Produced by Pedro Saborano
CANCIONEIRO E ROMANCEIRO GERAL PORTUGUEZ
FLORESTA
DE VARIOS
ROMANCES
COLLIGIDOS
POR
THEOPHILO BRAGA
_Transformações do romance popular do seculo XVI a XVIII--Romances com
forma litteraria dos cultistas portuguezes--Romances da Historia de
Portugal, tirados das Collecções hespanholas._
PORTO
Typ. da Livraria Nacional
2, Rua do Laranjal, 22
--
1869
* * * * *
FLORESTA DE ROMANCES
* * * * *
FLORESTA
DE VARIOS
ROMANCES
POR
THEOPHILO BRAGA
Vimos rir, vimos folgar,
Vimos cousas de prazer,
Vimos zombar e apodar,
Motejar, vimos trovar
Trovas que eram para lêr.
GARCIA DE REZENDE.
PORTO
Typ. da Livraria Nacional
Rua do Laranjal, 2 a 22
--
1868
TRANSFORMAÇÕES
DO
ROMANCE POPULAR
SECULO XVI A XVIII
Os romances genuinos da tradição oral do povo foram pela primeira vez
recolhidos na _Silva de varios_, em 1550, tendo sido anteriormente
glosados pelos poetas cultos hespanhoes da corte de João II e Henrique
IV; no seculo XVI receberam uma fórma litteraria, dada por Lope de Vega,
Gongora, Fuentes, Lasso de la Vega, Juan de la Cueva e outros. O mesmo
facto se deu em Portugal: Gil Vicente, Bernardim Ribeiro, Jorge Ferreira
de Vasconcellos, Francisco Rodrigues Lobo, Dom Francisco Manoel de Mello
e Balthazar Dias, glosam e imitam os romances populares, já cantando os
feitos da nossa historia, já as façanhas da guerra de Troya e de Roma,
da Tavola-Redonda e de Carlos Magno. Convinha colligir estas flores
dispersas, por onde se mostra que o movimento litterario operado em
Portugal no seculo XVI e XVII era analogo ao de Hespanha; sem ellas o
_Cancioneiro e Romanceiro geral portuguez_ seriam uma obra truncada e
imperfeita.
Não se póde conhecer a litteratura portugueza ignorando as phases das
litteraturas da edade media da Europa. Como a formação das linguas, do
direito, da religião e das instituições sociaes, nenhum facto faz sentir
mais do que a litteratura a unidade de raça dos povos neo-latinos. Quasi
todas as transformações que experimentaram as litteraturas italiana,
franceza, hespanhola e provençal,--quer na forma das primeiras poesias,
nas novellas cavalheirescas, nas Chronicas ou nos contos decameronicos,
no romance popular ou no sentimento da natureza despertado pela
Renascença,--tudo, abertamente o sustentamos, se encontra, mais ou menos
rudimentarmente, na litteratura portugueza. Foi a poesia dos jograes que
soltou os dialectos neo-romanos da sua gaguez pelo canto; em Portugal
vemos tambem que os primeiros monumentos linguisticos são em verso,
essas canções dos seculos XII e XIII, que os criticos não tem sabido
avaliar.
Como conclusão dos estudos sobre a poesia popular portugueza, parecerá
que este povo não tem uma poesia privativamente sua, filha espontanea do
seu genio. As creações epicas que aí ficam nos romances colhidos da
bocca do povo acham-se, é verdade, com alterações accidentaes nos
Romanceiros hespanhoes. Devemo-nos desgostar com a falta de
originalidade? Deveriamos abandonar a missão de recolher essas
venerandas reliquias, por isso que não ha n'ellas uma feição propria? Os
romances pertencem ao povo hespanhol pela fatalidade da raça e pelo
estado social que os produziu. Não sômos nós do mesmo sangue, do mesmo
tronco celtibero? não soffremos nós as mesmas modificações no cadinho da
edade media da Europa? O facto de apparecerem os romances
cavalheirescos hoje em hespanhol é devido a uma circumstancia
material, á curiosidade dos livreiros de Sevilha, Saragoça e Anvers;
entre nós não se curou d'isso, mas nem por isso o povo portuguez deixou
de cantar e poetisar as suas tradições. A parte mais bella dos romances
hespanhoes constará, quando muito, de cem romances anonymos, os quaes se
não referem a factos particulares da historia; estes mesmos andaram na
tradição portugueza no seculo XVI, em tempo que a mente dos dois povos
os elaborava ainda. (_Leis de formação poetica_, III e XIII). Se em
politica Portugal e Hespanha são duas nacionalidades, nas tradições
poeticas são mais do que gemeos, são um mesmo povo. O velho Romanceiro
hespanhol da ultima ametade do seculo XV, o legitimamente popular, tanto
é hespanhol como portuguez; são os cantos d'esta epocha os que se
repetem ainda na sua pureza nativa na Beira-Baixa, Traz-os-Montes e
Açores. Que importa que não tenhamos os vultos poeticos de um Cid, de um
Bernardo del Carpio, se os romances que os celebraram são na maior parte
de origem litteraria, compostos por Lorenzo de Sepulveda, Juan de Leyva,
Lasso de la Vega, e agrupados por Juan de Escobar? O _Romanceiro
portuguez_ é pequeno; mas, ainda ha tão pouco tempo interrogada a
tradição, tem dado o que ha de mais bello e mais antigo na poesia
peninsular.
No tempo de Dom João I, quando o povo deu pela primeira vez signal da
sua existencia politica, foi ao mesmo tempo que revelou a poesia com que
se alentava. Os cavalleiros cortezãos, que discreteavam com damas,
pertenciam á _Ala dos Namorados_ e da _Madre-Silva_, e entretinham-se
com as novellas de Cavallaria do cyclo da Tavola-Redonda: «Porque nam se
nega aos Luzitanos, des ho tempo dos Romanos que fezeram memoria
dos feytos heroycos, hum abalisado e raro grao de cavalaria. E em tempo
del Rey dom João _de boa memoria_ sabemos que seus vassalos no cerco de
Guimarães se nomearam por _cavalleyros da tavola redonda_; e elle por el
rey Arthur. E de sua corte mandou treze cavalleyros Portuguezes a
Londres, que se desafiaram em campo çarrado com outros tantos Ingrezes
nobres e esforçados, por respeyto das damas do Duque Dalencastro. E de
Santarem sayram tres cavalleyros andantes a buscar aventuras, por toda a
Hespanha gaynhando muita honra: e em nossos tempos foram outros a
Italia, Inglaterra e França, em que se abalisaram como gentys soldados:
vindo dahi a capitães não menos que os antigos.»[1] Porem o
unico documento da existencia da poesia popular portugueza mais
evidente, são essas canções que os moradores de Restello e Sacavem
vinham cantar sobre a sepultura do Condestavel D. Nuno Alvares Pereira.
