per nome dona Ynes
de Crasto, & de tal doutrina
& vertudes, qu'era dina
de meu mal ser ho rreves.
Uiuia, sem me lembrar
que paixam podia dar,
nem da-la ninguem a mym,
foy m'o prinçepe olhar
por seu nojo & minha fym.
Começou m'a desejar,
trabalhou por me seruir,
fortuna foy ordenar,
dous corações conformar
a huma vontade vyr.
Conheçeo-me, conheçi-o,
quys-me bem & eu a ele,
perdeo-me, tambem perdi-o,
nunca tee morte foy frio
o bem que triste pus nele.
Dey-lhe minha liberdade,
nam senty perda de fama,
pus nele minha verdade,
quys fazer sua vontade
sendo muy fremosa dama.
Por m'estas obras paguar
nunca ja mais quys casar,
polo qual aconsselhado
foy el rrey, qu'era forçado
polo seu de me matar.
Estaua muy acatada,
como princesa seruida,
em meus paços muy honrrada,
de tudo muy abastada,
de meu senhor muy querida.
Estando muy de vaguar,
bem fora de tal cuidar,
em Coymbra d'aseseguo,
polos campos de Mondeguo
caualeyros vy somar.
Como as cousas qu'am de ser,
loguo dam no coraçam,
começey entrestiçer
& comiguo soo dizer:
estes omẽes d'onde yram?
E tanto que preguntey,
soube logo que era el rrey,
quando o vy tam apressado,
foy, que nunca mays faley.
E quando vy que deçia,
sahy ha porta da sala,
deuinhando o que queria,
com gram choro & cortesya
lhe fiz huma triste fala.
Meus filhos pus derredor
de mym com gram omildade,
muy cortada de temor,
lhe disse: avey, senhor,
desta triste piadade.
Nam possa mais a paixam
que o que deueys fazer,
metey nysso bem a mam:
que'e de fraco coraçam
sem porque matar molher.
Quando mays a mym, que dam
culpa, nam sendo rrezam,
por ser mãy dos ynoçentes
qu'ante vos estam presentes,
os quaes vossos netos sam.
E tem tam pouca ydade
que, se não forem criados
de mym, soo com saudade
& sua gram orfyndade
morreram desemparados.
Olhe bem quanta crueza
faraa nisto voss'alteza,
& tambem, senhor, olhay,
pois do prinçepe sois pay,
nam lhe deis tanta tristeza.
Lembre-uos o grand'amor
que me uosso filho tem,
e que sentiraa gram dor
morrer-lhe tal seruidor,
por lhe querer grande bem.
Que s'algum erro fizera,
fora bem que padeçera,
& qu'estes filhos ficaram
orfaãos tristes, & buscaram
quem d'eles paixam ouuera.
Mas poys eu nunca errey
& sempre mereçy mais,
deueys, poderoso rrey,
nam quebrantar vossa ley,
que, se moyro, quebrantays.
Usay mays de piadade
que de rrigor, nem vontade:
avey doo, senhor, de mym,
nam me deys tam triste fim,
pois que nunca fiz maldade.
El rrey, vendo como estaua,
ouue de mym compaixam
& vyo o, que nam oulhaua,
qu'eu a ele nam erraua,
nem fizera traiçam.
E vendo, quam de verdade
tive amor & lealdade
hoo prinçepe, cuja sam,
pode mais a piadade
que a determinaçam,
Que se n'ele defendera,
c'a sseu filho nam amasse
& lh'eu nam obedeçera,
entam com rrezam podera
dar-m'a moorte c'ordenasse.
Mas vendo que nenhum'ora,
desque naçy ategora,
nunca nisso me falou,
quando sse d'isto lembrou,
foy-se pola porta fora.
Com sseu rrosto lagrimoso,
c'o proposito mudado,
muyto triste, muy cuidoso,
como rrey muy piadoso,
muy Cristam & esforçado.
Hum daqueles que trazia
conssiguo na companhya,
caualeyro desalmado,
de tras d'ele, muy yrado,
estas palauras dezia:
Senhor vossa piadade
he dina de rreprender,
pois que sem necessidade
mudaram vossa vontade
lagrimas d'uma molher.
E quereys c'abarreguado
com filhos, como casado,
estê senhor vosso filho;
de vos mais me marauilho
que d'ele, que'e namorado.
Se a loguo nam matais,
não sereis nunca temido,
nem faram o que mandays,
poys tam çedo vos mandays
do consselho qu'era avido.
