Luiz Gama, este endiabrado rapaz que toda Lisboa conhece e estima, rapaz

que parece um velho quando joga o _whist_, posto andasse muito azoinado

com os _callixtos_ que lhe rodeiavam a mesa do jogo, fosse em plena

Alameda, nas horas de calma, ou sob o Ceu de Vidro, nos intervallos da

valsa, que elle raras vezes perdia, não poude resistir ao convite que

lhe fizeram algumas senhoras para tomar parte na _matinée_.

Comprometteu-se, e comprometteu-me pedindo-me com instancia que lhe

escrevesse uns versos, consentaneos ao seu genio alegre, para dizer

no Salão da Convalescença. Eu não chegava então para os largos passeios

que todas as semanas fazia com o meu amigo Carrilho. Luiz Gama insistia,

porém, e não tive outro remedio senão procurar um assumpto entre um copo

d'agua das Caldas e a partida d'um comboio.

Não estava Luiz Gama sendo, segundo elle mesmo caramunhava, uma victima

dos _callixtos_? Toda a gente o sabia. Pois bem. Lembrei-me de

proporcionar á victima uma excellente occasião para vingar-se

publicamente dos seus algozes, e mandei-lhe isto, que elle teve a

paciencia de decorar e dizer:

OS CALIXTOS

Se os ha?! Que os ha, é de fé.

Até suppõe muita gente

Que Adão e Eva tiveram

N'um joguinho que fizeram

Por callixto uma serpente.

Eva perdeu... quanto tinha.

O proprio Adão foi no _prégo_

Pôr a caixa do rapé!

Só os não vê quem fôr cego...

Se os ha?! Que os ha, é de fé.

Ha-os de varios feitios.

Um, gallinha nunca farta,

Cobrindo co'a aza o filho,

Vai vendo carta por carta

Como a comer grãos de milho.

Um outro a penca intromette

Entre as cartas e o sujeito,

Como se fosse um petiz

Que a gente tivesse ao peito,

Sendo a ama d'um nariz.

Até se diz que um parceiro

Do _mirone_ a penca assuou

No Ceu de Vidro, domingo,

Porque em boa fé pensou

Que era o seu que tinha pingo.

Já encontrei um callixto

Gordo, obeso, uma balêa,

Que me poz o barrigaço

--Façam vossencias ideia!--

Em peso sobre este braço!

O general é medonho!

Não ha callixto peior

Entre os maus que tenho visto.

Vejam lá! é meu callixto

Desde que elle era major!

No Gremio um desconhecido

Foi-se sentar a meu lado:

Perdi a trena e o leme,

Apanhei logo um xeleme

E outro d'abi a bocado.

Perguntei-lhe: Em seu juizo

Qual animal é maior?

Hesitou. D'ahi a um instante

Disse que era o elephante.

--«Pois então faça favor

«D'ouvir isto que lhe digo,

(Repliquei, de mim já fóra,

Ameaçador, fulminante)

«Olhe, snr. elephante,

«Não posso mais!... vá-se embora.»

Em sendo calvo o callixto,

Tremo logo só de vel-o.

É tão callixto o diabo,

Que até do proprio cabello

Por callixtice deu cabo!

Ha outros que têm madeixas

Como cachos de banana,

E que escorrem sobre a gente

Algum óleo impertinente

Ou agua circassiana.

Tambem os ha femininos,

Que põem o pé na cadeira,

Mostrando a botina... Eu acho

Que, sendo d'esta maneira,

Só encallixtam por baixo...

Mas a peior das callixtas...

Não me lembra agora isto!

A coisa... não vae ao fim!

Pois se um senhor que é callixto

Está d'além a olhar p'ra mim!

Cahiu em boa Luiz Gama! No dia seguinte os _callixtos_ resolveram

vingar-se d'elle por sua vez: apanhou uma grande sova ao _whist_.

