Em S. Luiz trabalhou tambem como _reclame_ á porta do theatro onde se

representava a colossal magica _Os ultimos dias de Pompeia_, que mettia

quinhentos comparsas e duzentos musicos. A erupção do Vezuvio era um

prodigio de pyrotechnia, realisado pelo celebre fogueteiro Pain, que

esteve em Lisboa por occasião da visita do principe de Galles.

Uma vez, em Virginia, onde se debatiam eleitoralmente dois candidatos,

um republicano, outro democrata, o republicano contratou com Infante uma

ascensão para attrair gente ao local do comicio.

O candidato faria o seu discurso e, ao dar meio dia, Infante deveria

subir. Reconhecendo que estava no paiz da pontualidade, ao meio dia em

ponto, Infante subiu. Mas, ao descer, o candidato só quiz pagar metade

da quantia ajustada.

--Porque? perguntou o aeronauta.

--Porque quando o snr. subiu, estava eu em meio do meu discurso, e o

povo, logo que viu o balão cheio, já não quiz ouvir o resto, que era o

melhor...

Foi ainda nos Estados-Unidos, em S. Luiz, que Antonio Infante esteve

para ser victima da grande catastrophe, que o telegrapho noticiára.

O balão, ao subir, bateu de encontro a um dos postes da luz electrica,

rasgou-se no ar, e abriu-se de alto a baixo no momento em que descia

rapidamente.

Póde imaginar-se o que seria esse vertiginoso despenhar-se de um homem

no espaço, atravez da escuridão da noite, indo dentro de um balão que

phantasticamente se illuminava de fogos de artificio!

Um enorme prego, cravado no fundo da barquinha, segurava exteriormente

uma peça de fogo, e, quando a barquinha chofrou com grande estampido no

solo, como se fôra uma pedra, foi esse prego que feriu de um modo

calamitoso o infeliz aeronauta.

O serviço das ambulancias medicas está organisado maravilhosamente nos

Estados-Unidos. Ha communicação telephonica entre todos os postos

de policia, de modo que a ambulancia, com o respectivo medico, acode de

prompto para fazer-se o primeiro curativo, e os carros d'este serviço,

que se annunciam por um forte timbre sempre em vibração, tomam a

deanteira a todos os outros vehiculos.

Ligeiramente pensado no proprio logar do sinistro, Antonio Infante foi

conduzido ao hospital, onde o medico assistente, examinando a gravidade

dos ferimentos, o avisou de que a sua vida corria imminente perigo e de

que não tinha tempo a perder para o caso de, na sua qualidade de

estrangeiro, querer fazer qualquer recommendação.

--Em Portugal, diz Antonio Infante, eu teria sido um homem morto. Nem a

minha familia consentiria que eu fosse para um hospital, nem o medico

haveria decerto empregado as ultimas violencias da sciencia como _in

anima vili_. Foi isso o que me salvou...

Ora além da dilaceração dos tecidos, Infante havia deslocado o pé

direito--sempre o pé direito, que parece ser ainda mais esquerdo do que

o outro!--e fôra atacado de uma pneumonia.

Quatro mezes esteve no catre do hospital, sendo visitado por todos os

professores e por todos os estudantes de medicina que pasmavam da cura.

O medico assistente fez grandes _reclames_, á americana, e durante

o mez, que a convalescença durou, uma verdadeira procissão de curiosos

correu ao hospital a visitar o aeronauta resuscitado.

Salvo finalmente, Infante deu-se pressa em vir tranquillisar os cuidados

da sua familia, e embarcou em New-York por Bordeos para Lisboa.

Agora está na Ericeira, um pouco nostalgico das regiões ethereas, como

um passaro na gaiola.

Nas ultimas noites de luar, vi-o sempre sentado n'algum banco do Jogo da

Bola a olhar saudoso para o ceu azul, como se estivesse dizendo

mentalmente:

--Aquillo, lá em cima, é meu... e de Deus.