Olhay, quam justa querela
tendes, pois por amor d'ela
vosso filho quer estar
sem casar, & nos quer dar
muyta guerra com Castela.
Com sua morte escusareis
muytas mortes, muytos danos,
vos, senhor, descanssareis,
& a vos & a nos dareis
paz para duzentos anos.
O prinçepe casaraa,
filhos de bençam teraa
seraa fora de pecado;
c'aguora seja anojado,
a menham lh'esqueeçeraa.
E ouuyndo seu dizer,
el rrey ficou muy toruado,
por se em tais estremos ver,
& que avya de fazer
ou hum ou outro, forçado.
Desejaua dar-me vida,
por lhe nam ter mereçida
a morte, nem nenhum mal:
sentya pena mortal
por ter feyto tal partida.
E vendo que se lhe daua
a ele tod'esta culpa,
& que tanto o apertaua,
disse a aquele que bradaua:
mynha tençam me desculpa.
Se o vos quereis fazer,
fazey-o sem m'o dizer;
qu'eu nisso nam mando nada,
nem vejo ha essa coytada
porque deva de morrer,
Dous caualeyros yrosos,
que tais palauras lh'ouvyram,
muy crus & nam piadosos,
perverssos, desamorosos,
contra mym rrijo se vyram.
Com as espadas na mam
m'atrauessam o coraçam,
a confissam me tolheram:
este he o gualardam,
que meus amores me deram.
Cancioneiro Geral, t. III, p. 617.
* * * * *
FRANCISCO DE SOUSA
Trovas a este vilancete:
Abayx'este sserra
Verey minha terra.
Oo montes erguidos!
Deyxay-vos cahyr,
deyxay-vos somyr
& ser destroydos.
Poys males sentidos
me dam tanta guerra,
por vêr minha terra.
Ribeyras do mar!
que tendes mudanças,
as minhas lembranças
deyxay-as passar.
Deyxay-m'as tornar
dar nouas da terra,
que daa tanta guerra.
O ssol escureçe,
a noyte sse uem,
meus olhos, meu bem
ja nam aparece.
Mays çedo anoyteçe
aaquem d'esta sserra
que na minha terra.
Cancioneiro Geral, t. III, p. 562.
* * * * *
GIL VICENTE
Romance em memoria da partida da Infanta Dona Beatriz para Saboya,
cantado no Auto das Cortes de Jupiter, que se representou nos
Paços da Ribeira em 1519.
Niña era la Ifanta,
Dona Beatriz se decia,
Nieta del buen Rey Hernando,
El mejor Rey de Castilla,
Hija del Rey Don Manoel
Y Reyna Dona Maria,
Reis de tanta bondad
Que tales dos no habia.
Niña la casó su padre,
Muy hermosa á maravilla,
Con el Duque de Saboya,
Que bien le pertenecia.
Señor de muchos señores,
Mas que Rey es su vaalia.
Ya se parte la Ifanta,
La Ifanta se partia
De la muy leal ciudad
Que Lisbona se decia;
La riqueza que llevaba
Vale toda a Alejandria.
Sus naves muy alterosas,
Sin cuento la artilleria;
Va por el mar de Levante,
Tal que temblaba Turquia.
Con ella va el Arzobispo
Señor de la Clerezia:
Van Condes y Caballeros,
De muy notable osadia;
Lleva damas muy hermosas,
Hijas dalgo y de valia.
Dios los lleve á salvamiento
Como su madre querria.
Obras t. II, p. 416.
Edição de Hamburgo.
* * * * *
Romance burlesco, glosando o celebre romance de «Yo me estaba alla
en Coimbra» cantado na farça dos Almocreves que se representou em
Coimbra em 1526.
_Yo me estaba en Coimbra_,
Cidade bem assentada;
Pelos campos de Mondego
Não vi palha nem cevada.
Quando aquillo vi mesquinho,
Entendi que era cilada
Contra os cavallos da côrte
E minha mula pellada.
Logo tive a mao sinal
Tanta milhan apanhada,
E a peso de dinheiro
O mula desamparada.
Vi vir ao longo do rio
Hua batalha ordenada,
Não de gente, mas de mus,
Com muita raiva pisada.
A carne está em Bretanha,
E as couves em Biscaia.