CHRONICAS DE VIAGEM

VII

Figueira da Foz

Desde S. Martinho do Porto até á Marinha Grande a linha ferrea da

Figueira é a mesma que fazia antigamente o serviço especial entre a

fabrica da Marinha Grande e o porto de S. Martinho.

O pinhal abunda no trajecto d'esta linha, logo que se passa a estação de

Vallado: o famoso pinhal de Leiria, filho querido d'el-rei D. Diniz.

Em toda esta região, que vamos atravessando, houve outr'ora porém um

senhor ainda mais poderoso do que D. Diniz: era o mar.

Alfeizerão, que deixamos ha muito, terra dentro, fôra até ao seculo XVI

um bello porto de mar, que podia abrigar mais de oitenta embarcações.

D. Diniz, que tinha em Monte Real a sua habitação predilecta, quiz fazer

na villa de Paredes um porto de mar. Sobre as ruinas de Paredes assenta

a actual Pederneira.

Fez-se effectivamente o porto, porque, como diz o proverbio, _El-rei

Diniz fez quanto quiz_, mas grandes alluviões de areia foram obstruindo

o porto. D. Diniz pretendeu pôr um obstaculo a essas enormes alluviões

mandando semear o pinhal de Leiria e adoptando outras providencias

conducentes ao mesmo fim.

Uma d'essas providencias consistiu em ordenar aos foreiros da casa da

Nazareth que lançassem, contra o mar, um certo numero de carradas de

areia, que o vento fosse accumulando no largo da egreja e nas ruas do

Sitio.

Da povoação de Paredes, que devia ser importante, graças ao movimento do

seu porto, existe apenas... a Pederneira.

O mar espraiou-se pois por toda esta região, que vamos atravessando, até

que as alluviões de areia lhe disputaram o dominio.

E hoje a locomotiva assobia o hymno do progresso atravez do pinhal de D.

Diniz, deixando ao largo o mar, que perdemos de vista para só tornar a

enxergal-o nas proximidades da Figueira da Foz.

A estação que se segue á da Marinha Grande é a de Leiria.

No alto do monte escarpado, o castello de Leiria, com a sua torre de

menagem menos mal conservada, desenha-se no azul, immovel e sereno.

Ha muitos annos que eu não tinha visto este vetusto castello, que me

deixára uma impressão desagradavel quando então passei em Leiria caminho

da Batalha. Nas ruas de Leiria o castello, esmagando-me com o peso dos

seus muros e da sua torre, parecia seguir-me por toda a parte, como um

fardo que me dobrava os hombros. Era asphyxiante, visto da cidade,

aquelle castello. Mas, visto de longe, como agora, affigurou-se-me um

dos mais bonitos castellos que sobrevivem ainda, gostei de vêl-o altivo

na sua decadencia, magestoso ainda na sua inutilidade, esperando

impassivel a hora em que a tempestade derrube os seus muros com um feixe

de raios...

Passado o apeadeiro dos Milagres, é Monte-Real, o sitio predilecto de D.

Diniz, a primeira estação que se encontra.

Apezar da ardencia d'esse dia, extremamente calmoso, apezar de ser

oppressiva a temperatura, abafadiço o ar, passou pelo meu espirito um

relampago de historia patria, vi de relance D. Diniz, trovador

aventuroso, rei galante, envolvido nas suas proezas tunantescas de

Leiria, frequentando de noite, enamorado de uma camponeza, a aldeia de

Amor...

El-rei Diniz

Fez quanto quiz,

Até no amor...

Graças ao sceptro,

Graças ao plectro,

Rei-trovador.

Depois, quiz-me parecer tolice de marca maior estar a remexer no

rescaldo da historia amorosa de D. Diniz em dia de tão intensa calma,

fechei de subito o livro da memoria, forcejei por lembrar-me de que eu

tinha escolhido aquelle dia precisamente para não pensar em nada que me

desse cuidado, e puz-me a olhar para a paizagem que ia apparecendo e

fugindo como no fundo de um kaleidoscopo.