Que ingenuidade de sentir n'aquella strophe dos pobres á porta do
convento do Carmo, aonde estava Nunal'vres! Recolheram-se essas trovas
mais para provar a grandeza do Condestavel do que a santidade do povo.
No reinado de Dom João II os costumes cortezãos tinham banido a poetica
do vulgo; os cavalleiros, quasi todos heroes na conquista do Oriente,
entretinham-se nos serões do paço em fazer versos ás damas sobre casos
sentimentaes, imitações das coplas de Manrique, de Juan de Mena, de Juan
Rodrigues del Padron, do Marquez de Villena e do de Santillana. Garcia
de Resende, recolhendo todas essas coplas, seguira o exemplo do
_Cancioneiro de Baena_; a poesia de um é modello da poesia do outro.
Lendo a nossa vasta collecção de 1516, encontramos os filhos de Dom João
I, como Dom Pedro,[2] adoptando os versos de arte maior e
enlevado na admiração de Mena; seu filho, que foi Rei de Chypre, imita o
gosto prevençal nas tres canções ali conservadas.[3] Na
infinidade das outras composições não se descobre a minima allusão a
costumes, nem a tradições populares. Existem lá composições historicas,
cuja forma não lembra o romance.
Não é para admirar. Don Agustin Duran affirma que nenhum Codice anterior
á primeira metade do seculo XVI conserva vestigios da poesia popular;
apenas o _Cancionero general_ de Hernando del Castillo, publicado em
Valencia de Aragon em 1511, contêm alguns fragmentos de romances
glosados. Taes são os romances sacros: _Durmiendo yva el Señor_,[4]
_Terra y cielos se quexavan_,[5] e mais trinta romances
com glosas, como são o de _Conde Claros_, com glosa de Francisco de Leon
e uma imitação de Lope de Sosa; o romance de _Rosa fresca, rosa fresca_
com a glosa de Pinar; o de _Fonte frida, fonte frida_ com a glosa de
Tapia; o de _Yo m'era mora morayna_, e outros muitos feitos pelos poetas
cultos das cortes de Dom João II e Enrique IV, como Don Juan Manoel, o
Comendador de Avila, Juan de Leyva, Garci Sanchez de Badajoz, o Bacharel
Alonso Poza, Juan de la Ensina.[6] Estes poetas ou se serviam
de fragmentos de romances populares para as suas glosas, ou os
parodiavam. Quando, pela primeira vez, os romances populares foram
recolhidos da tradição oral, em 1550, por Estevan de Najera, na colleção
de Saragoça intitulada _Silva de varios romances_, muitos fragmentos do
_Cancionero_ de Hernando del Castillo appareceram mais completos. É
natural que, antes d'esta primeira collecionação, os cantos do povo
andassem em _pliegos sueltos_ ou folha volante, com que mais tarde os
livreiros tanto especularam. Pelo menos, os melhores romances da
collecção de Najera encontram-se em folha solta de duas columnas, em
typo gothico, sem logar de impressão, sem data e frontispicio: taes são
os romances de _Durandarte_, de _Grimaltos_, do _Marquez de Mantua_, dos
_Sete Infantes de Lara_, de _Gayfeiros_, do _Conde Claros de Montalvan_,
do _Conde Dirlos_, de _Calaynos_, e outros muitos que se podem vêr no
precioso trabalho do infatigavel Don Agustin Duran.[7] Os
commentadores de Ticknor são de opinião, que antes das collecções os
romances não andaram em _pliegos sueltos_, e fundam-se no prologo de
Najera: «Eu não nego que em muitos dos romances impressos hajam
casualmente erros; mas são devidos _ás copias d'onde os extraí_, copias
quasi sempre alteradas, e á fraqueza da memoria das pessoas que nol-os
dictavam e que se não podiam recordar perfeitamente.» D'onde concluem
que o povo se servia de _cadernos manuscriptos_.[8] Ao mesmo
tempo Martin Nucio imprimiu esta mesma collecção em Anvers, para uso
dos soldados e do povo que se achava fóra de Hespanha nos Paizes Baixos.
O gosto da época pelas trovas cultas fel-o adoptar o titulo de
_Cancionero_, com que então se nobilitavam todas as collecções. Emquanto
o gosto dos romances populares se vulgarisava em Hespanha, em Portugal
os poetas da corte de Affonso V e Dom João II não sonham a existencia
d'esse riquissimo veio de poesia, continuam nas suas trovas do _cuydar e
sospirar_. Apenas Garcia de Resende, chronista de Dom João II, e
collector das canções da sua corte, mostra ter conhecido esse
renascimento em uma glosa que fez a um romance velho, e em algumas
palavras da dedicatoria do _Cancioneiro geral_.
No _Cancioneiro geral_ sómente se depáram, com forma de romance, umas
trovas que fez Garcia de Resende á morte de Ignez de Castro, que
principiam:[9]
Eu era moça menina
per nome dona Ines
de Castro, e de tal doutrina
e vertudes, qu'era dina
de meu mal ser ho rreues.
Uivia, sem me lembrar
que paixan podia dar,
nem dal-a ninguem a mim;
foy m'o principe olhar
por seu nojo e mynha fim.
N'este tempo a fórma do romance popular estava despresada completamente;
Garcia de Resende, traz mais um romance fragmentado, conservado a a
pretexto da glosa:[10]
RYMANÇE
Tyempo bueno, tyempo bueno,
quyen te llevo de my!
Qu'en acordar-me de ti
todo plazer m'es ajeno.
Fue tyempo y oras ufanas,
em que mys dias gozaron.
Mas en elhas se sembrarom
la symyente de mys canas.
Quyen no lhora lo passado,
vyendo qual va lo presente?
Quyen busca mas açydente
de lo qu'el tiempo l'a dado?
Yo me vy ser byen amado,
my deseo em alta çyma.
Contemplar em tal estado
la memorea me lastyma.
Y pues todo m'es ausente,
no ssé qual estremo escoja,
Byen y mal, todo m'anoja:
mesquyno, de quyen lo syente!
Este romance parece uma imitação dos dois celebres romances conservados
no _Cancionero general_ de Hernando del Castillo, _Fonte frida, Fonte
frida_, e _Rosa fresca, Rosa fresca_, muitas e muitas vezes glosados
pelos poetas palacianos. O romance de _Tyempo bueno_ é um trecho
conservado por causa da glosa. Então o renascimento das canções
provençaes distrahia os serões das principaes cortes da Europa.
