de 1594, e a perros se déra se visse como este malvado de Dom Gil
Alcoforado estropiava os romances populares e os deixava incompletos:
«Y hize que de un discurso
Se visse principio y cabo,
Lo que el musico no haze,
Pues medio desbarado
Dexa un romance perdido
Deciendo que le da enfado:
Los quales conforme à la ley
Merecen ser desterrados
A las islas de Corfú
A cantar versos mosaycos
Y de tan alto auditorio
Uvieran de ser echados
Por quebrantadores de honras
De aquellos siglos dorados.»
Na citação de Dom Francisco Manoel de Mello está resumida a historia do
romance; confirma-o Pedro de Flores. _O Fidalgo Aprendiz_ é uma formosa
comedia de costumes, pelo gosto da velha eschola de Gil Vicente; é uma
satyra aos _parvenus_ do seculo XVII. Eis o caso: Dom Gil Cogominho é o
nome de
um escudeiro
Enfronhado em Cavalleiro
Morto por ser namorado,
Contrabaxo e trovador
Cavalleiro, dançador:
Emfim Fidalgo acabado,
Valentão e caçador.[53]
Affonso Mendes, seu ayo, vestido _á portugueza antiga_, tem uma comadre:
Mulher para muita aquella,
Anda armando-lhe esparrella
Com uma filha bonitinha,
Que eu fico que caia nella.
É pois n'uma d'estas situações, quando Dom Gil Cogominho vae conversar
de noite com Brites, filha da tal comadre Isabel, que se passa a scena
que transcrevêmos. Brites pergunta-lhe se elle é poeta, se canta, que
voz tem? Depois pede-lhe que cante qualquer cousa. O Fidalgo
escusa-se por não ter guitarra. N'este tempo os romances, que iam
tomando forma culta, eram sempre cantados a instrumento. Muitos dos
romances populares do seculo XVI, já então considerados _velhos_, foram
postos em musica e publicados por Milan, Pisador, Valderrabano,
Fuenllana, Mudarra e Salinas. A Dom João III, em 1535, offereceu Luiz de
Milan um _Libro de Musica_, em que vinham notados em musica: _Mis arreos
son las armas_ etc., _Sospiraste_ etc. e _Baldovinos_.
Jorge Ferreira, nos romances que traz no _Memorial das Proezas dos
Cavalleiros da Tavola Redonda_, accrescenta sempre a rubrica: «Cantavam
a violas de arco e doçayna mui concertadamente o romance, _que eram os
cantos que então mais se usavam_.»[54] Isto era assim ainda no
tempo de Dom Sebastião, porque o Fidalgo dá-se como contemporaneo do
monarcha:
Sey o açougue no Rocio,
Os Estaus na Inquisição,
Vi el-Rey Dom Sebastião.
Dom Gil Cogominho a final, a instancias de Brites, venceu a repugnancia
e começa a cantar o velho e popularissimo romance da _Dona Silvana_, que
a rapariga já não quer ouvir, talvez para mostrar que não é de baixa
extração. Pede-lhe porém que cante _letra castelhana_. De facto, depois
do casamento de el-rei Dom Manoel com a filha de Fernando e Isabel, o
romance popular começou a cantar-se em hespanhol. Gil Vicente compoz os
seus mais bellos n'essa lingua. Damião de Goes queixa-se da importancia
que tinham na corte os chocarreiros de Castella;[55] e Jorge Ferreira
diz que as trovas castelhanas se tem aforado comnosco e tomado posse do
nosso ouvido.[56] O gosto dos romances na corte era uma imitação dos
usos hespanhoes, do que diz o citado Jorge Ferreira, fallando dos
romances: « o que em Hespanha se usou muito, _e usar-se agora para
estimulo de imitação não fora máo_.»[57] Continuemos na exposição da
comedia: Brites era quesilenta e recusa-se a ouvir o romance de
_Sylvana_, a que o Fidalgo chama _cantar algaravia_. Pede _letra
castellana_, e Cogominho começa-lhe a cantar o vetustissimo romance da
_Infantina_, que começa:
A caçar vá el cavallero.[58]
A travessa rapariga continua a enfrenesiar-se; o Fidalgo procura
agradar-lhe, dá-se a tratos para adivinhar-lhe o desejo. Pergunta se
ella quer _romances trovados_? Que seriam estes romances trovados?
