Que Afrodísia frequentava,
Páris, aquelle pastor
A quem Enone amava,
Com ella de companhia
As feras bravas caçava,
As aves de mil maneiras
Armando laços tomava.
Antre murteiras, nos braços
Da Nimpha a sesta passava,
D'onde ter-lhe eterno amor
Muitas vezes lhe jurava;
E de tel-a por senhora
Comsigo se vangloriava.
Aquelle que por ser justo
De hera os touros coroava,
Embaixada de Tronante
Mercurio lhe apresentava:
Pera julgar antre as Deosas
Que a discordia baralhava,
E de cada uma dellas
Promessas lhe apresentava,
Riqueza uma, outra victoria,
Venus formosura dava.
O justo pastor se incrina
Ao que os olhos contentava,
E quer ver núas as Deosas
Que nada vêr lhe estorvava.
Oh desenho temerario,
Que tal perigo intentava,
Com rasão e com desejo,
Por Cytherêa julgava.
E a Deosa satisfeita
Da palavra penhorava:
Enlevado na esperança
Ênone já desprezava.
Lagrimas por seu amor
Em satisfação lhe dava:
O seu descanso amoroso
Por trabalhos o trocava.
Venus cumpre sua promessa,
Fortuna Ênone vingava,
Com a fermosa Greciana
A toda a Troya abrasava.
E não lhe valeu Cassandra,
Que furiosa o gritava,
Que estes são os galardões
Que amor vingativo dava.
_Memorial das Proesas, etc._ cap. VIII
* * * * *
Romance da morte de Achilles, e desgraça de Policena.
Diante os muros de Troya
Mui ufano passeava
Achilles, o mui soberbo
Que em seu peito a abrasava.
A fermosa Policena
Antre as ameyas estava;
E tal era a fermosura
Com que d'ellas se estremava,
Que ao romper per antre as nuvens
A Aurora semelhava.
O cruel inimigo os olhos
A tal luz alevantava.
De seus raios traspassado
Dentro do peito se achava,
Com a dor que na alma sente
A falar-lhe se chegava;
Mas a troyana princeza
Que em extremo o desamava,
Recolheu-se com gemidos
Que a deoses apresentava,
Pedindo-lhes a vingança
Que ella a tomar não bastava.
O cavalleiro indomavel
Tam preso e triste ficava,
Que com suspiros ao céo
Sua dor manifestava:
Já d'antes a tinha visto
Quando ella Hector pranteava,
Des então do seu amor
Sua alma presa enxergava;
De como pudesse havel-a
Muitas contas só lançava.
Como agora, amor repouso
Nem soffrimento lhe dava,
Soccorreu-se á esperança
Que a vida lhe sustentava;
A Hecuba sua madre
Tal mensagem ali mandava:
Que se quer ver Troya livre
Policena assegurava
Que elle a fará descercar
Se por senhora lhe dava.
Hecuba, que mais que a vida
Vingar Hector desejava,
Com Páris logo da morte
De Achilles cruel tratava.
Respondeu-lhe que se vissem
No templo em que Apollo estava.
Recebera Policena,
Se a fé ante elle lhe dava;
E de imigo será filho,
Se lhe Troya descercava.
O triste amador que a via,
Nem cem vidas estimava,
A respeito do desejo
Que Policena causava.
Sem temer e sem receio,
Sem cuidar que aventurava,
Entregando-se á ventura
E Amor que o guiava,
Sem cautella e em seu conselho
No templo de Apollo entrava.
De giolhos posto ante elle
Muitas graças a amor dava.
Páris, que com arco armado
Escondido o esperava,
Fazendo votos a Apollo
Se lhe a seta endereçava,
Em o vendo de giolhos
Muy prestes n'elle encarava;
Pola pranta do seu pé
A vida lhe atravessava,
Cae o triste namorado
De quem tanto o desamava;
N'esta vingança de Hector
Toda a Troya se alegrava
Obra cit. p. 128.
* * * * *
Romance da morte de Policena para Vingar os manes de Achilles.