O romance popular era antigo e invariavel nos seus moldes; muitas das
suas strophes tinham-se convertido em proverbio, como se vêem no _Don
Quijote_; não se prestando a perpetuar as anecdotas palacianas, a glosa
veiu mobilisal-o. O romance popular, simples de condição, franco, rude,
tocava a verdade na sua espontaneidade mais divina; era narrativo, não
sabia abstraír, dramatisava, accumulava as situações. Era preciso um
genio superior para comprehender a sua ingenuidade profunda. Lope de
Vega foi um dos primeiros que lhe deu importancia; começou por mostrar
que o metro octasyllabo servia para exprimir os mais altos pensamentos e
poz em forma de romance os dolorosissimos passos da Paixão. Rengifo, na
_Poetica española_, reconhece a superioridade do romance.[11]
Só Gil Vicente foi o unico escriptor portuguez do seculo XVI conhecedor
da vida do povo, das suas superstições e dos seus cantos. Na _Comedia de
Rubena_, representada em 1521, cita um grande numero de romances
populares, a que allude, como a cousa que por sabida não repete. É certo
que o nosso povo, apesar do despreso dos cultistas, continuou a acceitar
o romance, e doutra sorte se não explica a reimpressão do _Cancionero de
Anvers_ em Portugal por Manoel de Lyra em 1551; a apparição do pequeno
in-12, intitulado _Ramilhete de flores: cuarta, quinta e sexta partes de
romances nuevos hasta agora não impressos_, que Pedro de Flores,
collector do _Romancero generale_, imprimiu em Lisboa em casa de Antonio
Alvares em 1593; bem como o _Romancero del Cid_ de Juan de Escobar, em
Lisboa em 1605, 1613 e em 1615, e a _Primavera y Flor de los mejores
romances_ tambem em Lisboa, nos prelos de Matheus Pinheiro, em 1626.
O romance de _Dom Duardos_, composto por Gil Vicente, foi recolhido no
_Cancionero de Romances_ como anonymo, e assim a historia dos amores de
Bernardim Ribeiro. Na _Menina e Moça_ encontra-se o solao da _Ama_ e o
romance de _Avalor_, mas com a difficil alliança do artificio
provençalesco com a naturalidade da alma popular. Nas novellas
cavalheirescas usava-se intercalar varias composições poeticas; no
_Memorial dos cavalleiros da Tavola Redonda_ de Jorge Ferreira, se lêem
muitos romances do cyclo troyano, do cyclo de Arthur, da historia de
Roma, como então os fazia Gabriel Lasso de la Vega e Juan de la Cueva;
mas é para notar que alguns dos romances de Jorge Ferreira se parecem
muito com os romances da tradição, conservados no _Cancionero de
Anvers_, taes como os que tratam da morte de Policena. Quando a eschola
italiana se introduziu em Portugal procurou tambem banir das composições
poeticas o octosyllabo da redondilha.
A eschola italiana não foi introduzida sem lucta na Peninsula; em
Hespanha conhece-se bem qual foi a grandeza do combate. Em Portugal
quasi nada consta, a não serem umas allusões de Sá de Miranda, de
Ferreira e Bernardes. Boscan e Garcilasso davam-se por introductores em
Hespanha dos novos metros italianos, fazendo uma revolução na poetica,
pela qual o octasyllabo popular era expungido, substituido pelo
endecasyllabo heroico. Argote de Molina nega-lhes o invento, e Lope de
Vega decide-se abertamente pelo velho e despresado octasyllabo, como o
metro espontaneo da lingua hespanhola. Na edição do _Conde de Lucanor_
de 1575, Gonzalo Argote de Molina, publicou um _Discurso sobre a poesia
antiga castelhana_, em que diz: «Bolviendo al proposito, los Castellanos
y Catalanes guardaron en esta composicion (redondilla) cierto numero de
pies ligados, com cierta ley de consonantes, por la qual ligadura se
llamó COPLA, compostura cierto graciosa, dulce, y de agradable
facilidad, y capaz de todo el ornato que qualquer verso puede toner, _si
se les persuadiesse esto a los Poetas deste tiempo, que cada dia la van
olvidando, por la gravedad y artificio de las rimas Italianas_, à
pesar del bueno de Castillejo, que desto graciosamente se quexa en sus
coplas, el qual tiene en su favor, y de su parte el exemplo deste
Principe Don Juan Manoel, y de otros cavalleros muy principales
castellanos, que se pagaram mucho desta composicion, como fueron el Rey
Don Alonso el Sabio, el Rey Don Juan el Segundo, el Marquez de
Santillana, Don Henrique de Villena, y otros de los quales leemos coplas
y canciones de muy gracioso donaire.»[12]
Este documento revela-nos a reação contra a poetica estrangeira. Mas bem
vistas as cousas, a questão provinha de se não ter conhecido ainda a
unidade das linguas romanas. Argote de Molina, provando que os metros
endecasyllabos já existiam na velha poesia castelhana, afirmava
insensivelmente a unidade da poetica das linguas neo-latinas.
Transcrevemos aqui a sua opinião, para uso dos que ainda attribuem a
Boscan e Garcilasso essa reforma ou renascença poetica, que vulgarisou
os versos grandes ou endecasyllabos: «Es grave, lleno, capaz de todo
ornamento y figura, y finalmente entre todos generos de versos le
podemos llamar Heroico, el qual a cabo de algunos siglos que andava
desterrado de su naturaleza, ha buelto a España, donde ha sido bien
recebido, y tratado como natural, y aun se puede dezir, que en nuestra
lengua, por la elegancia e dulçura della, es mas liso y sonoro que en
alguna vez paresce en la Italiana.--No fueron los primeros que los
restituyeron a España el Boscan e Garcilasso (como algunos creen) porque
ya en tiempo del Rey Don Juan el Segundo era usado, como vemos en el
libro de los Sonetos y Canciones del Marquez de Santillana, que yo
tengo, aunque fueron los primeros que mejor le trataron, particularmente
el Garcilasso, que en la dulçura y lindeza de concetos, y en el arte y
elegancia no deve nada al Petrarca, ni à los demas excelentes Poetas de
Italia.»[13] A lucta contra a introducção dos versos italianos
foi renhida; os buccolistas chamavam ao verso octasyllabo _humilde_ e
_rasteiro_. Lope de Vega, com a auctoridade do seu grande nome,
decide-se pelo verso nacional, e escreve o poema de _Santo Isidro_ para
o fazer valer em um assumpto religioso: «y de ser en este genero que ya
los Españoles llaman _humilde_, no doy ninguna, porque no pienso que el
verso largo Italiano haga ventaja al nuestro: que si en España lo dizen,
es porque no sabiendo hazer el suo, se passan al estrangero, como mas
largo, y licencioso: y yo sè que algunos Italianos embidian la gracia,
difficultad y sonido de nuestras redondillas, y aun han querido
imitallas, como lo hizo Seraphino Aquilano... Llamando a nuestras coplas
castellanas Barzeletas, ò Fretolas, que mejor las pudiera llamar
sentencias, y concetos, desnudos de todo cansado y inutil artificio, que
cosa iguala á una redondilla de Garci Sanches, ò Don Diego de Mendoça:
perdone el divino Garcilasso, que tanta occasion dio para que se
lamentasse Castillejo, festivo e ingenioso poeta castellano, a quien
parecia mucho Luis Gualvez Montalvo, con cuya muerte subita se perdieron
muchas floridas coplas de este genero, particularmente la traducion de
la Jerusalem de Torcato Tasso, que parece que se avia ydo á Italia à
escrivirlas para meterles las higas en los ojos. Maravillosas son las
estancias del excelente portugues Camões: pero la mejor no yguala
a sus mismas _redondilhas_, etc.» [14]
O proprio Boscan, no prologo ao livro II das suas poesias, descreve os
ataques que soffreu a nova eschola, e nos revela a quem foi devida a
idêa para a revolução na poetica nacional. Um cavalleiro italiano, muito
conhecido em Hespanha pelo seu gosto e importancia individual, Navajero,
estando a conversar em cousas de letras, lembrou-lhe que experimentasse
as trovas usadas pelos bons autores de Italia. Boscan cedeu ás
instancias e experimentou; a final o verso endecasyllabo moldava-se á
nova forma, como se fosse creado com ella. Garcilasso veiu imprimir o
cunho da perfeição á nova tentativa. Aqui estão os dois modelos tão
imitados em Portugal pelos poetas quinhentistas. O metro octosyllabo
ficou desprezado; e as composições do povo que o preferiam, ficaram até
ao principio d'este seculo desconhecidas.
