Ora a civilisação tem evolucionado profundamente a maneira de pensar das

creanças.

Quasi se póde affirmar que já não ha creanças, pois que essas pequeninas

creaturas, que eu por ahi vejo a toda a hora em tão grande numero, são

antes espiritos adultos que povôam os corpos de verdadeiros cidadãos de

Lilliput.

Na minha infancia, havia ainda creanças, moralmente fallando, e eu

tambem o fui.

Até aos doze annos, divertia-se a gente em casa fazendo theatros e

egrejas. Eu fui actor e sachristão em minha casa; ou antes, eu só, no

_meu theatro_, valia por uma companhia inteira, desde o emprezario até

ao contra-regra, e, na _minha egreja_, cheguei ás vezes a ser uma

collegiada inteira, incluindo o Dom Prior.

Muitas pessoas da familia imaginaram que eu teria vocação ecclesiastica,

tal era o meu enthusiasmo pelos officios divinos e pela vida de sachristia.

Completa illusão!

Aquillo não era de mim; era do tempo. Todas as creanças foram então assim.

Quando uma vez por outra nos era concedido ir passar o serão n'uma casa

amiga, o que nós faziamos, as creanças d'esse tempo, era entretermo-nos

em adivinhações e joguinhos de prendas, a um canto do salão ou em

qualquer outra sala onde os adultos não estavam.

As pessoas crescidas, como nós lhes chamavamos, dançavam, jogavam o

_whist_, o voltarete ou conversavam simplesmente.

Os homens fallavam de politica: fallava-se muito n'aquelle tempo do

marechal Saldanha, o heroe da Regeneração; principiava a fallar-se de

Fontes Pereira de Mello, o ministro novo,--o ministro janota.

As senhoras fallavam de criadas e modas, como agora, como sempre.

Não foram os adultos que mudaram moralmente, porque o thema de suas

conversações continua a ser o mesmo,--para os homens a politica, para as

senhoras as modas e as criadas: quem mudou foram as creanças.

Lembro-me muito bem de algumas adivinhações que então nos entretinham,

pela maior parte difficilimas,--exemplo:

Serra na cabeça,

Foucinha no rabo.

Adivinha, tolo,

Que é gallo.

E esta, egualmente difficil:

Uma velhinha,

Muito encorrilhadinha,

Encostadinha

A uma tranquilha.

Passa, asno,

Passa é.

Adivinha o que isto é.

E ainda outras mais, todas do mesmo theor.

Que grande surriada quando qualquer de nós, pesar as palavras da

adivinhação, mas attendendo apenas ao seu conjuncto, bem merecia os

epithetos de _tolo_ e _asno_, não atinando com o conceito do enygma!

Então, os paes e as mães, interrompendo a sua conversação, recommendavam

menos barulho.

E os pequenos obedeciam, porque, n'aquelle tempo, não eram ainda

opposição, como agora.

Apesar da revolução ter derrubado os Cabraes, o regimen paterno

pautava-se ainda pela tradição cabralina, que era por sua vez uma

revivescencia do regimen miguelista: o pau decidia todas as questões em

ultima instancia; era a suprema razão.

Perante o pau, o pau que era palmatoria ou bengala, o que para o effeito

valia o mesmo, as creanças cediam, os paes triumphavam.

Os pequenos de hoje em dia já se não divertem do mesmo modo, mas, em

desproporção com a sua altura, divertem-se um pouco... á grande.

São os adultos que lhes fornecem pretexto para divertir-se; mas são as

creanças que realmente se divertem.

Lembra-me a este respeito uma anecdota authentica.

Na Ericeira ha dois cemiterios: um que está cheio, e por isso

condemnado; o outro, de construcção recente.

Como seja preciso pagar a despeza feita com o novo cemiterio, a

contribuição parochial augmentou este anno.

Ha dias, uma mulher, indo pagar a sua contribuição, queixou-se, achou

que era muito pesada.

Explicaram-lhe o caso: que era preciso pagar a construcção do cemiterio.

E vae ella respondeu;

--Uns são que pagam, e os outros que gosam.

Authentico, repito.

Póde applicar-se esta anecdota ás creanças da colonia balnear da Ericeira.

Quem paga para se divertir são os adultos; mas são realmente as creanças

que se divertem.

No Club, os primeiros a tirar par e a collocarem-se no meio da casa, são

os pequenos.