A Amieira, que é o ponto de bifurcação do ramal de Alfarellos, possue,

como se sabe, uma nascente de aguas medicinaes, que está sendo explorada

com bons creditos.

Ahi, encostadas á grade da estação, vimos as primeiras camponezas do

valle do Mondego, com o seu trajo caracteristico,--bellos exemplares de

opulencia plastica, e saudamos n'essas tres camponezas, sadias e

robustas, a mulher do norte.

E as tres camponezas, ouvindo ou não ouvindo as nossas saudações

enthusiasticas, comiam maçãs, rilhando-as um pouco suinamente, ó

prosa da realidade, terrivel prosa!

Não se póde já ser um pouco artista, nem mesmo em viagem!

O valle do Mondego principiou a desenrolar-se deante dos nossos olhos,

com os seus esteiros, a sua linha recta coberta de verdura e

scintillante de agua.

Entre a Amieira e a Figueira medeiam apenas dois apeadeiros, o de Lares

e o de Santo Aleixo: as primeiras casas da Figueira não tardaram a

apparecer-nos como guarda avançada d'essa bonita cidade maritima, já

então tão concorrida de banhistas.

Na estação da Figueira entramos no _americano_ porque o meu amigo

Carrilho propoz, e eu approvei, que fossemos antes de jantar a Buarcos.

O _americano_ deslisa ao longo da praia. Deslisa é um modo de dizer,

porque, justamente quando passavamos em frente do Bairro Novo, o

_americano_ emperrou pela primeira vez, saltou fóra das calhas, um muar

cahiu estatelado. Quando isto aconteceu pela segunda vez, no meio das

pragas de varios hespanhoes que enchiam o carro, o meu amigo Carrilho

propoz que fizéssemos a pé o passeio de Buarcos.

E assim mesmo é que foi: largamos a andar por alli fóra intrepidamente.

Buarcos é uma especie de retiro de banhistas pacatos, que fogem do

bulicio da Figueira. Bom ar, bom mar, mas pouca gente. Pacato de mais.

Quasi ao mesmo tempo que chegavamos a Buarcos, tendo feito o caminho a

pé, chegava o _americano_, com os muares escalavrados das successivas

quedas que tinham dado.

O conductor perguntou-nos se queriamos ir vêr a mina do Cabo Mondego ou

se faziamos tenção de ir vêr a fabrica. Dissemos-lhe que faziamos apenas

tenção de ir jantar á Figueira. Então o conductor disse-nos que, visto

termos ido a pé, tendo pago os nossos logares, queria de algum modo

indemnisar-nos, fazendo-nos transportar immediatamente á Figueira.

Pasmamos d'aquillo, d'aquelle original _americano_, tão caprichoso no

seu serviço irregular!

O carro partiu, e foi-se enchendo pelo caminho. Só então reconhecemos

que tinhamos feito um grande passeio a pé, quasi sem dar por isso.

Anoitecia. O céu e o mar estavam serenos. Um vaporzinho rebocava um

navio, porque a barra da Figueira, apesar dos melhoramentos que se lhe

têm feito, é simplesmente detestavel. No alto, o Bairro Novo alvejava

com as suas construcções recentes, elegantes, e, ao trote dos muares,

entramos de novo na Figueira, parando era frente do _Hotel Universal_.

Esperámos, á janella do hotel, que nos servissem o jantar, e pudemos

surprehender d'ahi a physionomia um pouco hybrida mas pittoresca da

Figueira: o mar batia contra a muralha, o navio entrava rebocado, uns

pescadores passavam altercando, e dois homens de chapeu alto e

sobrecasaca passeiavam, conversando. Bastava effectivamente isto para

caracterisar a Figueira com todo o seu ar pretencioso de cidade e o seu

aspecto de praia de banhos, sendo que os da terra andam de chapéu alto,

no grave exercicio das suas funcções judiciaes, administrativas,

commerciaes, e os de fóra, os banhistas, em plena praia, exhibem fato de

flanella branca e chapeu de côco.