O metro espontaneo das linguas hespanhola e portugueza é a redondilha
octosyllabica; o verso da redondilha sae falado, natural, sem se pensar.
No _Discurso sobre la lengua castellana_ de Argote y de Molina, vem:
«Leemos algunas coplillas Italianas antiguas en este verso, pero el es
proprio e natural de España, en cuya lengua se halla mas antiguo que en
alguna otra de las vulgares, y assi en ella solamente tiene toda la
gracia, lindez e agudez que es mas propria del ingenio Español, que de
otro alguno.--En el qual genero de verso al principio se celebravan en
Castilla las hazañas y proezas antiguas de los Reys, y los trances y
successos assi de la paz, como de la guerra, y los hechos notables de
los Condes, Cavalleros, y Infançones, como son testimonio los
_Romances antiguos castellanos_, assi como el del Rey Ramiro cuyo
principio es: _Ya se assienta el Rey Ramiro._»[15]
Muitas vezes a historia era fundada sobre os romances da tradição oral;
Esteban de Garibay y Zamalloa traz na sua Historia varios romances
vasconços. D'elles, diz Argote: «en los quales romances hasta oy dia se
perpetua la memoria de los passados, y son una buena parte de las
antiguas historias castellanas de quien el Rey Don Alonso se aprovechó
en su historia, y en ella se conserva la antiguidad, y propriedad de
nuestra lengua.»[16] Só a contar do seculo XVI é que os
romances populares começaram a tomar uma natureza artificial; até aí as
chronicas procuravam o subsidio da tradicção oral; d'aí por diante os
poetas iam tirar d'ellas os motivos e factos para os seus romances.
Sepulveda poz em verso os principaes factos da Chronica de Affonso o Sabio.
O que se dava em Hespanha acontecia egualmente em Portugal; Gil Vicente
cantava em romances a morte de Dom Manoel, a acclamação de João III, o
casamento e partida da Infanta Dona Beatriz, o nascimento de Dom Filippe.
Era a moda do tempo, como confessa o proprio Sepulveda no prologo da sua
collecção: «va puesto en estyllo que vuestra merced lea. Digo en metro
Castellano y en tono de _Romances viejos, que és lo que agora se usa_.»[17]
Por este tempo entraram na tradição do povo muitos romances de formação
litteraria. O romance de _Don Duardos_, de Gil Vicente, foi recolhido nos
Romanceiros hespanhoes; o Cavalheiro de Oliveira o colligiu outra vez da
versão oral, e ha pouco nos veiu da Ilha de Sam Jorge, da freguezia dos
Rosaes, outra variante não menos veneranda, se não mais pura. Estes
romances eram intencionalmente compostos para serem cantados, em logar dos
_velhos_ e quasi perdidos da Tavola Redonda e do Cyclo carolino. Dil-o
Sepulveda no prologo da sua collecção: que a fizera «para aprovechar-se los
que cantarlos quisieren, en logar de otros muchos que yo he visto impressos
y de muy poco fructo.»[18] Estes romances, a que allude Sepulveda com
desprezo, são hoje a parte mais bella e divina dos Romanceiros da
Peninsula. Portanto, pode dizer-se, que a transformação erudita do romance
popular foi devida á falta de comprehensão dos cultistas litterarios. O
mesmo tinha já succedido no seculo XV, quando o Marquez de Santillana,
enlevado com os artificios da poetica provençal, considerava como _infimos_
e _despresiveis_ os que cultivavam a forma do romance. No seculo XVI, a
imitação do classicismo e dos metros italianos fez novamente desprezar o
metro octosyllabo pelo endecasyllabo heroico. Os que sustentam o combate
pelo metro popular, como Lope de Vega, Argote y de Molina e Sepulveda,
entregam-se ao romance como á forma mais do gosto do publico não
accostumado ás canções petrarchistas. Não deixa de ser curiosa a lucta
entre a eschola italiana e a nacional, em Hespanha suscitada por Boscan e
Garcilasso, e em Portugal pelo Doutor Francisco de Sá de Miranda. Na sua
viagem á Italia, Sá de Miranda tomou conhecimento da nova poesia; elle fala
dos Provençaes, de Dante, de Petrarcha, de Ariosto, de Bembo, e quiz
implantar cá esses modelos. Não foi bem acolhido o pensamento. Egual
arruido ao que se fez com Boscan, suscitou a tentativa de Sá de Miranda.
Ninguem fala n'essa lucta; mas nos poetas quinhentistas se acham a cada
pagina rastos de uma mal ferida pugna.
Sobre a introducção da eschola italiana, diz Sá de Miranda na Ecloga IV,
a Dom Manoel de Portugal, _lume do Paço_, das musas mimoso:
que são dignos
De perdão os começos já que fiz
Aberta aos bons cantares peregrinos,
Fiz o que pude....[19]
Riram-se dos novos metros; e Sá de Miranda quando esperava o bom
acolhimento da boa obra,
ouve aos sisos
Medo (que assi o confesso) e a uns pontosos
De rostro carregados, e de uns risos
Sardonios, ou mais claro, maliciosos.
Antonio Pereira de Marramaque, senhor de Basto, da familia dos Forjazes
e Pereiras, offereceu a Sá de Miranda um exemplar das obras de
Garcilasso, quando elle se retirára para a sua casa de campo.