No templo de Apollo, Achilles
Desprovido, namorado
Jaz morto n'alma do pé
De uma seta trespassado.
E não lhe valeu no mar
Por Thetis ser encantado,
Aquelle que dos Troyanos
Era temor e cuidado.
Dos Gregos o defensor
Pouca cinza já tornado,
A pequena Urna não enche
Aquelle grande esforçado.
Contem de sobre suas armas
Todo capitão notado,
A Thelamão e a Ulysses
Todos o logar tem dado.
Não nas leva o cavalleiro
E levou-as o avisado,
A Troya é toda abrasada,
O Illião derrubado.
Querem-se partir os Gregos
Não fica Achilles vingado.
Da terra sae a sua sombra,
E com o seu vulto ayrado,
Como quando a Agamenão
Tentou matar denodado:
«Quereis vos partir, (dizia)
Grego exercito malvado?
E fique eu na sepultura
Sem vingança deshonrado.»
Pede Policena a alma
De Achiles d'ella engeitado.
Agora Pirho o soberbo
Filho, do pae o traslado,
Dos braços da triste mãy
Que por todos tem chorado,
Traz Policena ao sepulchro
Virgem de animo estremado;
E vendo Pirho, o cruel,
Contr'ella determinado,
Com rosto seguro, honesto,
Fermoso, mas descorado,
Diz: «Derrama o generoso
Sangue real apurado:
Farte-se a grega crueza
Cumpra-se meu triste fado;
Seja meu pescoço ou peito
D'essa espada trespassado.
Livre naceu Policena,
Servir outrem não lhe é dado.
Não será com minha morte
Algum idolo applacado,
O coração só quizera
Da minha mãe esforçado.
O gosto da morte minha
Esta dor m'o tem tirado:
Deve chorar só sua vida
E invejar meu estado.
A filha do rei Priamo
Sobre os reis afortunado,
Vos roga que á triste mãe
Seja seu corpo entregado;
Não seja como o de Hector
Por outro inda resgatado,
Contentae-vos que com lagrimas
A coitada o tem comprado.»
Isto disse, e de um só golpe
Do cruel Pirho indomado,
O pescoço cristalino
Do corpo lhe foi apartado;
De recolher, em caindo,
As fraldas, teve cuidado
Por conservar o decoro
Nas Virgens sempre estimado.
_Memorial_, cap. XXXV.
* * * * *
Romance da Historia de Roma.
De ti casto Scipião
Sofonisba ouvi queixar,
Que foste imigo de amor
Por querer d'ella triumphar.
Na forte cidade Cirta
Masenisa fôra entrar,
E por teu mandado Sifax
Seu marido foi matar.
Com furia e odio imigo
Nos seus paços fôra dar,
Mas na mór força da furia
Amor o pôde amansar:
Dos encontros dos seus olhos
O seu coração domar.
De escrava feita senhora
De quem vinha cativar,
De eterno amor dada fé,
As almas foram trocar:
Lagrimas e fermosura
Tudo puderam acabar.
Sabido per Cipião
Que amor não pôde abrasar,
Com coração deshumano,
Com razoes não de acceitar,
A Masenisa escrevia
Que lh'a mandasse entregar,
Porque era imiga de Roma
Da geração de Amilcar.
Em grande affronta se vê
Masenisa e gram pesar,
O coração não lhe leva
Á Sofonisba faltar.
Cuidou um mui duro meio
Pera haver de a libertar!
Uma cópa de peçonha
Lhe mandou appresentar,
Em logar da liberdade
Que lhe não podia dar.
Sofonisba muy contente
A bebeu sem receiar,
Sentindo somente a dor,
Que se não pode escusar,
Por amor da Masenisa
Que vive pera a passar.
Dizendo: «Por vós, amor,
Me quero sacrificar,
Não será d'outro cativa
Quem toda se vos quiz dar.»
Mal haja fortuna imiga
Que tal amor foi cortar.
_Memorial_, etc. cap. XIII.