Mas como os pequenos sejam muitos, a direcção do Club viu-se forçada a

recorrer a uma medida severa, e mandou affixar na porta do salão o

seguinte aviso:

«As creanças que concorrerem ás _soirées_ do Club apenas poderão dançar

na sala de entrada, a fim de não prejudicarem a boa ordem das danças no

salão».

Os pequenos leram o aviso, e não gostaram. Houve amuos, piadas,

protestos. A direcção, severa como Catão o Censor, manteve a sua

resolução. Tudo foi pelo melhor durante duas ou tres noites, mas as

creanças lá tinham a sua fisgada,--sem que se soubesse o que, na sua

qualidade de opposição, haviam resolvido.

Aconteceu que um valsista foi escolher para parceira de valsa uma menina

de treze ou quatorze annos.

Os pequenos, reunidos em grupo, cochicharam entre si.

Conspiravam; não havia duvida. Mas qual seria o seu plano? Mysterio!

Pouco depois toca-se uma quadrilha, e os chefes da opposição conseguem

que algumas senhoras vão dançar com elles.

Então os supracitados chefes argumentam do seguinte modo, revolucionaria

e logicamente:

--Se um socio do Club póde dançar com uma pequena, uma socia do mesmo

Club póde dançar com um pequeno. O direito e a quota são eguaes perante

os sexos.

A quadrilha dançou-se, os pequenos dançaram, e a revolta triumphou.

Foi uma especie de _janeirinha_, de revolução pacifica, feita sem

sangue, apenas com as portas fechadas.

Os directores de sala pensaram gravemente na sua embaraçosa situação.

Entregar o poder? Mas, segundo a logica das indicações constitucionaes,

deveriam entregal-o aos vencedores. Teriamos pois um ministerio, quero

dizer uma direcção de creanças.

Fugir á vergonha que os cobria? Mas os directores precisavam tomar

banhos de mar, e não tinham ainda a sua conta.

Ficar, permanecer? Sim... talvez. Houve quem lembrasse que governar era

transigir.

Para ganhar tempo, transigiu-se.

Um dos directores tomou para si o papel de duque de Avilla:

--Fiquemos, e conversaremos depois.

Entretanto, a revolta victoriosa campeava em pleno salão. Passavam

rapidamente, nas voltas da valsa, por deante dos dois arcos da porta,

meninas de dez annos bailando com meninos de doze. E os pares adultos

passaram a ser n'essa noite verdadeiros pares de _galão branco_, tendo

apenas as honras de valsistas, porque na realidade não pudéram dançar.

O boato da victoria dos pequenos correu rapidamente por todas as casas.

Creanças de dois annos fizeram perrice, choramigaram, gritaram que as

levassem ao Club,--para valsar.

--Pelo amor de Deus! supplicavam os directores. Que não venham mais

creançcas! Isto é uma inundação de pequenos!

A sala da entrada do Club, que havia sido destinada ás creanças, estava

deserta. E os revoltosos, embriagados com a victoria, continuavam a

valsar no salão.

A direcção, como todos os vencidos, azoinava. Queria dar uma satisfação

publica á sociedade, e a si mesma. Exercer represalias para com as

creanças seria uma cobardia revoltante. Em todo caso, á sombra dos

pequenos, já os grandes começavam a rir-se.

Era preciso uma idéa salvadora, uma sahida qualquer.

O pianista, sempre por ordem dos pequenos, principiava a tocar uma

quadrilha. Então, por uma d'estas lembranças que passam rapidamente pelo

espirito, illuminando como os meteoros, resolveu-se organisar uma

quadrilha só composta dos paes, que foram dançar na sala de entrada, ao

mesmo tempo que os filhos dançavam no salão, que era destinado aos paes.

Esta inversão do papeis produziu geral hilaridade; salvara-se a situação

com um epigramma, que é o unico desforço possivel nas situações perdidas...

Mas os heroesinhos vencedores tomaram gosto a essa especie de junta

revolucionaria que haviam constituido e, não contentes com a posse do

salão, principiaram a inventar divertimentos por sua conta e risco.

Imaginaram uma toirada... platonica, isto é, uma toirada sem toiros, mas

em tudo o mais a caracter.

_Monteras_, jalecas, capas, bandarilhas, tudo segundo o rigor tauromachico.

Mas, quanto aos toiros, esses, por intervenção de pessoas prudentes,

foram substituidos por alguns garotos da beiramar, que se constituiram

em curro para ir ganhar 100 réis por cabeça.

Eu encontrei na Praça do Jogo da Bola, conversando um com o outro, um

toiro e um toireiro.

Andavam combinando as sortes a que um se prestaria e que o outro

aproveitaria.