Agradecendo-lhe a offerta que o distrahia na solidão, ainda Sá de
Miranda se lembra dos esforços que fez para implantar a nova eschola:
Que el son que me aplazia
Por mi hiziesse a plazer a nuestra gente.[20]
E na morte de Garcilasso canta:
Al tan antiguo aprisco
De Lassos de La Vega
Tuyo, el nuestro de Sá viste augmentado.[21]
A eschola italiana, fundada por Sá de Miranda, teve por adeptos a Pero
de Andrade Caminha, a Ferreira e Bernardes, que se proclamaram
discipulos do poeta. Caminha envia-lhe os seus versos, para
que os queiraes vêr
E riscar, e emendar, porque emendados
Por vós, possam andar mais confiados
Do que por meus poderam merecer.[22]
Dom Manoel de Portugal tambem lhe envia poesias suas para serem revistas:
Por isso ante vós vão tão confiadas,
Rarissimo Francisco, e excellente,
A rudeza do estylo differente,
E as incultas estanças desornadas.
Diogo Bernardes como estreia do anno novo envia-lhe uma copia das suas
Flores do Lima, como se deprehende do soneto XXIV:
Neste começo do anno, em tão bom dia
Tão claro, porque não faleça nada,
Me foi da vossa parte appresentada
Vossa composição boa á porfia.
N'este mesmo soneto refere-se Sá de Miranda ás difficuldades que teve a
eschola italiana ao introduzir-se em Portugal:
De espanto me enche quanto ali via,
E mais em parte cá tão desviada
Sempre até agora da direita estrada
De Clio, de Caliope e Thalia.
Sá de Miranda tambem louva Jorge de Monte-Mayor, introductor da novella
pastoril italiana na Peninsula. A lucta entre os poetas _velhos_, como
chamavam aos partidarios da redondilha antiga, e os da eschola
italiana, conhece-se que foi renhida pelas frequentes allusões dos
quinhentistas; não ha porém documentos que esclareçam a historia d'essas
luctas tão vulgares no dominio da litteratura. A maledicencia não era
poupada de parte a parte:
Em tal sasão, tempo tão avaro
De louvores alheios, em tal dano
Dos engenhos, que se acham sem amparo.[23]
Antonio Ferreira dá a entender estas mesmas guerras, em uma Carta a Sá
de Miranda:
Já contra «a tyrannia do costume»
Que té qui, como escravos em cadeias
Os tinha, subir tentam ao alto cume
Do teu sagrado monte, d'onde as veias
Desse licor riquissimas assiste
De que já correm mil ribeiras cheias.
...................................
Mas oh tempos crueis! (sôe meu grito
Por todo o mundo) mas, ah tempos duros,
Em que não sôa bem o bom escripto.[24]
N'esta outra Carta de Ferreira a Antonio de Sá de Menezes, descobre a
malevolencia que havia contra a eschola italiana:
Já esta nossa terra engenhos tem
Das musas bem criados, «mas mal criados»
Que sempre o mal anda abatendo o bem.[25]
A final triumphou a eschola italiana, e com ella começou a decadencia da
poesia nacional dos dois povos da Peninsula. Os romances populares
caíram em um immenso desprezo; nos escriptores de quinhentos encontrámos
bastantes allusoes a romances tradicionaes, mas citam-nos de
passagem, como quem se envergonha de uma cousa baixa.
Jorge Ferreira de Vasconcellos, no _Memorial dos Cavalleiros da Tavola
Redonda_, (p. 348) descrevendo umas festas do tempo de Dom João III,
diz: «dentro vinha assentada a Deosa Diana em meio de duas ninfas, uma
que tangia uma harpa, e outra um arrabilete, e a deosa cantando uma
estancia da primeira ecloga de Garcilasso que diz:
Por ti el silencio de la selva umbrosa.»
O gosto da Renascença classica, em quanto entre nós não baniu o romance
popular, serviu-se d'essa forma para popularisar as tradições da
antiguidade grega e romana. Jorge Ferreira é o unico que nos appresenta
alguns romances da historia de Troya; são elles tão parecidos com os do
_Cancionero de Anvers_, que suppômos até serem as suas versões em parte
aproveitadas da tradição oral, como foram os colligidos por Esteban de
Najera. O romance ao casto Scipião sobre a morte de Sophonisba tambem
foi romanceado por Juan de la Cueva no _Coro Febeo_; porém a lição de
Jorge Ferreira é mais resumida, mais filha da tradição; o mesmo se póde
dizer do romance da _Batalha de Pharsalia_ do mesmo, comparado com os de
Lobo Lasso de la Vega, no seu _Romancero y Tragedias_.
Como poderia um poeta classico considerar a poesia popular senão com
desprezo? Soropita, no seu _Prognostico do anno de 1595_, descreve as
festas das _Janeiras e Reis_ de um modo grotesco: «na noute da vespera
de janeiro e dos Reis, andarão cantando e tangendo pelas ruas, sem se
temerem da justiça, por serem noites privilegiadas em que não
correm o sino.»--Segundo elle os cantores nocturnos são «villões ruins
que essas noites vos perseguem; porque, quando vos não percataes,
achael-os á porta com seu pandeirinho eivado já do serão, e com mais
sarro na garganta do que as cubas dos frades loios; e com tudo isso, vos
põem em estado que forçosamente lhe haveis de louvar aquella musica de
agua pé com chocalhada, que toda a noute vos zune nos ouvidos como
bizouro, e sobre tudo isto haveis de lhe offertar os vossos quatro
vintens; e quando lh'os entregues, a candeia vos descobre o feitio dos
ditos musicos: um mocho com sombreiro, com mais chocas que um corredor
de folha, e lança-vos baforada de dentro d'aquellas fornalhas, que
parece que toda a vida estiveram de vinho e alhos, como entrecosto de
marrã.» (p. 79) Este trecho lança abundante luz sobre essas festas
domesticas dos nossos maiores.
A reacção catholica contra o movimento da Reforma atacou barbaramente os
cantos populares. Em Portugal não só as _Constituições dos Bispados_ o
provam, senão até o popular Gil Vicente, que se queixa da grande
tristeza em que caíra a alma do pobre povo:
Em Portugal vi eu já
Em cada casa pandeiro,
E gaita em cada palheiro;
E de vinte annos a cá
Não vi gaita, nem gaiteiro.
A cada porta um terreiro,
Cada aldeia dez folias.
Cada casa atabaqueiro;
E agora Jeremias
He nosso tamborileiro.
Isto descobre Gil Vicente na tragi-comedia do _Triumpho do Inverno_,
representada em Lisboa no parto da rainha Dona Catherina. Gil
Vicente foi o primeiro que sentiu o tremendo cataclysmo que ameaçava
este povo; elle não se cansou de clamar em todos os seus Autos, de
desmascarar o inimigo. Mas os presentimentos d'aquella grande alma não
tiveram mais valor do que as facecias de um jogral.