CHRONICAS DE VIAGEM

XII

O Varatojo

No dia 23 de setembro, ás cinco horas da manhã em ponto, estava eu no

Jogo da Bola, da Ericeira, á espera dos meus companheiros de viagem.

A lua cheia principiava a empallidecer no ceu, e o sol dormia ainda o

ultimo somno na sua camara celeste.

Naturalmente o criado de quarto havia-o chamado já mais de uma vez, se é

que o sol não usa despertador á cabeceira da cama, a fim de poder

exercer, com a pontualidade que lhe é habitual, as suas funcções de

astro rei.

Mas n'esse dia parece que o loiro principe sol estava tão tonto de somno

como aquelle sujeito da anecdota, que acordando ao estrondo do

despertador, o atirou pela janella fóra muito zangado, tornando a ir

deitar-se.

Eu proprio, para que tudo fosse excepcional n'aquella madrugada, fiz de

guarda-nocturno e andei a bater á porta de um e outro.

--Que eram horas. Que já o _char-à-bancs_ estava á nossa espera na Praça.

E todos elles, uns e outros:

--Já lá vou. Estou a lavar a cara. Estou a vestir o casaco.

Pois o sol tambem n'aquella manhã levou muito tempo a lavar a cara e a

vestir o casaco.

Reuniu-se a _troupe_,--dez ou doze amigos--, subia o _char-à-bancs_ a

passo a Calçada Real, e ainda o sol não se tinha dignado apparecer.

Em dez minutos apenas, foram-se encastellando grossas nuvens, carregadas

de electricidade, ao longe, sobre as montanhas de Cintra, e trovões

distantes ribombavam surdamente.

--Mau! Temos um dia estragado!

O calor começava a ser asphyxiante.

--Que fossem acreditar em poetas! Pois não disséra Castilho que as

manhãs de setembro eram frescas?!

Sahi em defeza do querido mestre Castilho.

--Que aquella manhã de setembro tinha, por causa da trovoada, um feitio

excepcional. Mas que eu me compromettia a dar-lhes no dia seguinte,

caso não houvesse trovoada, uma fresca manhã de Castilho.

Então, o sol, com cara de ter passado mal a noite, o que era uma

justificação, espreitou atravez de uma nuvem menos espessa.

O _char-à-bancs_, tendo sahido da estrada de Mafra, principiava a descer

para o Gradil, torneando a Tapada, onde, passado o Celebredo, pacatos

veados appareciam aqui e alli pastando tranquillamente.

Os caçadores ralavam-se de pena:

--Não poder a gente matal-os! Aqui na tapada a caça brava é

abundantissima. No primeiro dia de caçada, os veados quasi vem comer á

mão. No segundo dia, já um pouco assustados, mostram-se hesitantes. Só

no terceiro dia, comprehendendo a cousa, é que tratam de se alapardar.

--Lá está outro!

Estavam, sim, muitos, á boa vida, porque, como se sabe, na Tapada de

Mafra só caça a familia real, e essa vae alli poucas vezes.

Apenas o marquez de Oldoini obtivera ha annos auctorização para poder

caçar na Tapada.

Não se sita outra excepção.

Durante longo tempo o _char-à-bancs_ foi torneando a Tapada, que é

vastissima, e quando o Gradil nos appareceu lá em baixo, com as suas

chaminés fumegantes e os seus predios caiados, já estavamos

anciosos de avistal-o.

Então as vinhas atacadas de phylloxera principiaram a mostrar-se-nos com

grandes nodoas amarellas, indicando uma devastação terrivel na primeira

cultura de Portugal.

Quanto mais avançavamos na região de Torres Vedras, mais a devastação

alastrava. Videiras doentes, dessoradas, pendiam languidamente com meia

duzia de cachos. E ás vezes, no meio de largas manchas amarellas, um

pequeno jardim de vinhas, não contaminadas ainda, verdejava sádiamente.