--Mas olhe lá, menino--dizia o toiro--olhe que se me chegar á pelle, eu

marro-lhe a valer.

E o toireiro, fallando muito á mão, dizia ao toiro:

--Não tenhas medo, que eu só te ponho os ferros no fato.

Como se vê, são as creanças que estão dando as cartas e as toiradas,

este anno, na Ericeira.

Decididamente, indubitavelmente: já não ha creança!

CHRONICAS DE VIAGEM

X

Um pic-nic

Ha oito dias, um grupo de familias, a banhos na Ericeira, realisou na

Foz um _pic-nic_.

Fallou-se muito da festa nos dias que medeiaram entre o projectal-a e o

realisal-a. Pendo hoje a crêr que o que principalmente diverte em todas

as festas é o antegostal-as. Fazer projectos... fóra de S. Bento,

torna-se sempre agradavel. Só acho comparavel ao prazer de

antegostal-as, o de recordal-as... annos depois.

Como n'este mundo não haja felicidade sem o contrapeso de

contrariedades, acontece que a melhor maneira da gente gosar consiste em

imaginar o goso que vae ter e que ás vezes, na realidade das coisas, sáe

muito inferior ao que se esperava. Ás vezes ou... sempre;--sempre é que

é. Passados annos, se a gente se lembra de uma festa em que esteve, de

uma hora de alegria que passou, dá apenas importancia ao que ella teve

de bom, e já não deita conta ao que ella teve de menos agradavel.

A saudade é uma feição predominante do meu espirito: por isso eu

saboreio as minhas recordações com prazer muito mais doce do que aquelle

que as realidades me déram...

Um _pic-nic_ é, certamente, uma festa muito convidativa... no programma,

quando se trata de fazer a distribuição dos encargos que tocam a cada

um: as aves a este, as fructas áquelle, os vinhos a aquell'outro.

Entre pessoas que se estimam, e que vivem na melhor intimidade, todas

essas combinações culinarias servem de pretexto para matar o tempo

agradavelmente.

A espectativa de um dia bem passado, em plena natureza, seja no campo ou

á beira mar, é o ante-gosto de uma diversão nos nossos habitos de todos

os dias, um córte excepcional, e como tal attrahente, no ramerrão da

nossa vida ordinaria.

--Nem sempre rainha nem sempre gallinha... dizia um rei portuguez.

Pois bem! um _pic-nic_ é uma variante á gallinha do nosso espirito, é

uma especie de sardinha salgada que nos vae saber muito bem... como

distracção.

Surgem, na discussão do projecto, idéas extravagantes, caprichos

exoticos: ha tal que não dispensa nunca os foguetes n'um _pic-nic_ e que

portanto faz questão ministerial dos foguetes...

--Ó homem de Deus! mas se você não ha de comer os foguetes, porque é que

os não dispensa?

--É porque eu, em Lisboa, não janto nunca com foguetes e, como se trata

de uma diversão aos nossos habitos, quero que até nos foguetes seja

completa a diversão.

--Muito bem. Haverá pois foguetes. Ó thesoureiro, escreva ahi, por baixo

da verba das uvas, a verba dos foguetes. Ponha lá duas duzias.

--Pouco! Pouquissimo! Duas duzias de foguetes não é coisa que se oiça

bem. Você sabe que D. Pedro I, quando tinha insomnias, sahia a bailar

pelas ruas com grande arruido? Pois eu pareço-me um pouco com elle...

Quando espero divertir-me, desejo que todos fiquem sabendo que eu me

estou divertindo á larga.

--N'esse caso, thesoureiro, seis duzias de foguetes.

Depois, um outro lembra que é preciso escrever a verba dos palitos,

porque o palito como que prolonga a impressão de um bom jantar, e, como

espera comer bem, quer prolongar esse prazer pelo maior tempo possivel.

--Pois sim! Thesoureiro, seis massos de palitos...

Isto é alegre, divertido, desopilante.

Chega porém o dia do _pic-nic_ e as contrariedades levantam-se debaixo

dos pés.

Madame *** amanheceu com a sua enxaqueca,--a terrivel enxaqueca que a

persegue desde o seu ultimo parto.

O snr. Fulano espera a cada momento um telegramma importante de Lisboa e

vae subresaltado.

Finalmente, o menino Arthur, ao subir para o _char-à-bancs_, entalou um

dedo, e a mãe quasi que perdeu os sentidos com a dôr do filho...