* * * * *
Romance da vespera da batalha da Pharsalia
De Roma sahe Pompeo,
E toda Roma o seguia,
Com temor de Julio Cesar
Que de França já partia.
O Robicão tem passado
Contra Roma traz a via.
Apesar do bom Metelo,
Do thesouro se provia,
Apoz Pompeo se vae,
E Pompeo que o sabia,
Em Brandusio se faz forte,
E d'ali per mar fugia;
Desamparando a Italia
Defendel-a pertendia,
De romanos e outra gente
Grande exercito fazia;
A Cesar dera batalha
Se o seguira vencia,
Por arredal-o do mar
Fugir-lhe Cesar fingia:
Ser arte de capitão
Pompeo bem o entendia,
A Cesar, contra o que entende,
E a seu pesar, seguia.
Já nos campos de Pharsalia
Um contra o outro se via,
Vendo-se chegado á summa
Pompeo do que temia.
Oh que grande senhorio
O conjugal amor cria,
Que só Cornelia é a causa
Que reprime o que cumpria;
É-lhe forçado apartal-a,
Dilata-o de dia em dia,
No seu leito sem repouso
Chorando, cá não dormia.
Cornelia tem a seu lado
Que animal-o commetia,
De lagrimas suas faces
Humidas ali sentia.
Dissimula, cá não ousa
Tomal-o em tal agonia,
Parecendo-lhe que o magno
Pompeo assi se abatia.
Elle que a sente e entende
Taes palavras lhe dizia:
«Mulher, a que eu mais que a propria
Vida, ditosa queria,
Não esta que me aborrece
Mas quando ledo vivia,
É vindo o tempo que eu triste
Dilatado, e já não podia
Cá Cesar está no campo
E a batalha offerecia;
Cumpre dar logar á guerra
Mandar-te a Lesbos queria;
O al tenho a mi negado,
Não cures de mais porfia,
Este nosso apartamento
Por muito pouco seria.
Do teu verdadeiro amor
Confiança não teria
Se vêres esta batalha
O coração t'o soffria.
Corro-me de estar comtigo
Quando a guerra assi fervia;
Mais seguro é que de longe
Ouças o que succedia,
Se me a fortuna fôr falsa
E se me Cesar vencia!
A melhor parte de mim
Segurar, sequer, queria.
Quero ter onde me ir possa
Segurar minha agonia.»
Cortada de mortal dor
Cornelia, que isto ouvia,
Esforçando-se com dor
A triste assi respondia:
--Dos deoses e da fortuna
Já me queixar não podia,
Pois per morte não me aparta
Da conjugal companhia,
Ser como vil engeitada
De ti, d'isto me sentia.
Cuidares que algum logar
Sem ti me seguraria!
E queres, se fôres morto,
Que viva ainda algum dia?
Já me ensinas a soffrer
Dor que nem cuidar soffria:
A mulher do gram Pompeo
Esconder não se podia.
D'onde se desbaratado
Fôres, isto só pedia:
Salva-te em toda outra parte
E de Lesbos te desvia.»
Partindo-se d'elle agora
Um do outro não se espedia.
A Lesbos se vae Cornelia
Pompeyo logo a seguia.
Vencido vae de seu sogro
Tal Cornelia o recebia.
«Esta é a minha fortuna
Que me inda segue» dizia.
_Memorial das Proezas, etc._ cap. 45.
* * * * *
Romance cantado a trez vozes, que se refere á morte do principe
Dom Affonso, filho de El-rei Dom João II e seu unico successor.
Principes e Emperadores
Que o mundo a sabor mandaes,
E tam pouco vos lembraes
Da rota da vida eterna!
A soberba que governa
Vossos peitos deshumanos,
Derruba os grandes tyrannos
Da mais alta monarchia:
Quem da fortuna se fia
Não lhe sabe a condição!
Soberba lançou Adão
Do Parayso deleitoso,
Ficando victorioso
Do mundo o enganador.
Aquelle edificador
De Babel, que em competencia
Da eterna summa potencia
Presumiu d'ella isentar-se,
Cahiu por alevantar-se.