Acontece que, em certos sitios, de um lado da estrada as vinhas estão

indemnes, e do outro lado inteiramente perdidas.

No Gradil, como fosse domingo, havia um grupo de homens á porta da

taverna. Iam ou vinham da missa, isso é indifferente, mas tinham bebido

já. Alguns limpavam ainda a bocca com o dorso da mão.

Estrada fóra, avistamos a povoação do Livramento, depois o Turcifal.

--Aquella casa é de fulano. Aquella outra é de sicrano.

As nuvens negras tinham-se dissipado, o sol, completamente

restabelecido, resplandecia, e um calor surdo, abafadiço, cahia

obliquamente.

Todos mais ou menos iamos fallando do almoço, como da Terra Promettida.

Ora, n'aquelle dia, a Terra Promettida era para nós a casa de Antonio

Batalha Reis, a sua quinta do Carvalhal.

Batalha Reis, sendo um grande amador de culinaria, faz petiscos

excellentes, unicos.

Já durante uns dias que estivera na Ericeira nos havia offerecido um

delicioso bacalhau preparado por elle. Mas, n'aquelle dia, sabiamol-o na

cosinha, de barrete branco, caprichoso em offerecer-nos um almoço

principesco.

Ao cabo de tres horas e meia de jornada, chegamos ao Carvalhal. Meia

hora depois, o almoço estava na mesa, e cada um dos convivas tinha

deante de si um prato de sopa de cebola, composição de Batalha Reis. Era

a chave de prata que ia abrir esse bello soneto gastronomico. Batalha

Reis disse-nos que a chave de ouro a reservava para o jantar,--ás cinco

horas da tarde. Mas um coelho guisado, que nos deu ao almoço, valia

ouro. Estava divino.

Quando nos levantamos da mesa, todo eu era pressa de partir para o

Varatojo, por causa... por causa de um livro: ora ahi está o grande

segredo![1] Mas como tivessemos levado uma machina photographica, fez-se

primeiro um grupo, uma scena de duellistas, que crusavam floretes,

sabres e lanças.

A machina reproduziu instantaneamente toda esta batalha incruenta, que

sahiu bem boa.

Depois, finalmente, partimos para o Varatojo, e Antonio Batalha Reis,

que tinha sido um dos duellistas, poz o barrete branco e foi para a

cosinha do Carvalhal fazer o jantar.

Atravessamos, de caminho, a villa de Torres Vedras, que se engrandece

ainda de uns restos da sua antiga prosperidade vinicula. Boas casas,

grandes adegas, homens rolando pelas ruas cascos de pipa. Uma praça com

coreto: o rocio elegante. Um magnifico chafariz gothico, denominado dos

_Canos_. Uma egreja com uma bella porta de lavores. Sobre o outeiro, as

ruinas do famoso castello. O Passeio da Varzea com o seu sombrio

arvoredo de choupos e faias.

Mas nós passamos por tudo isso a correr, rodando para o Varatojo.

Finalmente, á esquerda, na encosta, surgiu um grupo de casas e logo ao

pé o telhado do convento e a matta.

Apoiamo-nos no principio da encosta, porque não havia caminho para trem.

E, subindo, chegamos ao largo do convento, de humilde apparencia,

enterrado ao fundo de alguns lanços de escada.

Uma cruz de pedra e um velho cypreste dão ao sitio essa phisionomia de

tristeza que caracterisa os eremiterios pobres.

Descemos os poucos degraus que dão ingresso para o convento, e entramos

no atrio.

Á esquerda uma capella com o Senhor dos Passos. Em frente, o postigo da

roda, em cujo bordo havia tres escudellas vasias com colheres de páu;

sobre o postigo esta legenda: _De paupertate nostra frangamus Jesu

esurienti panem._ Á direita uma porta em ogiva com esta simples palavra

no topo: _Silencio._

Pedimos licença para entrar, e foi-nos concedida. Recebeu-nos o

sacristão em habito de franciscano. Mostrou-nos a egreja, em cujo

altar-mór ha a notar a obra de talha, o retabulo, os quadros, os

azulejos. No corpo da egreja torna-se digno de menção o altar de

marmore, excellentemente trabalhado, de uma capella lateral. É obra

recente, executada por um conventual.

