:

Pela maior falsidade,

Que nunca ninguem tal fez.

Imperador:

Este caso é desastrado:

Saibamos como passou,

E quem tão mau feito obrou;

Que, o que tal senhor matou,

Merece bem castigado.

Duque:

Saiba vossa magestade

Que dez dias pôde haver

Que o Marquez foi á cidade

De Mantua com gram vontade

Á caça, que sóe fazer.

Andando assim a caçar,

Da companhia perdido

Foi por ventura topar

Com seu sobrinho ferido,

Quasi a ponto de expirar.

Bem póde considerar

O gram pezar que teria

De se vêr sem companhia,

E morrer em tal logar

A coisa que mais queria.

Perguntando a rasão,

Sendo d'ella mui ignoto,

Disse com grande paixão,

Que o matára a traição

Vosso filho Dom Carloto.

A causa que o moveu

Dar morte tão dolorosa

A tão grande amigo seu,

Não foi outra, senhor meu,

Salvo tomar-lhe a esposa.

Matou-o á falsa fé,

Indo muito bem armado.

Com quatro homens de pé.

Quem mata tão sem porque

Merece bem castigado.

O marquez Danes Ogeiro

Lhe manda pedir, senhor,

Justiça mui por inteiro:

Que ainda que perca herdeiro,

Elle perde successor.

Dom Beltrão:

Não deve deixar passar

Tão gram mal sem o prover,

Porque deve de cuidar,

Se seu filho nos matar,

Quem nos deve defender?

E mais lhe faço saber,

Porque esteja aparelhado,

Se justiça não fizer,

Que o Marquez tem jurado

De por armas a fazer.

O mui valente e temido

Reinaldos de Montalvão

Entre todos escolhido,

Está bem apercebido

Como geral capitão.

Dom Chrisão e Aguilante

Com o forte Dom Guarinos,

E o valente Montesinos

Primo do morto Infante,

Primo de el-rei Dom Salinos,

E o mui grande Rei Jaião,

De Dom Reinaldos cunhado,

E o esforçado Dudão,

E o gram Duque de Milão,

E Dom Richarte esforçado,

O Marquez Dom Oliveiros,

E o famoso Durandarte,

E o infante Dom Gaifeiros,

E o mui forte Ricardo,

E outros fortes cavalleiros,

Todos tem boa vontade

De ajudar ao Marquez

Em essa necessidade;

Porque foi gram crueldade

A que vosso filho fez.

Evitae, senhor, tal damno?

Pois que sois juiz sem par,

Não vos mostreis inhumano,

Acordae-vos de Trajano,

Em a justiça guardar.

Assim que, alto, esclarecido,

Poderoso sem egual,

O que fez tão grande mal,

Bem merece ser punido

Por seu mandado imperial.

E pois, senhor, é proposta

A causa, porque viemos,

E sabeis o que queremos,

Mandae-nos dar a resposta,

Com que ao Marquez tornemos.

Imperador:

Oh poderoso senhor,

Que grande é o vosso mysterio:

Pois para meu vituperio

Me deste tal successor,

Que deshonrasse este Imperio?

Se o que dizeis é verdade,

Como creio que será,

Nunca rei na christandade,

Fez tão grande crueldade,

Como por mim se verá.

Por minha corôa juro

De cumprir e de mandar

Tudo que digo e procuro.

Ao Marquez podeis dizer,

Que elle póde vir seguro,

E todos quantos tiver,

Venham de guerra ou de paz,

Assim como elle quizer.

E pois que justiça quer,

Com ella muito me praz.

(Entra Dom Carloto)

D. Carloto:

Bem sei, que com gram paixão

Está vossa magestade

Pela falsa informação

Que de mim, contra rasão,

Deram com gram falsidade.

Porque um filho de tal home,

E tão grande geração,

Não deve sujar seu nome

Em caso tal de traição.

Por vida de minha madre,

Que se tão grande deshonror

Não castigar com rigor

Que me será cruel padre,

Não direito julgador.