Apoz elle os successores
Assyrios emperadores
Que a fortuna sublimou,
Em breve os desapossou,
Sardanapalo o sentiu.
Dos Medos tambem se viu
Astiages, que cuidava
Que a seus fados atalhava
Com mandar matar o neto,
Cyro animoso e discreto
Que o despossou de seu estado,
E foi o Imperio passado
Aos Persas, onde o perdeu
Dario que desconheceu
Vossa humana condição.
E aquelle filho de Adão
Que negou a natureza,
Cuja soberba altiveza
Teve em pouco e desprezou
O mundo que conquistou,
Sua cobiça atenuada
Foy com morte antecipada,
Seu Imperio dividido.
Cesar não menos temido
Em confirmação d'este erro
Foi morto dos seus a ferro.
E todos quantos subiram
Tyrannamente, caíram:
Caíu Thebas, caíu Troya,
Roma que levou a boya
A toda potencia humana,
Quando foi mais soberana
Por si mesma se abateu,
Que o mundo não concedeu
Haver estado seguro:
Por tanto quem quer ter muro
Inexpunhavel, e um forte
Que não entre humana sorte,
Em Deos ponha a confiança,
O fundamento, a esperança,
Com verdade e com amor:
D'onde tu, Rei Sagramor,
No que ora vires, verás
Exempro que tomarás
E te fique por aviso,
Que todo o mundo é riso,
Sem ter Deos por padroeyro,
Guia e norte verdadeiro.
E verás um poderoso
Rey prudente e justiçoso
Liberal, manso, benigno,
Que em Deos tem posto seu tino,
Christianissimo, cremente,
Nos desgostos paciente,
Sesudo em prosperidade.
Soffreu na adversidade,
De David claro traslado,
Que sendo de Deos tocado
Per vezes, em seu louvor
Converte sempre sua dor;
A paciencia lhe sobeja,
D'onde fortuna, de inveja,
Quando mais contente o viu
E descuidado o sentiu,
De si mesma á traição
Poz-lhe o Reyno em condição
De fazer termo mortal,
E acabar-se Portugal:
O bom Rey, que assi o temia,
A seu Deos se convertia,
E com seu povo gemendo
Confiança n'elle tendo,
De um phenix que vivo ardeu
Logo outro phenix nasceu
Por Deos a Portugal dado,
Pera ser mais exalçado
Que Israel per Salamão.
Taes pronosticos nos dão
Os aspeitos celestiaes,
E seus principios reaes,
Como foram trabalhosos
Assi hão de ser famosos
Os meios e fins da vida,
Que longa lhe é concedida;
Cá o que se dá sopesado
Dos céos sempre foi estremado,
Tam beninas as estrellas
Lhe serão, que suas velas
No mundo sejam espanto,
E elle, outro Affonso sancto
Que o Reyno renovará,
E os termos lhe augmentará
Muyto melhor do que eu canto.
_Memorial das proezas_, cap. 46.
* * * * *
Romance á morte do principe D. João.
Soberbo está Portugal
Em sua gloria enlevado,
Vê-se de um rei sabedor
Mimoso e bem governado.
O mundo todo anda em guerras
Injustas mui baralhado:
Elle só estava em remanso
Seguro e mui descansado,
Plantando antre os infieis,
Pendões do Crucificado,
Por capitães animados
Que os levam per seu mandado.
E como Deos de taes obras
Folga ver-se penhorado,
C'os olhos em Portugal
Está sempre occupado.
E como filho mimoso
De quem não perde o cuydado,
Porque nam se ensoberbeça
Em se vêr tão prosperado,
Na força das suas glorias
No tempo mais festejado,
D'antre os olhos lhe tirava
O seu Principe estremado.
Vendo no pae paciencia
Pera ser mais apurado,
Dá graças ao Criador
Inda que desconsolado.