Sam capellão d'hum fidalgo
Que não tem renda, nem nada;
Quer ter muitos apparatos,
E a casa anda esfaimada;
Toma ratinhos por pagens,
Anda já a cousa damnada.
Quero-lhe pedir licença,
Pague-me minha soldada.
Obras, t. III, p. 202.
* * * * *
Cantiga dos Romeiros em folia no Auto do Templo d'Apollo,
representado em 1526 na partida da infanta filha de D. Manoel, que
casou com Carlos V.
Pardeos, bem andou Castella,
Pois tem Rainha tão bella.
Muito bem andou Castella
E todos os Castelhanos,
Pois tem Rainha tão bella,
Senhora de los Romanos.
Pardeos, bem andou Castella
Com toda sua Hespanha,
Pois tem Rainha tão bella,
Imperatriz d'Allemanha.
Muito bem andou Castella,
Navarra e Aragão,
Pois tem Rainha tão bella,
E Duqueza de Milão,
Pardeos, bem andou Castella
E Sicilia tambem,
Pois tem Rainha tão bella,
Conquista de Jerusalem.
Muito bem andou Castella,
E Navarra não lhe pesa,
Pois tem Rainha tão bella,
E de Frandes he Duqueza.
Pardeos bem anda Castella,
Napoles e sua fronteira,
Pois tem Rainha tão bella,
França sua prisioneira.
Obr. t, II, p. 392.
* * * * *
Romance ao nascimento do infante Dom felipe, com que termina a
tragi-comedia da Romagem de Aggravados, representada em Evora em 1533.
Por Maio era por Maio
Ocho dias por andar,
El Ifante Don Felipe
Nació en Evora ciudad.
Viva el Ifante, El Rey, y la Reyna,
Como las aguas del mar.
No nació en noche escura,
Ni tampoco por lunar,
Nació quando el sol decrina
Sus rayos sobre la mar.
En un dia de domingo
Domingo para notar,
Cuando las aves cantaban
Cada una su cantar.
Cuando los árboles verdes
Sus fructos quieren pintar,
Alumbró Dios á la Reina
Con su fructo natural.
Viva el Ifante, el Rey y la Reyna
Como las aguas do mar.
Obr. t. II, p. 531.
* * * * *
Romance á morte de El Rei Dom Manoel.
Pranto fazem em Lisboa,
Dia de Santa Luzia,
Por El Rei Dom Manuel,
Que se finou n'esse dia.
Choram Duques, Mestres, Condes,
Cada um quem mais podia;
Os fidalgos e donzellas
Muito tristes em porfia;
Os Iffantes davam gritos,
A Iffanta se carpia;
Seus olhos maravilhosos
Fonte d'agua parecia.
Bem merecem ser escriptas
As lastimas que fazia:
«Paço tão desamparado
Derribado merecia,
Pois a sua fortaleza
Se tornou em terra fria.
Oh minha senhora madre
Rainha Dona Maria,
Quem a vós levou primeiro
Mui grande bem vos queria,
Pois que vos livrou da pena
Que passamos n'este dia.»
E outras magoas, que de tristes
Contar não mais ousaria.
O Principe dava suspiros,
Que a alma se lhe sahia;
Suas lagrimas prudentes,
Como a gran senhor cumpria:
De dia sempre velava,
De noite nunca dormia.
A Rainha estrangeira
Já chorar o não podia:
Com rouca voz dolorosa
Estas palavras dizia:
«Oh Reina desamparada!
Qué haré sim compañia,
Pues que en esta triste vida
Sola una vida tenia!
Y pues me la llevó la muerte,
Para qué quiero la mia?
Oh sin ventura casada
Tres años no mas habia,
Quien tan presto fue viuda
Triste para que nascia;
Niña sola en tierra agena,
Huérfana sin alegria!»
Se uma vez acordava
Outras sete esmorecia;
Assi pedia a Deos morte
Como quem pede alegria,
Dizendo: «Llevenme luego,
Que esta tierra ya no es mia:
Por la mar por donde fuere
Algun peligro venia,
Que me matasse á mi sola
Salvando la compañia.»
O bom Rei em seu acordo
Deste mundo se partia:
Sua morte conhecendo
Com muita sabedoria,
Per palavras piedosas
Os sacramentos pedia;
Falando sempre com todos,
Deu sua alma a quem devia.
Morto levam o gran Rei
Senhores de gran valia,
Dizendo uns aos outros:
Oh que triste romaria!
Que grande amigo perdemos
E que doce companhia!