No _Hotel Universal_ jantaram apenas comnosco á mesa mais dois hospedes,

ambos brazileiros, que estiraram desde a sopa até ao café uma conversa

merencoria como elles, que ambos estavam doentes.

Um dos dois, o mais sorumbatico de ambos, fallou da morte,--assumpto

divertidissimo! Disse-nos que todas as noites, a bordo do paquete,

quando se fazia silencio, a idéa da morte, passando pelo seu espirito, o

atormentava.

Eu perguntei ao meu amigo Carrilho o que tinhamos nós com aquillo?

Concordámos em que não tinhamos nada, absolutamente nada, com os pavores

phantasticos do brazileiro. Levantámo-nos da mesa; vimos um predio

illuminado, ouvimos musica.

Perguntamos ao criado que predio era aquelle.

--É o theatro do Principe D. Carlos, e ha hoje espectaculo.

Muito bem. Iriamos dar um passeio pela cidade, e cahiriamos depois no

theatro.

Todo o aspecto commercial da cidade estava então em evidencia: as lojas

illuminadas, bellas lojas, devendo citar-se uma ourivesaria, que fazia

lembrar um estabelecimento do Chiado.

Na Praça Nova a colonia balnear, composta principalmente de hespanhoes,

espanejava-se garrulamente, e em torno da praça as lojas de negocio,

havendo ás portas grupos de homens, uns a pé, outros sentados,

denunciavam o movimento commercial da cidade.

Na Praça Nova encontrámos o deputado Pereira dos Santos e o visconde de

Miranda do Corvo, que tiveram a amabilidade do nos ir mostrar os

magnificos clubs da Figueira e de nos acompanhar ao theatro.

No theatro havia pouca gente. Um prestidigitador, cujo nome me esqueceu,

fazia umas _sortes_ sediças, com pouca limpeza. Mas o theatro fôra para

nós um salvaterio, porque nos permittiu esperarmos ahi pela hora da

partida do comboio, meia noite e vinte.

E, n'um dos intervallos, entre muitos episodios da chronica balnear da

Figueira, ouvi contar um, que me divertiu hilariantemente, e que no

capitulo seguinte tentarei reproduzir.

Á meia noite, quando sahimos do theatro, havia ainda luz nos clubs e nos

cafés. As janellas das roletas e das batotas brilhavam com o clarão

interior dos candieiros de petroleo, porque a cidade da Figueira só

agora vae ser illuminada a gaz.

Despedindo-nos dos nossos amigos visconde de Miranda do Corvo e Pereira

dos Santos, dirigimo-nos para a estação do caminho de ferro, atravez de

uma escuridade profunda, sem saber onde punhamos os pés, tropeçando a

cada passo.

Que reles economia a da Companhia, que fazendo um comboio depois da meia

noite, não manda illuminar o caminho da estação!

Ás tres horas e 46 minutos da manhã chegavamos ás Caldas da Rainha,

frescos, apesar da caminhada a Buarcos, da estopada funebre do

brazileiro, de duas horas de prestidigitação no theatro do Principe D.

Carlos e dos trambolhões que démos em caminho da estação,--sem vermos um

palmo adeante do nariz.

CHRONICAS DE VIAGEM

VIII

Uma victima da dança

Durante oito annos consecutivos, a D. Serafina Barros, da Mealhada, foi

com o marido tomar banhos do mar em Espinho.

Aquillo era já sabido: no dia 15 de agosto partiam; a 15 de outubro

recolhiam á Mealhada.

D. Serafina pensava durante o resto do anno n'esse gaudio balnear,

esperava-o com uma certa anciedade, porque a Mealhada era, a respeito de

_salsifrés_, uma terra morta, e D. Serafina tinha pela dança uma paixão

feroz.

Agora, que já orçava pelos quarenta e dois annos, era preciso que D.