Rengifo, na _Poetica española_, diz que não havia muito tempo que os
poetas tinham começado a glosar romances velhos, metendo cada dois
versos na segunda das redondilhas. Esta transformação foi recebida
agradavelmente pela sociedade elegante do seculo XVII.[59]
Nos poetas portuguezes de quinhentos encontramos signaes d'estas
transformações. Sá de Miranda allude á _Bella mal maridada_,[60]
em duas voltas ou glosas; Gil Vicente cita muitas vezes
este romance celebre da tradição oral:
Cantarle han por alvorada
«La bella mal maridada
Mal goso viste de ti.[61]
D'este romance centenas de vezes glosado, e parodiado por D. Francisco
Manoel de Mello na _Avena de Tersicore_[62], canta Gregorio
Silvestre a sorte desditosa nas mãos dos poetas:
O Bella mal maridada,
A que manos has venido!
Mal casada e mal «glosada»
De los poetas tratada
Peor que de tu marido:
Si ello va por mas errar
Y a vós os agrada assi,
Ventaja hago yo aqui:
Assi que por mal glosar.
Vida no dejeis a mi.[63]
Gregorio Silvestre falava contra os poetas cultos, que procuravam
introduzir na Peninsula a eschola italiana. A forma poetica que
apontamos era o que Dom Francisco Manoel chamava o _romance trovado_.
Quando Brites pediu um d'este genero a Dom Gil, elle não atinou e
deu-lhe umas coplas no gosto poetico da corte de Dom João II; depois
canta a seguidilha do _Gavião branco_; afinal Brites pergunta-lhe se
elle sabe alguma _trova ao divino_. Esta é tambem uma transformação do
romance anonymo. Quando Lope de Vega começou a introduzir uma fórma
litteraria no romance, poz em verso quasi todos os passos da Paixão.
Este genero pertence aos romances sacros. Sepulveda, nos _Romances
sacados de varias historias_, tambem descreve a Paixão; com esta
tendencia se iam romanceando quasi todas as scenas da Escriptura. O
grande uso e predilecção do genero sacro se nota pela prohibição
expressa que d'elle faz o _Index expurgatorio_ de 1624: prohibe o
romance que começa:
Com rabia está el Rey David.
«_E todos os mais Romances ou contos tirados do Testamento Velho, ou
Novo ao pé da letra._»--Prohibe mais: «_Romances sacados da letra del
Evangelio._ El primeiro _La ressurreiçon de Lazaro_.--El segundo _El
juizio de Salomão_.»[64] A celebre xacara de Quevedo, conhecida com o
titulo de _Escarraman_, tambem andava convertida ao divino.
Eis até aqui os factos que se deduzem da scena extractada do _Fidalgo
Aprendiz_. Dom Francisco Manoel de Mello não allude ao exagerado gosto
dos _romances mouriscos_, que prevaleceu no seculo XVII, se é que não
significa isso a phrase--_cantar algaravia_. Outra transformação do
romance popular foi a nova forma poetica, a que se chamou _Xacara_,
antiga composição popular que Don Francisco de Quevedo tanto vulgarisou,
e que o nosso Dom Francisco Manoel imitou tambem.