A menina que seu amor
Em flor assi viu cortado,
Vencida com soffrimento
A dor do amor encortado,
No peito se abrasa em magoa
O rosto mostra esforçado;
O coração lhe dizia
O mal de que era assombrado,
Entende, soffre e gemia,
Padece e maldiz seu fado.
A si mesmo se esforçava
E fazel-o era forçado,
Por dar esforço e consolo
A um pae desconsolado,
E pera poupar o fructo
Do seu amor desejado.
Oh animosa princeza,
Quanto vos fica obrigado
Um reino, que destruido
Por vós ficou restaurado!
Esforça-te, Portugal,
Pois já te vês melhorado
De um Rey que antre os Reys
Estremo será chamado.
_Memorial, etc._ cap. XLVII.
* * * * *
LUIZ DE CAMÕES
Endechas a Barbara escrava
Aquella cativa,
Que me tem cativo,
Porque n'ella vivo,
Ja não quer que viva.
Eu nunca vi rosa
Em suaves mólhos,
Que para meus olhos
Fosse mais formosa.
Nem no campo flores,
Nem no céo estrellas,
Me parecem bellas,
Como os meus amores.
Rosto singular,
Olhos socegados,
Pretos e cansados
Mas não de matar.
Uma graça viva,
Que n'elles lhe mora,
Para ser senhora
De quem é cativa.
Pretos os cabellos,
Onde o povo vão,
Perde opinião,
Que os loucos são bellos.
Pretidão de amor
Tão doce a figura,
Que a neve lhe jura
Que trocara a côr.
Léda mansidão
Que o siso acompanha,
Bem parece estranha,
Mas barbara não.
Presença serena
Que a tormenta amansa:
N'ella em fim descansa
Toda minha pena.
Esta é a cativa.
Que me tem cativo;
E pois n'ella vivo,
É força que viva.
* * * * *
Mote
Descalça vae para a fonte
Leonor pela verdura;
Vae formora, e não segura.
VOLTAS
Leva na cabeça o pote,
O testo nas mãos de prata,
Cinta de fina escarlata,
Saínho de chamalote:
Traz a vasquinha de cote,
Mais branca que a neve pura;
Vae formosa e não segura.
Descobre a touca a garganta,
Cabellos de ouro entrançado,
Fita de côr de encarnado,
Tão linda que o mundo espanta:
Chove n'ella graça tanta
Que dá graça á formosura;
Vae formosa e não segura.
* * * * *
FRANCISCO RODRIGUES LOBO
Cantiga
Descalsa vae para a fonte
Leanor pela verdura,
Vae fermosa e não segura.
VOLTAS
A talha leva pedrada,
Pucarinho de feição,
Saia de côr de limão,
Beatilha suqueixada:
Cantando de madrugada,
Pisa as flores na verdura,
Vae fermosa e não segura.
Leva na mão a rodilha,
Feita de sua toalha,
Com uma sustenta a talha,
Ergue com outra a fraldilha:
Mostra os pés por maravilha,
Que a neve deixam escura;
Vae fermosa e não segura.
As flores, por onde passa,
Se o pé lhe acerta de pôr,
Ficam de inveja sem côr,
E de vergonha com graça.
Qualquer pegada que faça
Faz florescer a verdura;
Vae fermosa e não segura.
Não na vêr o sol lhe val,
Por não ter novo inimigo;
Mas ella corre perigo,
Se na fonte se vê tal.
Descuidada d'este mal
Se vae vêr na fonte pura,
Vae formosa e não segura.
_Obras compl._ Ecl. X, p. 651.
* * * * *
Cantiga
Antes que o sol se levante,
Vae Violante a vêr o gado;
Mas não vê sol levantado
Quem vê primeiro a Violante.
VOLTAS
He tanta a graça que tem
Com uma touca mal envolta,
Manga da camisa solta,
Faixa pregada ao desdem;
Que se o sol a vir diante,
Quando vae munir o gado,
Ficará como enleado
Ante os olhos de Violante.