Já passada a meia noite,
Tres horas antes do dia
Mettido em um ataúde
O qu'inda ha pouco regía,
O gran senhor do Oriente
Dos seus Paços se partia.
Seiscentas tochas accezas,
Escuras a quem as via;
Triste pranto até Belem
Nem passo não se esquecia.
Em terra fica enterrado,
Porque assi mandado havia,
Conhecendo que era terra
A mundanal senhoria.
Disse que os vãos thezouros
Á morta não pertencia.
Desque ficou enterrado
Cada um se despedia,
Dizendo estes versos tristes
Á gloriosa Maria. Etc.
Obr. t. III, p. 348.
* * * * *
Romance á aclamação de D. João 3.º
Desanove de Dezembro,
Perto era do Natal,
Na cidade de Lisboa
Mui nobre e sempre leal,
Foi levantado por Rei
Dos reinos de Portugal
O Principe Dom João,
Principe angelical.
Sahiu n'uma faca branca,
Parecia de cristal,
Guarnecida de maneira
Que se não viu sua igual.
Opa leva roçagante,
Tudo fio d'ouro tal,
Forrada de ricas martas,
Bem parecia real;
Pelote de prata fina,
Prata mui oriental,
Barrado de pedraria
Vinha-lhe mui natural.
De perlas não fazem conta
Porque é baixo metal;
Só um collar que levava
Toda Alexandria val;
Na cabeça leva preto
Por seu padre natural;
Sahiu com lagrimas tristes
Como filho mui leal.
O seu rosto tão formoso
Que parece divinal,
Seus olhos resplandeciam
Como estrellas igual;
Os cabellos da cabeça
D'ouro eram que não d'al;
Sua boca graciosa
Com ar mui angelical,
Um semblante soberano,
Um olhar imperial.
Não foi tal contentamento
No povo todo em geral,
Como ver na Rua nova
Ir o seu Rei natural
Com tanta graça e lindeza,
Que não parece humanal.
Os forasteiros diziam:
Mui ditoso é Portugal.
O Iffante Dom Luis
Leva o estoque Real;
O Iffante Dom Fernando,
Outro seu irmão carnal,
Ao estribo direito
A pé, não lhe estava mal,
Porque em tal solemnidade
Tudo lhe vem natural:
Todolos Grandes a pé,
Quantos ha em Portugal.
O Conde Priol levava
A bandeira principal.
Chegou assi a San Domingos,
Onde estava o Cardial:
Benzeu o mui alto Rei
De benção pontifical,
E deu logo juramento;
Jurou n'um livro missal
De fazer cumprir as leis
Como lei imperial;
Confirmou os privilegios
D'esta cidade Real.
Os povos muito contentes
De Rei tão especial,
De pequeno sempre grande,
Magnifico e liberal,
Que é virtude julgada
Dos Principes principal.
Isto tudo assi acabado,
Disseram: Arraial! Arraial!
Alli tocam as trombetas,
Atabales outro tal:
Todos lhe beijam a mao,
Os senhores em geral.
Obr. t. III, p. 355.
* * * * *
Cantiga da Natal, com que remata o Auto Pastoril, representado em
Evora a D. João 3.º em 1523.
Quem he a desposada?
A Virgem sagrada.
Quem é a que paria?
A Virgem Maria.
Em Bethlem, cidade
Muito pequenina,
Vi hua desposada
E Virgem parida.
Em Bethlem, cidade,
Muito pequenina,
Vi hua desposada
E Virgem parida.
Quem he a desposada?
A Virgem sagrada.
Quem he a que paria?
A Virgem Maria.
Hua pobre casa
Toda reluzia,
Os anjos cantavam,
O mundo dizia:
Quem he a desposada?
A Virgem sagrada.
Quem he a que paria?
A Virgem Maria.
Obr. t. I, p. 147.
* * * * *
Vilancete de Abel no Auto da Historia de Deos, representado em
Almeirim em 1527.
Adorae, montanhas,
O Deos das alturas,
Tambem as verduras;
Adorae, desertos
E serras floridas,
O Deos dos secretos,
O Senhor das vidas:
Ribeiras crescidas,
Louvae nas alturas
Deos das criaturas.
Louvae, arvoredos
De fructo presado,
Digam os penedos
Deos seja louvado,
E louve meu gado
N'estas verduras
O Deos das alturas.
Obr. t. I, p. 317.