O gosto popular no seculo XVII soffreu uma grande transformação; os
romances iam passando de moda. Diz Quevedo:
Ya passó Dona Ximena,
Y fallecio Lain Calvo.[65]
E do velho romance do _Conde Claros_ diz:
El Conde Claros, que fue
Titulo de las guitarras
Se quedó en las barberias
Com chaconas de la galla.[66]
O velho romance do _Conde Claros_, recolhido da tradição para o
_Cancionero de Anvers_, estava já banido; uma transformação profunda se
operava no gosto publico. Os romances mouriscos occupavam a attenção e o
enthuziasmo. «O espirito da moda influiu muito na voga que tiveram, e na
cansada monotonia que impoz a muitos a necessidade de os repetir para
accomodar-se ao gosto publico e fastio da epoca.»[67] Fernando
Wolf é de opinião que estes romances não têm o caracter arabe, e o
proprio assumpto que celebram revela a sua origem moderna. Mas é
impossivel desconhecer a existencia de uma poesia da raça _mosarabe_,
producto da fusão do baixo povo godo com os arabes invasores. Assim como
hoje se vê que d'esta transformação social saíu um direito novo, os
Foraes,[68] longo tempo atribuidos a origem romana, qual seria
a poesia d'essas relações intimas, cantada na lingua, que o baixo povo
chamava de _Aravias_? Sobre esta poesia pesou o mesmo desprezo, que o
Marquez de Santillana descarregou sobre os velhos romances vulgares; mas
no _Cancionero generale_ de Hernando de Castillo se descobre um apagado
vestigio do romance _mosarabe_, em que se vê o retrato da coexistencia
dos dois povos: é o romance da _Mora Moraina_, a cuja porta vêm um
christão falar-lhe _algaravias_, para a enganar. Este romance ainda se
encontra na tradição oral dos Açores e Beira, transformado segundo os
usos da sociedade moderna.[69] O povo arabe teve uma poesia
vulgar, sem o tom lyrico e artificial dos poetas cultos. O Arcipreste de
Hita fala dos «_instrumentos en que convienen los cantares de arabico_,
e cita um velho cantar que principia: _Caguil hallaco_. Diz mais:
_arabigo no quiere biuela d'arco._[70] Argote y de Molina, o
mais atilado critico dos velhos escriptores hespanhoes, como o qualifica
Ticknor, fala das _zambras_ arabes, com que se celebravam os feitos
publicos.[71] N'este periodo o romance mosarabe é commum a
Portugal e Hespanha; a sua vulgarisação, segundo Duran, data do seculo XIV.
Porém quando os arabes começam a abandonar o territorio da
Peninsula, as saudades d'este paiz encantador e a vergonha da derrota
inspira-lhes os cantares da despedida. N'este momento os chamados
_romances mouriscos_, tem um nascimento espontaneo, sem artificio. Em
1575, Argote y de Molina fala d'esses «cantares lastimeros, que oimos
cantar a los Moriscos del Reyno de Granada, sobre la perdida de su
tierra a manera de endexas...» E cita o cantar:
Alhambra amorosa, lloran tus castillos
o Muley Vuabdeli, que se ven perdidos
dadme mi cavallo, y my blanca adarga
para pelear, y ganar la Alhambra.
Dadme mi cavallo, y mi adarga açul
para pelear, y librar mis hijos:
Guadix tiene mis hijos, Gibraltar mi muger
senora Mafalta, hezisteme perder
en Guadix mis hijos, y yo en Gibraltar
senora Mafalta, hezisteme errar.[72]
Além de muitos outros documentos que provam a existencia de uma poesia
popular, entre os arabes da Hespanha, ainda modernamente se ouvem
cantares allusivos a Cordova e Granada, repetidos pelo povo em Tanger,
Tetuão, Arzilla e em outros pontos do norte da Africa.[73]
É da imitação d'estes cantares, que datam os romances granadinos dos
poetas cultos. Depois da conquista de Granada, os arabes que acceitaram
o jugo de Fernando e Isabel, continuaram os seus queixumes; aquelles
cantos tinham um accento novo, um colorido exagerado, uma paixão de
arrebatamento. Assim seduziram a imaginação dos poetas; alguns desses
cantos chegaram a entrar na corrente da tradição oral, como este
recolhido na Serrania de Ronda:
Por las puertas de Celinda
Galan se passea Zaide,
Aguardando que sáliera
Celindo para hablalle.[74]
O fervor dos romances _mouriscos_ cultos data do fim seculo XVI a XVII;
são como uma recordação gloriosa dos triumphos dos filhos de Hespanha;
já não tem a quem combater, criam phantasmas na imaginação, com que se
distraem. É esta a opinião do sabio Duran, quando diz: «Logo que os
nossos cavalleiros e poetas viram o paiz livre de seus contrarios para