Como houvessemos mandado entregar uma carta de apresentação, veio

acompanhar-nos um padre franciscano, de habito com capuz, cordão,

rosario e sandalias.

Boa physionomia, alegre e rosada. Fallava sem biôcos. Quando nos

tornou a mostrar o altar de marmore, disse para mim:

--Isto é obra feita no convento. Cá trabalha-se.

Foi depois mostrar-nos o presepio, e chamou a nossa attenção para a

figura que representava um cégo tocador de gaita de folles, com borracha

de vinho a tiracollo, fazendo-nos notar a circumstancia de que o moço do

cégo estava bebendo subrepticiamente o vinho da borracha.

Levou-nos depois á casa dos retratos, onde, eu precisava vêr um, e á

casa do capitulo, onde copiei a inscripção de uma sepultura.

Offereceu-nos na casa dos retratos vinho doce, e bolos. Quizemos deixar

uma esmola para o convento: recusou-a. Perguntamos-lhe se vendiam

bentinhos, porque os desejavamos adquirir como recordação. Sorriu-se.

--Que os bentinhos que tinham, eram os que pessoas de fóra davam aos

frades.

Na cêrca offereceu-nos flores, e conduziu-nos até á entrada da matta.

De caminho respondia com boa sombra ás perguntas que lhe faziamos.

Disse-nos que havia uma escóla para o sexo masculino, annexa ao

convento, mas com entrada independente.

Disse-nos mais que, actualmente, eram uns vinte os frades, e que o resto

do pessoal orçava por quinze homens. Que no convento não entravam

mulheres, mas que na povoação havia um recolhimento de irmãs

hospitaleiras de S. José com escóla para meninas. Accrescentou que

viviam pobremente, mas que do seu pouco repartiam com os pobres.

Mostrou-nos a sachristia, em cujos azulejos, que revestem as paredes, se

lêem disticos metreficados em castelhano. Por exemplo:

Mi coraçon como cera

Se derrite en dulce ardor

Con tu fuego, ay Dios d'Amor

Si hasta aqui de marmol era.

Estes disticos devem ser composição de Frei Antonio das Chagas, que

versejou gongoricamente em lingua hespanhola, e que no seculo XVII

reformou o instituto do Varatojo, depois de ter vivido uma vida mundana

de militar aventuroso.

N'aquella simples quadra, que de industria preferimos, está todo o drama

da conversão de Frei Antonio das Chagas.

Na egreja, no claustro e cêrca encontramos alguns camponezes,

uns imberbes, outros velhos, orando como em extasi ou lendo

livros mysticos. Um d'esses livros; cujo titulo podemos lêr,

denominava-se--_Devoção das Chagas de Christo._

E ao cabo de uma visita de hora e meia sahimos do convento do Varatojo

com a estranha impressão com que o poderiamos fazer ha duzentos annos.

Parecia que o tempo se havia immobilisado no passado!...

[1] O livro, que já entrou no prelo, intitula-se _Vida mundana d'um

frade virtuoso._

CHRONICAS DE VIAGEM

XIII

O regresso

Com as chuvas dos primeiros dias da semana, começaram as praias a

despovoar-se um pouco tumultuariamente.

Ás portas da cidade, segundo me informa um visinho meu que é guarda

barreira, chegavam a toda a hora carros e carretas com pessoas e malas.

Toda a familia, segundo me observou philosophicamente o supracitado

guarda fiscal, tem a sua praia.