Imperador:

Não vos queiraes desculpar;

Pois que tendes tanta culpa,

Que se o mundo vos desculpa,

Eu não heide desculpar.

E por tanto mando logo,

Que estejaes posto a recado,

Até ser determinado

Por conselho de meu povo

Se sois livre ou condemnado.

Mando que sejaes levado

Á minha gram fortaleza,

E que lá sejaes guardado

De cem homens do estado

Até saber a certeza.

D. Carloto:

E como, senhor, não quer

Vossa real magestade

Saber primeiro a verdade,

Senão mandar-me prender

Por tão grande falsidade?

Imperador:

Não vos quero mais ouvir,

Levem-no logo á prisão,

Onde eu o mando ir;

Porque tam grande traição

Não é para consentir.

Vós outros podeis tornar,

E contar-lhe o passado

A quem vos cá quiz mandar;

Que o seguro que lhe hei dado

Eu o torno a affirmar.

(Aqui vem a Imperatriz)

Imperatriz:

Eu muito me maravilho

De vossa grande bondade;

Que sem rasão, nem verdade

Trataes assim vosso filho

Com tão grande crueldade.

Olhe vossa magestade

Que é herdeiro principal,

E que toda a christandade

Lh'o hade ter muito a mal.

Imperador:

A mim, senhora, convém

Ser contra toda a traição,

E se vosso filho a tem,

Castigal-o-hei muito bem;

E essa é a minha tenção.

E mais eu vos certifico,

Que com direito e rigor

Heide castigar o iniquo,

Ora seja pobre, ou rico,

Ora servo, ou gram senhor.

Imperatriz:

Como quer vossa grandeza

Infamar o nosso estado

Sem causa, com tal crueza?

Imperador:

Quem me cá mandou recado

Não foi senão com certeza.

Imperatriz:

Por tal recado, senhor,

Quereis tratar de tal sorte

Vosso filho e successor,

Que depois de vossa morte

Hade ser imperador?

Imperador:

Em eu o mandar prender

Não cuideis que o maltrato;

Mas se elle o merecer,

Eu espero de fazer

A justiça de Torquato;

Porque pae tão poderoso,

Sendo de tantos caudilho

Se não fôr tão rigoroso,

Nem elle será bom filho,

Nem será rei justiçoso.

Que agora, mal peccado!

Nenhum rei, nem julgador

Faz justiça do maior;

Mas antes é desprezado

O pequeno com rigor.

Todo o mundo é affeição;

Julgam com rara remissa

O nobre que, sem rasão

Alguma, tem opinião

De lhe tocar a justiça...

Que conta posso eu dar

Ao Senhor dos altos céos,

Se a meu filho não julgar

Como outro qualquer dos meus?

Assim que escusado é

Buscar este intercessor;

Porque Deos de Nazareth

Não me fez tão gram senhor

Para minha alma perder.

Imperatriz:

Ai triste de mim coitada!

Para que quero viver,

Pois que sempre heide ser

Do meu filho tão penada,

Como uma triste mulher?

Pois tão triste heide ser

Por meu filho muito amado,

Nunca tomarei prazer,

Senão tristeza e cuidado.

Imperador:

Não façaes tantos extremos,

Pois dizeis que tem desculpa,

Que antes que sentença démos,

Primeiro todos veremos

Se tem culpa ou não tem culpa.

Mostrae maior soffrimento,

Que o caso é desastrado,

E i-vos a vosso aposento,

Que elle não será culpado.

(Aqui se vae a Imperatriz, e vem a mãe, e esposa de Valdevinos)

Mãe:

Oh coração lastimado,

Mais triste que a noite escura!

Oh dolorosa tristura,

Cuidado desesperado,

E fortunosa ventura!

Oh vida da minha vida,

Alma d'este corpo meu!

Oh desditosa perdida,

Oh sem ventura nascida,

A mais que nunca nasceu!