de logo se apoderaram das recordações que tinham deixado, de modo que ao
ler os cantos d'aquelle tempo todos creriam que os mouros ainda
occupavam a Hespanha.»--«De facto antes da conquista de Granada, e
talvez alguns annos depois, se acham poucos romances mouriscos
novellescos, que tenham vestigios sensiveis da poesia arabe.»[75]
Os romances mouriscos tem poucas referencias a personagens
historicos; umas vezes é um mouro, _Galvan_, que tem uma cativa
christan, _Mariana_, com quem está jogando no seu jardim, e a cada jogo
que perde, perde um castello ou cidade; o mouro _Bucar_ resolve questões
de amor; as aventuras e odios dos _Zegries_ e _Abencerrages_, dos
_Gomeles_ e dos _Aliatares_, são o thema constante, bordado pela
imaginação hespanhola. Cada personagem ideal forma um cyclo de
aventuras, como _Zaide_, _Abenumeya_, _Tarfe_, _Abindarraez_, _Zegri_,
_Zulema_, _Azargue_, _Arbolan_, e isto milhões de vezes romanceado até
ao fastio e em formas já convencionaes, como a do verso:
Mira Zaide que te aviso.
Por seu turno veiu a reacção contra o gosto dos _romances mouriscos_;
começou-se por parodias burlescas. No _Romancero general_ de Flores, já
apparecem algumas amargas censuras contra a mania dos nomes mouriscos:
Tanta Zaida y Adalifa,
Tanta Draguta e Daraja,
Tanto Azarque e tanto Adulce,
Tanto Gazul e Abenámar.
......................
Renegaron de su ley
Los romancistas de España
Y offerecieron a Mahoma
Las primicias de sus gracias.
Dejaron los graves hechos
De su vencedora patria,
Y mendigan de la agena
Invenciones e patrañas.
Los Ordoños, los Bermudos
Las Rasuras y Mudarras,
Los Alfonsos, los Euricos,
Los Sanchos y los de Lara,
Que es de ellos? y que es del Cid?
Tanto olvido á gloria tanta.
Gongora tambem fez _romances mouriscos_, principalmente do cyclo
turquesco, mas de um gosto bello e admiravel; cedo veiu a conhecer o
enfado que já causavam os poetas granadinos, e elle proprio os
ridicularisou em um romance. Os romances d'este genero, compostos por
Dom Francisco Manoel de Mello e por Francisco Rodrigues Lobo, não
appresentam o minimo merecimento; são em hespanhol, em um estylo
cansado, e sem o esplendor da paixão oriental que os poetas hespanhoes
imprimiram ás suas contrafações. Não vale apresentar especimen de
composições taes; apenas servem para mostrar que o contagio litterario
tambem chegou até Portugal. Do meado do seculo XVII por diante, os
romances _mouriscos_ perderam-se em um subjectivismo e requinte que lhes
tirou o caracter. Foi então quando os romances se tornaram
_pastorís_, sendo os heroes arabes substituidos pelos Belardos, Filis, e
pelas aventuras dos rufiões dos beccos, ou _xaques_. A _xacara_ era o
nome dado aos romances que celebravam esses feitos dos meliantes; os
nossos _Fados_ populares podem-se considerar como restos das
_xacarandinas_ do seculo XVII, a que D. Francisco de Quevedo imprimiu
uma forma litteraria.[76]
Do que fosse este genero de poesia, procura o commentador na propria
palavra _xacara_: «Y si bien à la primera noticia, que de si prometen
con el nombre, parece peligra la estimacion.» Da linguagem formada pela
gentalha, vadios, rufiões, goliardos e maninellos, que se chama _giria_,
e em hespanhol _geringonça_ ou linguagem particular dos Ciganos, e
_jargon_ no francez, e tambem _germania_, se formou esta especie de
poesia. Os mesmos vadios se chamam entre si _xaques_: «Pero como quiera
que elo fuese, denominacion dieron infallible à las _xacaras_ ò
_xacarandinas_ aquellos _xaques_ mismos? y con legitima razon, pues de
sus acontecimientos y penalidades continuas son annales las relaciones
que ali se repiten: y nuestro Poeta (Quevedo) historiador suyo, ò
verdadero, ò fingido, singularmente de adequado spiritu.»[77]
Á vista d'esta simples noticia e da leitura de Quevedo, é facil de ver
em que a _xacara_ consistia: eram as aventuras dos goliardos, a forma
antiga do _Fado_, uma historia longa das suas falcatruas. Na _xacara_ de
Escarraman, ha cartas entre Escarraman e Mendez, cartas entre Peralta e
Lampuga. D'onde veiu D. Francisco Manoel dizer: «Começaram um
dialogo á maneira de _xacara_,» isto é, na linguagem _girianta_ em
que os _xaques_ faziam as relações de seus desastres e aventuras
divertidas, que era na _xacarandina_. A _xacara_, como quasi toda a
poesia popular, era acompanhada de musica.