Uns atiram-se ao bulicio da Figueira, outros á aristocracia de Cascaes;

estes preferem a Nazareth, talvez por causa dos cyrios, que dão muitos

dias de festa; aquell'outros, mais pacatos, isolam-se em S. Martinho do

Porto, e contentam-se com ir de vez em quando, no caminho de ferro,

vêr gente ás Caldas da Rainha, etc.

Eu reflecti maduramente na phrase philosophica do guarda-fiical.

Effectivamente, cada familia tem a sua praia.

Uma vez, certa dama _vieille roche_, recebendo á sua mesa dois primos e

um companheiro dos primos, lembrou-se de corrigir a falta que elles

haviam perpetrado não lhe explicando genealogicamente a procedencia do

companheiro. Á sobremesa, a grande dama, que se tinha desfeito em

attenções com o desconhecido, fez estalar o quinau.

--V. ex.ª, disse ella dirigindo-se ao desconhecido, ainda não teve a

bondade de nos dizer de que casa era!

O amigo dos primos estava descascando tranquillamente uma pêra. Ouviu a

pergunta, levantou a cabeça, fitou por momentos a grande dama, e respondeu:

--Eu, minha senhora, sou da casa... da Supplicação.

Arranjou a ter uma casa, a primeira que lhe lembrou, mas livrou-se do

apuro, que era a grande questão.

A respeito de praias, o que é preciso, em chegando o verão, é ter uma,

seja qual fôr, boa ou má, alegre ou triste.

Ter uma praia! eis o problema. E cada familia trata de partir, ás vezes

um pouco mesmo ao acaso, porque, entrando o mez de agosto, presume-se

que só ficam em Lisboa os corpos da guarnição e o D. José do Terreiro do

Paço.

Tudo o mais abala.

Se eu fosse guarda barreira, havia de aproveitar a occasião do regresso

dos banhistas para completar os meus estudos sobre os diversos typos da

galeria das praias.

Em Lisboa todas as pessoas parecem vestir e pensar do mesmo modo. A

sobrecasaca e o chapeu alto uniformisam a _toilette_ e o espirito de

cada um. Mas, nas praias, em plena liberdade de acção, cada banhista

veste a _toilette_ que quer, e exhibe com certa semceremonia as suas

predilecções, as suas manias, as suas excentricidades de caracter.

Este revela-se jogador. Atira-se á roleta, á batota ou ao _baccarat_.

Senta-se á mesa verde de lapis em punho, faz calculos mathematicos para

saber quando o _rei_ deve tornar a sahir ou quando o 36 deve voltar.

Aquelle é pescador de anzol. Passa o dia de canna na mão, sentado nas

fragas por horas esquecidas, esperando, com uma paciencia que ninguem

lhe suppunha, que o peixe venha picar na isca.

Est'outro, tão pachorrento e pouseiro, como todos o conheciamos no

Chiado, joga na praia o _croquet_ todo o dia e dança a Valsa toda a

noite no club.

Aquell'outro, que em Lisboa faz parte da sociedade protectora dos

animaes, manifesta-se um caçador acerrimo, enthusiasta pelas perdizes,

doido pelos coelhos, e loquaz chronista de anecdotas cynegeticas.

Conta historias dos seus cães, cousa que ninguem cá lhe conhecia,--nem

mesmo os credores.

De todos estes typos da collecção balnear o mais tagarella e o mais

imaginoso é por certo o caçador.

Elle tem sempre uma cousa extraordinaria, que lhe aconteceu, para contar.

E no cenaculo da praia, seja n'um estanco, n'uma botica ou n'uma loja de

capella, é elle o _habitué_ que tem corda para mais tempo, o caso é

dar-lhe a gente a cheirar á imaginação môlho de perdiz ou deixar-lhe vêr

por um oculo, n'uma referencia fugitiva, um coelho que elle logo fila

para nos impingir a sua illyada venatoria.

Então, enthusiasmado, o chapeu atirado para a nuca, os olhos brilhantes,

um riso de satisfação nos labios, elle falla de si, dos seus cães, da

sua espingarda, das suas caçadas maravilhosas.