Oh filho meu muito amado,

Minha doce companhia,

Meu prazer, minha alegria,

Minha tristeza e cuidado,

Minha sab'rosa lembrança,

Que serei eu sem vos vêr?

Filho de minha alegria,

Oh meu descanço e prazer,

Porque me deixaes viver,

Vida com tanta agonia?

Adonde vos acharei,

Consôlo de meu pezar?

Onde vos irei buscar,

Pois que perdido vos hei

Para jámais vos cobrar!

Filho d'esta alma mesquinha,

Dos meus olhos claridade,

Onde estás, minha mesinha?

Filho de minha saudade,

Meu prazer e vida minha?

Esposa:

Que é de vós meu coração,

Que é da minha liberdade,

Espelho da christandade,

Quem vos matou sem razão

Com tão grande crueldade?

Quem vos apartou de mim,

Meu querido e meu esposo?

Oh meu prazer saudoso,

Porque me deixaes assim

Com cuidado mui penoso?

Oh minha triste saudade,

Oh meu esposo e senhor,

Minha alegria e vontade,

Escudo da christandade,

Dos tristes consolador!

Que farei pobre coitada,

Mais que nenhuma nascida?

Miseravel, angustiada,

Para que quero ter vida,

Pois minha alma é apartada?

Oh fortuna variavel,

Triste, cruel, matadora,

De prazeres roubadora,

Inimiga perduravel,

Mata-me se queres agora.

Hermelinda:

Se vossa gram magestade

Não dér castigo direito

A quem tanto mal ha feito,

Nem sustentar a verdade,

Não será juiz perfeito.

Não olhe vossa grandeza

Sua madre dolorosa,

Nem sua tanta tristeza;

Mas olhe tão gram princeza

Como esta sua esposa.

Imperador:

Faz-me tanto entristecer

Este tão gram vituperio,

Que mais quizera perder

Juntamente meu Imperio,

Que tal meu filho fazer.

Mas se tal verdade é

Como já sou informado,

Que tal castigo lhe dê,

Que seja bem castigado.

Sybila:

Seja justiça guardada

A esta orpha sem marido,

Viuva desamparada,

Tão triste e desconsolada

Mais que quantas têm nascido.

Olhae, senhor, tão gram mal,

Como vosso filho ha feito,

E não queiraes ter respeito

Ao amor paternal,

Pois que não é por direito.

Imperador:

Senhora, não duvideis

Que eu farei o que hei jurado,

Se é verdade o que dizeis,

Porque cumpre meu estado

De fazer o que quereis:

Que mais quero ter commigo

Fama de rigoridade,

Que deixar de ter castigo

Quem commetteu tal maldade.

Para que é ser caudilho

De tanto povo e tão grado,

E Imperador chamado,

Se não julgasse meu filho

Como qualquer estragado?

Não cuidem duques, nem reis,

Que por meu herdeiro ser,

Que por isso hade viver;

Que aquelle, que fez as Leis,

É obrigado a as manter.

Assim que, por bem querer,

Amizade nem respeito

Como agora sóem fazer,

Não hei de negar direito,

A quem direito tiver.

E bem vos podeis tornar,

Fazei certo o que dissestes,

E não tomeis tal pesar,

Porque o bem que perdestes,

Não o cobraes com chorar.

Hermelinda:

Senhor, nós outras nos pomos

Em mãos de vossa grandeza:

Olhae bem, senhor, quem somos,

E de que linhagem fomos,

Pois Deos nos deu tal nobreza.

Sybila:

Olhae os serviços dinos,

Que tanto tempo vos fez

Meu esposo Valdevinos;

Tambem seu tio Marquez,

E como foram continos.

(Aqui se vae Hermelinda e Sybila, e virá Reinaldos com uma carta, que

tomaram a um Pagem de Dom Carloto)

Reinaldos:

O summo rei dos senhores,

Que morreu crucificado

Em poder dos pharizeus,

Accrescente vosso estado,

E vos livre dos traidores.

Imperador:

Floresta de varios romances · 第 5 / 10 段