Serafina fosse procurar a dança aonde quer que a houvesse, visto que

espontaneamente a dança já não vinha procural-a a ella. E, para

encontrar parceiro na assembléa de Espinho, tornava-se ainda assim

indispensavel uzar de uma tal ou qual diplomacia, fazer com que o Barros

dissesse aos sujeitos, por elle apresentados á mulher, que ella gostava

muito de dançar, forçando ás vezes a situação a ponto de dizer: «Como

prova do agrado com que recebeste a apresentação d'este cavalheiro,

deves dançar a primeira quadrilha com sua ex.ª»

O cavalheiro, fulminado por esta perfidia amavel, inclinava a cabeça ao

sacrificio, offerecia o braço a D. Serafina, e ia dançar com ella.

O Barros ficava contentissimo com o bom resultado da sua diplomacia,

porque não podia aturar a mulher quando ella não conseguia dançar.

Se o cavalheiro respondia que _já estava compromettido_, como então se

dizia, para as tres primeiras quadrilhas, se nenhum pequeno de treze

annos havia convidado D. Serafina para dançar, o Barros, tendo lido um

jornal ou dado uma volta pela sala da roleta, vinha espreitar da porta a

mulher dizendo com os seus botões:

--Está como uma _bicha_!

E estava. Em casa elle o pagaria ouvindo-a sarrasinar n'uma cegarrega de

lamurias, accusando-o de não ter a consideração social de que dispunha o

Lemos de Formoselha e o Barradas de Esmoriz, cujas mulheres, não

sendo mais novas nem mais bonitas do que ella, estavam sempre no meio da

casa.

O Barros desculpava-se: que o Lemos era um trunfo politico, por ter em

Lisboa um genro que fôra ministro tres vezes, e que se lhe dançavam com

a mulher era para fazer a bôca doce a elle e a ella, por causa do genro;

quanto á mulher do Barradas, «bem sabes tu, Fininha, o motivo porque

ella dança sempre... á custa da reputação do marido.»

D. Serafina não se dava por convencida. Influencia politica tambem o

Barros tinha na Mealhada: que se lembrasse elle das cartas que o bispo

de Vizeu lhe escrevia sempre que havia eleições, tratando-o mano a mano

quando lhe pedia votos: meu Barros lá, meu Barros cá. Fosse o Barros

mais esperto e soubesse explorar em proveito da mulher a sua importancia

politica. Mas era um asno. O snr. D. Antonio ia todos os annos tomar

banhos para Espinho; sempre que o Barros chegava, o snr. D. Antonio ia-o

visitar de varapau na mão. Ora dissesse-lhe o Barros que só lhe tornaria

a dar os votos se lhe arranjasse par para a mulher dançar na assembléa,

e o snr. D. Antonio faria com que todo o partido reformista, que

estivesse em Espinho, fosse dançar com ella.

--Ó mulher! replicava o Barros. Isso póde lá fazer-se! Isso é lá

coisa que se faça! Tu não sabes o que estás a dizer!

--Sei muito bem o que digo; sempre soube. Isto de eleições é um negocio

para aquelles que não são tolos como tu. Tanto faz pedir uma commenda

como uma quadrilha. Acaso será maior vergonha pedir para arranjar um par

do que um emprego? Só elle, um pedaço d'asno, dava os seus votos de

graça! Nem commendador era ainda!

O Barros procurava acalmal-a:

--Que o snr. D. Antonio não era homem a quem se pedissem commendas.

Ria-se d'isso.

Mas Serafina não se calava nunca por falta de argumentos:

--Ah! o snr. D. Antonio ria-se d'isso! mas elle proprio quizera ser

bispo, que era uma especie de commendador da egreja ou mais ainda!

N'estas discussões domesticas sobre a eterna questão da dança, era

sempre Serafina que ficava victoriosa. O Barros reconhecia n'ella

superioridade de raciocinio, força de logica. Cada pessoa, pensava elle,

tem pelo menos um defeito. Ora as mulheres, quando são espertas, ainda

que tenham o seu defeito, sabem sempre desculpal-o. O homem tem a força

do pulso; a mulher tem a força do argumento. O homem póde bater na

mulher, mas acaba por ser batido por ella,--logicamente. E o defeito

da Fininha, o seu gosto pela dança, não era d'aquelles defeitos que

compromettem a honra dos maridos. A mulher do Barradas d'Esmoriz, essa

sim, servia-se da dança para chegar a certos fins illegitimos. Mas a

Fininha gostava da dança pela dança,--sem segundas vistas.