Ou parte logo da mentira para fazer romance ou chega lá a breve trecho.

O caçador entra facilmente no paiz da fabula, o caso é haver quem ao de

leve o empurre para os intermundios de Diana.

--Eu tinha um cão, principia elle.

Até aqui póde ser verdade, posto que ninguem lh'o conhecesse, porque

nada ha tão natural como ter a gente um cão... ou mesmo dois.

Mas, por via de regra, o caçador, que tem sempre a imaginação prompta,

não se demora muito no prologo.

--Eu tinha um cão, continúa elle, que era... um assombro!

Aqui é que principia o maravilhoso do conto.

--Cão mais intelligente não n'o podia haver. Nem mais dedicado ao dono e

á sua familia. Pobre Epaminondas!

Ao soltar esta exclamação, o caçador faz beicinho para chorar. Uma

explosão de ternura envinagra os seus olhos, até ahi brilhantes e,

fingindo pensar no seu Epaminondas, demora-se algum tempo soluçante,

convulso.

--Mas que diabo de mania, pergunta do lado um dos ouvintes, foi essa que

você teve de chamar Epaminondas ao seu cão?

O caçador, querendo dominar a sua commoção:

--O que?! Que diabo de mania foi essa?! É facil de explicar. O cão era

superiormente intelligente; era, no seu genero, um heroe, uma

celebridade, direi mesmo uma gloria. De modo que eu quiz dar-lhe um

nome glorioso, que elle bem merecia. E não fiz nada de mais. Meu

pobre... meu rico Epaminondas! Senti mais a sua morte do que a de meu

avô, que eu nunca conheci, por ter vivido sempre no Brazil. Os senhores

vão dar-me rasão, vocês vão concordar comigo em lhes eu contando o que

aquelle cão era!

A fim de recobrar toda a sua tranquilidade, o caçador faz um intervallo,

accende o charuto que tinha deixado apagar, e continúa:

--Vocês sabem que meu pae, tendo recolhido a Portugal, viveu sempre

comigo...

Neste momento entra no estanco, se o cenaculo é um estanco, um garoto a

comprar dez réis de cigarros fortes.

O caçador interrompe-se, mostrando-se contrariado de que um intruso

venha esfriar o interesse que a sua narração estava produzindo no

auditorio.

O rapaz recebe os cigarros, e demora-se accendendo um.

Sempre suspenso, o orador espera que o garoto sahia.

Finalmente, continúa:

--Casei, e meu pae ficou vivendo sempre comigo. Tambem era o que valia,

para fazer companhia a minha mulher, porque eu, volta e meia, dizia-lhe

adeus e ia para a caça com o Epaminondas.

--Santa Justa, fracos, diz um freguez conhecido entrando no estanco.

O orador torna a interromper-se. Apertos de mão; as perguntas banaes do

estylo. O freguez de Santa Justa demora-se cerca de cinco minutos.

Quando elle sahe com os cigarros da sua devoção, o caçador, tomando uma

attitude erecta:

--Mas onde é que eu fiquei?

Do lado ha sempre um apontador espirituoso:

--Sahia você para a caça com Epaminondas quando o homem entrou.

--É verdade! Volta e meia, eu dizia adeus a meu pae e a minha mulher e

ia para a caça com o Epaminondas. Pelo caminho, parecia que iamos

conversando, porque o diabo do cão fallava.

--Fallava?!

--É um modo de dizer, tão bem se entendia tudo o que elle pensava!

--Homem! diz do lado o espirituoso, isso faz-me lembrar o caso da

_pateada tacita_!