* * * * *
A serra é alta, fria e nevosa;
Vi venir serrana gentil, graciosa.
Cheguei-me a ella de gran cortezia,
Disse-lhe:--Senhora, quereis companhia?
Disse-lhe:--Senhora quereis companhia?
Disse-me: «Escudeiro, segui vossa via.
Obr. t. III, p. 214.
* * * * *
Fragmento da versão da «Bella mal maridada.»
Le bella mal maruvada
De linde que a mi ve,
Vejo-ta triste nojada,
Dize tu razão puruque.
A mi cuida que doromia
Quando me foram cassá;
Se acordaro a mi jazia
Esse nunca a mi lembrá.
Le bella mal maruvada
Não sei quem cassa a mi,
Mia marido não vale nada,
Mi sabe razão puruque.
Obr. t. II, p. 333.
* * * * *
--D'onde vindes, filha,
Branca e colorida?
«De lá venho, madre
De ribas de um rio;
Achei meus amores
N'um rosal florido.
--Florido, enha filha
Branca e colorida.
«De la venho, madre,
De ribas de um alto,
Achei meus amores
N'um rosal granado.
--Granado, enha filha,
Branca e colorida.
Obr. t, III, p. 270
* * * * *
Cantiga cantada em chacota de pastores na tragicomedia pastoril da
Serra da Estrella, representanda em Coimbra em 1527.
Não me firaes, madre,
Que eu direi a verdade.
Madre, hum escudeiro
Da nossa Rainha
Falou-me d'amores;
Vereis que dizia,
Eu direi a verdade.
Falou-me d'amores,
Vereis que dizia:
Quem te me tivesse
Desnuda em camisa!
Eu direi a verdade.
Obras. t. II, p. 445.
* * * * *
Cantiga consenvada no Auto da Lusitania, representado em 1532.
Vanse mis amores, madre
Luengas terras van morar,
Yo no los puedo olvidar.
Quien me los hará tornar.
Yo soñara, madre, un sueño,
Que me dió nel corazon,
Que se iban mis amores
Á las islas de la mar,
Yo no los puedo olvidar.
Quien me los hará tornar.
Yo soñora, madre, un sueño
Que me dió nel corazon,
Que se iban mis amores
Á las terras de Aragon:
Alla se van á morar.
Yo no los puedo olvidar,
Quien me los hará tornar.
Obr. t. III, p. 299.
* * * * *
Cantiga conservada na comedia de Rubena.
Halcon que se atreve
Con garza guerrera
Peligros espera.
Halcon que se vuela
Con garza á profia,
Cazar la queria,
Y no la receia:
Mas quien no se vela
De garza guerrera
Peligros espera.
La caza de amor
Es de altaneria;
Trabajos de dia,
De noche dolor:
Halcon cazador
Con garza tan fiera
Peligros espera.
Obr. t. II, p 49.
* * * * *
BERNARDIM RIBEIRO
Cantar á maneira de Solao, que vem no capitulo XXI da menina e Moça.
Pençando-vos estou filha,
Vossa mãe me está lembrando,
Enchem-se-me os olhos d'agoa
Nella vos estou lavando.
Nascestes filha entre magoa,
Pera bem inda vos seja,
Pois em vosso nascimento
Fortuna vos houve inveja.
Morto era o contentamento,
Nenhuma alegria ouvistes,
Vossa mãe era finada,
Nós outros eramos tristes.
Nada em dôr, em dôr criada,
Não sei onde isto hade ir ter,
Vejo-vos filha fermosa
Com olhos verdes crescer.
Não era esta graça vossa
Pera nascer em desterro;
Mal haja a desaventura
Que poz mais nisto que o erro.
Tinha aqui sua sepultura
Vossa mãi, e magoa a nós;
Não ereis vós filha, não,
Pera morrerem por vós.
Não houve em fados razão,
Nem se consentem rogar;
De vosso pai hei mór dôr,
Que de si se hade queixar.
Eu vos ouvi a vós só
Primeiro que outrem ninguem;
Não foreis vós, se eu não fôra,
Não sei se fiz mal, se bem.
Mas não póde ser, senhora,
Pera mal nenhum nascerdes,
Com esse riso gracioso
Que tendes sob olhos verdes.
Conforto mais duvidoso
Me é este que tomo assi,
Deos vos dê melhor ventura
Do que tiveste té aqui.
A dita, e a formosura
Dizem patranhas antigas,
Que pelejaram um dia
Sendo d'antes muito amigas.