Descalsa ás vezes se atreve
Ir em mangas de camisa;
Se entre as ervas neve pisa
Não se julga qual é neve;
Duvída o que está diante,
Quando a vê munir o gado,
Se é tudo leite amassado,
Se tudo as mãos de Violante.
Se acaso o braço levanta,
Porque a beatilha encolhe,
De qualquer parte que a olhe
Leva a alma na garganta.
E inda que o sol se alevante
A dar graça e luz ao prado,
Já Violante lh'a tem dado,
Que o sol tomou de Violante.
_Idem_, p. 653.
* * * * *
Romance do Desenganado
Sobre as aguas vagarosas
Que o Tejo já traz cansadas
De abrandar duros penedos,
E de romper serras altas:
Perto d'onde o mar oceano
Lhe offerece livre entrada,
Dando ás crystallinas ondas
Livres e douradas praias:
Leva o pescador sereno
Com rôtas redes a barca,
Tam perseguida dos ventos
Quanto de amar sustentada;
E por que o leva forçado
Sua virtude contraria,
Desterrado do seu Lena,
E de sua amada patria,
Já o vento o favorece
E o mar lhe mostra bonança,
Porque para a desventura
A ventura nunca falta.
E ao som que os duros remos
Fazem dividindo as aguas,
Derramando-as de seus olhos,
Vae dizendo estas palavras:
«Fermosas aguas do Tejo,
Do mundo tão celebradas,
Morada de tantas nymphas,
E inveja de outras tantas;
Este corpo que amparaes,
Que persegue a sorte ingrata,
Dae-lhe vós a sepultura,
Que é corpo que vae sem alma.
Mil annos vivi sem tel-a,
Por poder de uma esperança
Enganada da ventura,
Que tam facilmente engana.
Causa foi da minha morte
Lisêa, e melhor se acclara
Que, pois tanto amei Lisêa,
Eu fui de meu mal a causa,
O espirito com que vivo
É de um tormento que mata,
Que os males aonde ha firmeza
Nem com a vida se acabam.
Junto então do rio Lis
Meu rebanho apacentava,
Fiz-me pescador do Lena
Provei a sorte em mudanças.
Só no mal achei firmeza,
Sei do bem quam cedo passa,
E sei que a quem muda a vida
Se muda mas não se acaba.
Sei que vive um corpo morto
Por milagre de esperanças,
E que o mal ainda sustenta
Quando as esperanças faltam.
Se em vós móra piedade
'Nessas humidas entranhas,
Dae fim a meus tristes dias,
E a vosso nome esta fama:
--Contra o poder da ventura
Empregada em um sujeito,
De um fogo de amor perfeito
Aguas foram sepultura.»
_Romances_, 2.ª parte, p. 722.
* * * * *
DOM FRANCISCO DE PORTUGAL
Romance pastoril.
Deixou de ir Leonor á fonte,
Por ver damas estrangeiras,
Não para vir invejosa,
Mas para matar de inveja.
Mais que a vêr foi a ser vista,
Que como novas estrellas,
Não ha olhos que os seus levem,
Alma que a sua não seja.
De vinte e quatro alfinetes,
Como dizem, foi a festa,
Que muito que pique a muitos
Quem tanto alfinete leva?
Saia de palmilha azul,
Que tudo são palmas n'ella,
Que é bem que vista do céo
O mór milagre da terra.
Gibão de cannequim fino
Que desconfiado confessa:
Aqui jaz em neve um fogo
Que o meu branco em branco deixa.
Beatilha, melhor que ouro
Encobre um par de madeixas,
Alcaide de liberdades
Que só soltando condemna.
Fita verde que entre raios
Com perigos lisongeia,
Inda que negue esperança
Quando só mortes promette.
O desprezo dos cathurnos
De umas sapatas vermelhas,
Purpura de unido aljofar,
Nacar de animadas perolas,
Tantas perfeições airosas
Em naturaes extranhezas,
Tanto computo artificio
No descuido de ser bella;
Aquelles olhos rasgados,
Em que amor faz por mór guerra,
Cada sobrancelha um arco,
Cada pestana uma setta.