--Vocês não acreditam--prosegue o caçador fingindo-se um pouco

indignado--mas eu garanto com a minha palavra de honra a exactidão de

tudo quanto digo a respeito do meu Epaminondas. Pelo caminho iamo-nos

entendendo como dois bons amigos. «Que te parece hoje o dia?» perguntava

eu. E o Epaminondas respondia: «Boa caçada; o dia está magnifico

para as perdizes.» Ou então torcia o nariz, como a dizer: «Isto hoje não

dá nada que se veja.» E depois parecia accrescentar: «Mas em todo o caso

eu hei-de fazer-lhe a diligencia.» Se o cão tinha concordado comigo em

que era dia de boa caçada, acontecia assim, por força. D'alli a nada não

tardavam a apparecer bandos de perdizes, ás vezes até a pequena

distancia de casa.

N'este comenos assoma ao limiar do estanco o boletineiro do telegrapho.

--Os snrs. não saberão dizer-me quem é o snr. Antonio do Espirito Santo

Soares?

Que não: que não é conhecido.

O boletineiro vae-se embora, e o caçador prosegue:

--Se alguma das perdizes era mais gorda, eu aproveitava a occasião para

fazer uma galanteria a meu pae ou a minha mulher, e mandava o cão a casa

com a perdiz.

--Olha lá, dizia-lhe eu entregando-lh'a, tu vaes n'um instante a casa

levar esta perdiz a meu pae. Mas toma cuidado, Epaminondas, olha que

esta é para meu pae. Nada de tolices, Epaminondas!

O cão partia por alli fóra como um relampago, com a perdiz nos dentes.

Chegava a casa mais depressa do que eu o estou dizendo, e ás vezes

a primeira pessoa que encontrava não era meu pae mas minha mulher.

Como era natural, minha mulher, até para experimentar a intelligencia do

cão, queria tirar-lhe a perdiz.

E o Epaminondas, como se não fosse realmente um cão, mas uma pessoa,

dizia-lhe:

--Nada, não. Esta mandou-a o senhor para o pae. Logo virá outra para a

senhora.

--O que?! Pois o cão dizia isso?!

--Está claro que não dizia como a gente o diz. Mas fazia-se entender de

tal modo, que minha mulher deixava-o passar, e era meu pae que recebia a

perdiz. Depois o Epaminondas voltava logo.

--E dizia alguma cousa?

--Dizia, sim; pelo menos eu entendia-o. «Seu pae diz que muito obrigado;

mas a senhora tambem quer.» «Está bem, Epaminondas, respondia eu; logo

irá para a senhora.» Ora acontecia que eu algumas vezes me esquecia do

compromisso que havia tomado; mas quem não se esquecia era o cão. Em

cahindo alguma perdiz mais geitosa, o Epaminondas estava-me logo a

dizer: «E a perdiz da senhora?» «Pois bem, leva lá a perdiz, e não te

demores.»

--Mas qual era o processo de eloquencia a que o Epaminondas recorria

para se fazer comprehender tão explicitamente?

--Eu sei lá! Era tudo: os olhos, o focinho, o rabo. Era tudo!

--Diga antes você que estava tão habituado com o cão, que já o entendia,

como a gente, á força de habito, chega a entender um surdo-mudo...

--Qual historia! De uma vez morreu a mulher do regedor de Loures, que

morava a dois passos da quinta em que eu estava. O cão ouviu, e percebeu

o que o criado tinha contado. E, sem que lhe tivessemos dito nada, sahe

por alli fóra, e vae a casa do regedor dar-lhe os pesames!

Quando a imaginação do caçador tem aquecido até á temperatura do

maravilhoso, já não ha ninguem que seja capaz de detel-o. É como um

_rapido_ que passa. Parece ás vezes, o que é phenomenal, que chega a

acreditar o que diz, e que adquire a convicção de que os outros o estão

acreditando.

Pois em cada praia ha sempre um caçador... pelo menos!

O guarda fiscal confirmou plenamente esta minha observação.

--Sim, senhor, disse-me elle. Eu conheço-os: ás vezes, fico até admirado

de que não tragam espingarda na bagagem!

Lisboa, 8 de outubro de 1888.

300 RS.

Chronicas de Viagem · 第 4 / 4 段