Muitos hão que é fantesia;
Eu que vi tempos e annos,
Nenhuma cousa duvido
Como ella é azo de damnos.
Nem nenhum mal não é crido;
O bem só é esperado:
E na crença, e na esperança
Em ambas ha hi cuidado;
Em ambas ha hi mudança.
* * * * *
Romance de Avalor, que vem no capitulo XI da segunda parte das Saudades.
Pola ribeira de um rio,
Que leva as agoas ao mar,
Vai o triste de Avalor,
Não sabe se hade tornar.
As agoas levam seu bem,
Elle leva o seu pesar,
E só vai sem companhia,
Que os seus fora elle leixar.
Cá quem não leva descanso,
Descansa em só caminhar:
Descontra donde ia a barca
Se ia o Sol a baxar.
Indo-se abaxando o Sol,
Escurecia-se o ar:
Tudo se fazia triste
Quanto havia de ficar.
Da barca levantam remo,
E ao som do remar
Começaram os remeiros
Do barco este cantar:
Que frias eram as agoas,
Quem as haverá de passar?
Dos outros barcos respondem:
Quem as haverá de passar?
Senão quem a vontade pôz
Onde a não pode tirar,
Trala barca levam olhos,
Quanto o dia dá logar.
Não durou muito; que o bem
Não pode muito durar.
Vendo o Sol posto contr'elle
Soltou redeas ao cavallo
Da beira do rio andar.
A noite era callada
Pera mais o magoar
Que ao compasso dos remos
Era o seu suspirar.
Querer contar suas magoas
Seria arêas contar,
Quanto mais se alongando
Se ia alongando o soar.
Dos seus ouvidos aos olhos
A tristeza foi egualar;
Assim como ia a cavallo
Foi pela agua dentro entrar.
E dando um longo suspiro,
Ouvia longe falar:
Onde magoas levam alma
Vão tambem corpo levar.
Mas indo assi, por acerto,
Foi c'um barco n'agua dar,
Que estava amarrado á terra,
E seu dono era a folgar.
Saltou, assim como ia, dentro,
E foi a amarra cortar,
A corrente e a maré
Acertaram-no a ajudar.
Não sabem mais que foi d'elle,
Nem novas se podem achar;
Suspeitou-se que era morto,
Mas não é para affirmar;
Que o embarcou ventura
Para só isso guardar,
Mais são as magoas do mar
Do que se podem curar.
* * * * *
Romance que vem na Ecloga 5.ª ao qual se chamou Cuidado e Desejo.
Ao longo de uma ribeira,
Que vae polo pé da serra,
Onde me a mi fez a guerra
Muito tempo o grande amor,
Me levou a minha dôr;
Já era tarde do dia,
E a agua d'ella corria
Por antre um alto arvoredo,
Onde ás vezes ia quedo
O rio, e ás vezes não.
Entrada era do verão,
Quando começam as aves,
Com seus cantares suaves
Fazer tudo gracioso;
Ao rugido saudoso
Das aguas cantavam ellas;
Todalas minhas queréllas
Se me pozeram diante;
Ali morrer quizera ante,
Que ver por onde passei;
Mas eu que digo? passei!
Antes inda heide passar
Em quanto hi houver pezar,
Que sempre o hi hade haver.
As aguas, que do correr
Não cessavam um momento,
Me trouxeram ao pensamento,
Que assim eram minhas magoas,
D'onde sempre correm aguas
Por estes olhos mesquinhos,
Que têm abertos caminhos,
Pelo meio do meu rosto.
E já não tenho outro gosto
Na grande desdita minha.
O que eu cuidava que tinha
Foi-se-me assim não sei como,
D'onde eu certa crença tomo,
Que pera me leixar veiu.
Mas tendo-me assim alheio,
De mim o que ali cuidava,
Da banda d'onde a agoa estava,
Vi um homem todo caã
Que lhe dava pelo cham,
A barba e o cabello.
Ficando eu pasmado d'ello,
Olhando elle para mim,
Falou-me, e disse-me assim:
«Tambem vae esta agoa ao Tejo.»
N'isto olhei, vi meu Desejo
Estar detraz triste e só,
Todo cuberto de dó,
Chorando, sem dizer nada,
A cara em sangue lavada,
Na bocca pósta uma mão,
Como que a grande paixão
Sua fala lhe tolhia.