Confessem francamente se isto não costuma ser assim? Ora aqui está

porque eu disse ha pouco que todas as festas trazem o seu cortejo de

contrariedades.

D'esta vez, na Ericeira, todos os adultos se comprometteram a não ter

enxaquecas nem telegrammas. E todas as creanças prestaram juramento

solemne de não entalar os dedos na portinhola do _char-à-bancs_.

Partimos alegremente, cerca de quarenta pessoas, para o _pic-nic_, para

a Foz, que fica a pequena distancia da Ericeira, e que se chama assim

porque alli entra no mar, depois de haver descripto varios torcicollos,

a ribeira de Porto.

O sitio todos nos o conheciamos.

Pittoresco, em verdade. O rio contorce-se dentro do areal e

interna-se pela terra passando por entre margens onde a vinha parece

sorrir verduras ao abrigo das fragas.

Alli a dois passos, o mar, o mar franjado de espumas rebentando na areia.

Sitio delicioso! De mais a mais, nada nos havia esquecido. Fôra n'um

carro de bois o barco em que deviamos deitar as redes; foram as redes;

foram os bellos pitéos que cada um se encarregou de levar. Não havia

esquecido nada; n'uma palavra, nada!

Mas, chegámos lá, e vimos que faltava uma coisa, que aliás a ninguem

havia lembrado! E essa coisa era realmente indispensavel,

imprescindivel. Essa coisa era... a sombra!

Sim! Havia o barco, as redes, o jantar, boa disposição, mas faltava

unicamente a sombra.

Então, sobre a praia batida pelo sol, principiamos a procurar

impacientemente, avidamente aquillo que nos faltava e de que todos se

haviam esquecido: a sombra!

Dispersámo-nos em grupos, em pequenas caravanas: procura d'aqui, procura

d'alli; todos procuravam sombra.

De repente ouviu-se um grito...

O que foi?! Appareceu a sombra?

Era o snr. Fulano que tinha escorregado de uma lage, e estava estatelado

na areia.

Outro grito, d'ahi a nada...

Agora sim! é a sombra?

Qual sombra nem qual diabo?! Foi o menino Arnaldo que se deixou morder

por uma vespa.

O sujeito dos foguetes estava contrariadissimo.

--Não ha foguetes completos n'este mundo! dizia elle. A gente, ao sol,

nem póde vêr bem a direcção que um foguete toma no ar! Esta só a mim

acontece!

O dos palitos exclamava:

--Com uma torreira d'estas nem dá gosto jantar,--quanto mais palitar os

dentes! Acreditem os snrs. que para palitar os dentes é preciso estar

sentado á sombra, serenamente, sem que as moscas nos persigam. Eu não

tenho geito nenhum de palitar os dentes com um raio de sol...

E os grupos dispersos continuavam procurando a sombra por toda a parte,

no rio e na areia.

Mas a sombra, com ser uma coisa tão vulgar, não apparecia!

Um trocista affiançou que esperassemos pela noite para jantar, porque ao

menos á noite haveria sombra.

Esta idéa sorriu ao sujeito dos foguetes, porque é justamente á noite

que os foguetes podem fazer melhor vista.

Mas o dos palitos protestou, por que de noite não lhe seria facil

verificar a qualidade dos palitos.

Finalmente, depois de muitos trabalhos, uma estreita faixa de sombra

appareceu, projectada por um rochedo.

--Isso não é sombra que chegue para todos, disseram alguns.

Mas não havia melhor: resolvemos portanto anichar-nos dentro da unica

sombra que a praia nos offerecia.

E, sobre a sombra, as pernas encruzadas á oriental, o prato na areia,

jantámos.

Chegava o farnel para o dobro da gente, e assim, para evitarmos uma

grande bagagem de retorno, resolvemos comer o que poderia ter chegado á

farta para nós e... outros tantos.

Emquanto jantavamos, uma machina photographica reproduziu o grupo

pittoresco. D'este modo ficaremos por largos annos saboreando o nosso

_pic-nic_ da Foz, ainda muito mais agradavelmente do que no momento em

que o fizemos, porque ao menos na photographia não nos falta sombra.

Vejam se eu tenho ou não razão para gostar do passado!

Depois do jantar dançou-se, ao som de uma caixa de musica, no areial.

Se as caixas de musica servem para alguma coisa é para se dançar n'um

_pic-nic_, porque, á volta, confundem-se com a outra bagagem, e

ninguem se torna a lembrar mais d'ellas.

E é preciso que seja assim, porque eu não conheço nada tão ridiculo como

lembrar-se uma pessoa de que já se divertiu ao som de uma caixa de musica!