E a Fininha, a respeito da mulher do Barradas, dizia-lhe muitas vezes:

--O que eu vejo é que as que se portam peior não ficam nunca sentadas!

--Por isso mesmo... respondia o Barros.

--Por isso mesmo!? Então na sociedade todas as distincções devem ser

para quem menos as merece!? Que premio destinam então os homens ás

mulheres honestas?!

O Barros embuchava.

--Lá está o raio da logica!... pensava elle.

--Sim, que visse, que reparasse, continuava Serafina. Ao passo que ella

passava noites inteiras sem dançar, tendo a consciencia de ser uma

esposa virtuosa, a Barradas andava sempre n'uma roda viva, e a filha do

Saraiva de Mogofores, que fugira com um quintanista de direito para o

Bussaco, e estivera lá dois dias com elle, não chegava para as

encommendas na assembléa de Espinho. Elle Barros bem sabia que a sua

Fina, quando casou, tanto podia ir para o ceu como para o leito conjugal,

porque não se podia ser mais donzella; e depois que casou, nunca ninguem

se atrevera com ella, nem mesmo o escrivão de fazenda, que era baboso

por mulheres.

E isto era exacto. A honradez de Serafina tinha duas muralhas que a

defendiam: a virtude e a fealdade. Trigueira, ossuda, com as

sobrancelhas espêssas e um buço de adolescente, fazia lembrar uma

cigana. Como as ciganas, gostava das côres vivas, _tapageuses_.

Dançando, saracoteava os quadris, rebolia-se, peneirando sobre o

pavimento uns passinhos curtos, miudos e travados. As outras riam-se

d'aquella quarentona amulatada, toda perliquiteta, que na dança tirava a

vez ás meninas solteiras. O proprio Barros algumas vezes ouvia estes

remoques, e em casa, timidamente, com um grande medo da Serafina e da

logica, dizia-lh'o.

Ella replicava:

--Deixa-as rir: é inveja. Muitas vezes me disse o papá que eu, se não

fosse tão alta, era tal e qual a snr.ª D. Carlota Joaquina.

--Salvo seja!... acudia o Barros.

--Nas feições, homem de Deus. E no meio da casa não me troco por nenhuma

d'essas lambisgoias de vinte annos, que não foram ainda capazes de

aprender as marcas dos _Lanceiros_!

Mas um anno, em Espinho, fez-se uma terrivel conspiração contra D.

Serafina: meninas e meninos de vinte annos combinaram entre si empregar

esforços para que a cigana da Mealhada não tornasse a dançar; um rapaz

do Porto, a quem ella disse uma vez--_Sempre mostra que é

tripeiro!_--foi o chefe da conspiração.

A coisa chegou a ponto de que n'uma noite de menor concorrencia, n'uma

quadrilha franceza, dançaram com _perna de pau_, indo o par marcante

fazer _coté_, tendo Serafina ficado sentada e estando disponivel um

caloiro de Coimbra.

Serafina jurou aos seus deuses não voltar mais a Espinho; e no anno

seguinte o Barros levou-a á Figueira da Foz.

Mas na Figueira havia grande numero de hespanholas e de portuguezas

novas, que dançavam sempre. Serafina estava fula, e um dia fez com que o

marido se entendesse com um dos directores do Club, o Peres, de Leiria.

--V. ex.ª, disse-lhe o Barros, na sua qualidade do director deve zelar

igualmente os direitos de todos os socios. Ora a verdade é que minha

mulher, que gosta de dançar, não tem dançado nunca, ao passo que outras

senhoras, que pagaram quota igual, andam n'um sarilho continuo. Peço, em

nome da justiça, providencias a v. ex.ª

O Peres era reformista, sabia que o Barros pesava na eleição da

Mealhada; não o quiz desgostar.