Do meiado do seculo XVI por diante começaram os romances populares a
receber uma forma artistica, a tornarem-se descriptivos e lyricos.
Fuentes, Timoneda, Sepulveda, Lasso de la Vega os foram tornando
subjectivos. As _xacaras_ populares receberam tambem de Quevedo esta
mesma influencia artistica, que se resentiu em Portugal, por isso que o
_Index Expurgatorio_ de 1624 prohibe a leitura do _romance de
Escarraman_, e de todos os que sobre elle se fizeram. Dom Francisco
Manuel de Mello imitou o gosto das _xacaras_ nos seus _romances
entretenidos_. Alguem teve a ridicula lembrança de dar á _xacara_ uma
origem mourisca. Em que se fundariam para tal? Talvez no radical
_xaque_, que quer dizer traidor. A _xacara_ á força de exagerar o
natural tornava-se grosseira; o metro seguia uma tendencia artificiosa
que lhe tirava a vulgarisação popular.
Nos fins do seculo XVII a mania dos romances continuava; os frades
escreviam-nos pelos mosteiros sobre assumptos pastorís; outros de longe
em longe se lembravam do _Cid_ e de _Durandarte_. Assim o diz um poeta
coevo, Antonio Peixoto de Magalhães:
Algum sem que descanse
Faz ás barbas do «Cid» logo um romance,
Outro grave e queto
Compõe a «Durandate» algum soneto.
Em Hespanha o romance tinha perdido o caracter _narrativo_,
absolutamente popular, tornando-se _descriptivo_ ou litterario, até se
fundir em um subjectivismo que o desnaturava. Em Portugal o povo
continuou na sua obscuridade, como dantes, mas o romance seguiu
exactamente as mesmas transformações que em Hespanha. Por este tempo
Francisco Lopes, livreiro de Lisboa, romanceava, á imitação do _Santo
Isidro_ de Lope de Vega, a vida do popular Santo Antonio e dos Cinco
Martyres de Marrocos; servia a causa da liberdade na revolução de 1640
com as suas _folhas volantes_ em verso, popularisando as victorias
contra as armas de Castella. Propriamente a designação de _romance_
servia para qualquer composição fastienta feita a proposito de
circumstancias ridiculas, em metro octosyllabo, em assonancias. O uso da
lingua hespanhola era immoderado. Como composição d'este genero podem-se
vêr os romances de Frei Antonio das Chagas, quando tinha no seculo o
nome de Antonio da Fonseca Soares. Na vida ociosa dos claustros, os
frades enchiam as suas horas com estas composições, mais insipidas do
que as allegorias do paiz de _Tendre_. O Bispo do Grão Pará, nas suas
_Memorias_ verbera este costume. As glosas, que se haviam apoderado dos
romances, começaram a applicar-se aos Outeiros freiraticos; nos
palratorios se fazia o maior consummo dos romances. Quando Frei Antonio
das Chagas entrou para os Bentos, aonde estava o seu amigo e confrade em
Apollo Frei Antonio Vahia, foi achar lá dentro numerosas copias dos seus
romances de galanterias; quando no enthuziasmo religioso as quiz rasgar,
«gracejaram com elle e meteram-no á bulha.» O melhor do tempo passava-se
em palestras com freiras, do que diz o severo Bispo do Grão Pará: «Eram
moços, e muita a liberdade das grades d'aquelle miseravel tempo.» As
subtilesas amorosas descambavam por vezes na obscenidade; o gosto
do tempo não sabia discriminar os assumptos, e adequava a mesma
linguagem aos usos divinos e humanos. Quando Frei João de Sam José fez a
visita ao seu bispado, entrando pelo Aracá, em uma capella ouviu uma
missa no fim da qual quatro indios e mamelucos com suas vozes bem
ajustadas cantaram «varias _cantatas devotas_ e de edificação, sobre o
que lhe fizemos uma pequena pratica em louvor do canto honesto _e ao
mesmo tempo invectiva contra o lascivo das sarabandas e modas do
tempo_.» O Bispo do Grão Pará é uma especie de Saint-Simon do nosso
seculo XVIII.