Mas, no regresso, as carruagens e os cavallos esperavam em cima na

estrada, e o areial era immenso.

Lembramo-nos então que nos tinhamos esquecido dos burros!

Como tudo n'este mundo tem compensações, houve quem dissesse que, a

haver burros, os foguetes tel-os-hiam espantado.

Que sim; que seria um incommodo para... os burros.

E o sujeito dos foguetes, satisfeito por não ter que contrariar ninguem,

nem mesmo os burros, pois que tinham esquecido, mandou para o ar o seu

ultimo foguete.

E o outro, o dos palitos, muito bem sentado no _char-à-bancs_, affirmava

que palitar os dentes era o mesmo que tornar a comer... em sêcco.

Mas, sobre tudo, quando este _pic-nic_ ha de ser bom, é daqui a vinte

annos... quando o recordarmos saudosamente.

CHRONICAS DE VIAGEM

XI

Aventuras de um aeronauta portuguez

Está aqui a banhos, na Ericeira, um estimabilissimo rapaz, de fino trato

social, excellente cavaqueador, sympathico, gentil e de mais a mais...

lendario.

Não ha duvida nenhuma: lendario!

Na Europa, na Africa, na America tem uma lenda, a lenda de um homem que

vôa, um filho do ar, que ás vezes, ao descer para a terra, como que

recebe da terra mostras de justo resentimento pelo muito que parece

desdenhal-a.

Ainda ultimamente, em S. Luiz, nos Estados-Unidos, esteve, ao descer do

ar, para ser victima de uma grande catastrophe, que o telegrapho

noticiou, e que causou dolorosa impressão em toda Lisboa.

Refiro-me a Antonio Infante, aeronauta portuguez... unico!

Foi em 1883 que elle fez em Lisboa, na explanada do antigo Colyseu, a

sua primeira ascensão, com o Beudet, lembram-se?

Toda a gente ficou admirada de que um rapaz bem nascido, que apenas

conhecia a região do Chiado, se affoutasse a ir devassar os mysterios da

região do éther, porque nós os portuguezes, como sempre nos tem

acontecido em tudo, lançamos ao ar o primeiro balão, ensinamos os outros

a serem aeronautas e nunca mais o quizemos ser.

Parece que no ar, como na terra, tudo está em dar o primeiro passo...

perdão, o primeiro vôo.

Antonio Infante fez em Lisboa segunda ascensão, e depois, como o socio

do Beudet se desligasse da empreza, Antonio Infante continuou a

sociedade e foi-se para Hespanha com o antigo socio do Beudet.

Em Madrid realisou uma ascensão tendo por companheiro um homem

conhecido, Ducascal, actualmente deputado e, passando a Italia, subiu em

Napoles com o director do Observatorio á altura do seis mil e quinhentos

metros, por tal signal que o sabio do Observatorio, tendo lá em cima a

vertigem do infinito, encolheu-se no fundo da barquinha, e mandou ao

diabo a sciencia e as observações.

Eu faria o mesmo, se tivesse perpetrado uma tal aventura.

Mas em Napoles esteve Antonio Infante para representar involuntariamente

n'uma tragedia aerea, porque elle não conhece outras.

Procurou-o um desconhecido e propoz-lhe que, a troco d'uma certa

quantia, o levasse no balão. O aeronauta acceitou, e, no dia aprasado,

estava já o balão quasi cheio de gaz, quando a policia appareceu e

prendeu o desconhecido.

Seria um salteador--os salteadores são tão vulgares em Napoles!--que

recorresse a esse meio de escapula?

Nada d'isso.

Era apenas um suicida, que já por mais vezes havia attentado contra a

existencia, e que d'aquella vez sonhára despenhar-se no infinito...

Se a policia não acode tanto a tempo, Infante teria tido que luctar com

o homem dentro da barquinha ou, se elle houvesse podido suicidar-se,

teria que livrar-se da suspeita de um crime.

Da Italia passou a Constantinopla, onde o governo do sultão lhe não

consentiu que fizesse ascensão alguma. Todos os esforços que empregou,

durante muito tempo, foram baldados. Não podendo elle proprio fazer um

espectaculo, contentou-se com vêr em Constantinopla os espectaculos

dos outros. Assistiu, no pateo do palacio imperial, a uma representação

dada por arabes. O sultão estava na tribuna com seus filhos, e no andar

superior, atravez dos crivos das janellas, os olhares das odaliscas

espreitavam avidamente...