E o velho que tudo via,
Vendo-me tambem chorar,
Começou assi a falar:
«Eu mesmo sou teu Cuidado,
Que n'outra terra criado,
N'esta primeiro nasci.
E ess'outro que está aqui
É o teu Desejo triste,
Que má hora o tu viste,
Pois nunca te esquecerá!
A terra e mar passará
Traspassando a magoa a ti.»
Quando lhe eu aquisto ouvi,
Soltei suspiros ao choro;
Ali claramente o fôro
Meus olhos tristes pagaram
De um bem só qu'elles olharam,
Que outro nunca mais tiveram,
Nem o tive; nem m'o deram:
Nem o esperei sómente.
De só ver fui tão contente,
Que pera mais esperar
Nunca me deram lugar.
E n'aquisto, triste estando,
Com os olhos tristes olhando
D'aquellas bandas d'álem,
Olhei, e não vi ninguem.
Dei então a caminhar
Rio abaixo, até chegar
Acerca de Monte-Mór.
Com meus males derredor,
Da banda do meio dia,
Ali minha Phantasia,
D'antre uns medrosos penedos,
Onde aves que fazem medos
De noite os dias vão ter,
Me saíu a receber
Com uma mulher polo braço,
Que, ao parecer, de cansaço
Não podia ter-se em si,
Dizendo:--Vês, triste, aqui
A triste Lembrança tua.--
Minha vista então na sua
Puz; d'ella todo me enchi:
A primeira cousa que vi,
E a derradeira tambem,
Que no mundo vão e vem!
Seus olhos verdes rasgados,
De lagrimas carregados,
Logo em vendo-os, pareciam
Que de lagrimas enchiam
Contino as suas faces,
Que eram, gram tempo, paces
Antre mim e meus cuidados.
Louros cabellos ondados
Que um negro manto cobria:
Na tristeza parecia
Que lhe convinha morrer.
Os seus olhos de me ver,
Como furtados, tirou,
Depois em cheio me olhou.
Seus alvos peitos rasgando,
Em voz alta se aqueixando,
Disse assim mui só sentida:
--Pois que mór dôr, ha na vida,
Pera que houve ahi morrer?--
Calou-se sem mais dizer,
E de mi gemidos dando,
Fui-me pera ella chorando
Pera a haver de consolar...
N'isto pôz-se o sol ao mar,
E fez-se noite escura,
E disse mal á ventura,
E á vida, que não morri...
E muito longe d'ali,
Ouvi de um alto outeiro
Chamar: _Bernardim Ribeiro_
E dizer:--Olha onde estás.--
Olhei de ante, e de trás
E vi tudo escuridão,
Cerrei meus olhos então,
E nunca mais os abri,
Que depois que os perdi
Nunca vi tão grande bem,
Porém inda mal, porém!
Obras. p. 351 ed. de 1852.
* * * * *
CHRISTOVAM FALCÃO
Cantiga com suas voltas.
Não posso dormir as noites,
Amor, não as posso dormir.
Desque meus olhos olharam
Em vós seu mal e seu bem,
Se algum tempo repousaram
Já nenhum repouso tem.
Dias vão e dias vem,
Sem vos vêr, nem vos ouvir,
Como as poderei dormir?
Meu pensamento occupado
Na causa do seu pensar,
Acorda sempre o cuidado
Pera nunca descuidar.
As noites de repousar
Dias são ao meu sentir,
Noites do meu não dormir.
Todo o bem que é já passado
E passado em mal presente,
O sentido desvelado,
O coração descontente.
O juizo que isto sente
Como se deve sentir,
Pouco deixará dormir.
Como não vi o que vejo
C'os olhos do coração,
Não me deito sem desejo,
Nem me ergo sem paixão;
Os dias sem vos vêr vão,
As noites sem vos ouvir,
Eu não n'as posso dormir.
* * * * *
SÁ DE MIRANDA
Cantiga.
Naquella alta serra
Me quero ir morar,
Quem me quizer bem,
Quem bem me quizer,
Lá me irá buscar.
VOLTAS
N'estes povoados
Tudo sam requestas,
Deixay-me os cuidados
Que em vós deixo as festas.
D'aquellas florestas
Verey longe o mar,
Por-me-hey a cuidar.
Sombras e aguas frias,
Quando o sol mais arde;
Despois sobre a tarde
Por cá bradarias,
Vês, que pressa os dias
Levam sem cansar,
Nunca hamde tornar.