A poesia popular á medida que ía caíndo no gosto dos cultistas,
emancipava-se de novo, pela falta de espontaneidade dos que a queriam
imitar. Podemos dizer que a poesia popular portugueza ficou
absolutamente desconhecida até á incompleta, mas brilhante tentativa de
Garrett; em Hespanha os vendedores das _folhas volantes_, romanceando os
successos do tempo, continuavam obscuramente o trabalho dos Najeras, dos
Nucios, dos Flores, dos Tortejadas; entre nós o povo parecia mudo, sem
canto. Que symptoma mais franco de decadencia! Quando os nossos poetas
quizeram imitar o que na Allemanha faziam Uhland e Bürger, trovavando os
seus poemas sobre as tradições nacionaes, mostraram-se a nú, mediocres e
sem alma. É vêr essa infinidade de _solaos_, xacaras de accalentar
netos, balladas, e outros prenuncios do ultra-romantismo em Portugal,
que se cansou de andar a tombos com uma edade media de papelão. Para que
ennumerar aqui nomes odiosos, de falsos sacerdotes da arte? A poesia do
povo precisa de uma extraordinaria boa-fé para ser entendida.
ROMANCES
COM FORMA LITTERARIA
DO
SECULO XVI A XVIII
* * * * *
ALVARO DE BRITO
Trouas á morte do principe D. Affonso filho de D. João 2.º
Morto he o bem d'Espanha,
nosso principe rreal,
chora, chora Portugal,
choremos perda tamanha!
E carpindo lamentemos
dous em huum triste responso,
rrey & prinçepe choremos
dom Affonso, dom Affonso!
Ho que morte tam estranha,
ho que nojo, ho que mal!
chore, chore Portuguall,
choremos perda tamanha!
Ho que queeda tam sanhosa
pera chorar & carpir,
ho que queeda tam danosa
que nos fez todos cayr!
Ho quanta nobre companha
Sente tristeza mortall!
chora, chora Portugall
choremos perda tamanha!
Choremos, que tal cayda
por nossos grandes pecados
nos leyxa desemparados,
mata toda nossa vyda.
Que pesar nos acompanha,
que nunca foi visto tall;
he perdido Portugual,
choremos perda tamanha!
Choremos huum jnoçente,
huma santa creatura,
que por nossa desventura
morreo tam supitamente.
Ho que mall, que nojo, sanha,
que desemparo mortall
nota todo Portugual,
choremos perda tamanha!
Morreo nossa defensam,
& morreo nossa liança,
morreo nossa esperança
de nom vyr a ssogeyçam.
Asy nos desacompanha
nosso senhor natural;
o senhor çelestrial
o rreçeba em sa companha!
Cancioneiro Geral de 1516, t. I, p. 221.
Edição de Stuttgart.
* * * * *
GARCIA DE RESENDE
Trovas á maneira de romance feitas á morte de Dona Inez de Castro.