A influencia jesuitica fez-se notar pela proscripção da poesia popular
no Brazil. O padre José Anchieta compoz o _Auto da Pregação Universal_,
para expungir do templo os Autos populares.[26]
Na vida do padre Simão de Vasconcellos, diz o padre Anchieta, falando
das crianças selvagens que educavam: «Espalhavam-se á noite pelas casas
de seus parentes a cantar as cantigas pias de José (Anchieta) em propria
lingua, contrapostas ás que elles _costumavam_ cantar vãs e
gentilicas.»[27]
Da poesia popular do Brazil nos seculos XVI e XVII, diz Varnhagem: «Das
_modinhas_ poucas conhecemos; e essas insignificantes e de epoca
incerta, a não ser a bahiana:
Bangué, que será de ti?
glosada por Gregorio de Matos: essa mesma sabemos ser antiga, mas não
nos foi possivel alcançal-a completa. Não deixaremos de commemorar a do
_Vitú_, que crêmos ter o sabor do primeiro seculo da colonisação, o que
parece comprovar-se com ser em todas as provincias do Brazil tão
conhecida. Diz assim:
«Vem cá, Vitú! Vem cá, Vitú!
--Não vou lá, não vou lá, não vou lá--:
«Que é d'elle o teu camarada?
--Agua do monte o levou.
«Não foi agua, não foi nada,
Foi cachaça que o matou.
Igualmente antiga nos parece esta modinha paulista:
Mandei fazer um balaio
Para botar algodão.[28]
Os livros populares da Allemanha foram publicados no bello trabalho de
Göerres (_Volksbucher._) Entre nós nunca se recolheram as formulas
symbolicas das jurandas, mas é certo que existiam, como se descobre pelo
regimento dos officios na procissão de _Corpus_. (Extrahil-o de J. P.
Ribeiro.) Os livros populares portuguezes são quasi todos de origem
estrangeira; o _Bertholdo e Bertholdino_, de origem italiana, são para o
Meio Dia o mesmo que o _Eulenspiegel_ para os camponios allemães. A
Reforma restringiu a litteratura popular da Allemanha; no Meio Dia baniu
a poesia, amaldiçoôu a cantiga do pobre. Basta abrirmos as
_Constituições dos Bispados_, o _Index do Santo Officio_, para vêrmos
como o catholicismo se debateu em tudo contra o receio da emancipação
canonica. A novella de _Roberto do Diabo_ acha-se condemnada no _Index
Expurgatorio_ de 1580, bem como a maior parte das comedias dos auctores
mais populares, como Gil Vicente e Balthazar Dias, e assim os romances
que andavam na tradição da Peninsula, como o do _Mouro Calaynos e todos
os tirados da letra da Escriptura_. O odio do catholicismo ao movimento
espontaneo da Reforma creou a perseguição dos _Lollards_, e tornou estes
povos da Peninsula sombrios, melancholicos, desconfiados;
matou-lhes a poesia, embruteceu-os. Os cantos populares da Peninsula,
que o povo repete hoje fragmentados, são todos dos fins do seculo XV.
Que seiva de genio n'esse tempo! que differença de sentimento!
Comparem-se os romances de _Fonte frida_ e _Rosa fresca_, de _Mora
Moraina_ com as contrafações do gosto popular das eclogas e mesmo dos
romances do seculo XVII!
A arte é como a consciencia pura; uma leve falsidade a perturba, e a
obriga a trahir-se. O Concilio de Trento imprimiu unidade á Egreja, mas
tirou-lhe a espontaneidade do sentimento, que a tinha tornado universal.
Christo ficou desthronado pelo Papa.
Os livros populares portuguezes de _folha volante_, que se vendiam pelas
feiras, na arqueta do belfurinheiro, ou no barbante do cego, foram
tambem condemnados pelos meticulosos da censura inquisitorial: «Os
vendedores de _Autos_ e _Cartilhas_, não vendam, nem comprem para
vender, outros livros sem primeiro os mostrarem ao Revedor: porque
algumas pessoas escondidamente tem alguns livros, que elles compram e
vendem, sem saber o que ha nos taes livros, e se seguem d'isso
inconvenientes: e ha enformação, que nas taes tendas, se acham livros
suspectos e perjudiciaes. E os sollicitadores do Santo Officio visitarão
algumas vezes os ditos logares e farão saber ao Revedor, os livros que
ali se vendem. O mesmo se fará dos _livros que se vendem nas
feiras_.»[29]
Quando Garcia de Resende, na _Miscellanea_, fala das varias dansas que
se usaram nas cortes de D. Affonso V e D. João II, é já como de
uma cousa que passára de moda, como reprovada:
Vimos grandes judarias,
Judeos, guinolas e touras,
tambem mouras, mourarias,
seus bailes, galantarias
de muitas fermozas mouras
sempre nas festas reaes
s'eram os dias principaes
festa de mouros avia;
tambem festa se fazia
que non podia ser mais.
Vimos costume bem cham
nos reys ter esta maneira
corpo de Deos, Sam Joam
aver canas, procissam,
aos domingos carreira,
cavalgar pela cidade
com muyta solennidade,
ver correr, saltar, luctar,
dançar, caçar, montear
em seus tempos e hidade.
Como não seriam engraçadas essas danças judengas e mouriscas, das quaes
diz um poeta do _Cancioneiro geral_ de 1516:
Doçe baylo da Mourisca
mil sentidos faz perder,
e la mete huma lal trisca
que é muy má de guarecer.[30]
Esses jogos que se usavam na corte de Affonso V e Dom João II, que o
Coudel Mór tanto recommendava a seu sobrinho Garcia de Mello de Serpa
para saber tratar no paço, foram banidos mais tarde pela influencia
monastica, ficando os serões da corte uma cousa sorumbatica, como d'isso
se queixa o bom Sá de Miranda. Eis os jogos e passatempos que Fernão da
Silveira ennumera:
Item manha de louvar
he jugar bem o «malham,»
e o «jogo do piam»
favor se lhe deve dar.
Nem sey porque mays vos gabe
ser gram pescador de «vasa;»
mas «jogar a abadalassa»
em qualquer galante cabe.
Saber bem a «pega-chuna,»
e o «cubre bem jugar,»
sam duas para medrar
galante contra fortuna.
Nem saberia a hum fylho
escolher mylhor conselho,
se nam que jogo-o «fytelho,»
«jaldeta, cunca, sarilho.»[31]
Estes jogos passaram da corte para o povo; o mesmo succedeu com as
antigas festas do Espirito-Santo. Costa e Silva diz dos jogos que
apontámos: «sam propriedade exclusiva dos garotos, dos rapazes e dos
frequentadores das tabernas e das hortas de Chelas e de Arroios.»