--Que sim. Que elle não dançava, mas que havia de fallar aos rapazes, e

de os apresentar á snr.ª D. Serafina.

Mas o Peres nada poude conseguir dos rapazes: que não, que lá esse

sacrificio não faziam elles. Que a D. Serafina era um monstro indançavel.

Muito entalado, o Peres já estava resolvido a perpetrar rheumaticamente

uma quadrilha, quando passou na Figueira um destacamento, cujo capitão

fôra antigo condiscipulo do Peres.

O capitão Lamprêa, de botas empoeiradas e barretina no braço, disse ao

Peres que ia _reinar_ um bocado, porque tinha bebido bem ao jantar; que

o apresentasse a uma dama.

O Peres teve um pensamento machiavelico: impingir-lhe D. Serafina.

Estava-se já organisando uma quadrilha. De pé, alguns pares esperavam.

Um amador de _salsifrés_, Justino Soares, por vocação, andarilhava,

combinando _vis-á-vis_. O Peres, poisando o braço direito sobre os

hombros do capitão Lamprêa, avançou na sala, e aproximando-se de

Serafina solicitou para o seu velho amigo e condiscipulo a honra de uma

quadrilha.

O capitão Lamprêa recuou instinctivamente. Mas o Peres, ao ouvido,

dizia-lhe com um sorriso de malicia.

--O que?! Um militar portuguez não recua nunca!

Serafina acceitára com muito gosto: que sim, que tinha muita honra.

O Peres disse ao capitão Lamprêa que lhe ia arranjar _vis-á-vis_.

Mas n'isto ouviu-se tocar uma corneta, e o capitão Lamprêa, voltando-se

rapidamente para D. Serafina:

--Ora esta! exclamou. Chama-me o dever. Já não tenho tempo de dançar!

Que contrariedade! Mas á volta, minha senhora, terei a honra e o prazer

de dançar com v. ex.ª

Fôra providencial aquella corneta tocando a recolher.

E D. Serafina, durante quinze dias, perguntava com um sorriso de

agradecimento ao Peres de Leiria:

--Quando volta o seu amigo capitão?

CHRONICAS DE VIAGEM

IX

Na Ericeira

N'esta bella Ericeira, á beira mar plantada, faltam principalmente duas

cousas... além de outras muitas: não ha flores nem passeios.

Um namorado, se tem imaginação botanica, não encontrará facilmente, para

offerecer á sua dama, nada melhor do que uma _perninha de manjarico_,

como dizem os saloios.

Quanto aos passeios, são pouquissimos: a estrada de Cintra, incompleta;

a de Mafra que, á sahida da Ericeira, é muito ingreme. Restam S.

Sebastião e as Furnas, que são o pão nosso de cada dia, pela simples

razão de não haver por onde variar.

Acontece que, sendo poucos os passeios, toda a gente se encontra

marchando sobre o mesmo terreno,--como se estivesse fazendo sentinella.

Por isso, a cada momento esbarramos com os mesmos adultos e com as

mesmas creanças, sempre muitas creanças,--principalmente este anno.

Tenho, é certo, uma natural affeição pelas creanças, mas não posso

deixar de dizer que ellas chegam ás vezes, quando são tão numerosas como

aqui, a embaraçar a marcha governativa das praias.

As creanças são sempre opposição, sophysmam e conspiram.

Havia outr'ora uma arma para vencel-as: a dictadura paterna. Mas as

dictaduras são sempre violentas, ainda mesmo quando exercidas

paternalmente. De modo que, graças á brandura dos nossos costumes, como

se diz em S. Bento, se as creanças de agora teimam, o governo cede sem

querer sahir da constituição, e a opposição triumpha sem que a Carta

seja desacatada... mais uma vez.

Chronicas de Viagem · 第 2 / 4 段