Não julgue ninguem
Nunca outrem por si,
Mais de um bem que ouvi
A vida nam tem.
Nam deixa este bem,
Onde se elle achar
Mais que desejar.
Deixa as vaydades
Que da mão á bocca
O prazer se troca,
Trocão-se as vontades.
Essas são saudades,
Armadas no ár,
Que podem durar?
'Naquella espessura
Me hey d'ir esconder,
Venha o que vier,
Achar-me-ha segura,
Se tal bem não dura
Ao seu trespassar
Tudo hade acabar.
Obras, ediç. de 1677, p. 314.
* * * * *
JORGE DE MONTE-MOR
Canção tirada da novella pastoril intitulada «Diana.»
Os tempos se mudarão,
A vida se acabará;
Mas a fé sempre estará
Onde meus olhos estão.
Os dias e os momentos,
As horas com suas mudanças,
Amigas são de esperanças,
E amigas de pensamentos.
Os pensamentos estão,
A esperança acabará,
A fé não me deixará
Por honra do coração.
É causa de muitos danos
Duvidosa confiança;
Que a vida sem esperança
Já não teme desenganos.
Os tempos se vem e vão,
A vida se acabará,
Mas a fé não quererá
Fazer-me esta sem razão.
* * * * *
Outra cançoneta
Suspiros, minha lembrança,
Não quer, porque vos não vades,
Que o mal que fazem saudades
Se cura com esperanças.
A esperança me vai
Por causa, em que se tem,
Nem prommette tanto bem
Quanto a saudade faz mal.
Mas, amor, desconfiança,
Me deram tal qualidade,
Que nem me mata a saudade,
Nem me dá vida a esperança.
Errarão, se se queixarem
Os olhos, com que eu olhei,
Porque não me queixarei
Em quanto os seus me lembrarem.
Nem poderá haver mudança
Jamais em minha vontade,
Ou me mate a saudade,
Ou me deixe a esperança.
* * * * *
JORGE FERREIRA DE VASCONCELLOS
Romance da batalha que El-Rei Arthur teve com Morderet, seu filho.
Gram Bretanha desleal,
Ao melhor rei que tiveste
D'agora, té o fim do mundo
Chora quanto bem perdeste:
Jaz no campo, entregue á morte
Que falsa, ingrata lhe deste,
A flor da cavalleria
Com que te ensoberveceste.
A pena tem já da culpa
Que lhe assi favoreste,
Oh traidor de Mordereth,
Porque um tal rei vendeste?
Oh Bretanha desleal
Que grande traição fizeste,
A vinte quatro da Távola
Que por Ginebra escolheste.
Á demanda do Grial
Triste remate poseste;
Morto jaz de mil feridas,
E tu, soberba lh'as deste,
Dom Galvão tão animoso
Por quem mil glorias tiveste;
E matar Dom Galeazo
Ingrata como podeste?
Que em obras de fortaleza,
Não sei se outro egual houveste!
Pôde matar-te Bretanha
Que tu tanto engrandeceste!
Esforçado Flordemares,
Que em forças mares venceste,
A morte, que em defenderes
Tal rei, d'ella padeceste.
Oh animado Troyano,
Nunca lh'o tu mereceste,
Mal lhe merecias, mal
O que d'ella recebeste.
Palamedes, oh pagão
Que nas armas floreceste:
Dom Tristão de Leonis,
Que por amores morreste.
Em não morreres aqui
Ditosa sorte tiveste,
Tu, Lançarote do Lago
Que as glorias de amor houveste;
De damas servido, amado
Da dona a quem mais quizeste,
Com dano dos traydores
Á morte a que te rendeste.
Ficarás sem sepultura
Co'a pena que mereceste
Tu traidor Morderet
Pois tal traição commetteste
Aqui se acabou a gloria
Quanta, Bretanha, tiveste:
Em pago da qual a Arthur
Nem a sepultura deste.
Cá na Ilha de Avalom,
Merlim, vergel lhe fizeste,
Em que vive, e só salval-o
De affronta e morte podeste.
Como amigo que as más manhas
De Bretanha conheceste,
Mas n'algum tempo inda Arthur,
Bom Rei que desmereceste,
Bretanha virá a vingar-se
Da traição que lhe fizeste.
_Memorial das Proesas da Segunda Tavola Redonda_, cap. III.
* * * * *
Romance ao modo hespanhol, com gentil arte e disposição, sobre a
Guerra de Troya.