Eu já disse que Antonio Infante é um rapaz elegante, bem posto...

Passou ao Cairo, a Alexandria, e foi dar comsigo a Marrocos, onde o

sultão o recebeu de boa sombra.

Os marroquinos, incluindo o proprio sultão, viram n'elle um feiticeiro,

um homem sobrenatural e, quando o encontravam na rua, diziam uns para os

outros supersticiosamente:

--_Ua!_ (Elle!)

Por muito tempo imaginaram que os mystificava, e que, mandando o balão

para o ar, não ia dentro d'elle. Mas os mais crentes philosophavam:

--Se o passaro voa, o homem, querendo Deus, póde voar.

Chamavam-lhe _Serani kai-tir_, o _christão que vôa_, e ao balão,

_Quesana kai-tir_, com quem diz, _barraca aerea_.

Considerando-o feiticeiro, procuravam-n'o para tudo,--até para compôr

desavenças domesticas, tempestades de ciumes, amúos de namorados.

Os marroquinos alimentavam a superstição de que ninguem seria capaz de

matal-o com bala de chumbo.

--É como o _homem do cavallo branco_, diziam elles. Só com bala de

prata...

O _homem do cavallo branco_ era o general Prim, que pelos seus actos de

bravura ficára tido no norte de Africa como invulneravel ás balas de

chumbo.

Foi ás quatro horas da manhã que Antonio Infante fez uma ascensão para o

sultão de Marrocos vêr, e a guarda do sultão seguiu o aeróstato, em

marcha forçada, até que desceu, para sua magestade se desenganar de que

o aeronauta subia tambem no balão.

Da Africa septemtrional traz Antonio Infante muitas recordações

agradaveis. Ahi vae uma, que elle conta com orgulho patriotico. Nas

portas da Arzilla conservam-se ainda as armas reaes portuguezas, e,

sempre que um _cicerone_ explica em Arzilla a historia de algumas

ruinas, diz aos viajantes:

--Isto é do tempo do portuguez...

De Marrocos passou a Gibraltar, onde o governador da praça lhe prohibiu

que realisasse qualquer ascensão, mas subiu em La Linea, que fica apenas

separada de Gibraltar por uma pequena lingua de terra. O balão caiu no

mar, em aguas hespanholas, e os carabineiros apprehenderam-lh'o como

tomadia.

Mez e meio gastou Infante para rehavel-o. A final foi a legação

portugueza de Madrid que resolveu o negocio.

Nas Canarias caiu tambem no mar, a uma milha de Teneriffe. Duas horas

esteve dentro d'agua á espera que um barco de pescadores o fosse buscar.

E em Las Palmas, ao subir, feriu-se de tal modo, que perdeu os sentidos

dentro da barquinha.

Foi principalmente na America que a odyssea aerea de Antonio Infante

principiou a ter mais vivo interesse.

Em Montevideo, ao descer, deslocou o pé direito, e na Havana caiu na

bahia, que os tubarões frequentam.

Seria ignominioso para um filho do ar morrer na, guela de um filho do

mar, ainda que esse filho do mar fosse um monstro tão respeitavel como o

tubarão. Emquanto esperava por socorro, esta ideia atormentava-o. Nadou

sempre, porque o tubarão, para atacar, precisa voltar-se e, nadando, não

lhe daria tempo para isso. Além de que, ia vestido de preto, porque o

tubarão não ataca o preto. Mas, por cautella, Antonio Infante ia nadando

sempre. Finalmente, chegou um escaler de guerra que o levou, e o filho

do ar zombou dos tubarões.

No Panamá partiu a perna direita, para que a perna não tivesse que

rir-se do pé, o qual já tinha sido deslocado em Montevideu.

Em New-York Antonio Infante foi escripturado pelo celebre empresario

Barnum, que já gastou este anno em annuncios cicoenta mil dollars.

Barnum dava-lhe 500$000 réis por semana, pagando-lhe os _hoteis_ e as

viagens. Queria-o apenas como reclame, para fazer uma ascensão á porta

do seu gigande circo de lona, que comporta vinte e cinco mil

espectadores, e que Barnum vae armando e desarmando de terra em terra,

acompanhado de uma grande comitiva de vendedores, que lhe pagam para que

os deixe seguil-o. Os _pikpockets_ dão cem e duzentos dollars a Barnum

para que lhes permitta venderem bilhetes á porta do circo, tal é a

ganancia que elles pódem auferir das suas escamoteações.

Chronicas de Viagem · 第 3 / 4 段