Camões na comedia de _Philodemo_, em uma rubrica, cita varios
instrumentos musicos das serenadas: «N'este passo se dá a musica com
todos quatro, um tange _guitarra_, outro _pentem_, outro _telhinha_,
outro _canta cantigas muito velhas_...»[32]
Dos instrumentos musicos usados no seculo XVII, fala D. Francisco Manoel
de Mello, no _Fidalgo Aprendiz_:
MESTRE. Ha em casa algum «laúde?»
AFFONSO. Não ha mais que um «birimbao.»
MESTRE. «Violas?»
AFFONSO. Sim, achareis
Na botica.
MESTRE. «Arpa?»
AFFONSO. De couro.
MESTRE. Nem um «sestro?»
AFFONSO. Um sestro agouro.
MESTRE. Nem sequer dois «cascaveis?»
N'esta comedia allude tambem ás danças então usadas:
GIL. Pois Mestre, que mais sabeis?
MESTRE. Uma «Alta,» um «Pé de xibao,»
«Galharda, Pavana rica,»
E nestas novas mudanças;
GIL. Tende que isso não são dansas
Se não cousas de botica.
Sabeís o «Sapateado?»
O «Terollero?» o «Villão?»
O «Mochachim?»
MESTRE. Senhor, não.
GIL. Pois sois Mestre mui minguado.[33]
Além da eschola italiana e do Santo Officio, as influencias da corte
tambem combateram a poesia popular portugueza. No tempo de Dom Manoel os
romances hespanhoes eram de preferencia estimados em Portugal; Damião de
Goes queixa-se da importancia que os _chocarreiros_ castelhanos gosavam
na corte portugueza. El-rei queria aliviar as saudades da filha de
Fernando e Isabel com os cantares da sua patria. A _letra castelhana_
era só ouvida, como diz D. Francisco Manoel; os ouvidos portuguezes
estavam aforados por essas trovas, como os accusa Jorge Ferreira. Os
belfurinheiros portuguezes, que iam ás cidades de Hespanha vender os
productos do Oriente, tambem traziam de lá boa copia d'esses romances.
Assim, ao cultismo da eschola italiana, á pressão do Santo Officio
depois da Reforma, accresceu mais esta causa que não deixou florir o
romance popular portuguez, e lhe imprimiu feições que lhe não eram
naturaes.
No _Romancero Generale_, vem um romance cujo heroe é um apaixonado
portuguez victima de uma intriga amorosa; por elle se descobrem os
nossos costumes antigos. No seculo XVI, os feirantes portuguezes
iam levar pelas cidades de Hespanha os productos orientaes. Um d'esses,
em um logar da Mancha, namorou uma mulher casada:
Alabábale su tiera,
Su nacion, su fidalguia,
Su musica, sus regalos,
Su espada en Africa limpia,
Prometiendole en efecto
Las especies de las Indias,
Los olores de Lisboa,
Y los barros de la China.
De uma vez foi tocar-lhe uma serenada, cantando-lhe _em portuguez_ este
romance do Cid:
--Afora, afora Rodrigo,
El soberbo castejano,
Acordar-se-te deveras
D'aquelle tempo já passado.
Quando te armei cavalleiro
No altar de Santiago:
Minha mãe te deu las armas,
Miño pae te deu el cabalo, etc.
Este romance tambem se encontra citado por Camões. Continuando a
historia, o vendilhão entrou em casa da dama; dentro estava escondido o
marido e alguns amigos que correram a pau o aventureiro galanteador.
Esta classe de feirantes desappareceu quando perdemos as nossas
conquistas. N'este mesmo romance se encontra um _cantarcillo_ em
portuguez, que desappareceu da tradição oral, e que talvez se refira ao
tempo de D. João I:
Pois que Madanella
Remediou meu mal,
Viva Portugal
E morra Castella.
Seja amor testigo
De tamanho bem;
Não chegue ninguem
A zombar commigo.
Que a espada é rodela,
A forneira sal:
«Viva Portugal
«E morra Castella.
Se o _Romanceiro hespanhol_ é mais extenso e antigo do que o portuguez
deve-se isso á curiosidade dos livreiros de Saragoça, de Anvers, e de
Sevilha, e não á esterilidade do genio do nosso povo. Se agrupassemos as
innumeras allusões aos romances populares que se encontram nos
quinhentistas, recomporíamos o Romanceiro portuguez e veriamos que não
sômos menos ricos do que os nossos visinhos. Eis algumas citações
passageiras, deixando de apontar muitas que ficaram já na _Historia da
poesia popular portugueza_:
Quando o Conde de Marialva se queixou a Dom João III da affronta do
Marquez de Torres Novas, que se declarou marido da filha Dona Guiomar,
Frei Luiz de Sousa põe-lhe na bocca as seguintes palavras: «Não fizeram
verdadeiramente mais affronta que esta os _Infantes de Carrion_ ás
filhas do Cid Ruy Dias, com quem eram casados. Porque se as deixaram no
campo desamparadas, eram seus maridos; tomavam vingança de sy, e de sua
honra propria, da qual podiam usar bem ou mal, como cada um faz do
seu.»[34]
O poema de _Alexandre_, tão popular na Europa da edade media, tem
origens orientaes; conheceram-nas em Portugal por influencia das nossas
relações maritimas com o Oriente. Em uma carta que Luiz Falcão escreveu
de Ormuz a D. João de Castro, em 1546, vem citada uma _estorya de
Allyxamdre_: «Alleyxes de carualho me dixe da parte de vosa s. que lhe
mãodase _allyxamdre_ hem persyo: lla lho mãodo, haindaque has escreturas
destes mouros, tenho-as por menos autemtes que has nosas. Nese llyvro
vam houtras _estoryas_ hafóra has _d'allyxamdre_, has quays me
parese que follguará mays com ellas etc.» A esta mesma historia allude
uma carta de Garcia de la Penha: «Aleyxes carvalho pedio qua a el-rey e
goazil hemires hum livro da _ystoria dalyxamdre_. Com muyto trabalho
acharão hum, que lhe mandão.» Este livro, por outra allusão d'esta
carta, se conhece que era novella ou tradição cavalheiresca: «Peço a
vosa s. que ho livro, e a mim com ele, queyra aver por seus com aquela
vomtade e desejo, que noso senhor sabe que lho eu ofreço, _cujo estado
he castidade, acompanhada de tantas virtudes, como dizem que
está_.»[35] A virtude da castidade era caracteristica dos
heroes cavalheirescos, como se vê no _Galaaz_; os heroes eram quasi
sempre _parthenios_ ou filhos de virgens.
Camões nas suas obras allude a muitos romances cavalheirescos. Na Carta
II,[36] vem o verso _Afuera, afuera Rodrigo_, que é o principio do
romance XXVI do _Romancero do Cid_, da edição de Lisboa de 1605, (p. 42)
que se intitula: _De como se quexa Doña Urraca al Cid por la embaxada
que trae del Rey Don Sancho._ O verso:
Afuera, afuera Rodrigo
encontra-se em outros romances, como no XXV; e o verso:
El sobervio castellano,
que forma com o antecedente o estribilho popular, tambem se lê no V
romance.
Camões allude a outro romance do Cid na primeira Carta escripta da
India, citando os dois versos:
Riberas de Duero arriba
Cavalgaran Çamoranos;[37]
Na Comedia de _El rei Seleuco_, cita o romance do _Mouro Calaynos_,
prohibido pelo _Index Expurgatorio_ de 1624, nos versos:
Ya cavalga Calaynos
A la sombra de una oliva.[38]
Nos _Disparates da india_ cita os primeiros dois versos do romance do
Cativo, tal como principia no _Cancionero de Romances_, de Anvers:
Mi padre era de Ronda,
Mi madre de l'Antequera, etc.[39]
Na Comedia de _Philodemo_, allude Camões ao romance de _Bernardo del
Carpio_, nos versos:
Mi cama son duras peñas,
Mi dormir siempre es velar.
...........................
Su comer las carnes crudas,
Su bever la viva sangre.[40]
A romances e cantigas desconhecidas allude nos versos da comedia
d'_El-rei Seleuco_:
Ouviste vós cantar já:
Velho malo em minha cama?
e n'esta passagem:
Dizei, porque não dissestes:
La que yo vi por mi mal.
No prologo d'esta mesma comedia Camões lembra uma cantiga desconhecida:
«e tras ellas vem logo outo mundanos metidos em um covão, cantando:
Quem os amores tem em Cintra.»[41]
Bem como esta cantiga popular, de que se recorda:
Meu bem e meu mal
Lutaram um dia;
Meu bem era tal
Que o mal o vencia.
Camões glosou uma velha cantiga que começa:
De pequena tomei amor,[42]
talvez a mesma a que allude Gil Vicente na Comedia de _Rubena_, que
principia:
De pequena matais (tomais?) amor.
Todos estes factos revelam o profundo sentimento da alma popular que
possuia Camões.
No tempo em que os romances da tradição oral foram glosados pelos poetas
cultos, como o declara a _Poetica_ de Rengifo,[43] em Portugal
soffreram tambem egual modificação. Bernardim Ribeiro glosou o celebre
romance de _Durandarte_, desde o verso:
Oh Belerma, oh Belerma.[44]
Na _Chronica de Dom Sebastião_, de Frei Bernardo da Cruz, vem citado o
romance de _Don Rodrigo_:
Ayer fuiste rey de España;
Hoy no tienes um castillo.[45]
Os romances dos _Sete Infantes de Lara_ acham-se citados por Gil Vicente
nos versos iniciaes:
Em Paris está Dona Alda, etc.
Los hijos de Dona Sancha, etc,
Mal me quieren en Castilla, etc.
bem como o celebre romance da _Bella mal maridada_, que no _Cancioneiro
geral_ de 1516 vem referido em uma trova de Nuno Pereira contra D.
Leonor da Sylva. Assim como os romances hespanhoes eram conhecidos em
Portugal, tambem muitos successos da historia portugueza foram
romanceados pelos autores hespanhoes; ha porém cantigas populares
castelhanas a successos particulares, como aquella canção que se refere
aos amores de Dom Fernando I: «el rey Don Fernando de Portugal e la
muger de Juan Lorenzo de Acuña, que este rey Don Fernando le tomó por
amores que della ovo; é por esta se levantó la cancion que dice:
Ay, donas! porque tristura?
y por esta causa el dicho Juan Lorenzo traia unos cuernos de oro en la
cabeça por estes reynos de Castilla; y el rey Don Fernando de Portugal
casó con ella, fué llamada la reyna doña Isabel, que la deçian _la flor
de altura_.»[46]
Dom Francisco Manoel de Mello, além de ter escripto varios romances
mouriscos, cita os mais celebres, como o de Dragut:
Se ha dez annos que amarrado
Qual forçado de Dragut.[47]
No romance XXII da _Citara de Erato_, allude ao romance de _Gaifeyros_
nos versos:
Perguntad allà en la Corte
Por la virtud, y os diran:
«Si is a Francia el cavallero
Por Gayfeiros perguntad.»[48]
e ao romance do Mouro Zaide:
Trago a rojo lá do Minho
Mais prisões que um mouro Zaide.[49]
Mais loução que Don Reynaldos.[50]
Na _Avena de Tersicore_, traz uma parodia da _Bella mal maridada_:
Biudilha mal maridada, etc.[51]
Dom Francisco Manoel de Mello cultivou com predilecção a forma do
romance tal como se usava no seculo XVII; no primeiro côro das suas
_Tres Musas de Melodino_, imita os romances mourisco, usados pelos
cultistas castelhanos. O romance de Aben-Humea começa:
Ya por la puerta de Elvira
Saliendo vá de Granada
Aben-Humea, el quexoso
De su rey, e de su dama.
Canta tambem o romance de Celidaja:
Texiendo está Celidaya,
La hermosa hija del Rey,
Zambras de sus bellas Moras
Una tarde en su vergel.
Traz tambem o romance de Ali-Aben, e de Xacen y Belaja. Não os
transcrevemos na _Floresta_ por serem todos em hespanhol. Na segunda
jornada do _Fidalgo Aprendiz_, Dom Francisco Manoel de Mello faz-nos a
historia do romance no seculo XVII, nas allusões da seguinte scena:
BRITES. Entoay por meu prazer
qualquer cousa.
GIL. Sem guitarra?
BRITES. Eylla tomay.
(Dá-lhe uma viola, tange como quem quer cantar.)
GIL. (Pois que não posso al fazer.
BRITES. Ay que canta, e não escarra!)
GIL. Ora eylo vay:
(Canta Dom Gil o melhor que pode o que se segue:)
«Passeava-se Silvana
por um corredor um dia...»
BRITES. Ay Senhor? eu não queria
Senão letra castelhana.
GIL. Cantarey algaravia
se mandais, pois que quereis?
BRITES. Huma letra nova quero.
GIL. (Canta:)
«A cazar vá Cavallero...»
BRITES. Ay mãy! assinte o fazeis?
por isso eu me desespero.
GIL. Ora estay, que já entendo
quereis Romances trovados:
«Mis amorosos cuidados,
Como se estaran durmendo.»
BRITES. Isto foram meus peccados!
Vos cuido que estaes zombando.
Ora dizei.
GIL. Já me estanco:
«Gavião, gavião branco
Vae ferido e vae voando.»
BRITES. Huy pelo passar o manco
Sabeis alguma ao Divino?
GIL. Sey.
BRITES. Dizei.
GIL. Pois é formosa:
«Andorinha gloriosa.»
BRITES. Tendes cousas de menino.
GIL. Sou todo Amor, minha rosa.[52]