Aquelle engraçado riso,
Que por crystaes de Veneza,
Com gloria brinda as vontades,
Sêde mortal que deleita.
Em casa de um mercador
Na rua nova á janella,
Sem si Leonor estava
Formosa ouvindo estas queixas:
Quebrou Leonor
O pote na fonte,
E deitou-lhe os testinhos tão longe?
Sem seu bem mais suspirado
D'onde estava d'este modo
A si o descuido todo,
E a seu mal todo o cuidado.
O peito tinha abrazado
Tendo nos olhos a fonte,
E deitou-lhe os testinhos
Mana, tão longe.
Diria quem a assim visse
Que eram pedras que atirava,
Porque tanto quanto amava
Tanto tinha de doudice.
E para que mais sentisse
Seu sentido está na fonte,
E deitou-lhe os testinhos,
Mana, tão longe.
* * * * *
BALTHASAR DIAS
Romance do Marquez de Mantua e do Imperador Carlos Magno.
(Introducção recolhida pelo Cavalheiro de Oliveira)
Na caça andava perdido
De Mantua o velho Marquez,
E no peito pressentido
O coração traz d'envez;
Mas não sabe o succedido!
Farto já de caminhar
Por tão fragosa montanha,
Cansado assim sem companha,
Sem ter onde repousar
'Nessa terra tão extranha,
Vendo o mato tão cerrado,
Assentou de se apear,
E o seu cavallo deixar,
Porque estava de cansado
Que já não podia andar.
Marquez:
Fortunosa caça é esta
Que fortuna me ha mostrado,
Pois que por ser manifesta
Minha pena, e gram cuidado,
Me mostrou esta floresta.
Nunca vi tão forte brenha
Desque me acórdo de mi;
Eu creio, que Margasi
Fez esta serra d'Ardenha,
Estes campos de Methli.
Quero tocar a bosina
Por vêr se alguem me ouvirá;
Mas cuido, que não será,
Porque minha gram mofina
Commigo começou já.
Todavia quero vêr
Se mora alguem n'esta serra,
Que me diga d'esta terra,
Cuja é para saber;
Que quem pergunta não erra.
Por demais é o tanger
Em logar deshabitado,
Onde não ha povoado,
Nem quem possa responder,
Ao que lhe fôr perguntado.
Gram mal é o caminhar
Por tão fragosa montanha,
Cançado assim sem companha,
Nem tendo onde repousar
N'esta terra tão extranha.
Vejo o matto tão cerrado,
Que fiz bem de me apear,
E meu cavallo deixar,
Porque estava tão cançado,
Que já não podia andar.
Agora vejo-me aqui
N'esta tão grande espessura,
Que nem eu me vejo a mi,
Nem sei de minha ventura.
Nem menos será cordura,
Repousar n'este logar,
Nem sei d'onde possa achar
Descanço á minha tristura.
Valdevinos:
Oh Virgem minha senhora,
Madre do rei da verdade,
Por vossa gram piedade
Sêde minha intercessora
Em tanta necessidade.
Oh summa Regina pia,
Radiante luz phebêa,
_Custodia animæ mea_,
Pois está na terra fria
A alma de pezar cheia.
Pois és amparo dos teus,
Consola os desconsolados,
Rainha dos altos céos,
Rogae a meu senhor Deos,
Que perdoe meus peccados.
Marquez:
Não sei quem ouço chorar
E gemer de quando em quando!
Alguem deve aqui estar...
Segundo se está queixando,
Deve ter grande pesar.
Valdevinos:
_Domine momento mei_,
Lembrae-vos de minha alma,
Pois que sois da gloria Rei
Nascido da flor da palma,
Remedio da nossa Lei.
Marquez:
Segundo d'elle se espera,
Aquelle homem anda perdido,
Ou por ventura ferido
De alguma d'estas féras.
Quero vêr este mysterio,
Que a fala me dá ousadia:
Porque dois em companhia
Tem mui grande refrigerio
Para qualquer agonia.
Valdevinos: