De modo que não era permittido conservar a sombra de uma duvida a esse

respeito. Não só a caixa de tabaco do presidente, mas a lettra, que

vinha sobre o documento, não permittiam aos incredulos abanar a cabeça.

Começaram então as lamentações, mãos desesperadas se levantaram ao céo.

Uncle Prudent e o seu collega, transportados n’um apparelho volante, sem

que se pudesse sequer entrevêr um meio de os salvar!

A Companhia do Niagára Falls, de que Uncle Prudent era o maior

accionista, teve de suspender os seus negocios. A _Walton-Watch Company_,

procurou liquidar a sua officina de relogios, agora que perdera o seu

director, Phil Evans.

Sim! foi um lucto geral e a palavra lucto não é exaggerada, porque, a

não ser alguns cerebros esquentados, como se encontram mesmo nos Estados

Unidos, ninguem esperava já tornar a vêr os dois respeitaveis cidadãos.

Comtudo, depois da sua passagem por sobre Paris, não se ouvia falar senão

no _Albatrós_. Algumas horas mais tarde, fôra visto por sobre Roma, e

disse. Não era isso para admirar, dada a velocidade com que a aeronave

tinha atravessado a Europa de norte a sul, e o Mediterraneo de oéste a

léste. Graças áquella velocidade, nenhum oculo a pudera alcançar, em

qualquer ponto da trajectoria.

Em vão todos os observatorios puzeram a postos todo o seu pessoal, dia e

noite; a machina de Robur tinha ido ou tão longe ou tão alto, na Icaria,

como elle dizia, que não havia esperança de a encontrar.

Convem accrescentar que, apesar da sua rapidez ser mais moderada por

sobre o littoral da Africa, como o documento não era ainda conhecido,

não pensaram em procurar a aeronave nas alturas do céo argelino.

Evidentemente, foi vista por cima de Tombuctú; mas o observatorio

d’aquella cidade celebre,—se é que ha lá um,—não tinha ainda tempo de

enviar para a Europa o resultado das suas observações.

Quanto ao rei do Dahomey, preferiria mandar cortar a cabeça a vinte mil

subditos seus, a confessar que tinha sido levado de vencida na lucta com

um apparelho aereo. Questão de amor proprio.

Mais além foi o Atlantico que o engenheiro Robur atravessou, foi a Terra

de Fogo que elle alcançou, e depois o cabo Horn. Foram as terras austraes

e o immenso dominio do polo, que transpoz um pouco contra a vontade. Ora

d’aquellas regiões antarcticas nenhuma noticia havia a esperar.

Passou-se julho, e nenhum olhar humano podia vangloriar-se de haver

entrevisto sequer a aeronave.

Passou-se agosto, e a incerteza com respeito aos prisioneiros de Robur

foi completa. Era caso para perguntar se o engenheiro, a exemplo de

Icaro, o mais velho mechanico de que reza a historia, não fôra victima da

sua temeridade.

Finalmente, os vinte e sete dias de setembro passaram-se sem resultado.

É bem certo que a tudo a gente se acostuma n’este mundo. É da humana

natureza esquecer as dôres que se afastam. Esquece-se porque é necessario

esquecer. Mas d’esta vez, é justo dizel-o em sua honra, o publico

terrestre susteve-se n’aquelle pendor. Não! não se tornou indifferente á

sorte de dois brancos e do preto, arrebatados como o propheta Elias, mas

cujo regresso á terra a Biblia não tinha promettido.

E isto foi mais para sentir em Philadelphia que em qualquer outro logar.

Juntavam-se tambem alguns receios pessoaes. Como represalia, tinha Robur

arrancado Uncle Prudent e Phil Evans ao seu paiz natal. Decerto que

estava bem vingado, embora contra todo o direito. Mas bastava isso para a

sua vingança? Não a quereria elle exercer ainda sobre alguns dos collegas

do presidente e do secretario do Weldon-Institute? E quem se podia julgar

ao abrigo dos ataques d’esse omnipotente senhor das regiões aereas?

Eis que no dia 28 de setembro correu na cidade uma noticia. Uncle Prudent

e Phil Evans haviam apparecido, de novo, n’essa tarde, no domicilio

particular do presidente do Weldon-Institute.

E o mais extraordinario é que a noticia era verdadeira, embora os

espiritos sensatos não quizessem acreditar n’ella.

Comtudo foi preciso convencerem-se pela evidencia. Eram de facto os dois

que haviam desapparecido, elles em pessoa, e não a sua sombra ... Até o

proprio Fricollin estava de volta.

Os membros do club, depois os seus amigos, e depois a multidão, foram

para defronte da casa de Uncle Prudent. Acclamaram os dois collegas,

fizeram-os passar de mão para mão, no meio de hurrahs e de hips!

Lá estava Jem Cip, que abandonára o seu almoço,—um prato de alfaces

cozidas,—depois William T. Forbes e suas duas filhas, miss Doll e miss

Mat. E n’esse dia Uncle Prudent poderia esposal-as as duas, se fôsse

mormão; mas não o era, e não tinha tendencia alguma para o vir a ser.

E estava tambem Truk Milnor, Bat T. Fyn, finalmente todos os membros

do club. E ainda hoje perguntam como é que Uncle Prudent e Phil Evans

poderiam sahir vivos dos milhares de braços por que tiveram de passar, ao

atravessar a cidade toda.

N’essa mesma tarde devia o Weldon-Institute ter a sua sessão

hebdomadaria. Esperava-se que os dois collegas tomassem assento na

presidencia. Ora, como elles nada haviam dito das suas aventuras,—não

lhes teriam dado tempo para falar?—esperava-se tambem que contassem por

miudos as suas impressões de viagem.

Com effeito, por qualquer motivo que fôsse, os dois permaneceram mudos.

Mudo tambem o creado Fricollin, que os seus congeneres por pouco não

estrangularam no seu delirio.

Mas o que os dois collegas não haviam dito, ou não tinham querido dizer,

é o seguinte:

Escusado é voltar ao que se sabe já da noite de 27 a 28 de julho, da

audaciosa evasão do presidente e do secretario do Weldon-Institute, da

sua impressão tão viva quando pisaram os rochedos da ilha Chatam, o tiro

dado sobre Phil Evans, o cabo cortado, e o _Albatrós_, privado então dos

seus propulsores, arrastado ao largo pelo vento do sudoéste, emquanto se

elevava a uma grande altura. Os seus pharoes accesos haviam permittido

seguil-o durante algum tempo. Depois não tardára a desapparecer.

Os fugitivos nada tinham a receiar. Como é que Robur podia voltar á ilha,

se os seus helices deviam ainda estar impossibilitados de funccionar

durante tres ou quatro horas?

D’aqui lá, o _Albatrós_ destruido pela explosão, não seria mais do que

um destroço fluctuando á tona de agua, e os que elle levava, cadaveres

despedaçados que o Oceano não restituiria.

O acto de vingança teria sido realisado com todo o seu horror.

Uncle Prudent e Phil Evans, considerando-se como em estado de legitima

defesa, não haviam tido sombra de remorso.

Phil Evans não fôra senão ligeiramente ferido pela bala lançada pelo

_Albatrós_. De modo que os tres trataram de alcançar o littoral, na

esperança de encontrar alguns indigenas.

Essa esperança não foi baldada. Uns cincoenta indigenas, vivendo de

pesca, habitavam a costa occidental de Chatam. Haviam visto a aeronave

descer sobre a ilha. Fizeram aos fugitivos o acolhimento devido a seres

sobrenaturaes. Adoraram-os, ou pouco menos. Puzeram-os na casa mais

confortavel. Jámais Fricollin tornaria a encontrar occasião egual para

passar pelo Deus dos pretos.

Como elles haviam previsto, Uncle Prudent e Phil Evans não viram voltar

a aeronave. Deviam concluir d’ahi que a catastrophe se tinha produzido

n’alguma zona alta da atmosphera. Não mais se ouviria falar do engenheiro

Robur, nem da prodigiosa machina que os seus companheiros tripulavam com

elle.

Agora era necessario esperar occasião de voltar á America. Ora a ilha

Chatam é pouco frequentada de navegantes. Todo o mez de agosto se passou

assim, e os fugitivos podiam ficar pensando se não tinham trocado uma

prisão por outra, com a qual, apesar de tudo, Fricollin se entendia

melhor que com a sua prisão aerea.

Afinal, a 3 de setembro, veiu um navio fazer aguada na ilha Chatam. Como

se devem lembrar, no momento de ser arrebatado de Philadelphia, Uncle

Prudent levava comsigo alguns milhares de dollars em papel, mais do que

era necessario para voltar á America.

Depois de haverem agradecido aos seus adoradores, que lhes não regateavam

as mais respeitosas demonstrações, Uncle Prudent, Phil Evans e Fricollin

embarcaram para Aukland. Nada contaram da sua historia e, em dois dias,

chegavam á capital da Nova Zelandia.

Alli, um vapor do Pacifico os recebeu como passageiros, e no dia 20 de

setembro, depois de uma travessia das mais felizes, os que sobreviviam

do _Albatrós_ desembarcaram em S. Francisco. Não haviam dito quem eram,

nem d’onde vinham; mas como haviam pago a bom preço o seu transporte, não

seria um capitão americano que lhes pedisse mais do que isso.

Em S. Francisco, Uncle Prudent, o seu collega e o creado Fricollin

tomaram o caminho de ferro do Pacifico. No dia 27 chegaram a Philadelphia.

Eis a descripção resumida do que se passára depois da evasão dos

fugitivos e da sua ida para a ilha Chatam. Eis como, n’essa mesma noite,

o presidente e o secretario puderam tomar logar na mesa da presidencia do

Weldon-Institute, no meio de uma affluencia extraordinaria.

Comtudo, nem um, nem outro tinham nunca estado tão tranquillos. Não se

diria, ao vêl-os, que alguma cousa de anormal se tivesse passado depois

da memoravel sessão de 12 de junho. Tres mezes e meio que pareciam não

contar na sua existencia!

Depois das primeiras salvas de hurrahs, que os dois receberam, sem que

o seu rosto reflectisse a menor emoção, Uncle Prudent poz o chapéo na

cabeça e tomou a palavra.

—Respeitaveis cidadãos, disse elle, está aberta a sessão.

Applausos freneticos e bem legitimos! Porque, se não era extraordinario

que aquella sessão se abrisse, era-o o facto de ser aberta por Uncle

Prudent, acompanhado de Phil Evans.

O presidente deixou o enthusiasmo expandir-se em clamores e palmas.

Depois continuou:

—Na nossa ultima sessão, meus senhores, a discussão fôra muito viva

(ouçam, ouçam!) entre os partidarios do helice na frente e do helice

atraz, para o nosso balão, o _Go a head_. (Demonstrações de surpreza.)

Ora, encontrámos meio de chegar a um accôrdo entre os _afrentistas_ e os

_atrazistas_, e esse meio é o seguinte:—é pôr dois helices, um em cada

extremo da barquinha. (Silencio de completa estupefacção.)

E mais nada.

Era tudo! Do rapto do presidente e do secretario do Weldon-Institute, nem

palavra! Nem palavra do _Albatrós_, nem do engenheiro Robur! Nem palavra

da viagem! Nem palavra finalmente do que viera a ser da aeronave: se

corria ainda através do espaço, se se podiam receiar novas represalias

contra os membros do club!

Não faltava a todos esses balonistas o desejo de interrogarem Uncle

Prudent e Phil Evans; mas viram-os tão serios, tão abotoados, que pareceu

conveniente respeitar a sua attitude. Quando julgassem necessario falar,

falariam e teriam muita honra em os ouvir.

No fim de contas, havia talvez n’aquelle mysterio algum segredo que não

podia ainda ser divulgado.

E então Uncle Prudent, tomando de novo a palavra no meio do silencio, até

então desconhecido nas sessões do Weldon-Institute:

—Meus senhores, disse elle, agora não falta senão concluir o aerostato

_Go a head_, ao qual pertence fazer a conquista do ar.

Está levantada a sessão.

CAPITULO XVIII

ONDE TERMINA ESTA VERIDICA HISTORIA DO “ALBATRÓS„ SEM SE TERMINAR

No dia 29 de abril do anno seguinte, sete mezes depois do regresso

imprevisto de Uncle Prudent e de Phil Evans, toda a Philadelphia estava

em movimento. A politica não entrava para cousa alguma d’esta vez. Não

se tratava nem de eleições nem de meetings. O aerostato _Go a head_,

concluido a expensas do Weldon-Institute, ia afinal tomar posse do seu

elemento natural.

Tinha por aeronauta o celebre Harry W. Tinder, cujo nome foi pronunciado

no principio d’esta narrativa,—e mais um ajudante.

Por passageiros, o presidente e o secretario do Weldon-Institute. Não

mereciam elles uma tal honra? Não lhes competia vir protestar em pessoa

contra todo o apparelho que se baseasse no principio do “Mais pesado que

o ar„?

Comtudo, depois de sete mezes, elles não falavam ainda das suas

aventuras. O proprio Fricollin, por mais vontade que tivesse,

nada dissera do engenheiro Robur, nem da sua prodigiosa machina.

Evidentemente, balonistas intransigentes como eram, Uncle Prudent e

Phil Evans não queriam ouvir falar da aeronave ou de qualquer outro

apparelho volante. Emquanto o balão _Go a head_ não tivesse o primeiro

logar entre os apparelhos de locomoção aerea, nada queriam admittir das

invenções devidas aos aviadores. Acreditavam ainda, e queriam continuar a

acreditar, que o verdadeiro vehiculo atmospherico era o aerostato e que

só a elle pertencia o futuro.

Além de que, esse de quem haviam tirado uma tão grande vingança, na sua

opinião, tão justa,—já não existia. Nenhum dos que o acompanhavam lhe

podia sobreviver. O segredo do _Albatrós_ estava agora sepultado nas

profundezas do Pacifico.

Quanto a admittir que o engenheiro Robur tivesse um retiro, uma ilha onde

descançar, no meio do vasto oceano, não passava de uma hypothese. Em todo

o caso, os dois collegas reservavam-se para decidir mais tarde se não

conviria fazer algumas pesquizas n’esse sentido.

Iam finalmente proceder a essa grande experiencia que o Weldon-Institute

preparava de tão longa data e com tantos cuidados. O _Go a head_ era o

typo mais perfeito do que havia sido inventado até áquella épocha na arte

aerostatica,—o que um _Inflexivel_ ou um _Formidavel_ é na arte naval.

O _Go a head_ possuia todas as qualidades que um aerostato devia ter.

O seu volume permittia-lhe subir até as ultimas alturas que um balão

pode attingir; a sua impenetrabilidade permittia-lhe o poder manter-se

indefinidamente na atmosphera; a sua solidez o arrostar com toda a

dilatação de gaz, como tambem com as violencias da chuva e do vento; a

sua capacidade, o dispôr de uma fôrça ascencional assaz consideravel

para aguentar, com todos os seus accessorios, um machinismo electrico

que devia communicar aos seus propulsores um poder de locomoção superior

a tudo o que até então se tinha obtido. O _Go a head_ tinha uma forma

alongada que facilitava o seu deslocamento segundo a horisontal. A sua

barquinha, plataforma pouco mais ou menos semelhante á do balão dos

capitães Krebs e Renard, conduzia todos os utensilios necessarios aos

aeronautas, instrumentos de physica, cabos, ancoras, _guide ropes_, etc.,

fora apparelhos, pilhas e accumuladores que constituiam o seu poder

mechanico. Essa barquinha estava munida, na frente, de um helice e de um

leme. Mas, provavelmente, a fôrça das machinas do _Go a head_ devia ser

inferior á dos apparelhos do _Albatrós_.

O _Go a head_ tinha sido transportado, depois de cheio de ar, para a

clareira do Fairmont Park, no proprio sitio onde a aeronave tinha pousado

durante algumas horas.

Inutil é dizer que o seu poder ascensional lhe era fornecido pelo mais

leve dos corpos gazosos. O gaz de illuminação não possue senão uma fôrça

de setecentas grammas, proximamente, por metro cubico,—o que não dá

senão uma insufficiente quebra de equilibrio com o ar ambiente. Mas o

hydrogenio possue uma fôrça de ascensão que pode ser calculada em mil

e cem grammas. Esse hydrogenio puro, preparado segundo os processos e

apparelhos especiaes do celebre Henry Giffard, enchia o enorme balão.

Portanto, já que a capacidade do _Go a head_ media quarenta mil metros

cubicos, a potencia ascensional do seu gaz era quarenta mil multiplicados

por mil e cem, isto é, quarenta e quatro mil kilos.

N’essa manhã de 29 de abril tudo estava prestes. Desde as onze horas, o

enorme aerostato balouçava a alguns pés do solo, prestes a subir ao ar.

Um tempo admiravel, como que expressamente feito para esta importante

experiencia. Em summa, talvez mais valesse que a brisa fôsse mais forte,

o que teria tornado a experiencia mais concludente. Com effeito, nunca

se poz em duvida que um balão possa ser dirigido n’uma atmosphera calma;

porém no meio de uma atmosphera em movimento, é outra cousa e é n’essas

condições que as experiencias devem ser tentadas.

Emfim, não havia vento, nem apparencia de que se pudesse levantar. N’esse

dia, por um caso extraordinario, a America do Norte não se dispunha a

enviar á Europa occidental uma das boas tempestades que traz de reserva,

e nunca se poderia ter escolhido um dia mais conveniente para uma

experiencia aeronautica.

Será preciso falar na immensa multidão reunida no Fairmont-Park, nos

trens numerosos que tinham trazido para a capital da Pensilvania os

curiosos de todos os Estados circumvizinhos? na suspensão da vida

industrial e commercial que permittia a todos virem assistir ao

espectaculo: patrões, empregados, operarios, homens, mulheres, velhas,

creanças, membros do Congresso, representantes do exercito, magistrados,

reporters, indigenas brancos e negros, reunidos na vasta clareira?

Será preciso descrever as emoções ruidosas da populaça, os movimentos

inexplicaveis, os impetos subitaneos que tornavam a massa popular

palpitante e tempestuosa?

Será preciso enumerar os hips! hips! hips! que rebentaram de toda a

parte, como detonações de fogo de artificio, quando Uncle Prudent e Phil

Evans appareceram na plataforma, por baixo do aerostato, embandeirado das

côres americanas? Será preciso confessar finalmente que o maior numero de

curiosos não tinha talvez vindo para vêr o _Go a head_, mas unicamente

para contemplar esses dois homens extraordinarios que o Antigo Mundo

enviava ao Novo?

Dois? e porque não tres? É que Fricollin entendia que a campanha do

_Albatrós_ bastava para a sua celebridade. Havia declinado a honra de

acompanhar seu amo. Não teve portanto partilha nas acclamações freneticas

que acolheram o presidente e o secretario do Weldon-Institute.

Escusado é dizer que, de todos os membros da illustre assembléa, nenhum

faltou nos logares reservados, para dentro das cordas e postes que

marcavam o recinto no meio da clareira. Lá estavam Truk Milnor, Bat T.

Fyn, William T. Forbes, trazendo pelo braço as suas filhas, miss Doll e

miss Mat. Tinham todos vindo affirmar pela sua presença que nada podia

jámais separar os partidarios do “Mais ligeiro que o ar„.

O _Go a head_, seguro pelas suas cordas de rêde, subiu uns quinze

metros acima da clareira. D’esse modo a plataforma dominava a multidão

tão profundamente commovida. Uncle Prudent e Phil Evans, de pé, na

frente, puzeram então a mão esquerda sobre o peito,—o que significava

que o seu coração estava com todos os que se viam presentes. Depois,

extenderam a mão direita para o zenith,—o que significava que o maior dos

balões conhecidos até esse dia ia finalmente tomar posse dos dominios

supra-terrestres.

Cem mil mãos se levaram então a cem mil peitos, e cem mil outras se

ergueram ao céo.

Um terceiro tiro de peça se ouviu ás onze e trinta.

—Largue tudo! gritou Uncle Prudent, proferindo a formula sacramental.

E o _Go a head_ subiu, “majestosamente„, adverbio consagrado pelo uso nas

descripções aerostaticas.

Na realidade, era um espectaculo soberbo! Dir-se-hia um navio que acaba

de deixar o seu estaleiro de construcção. E não era um navio, lançado no

mar aereo?

O _Go a head_ subiu seguindo uma rigorosa vertical, prova da

tranquillidade absoluta da atmosphera, e parou a uma altura de duzentos e

cincoenta metros.

Alli começaram as manobras de deslocamento horisontal. O _Go a head_,

impellido pelos seus dois helices, foi em direcção ao sol com uma

velocidade de uns dez metros por segundo. Era a velocidade de uma baleia,

livre no meio das camadas liquidas. E não é fora de proposito comparal-o

com o gigante dos mares boreaes, porque tinha tambem a forma d’esse

enorme cetaceo.

Uma nova salva de hurrahs subiu até os habeis aeronautas. Depois, sob

a acção do seu leme, o _Go a head_ entregou-se a todas as evoluções

circulares, obliquas, rectilineas, que a mão do timoneiro lhe imprimia.

Girou n’um circulo restricto, avançou, recuou, de maneira a convencer

os mais refractarios da direcção dos balões,—se houve algum!... Se os

houvesse tel-os-hiam cortado em pedaços.

Mas porque havia de o vento faltar a essa magnifica experiencia? Era

para lamentar. Teriam visto decerto, o _Go a head_ executar, sem uma

hesitação, todos os movimentos, quer obliquando como um navio de véla,

quer cortando as correntes, como um navio a vapor.

N’esse momento o aerostato subiu no espaço alguns centos de metros.

Comprehenderam a manobra. Uncle Prudent e os seus companheiros iam tentar

procurar uma corrente qualquer nas mais altas zonas, afim de completar

a experiencia. Além d’isso, um systema de balõesinhos interiores,

analogos ás bexigas natatorias dos peixes e onde se podia introduzir uma

certa quantidade de ar, por meio de bombas, permittiam-lhe deslocar-se

verticalmente. Sem deitar fora o lastro para subir, ou perder o gaz

para descer, estava nos casos de se elevar ou abaixar-se na atmosphera,

á vontade do aeronauta. Comtudo elle fôra munido de uma valvula no seu

hemispherio superior, para o caso de ser obrigado a uma rapida descida.

Era, em summa, a applicação de systemas já conhecidos, mas levados a um

extremo grau de perfeição.

O _Go a head_ subiu, pois, seguindo uma linha vertical. As suas enormes

dimensões diminuiram gradualmente á vista, como por um effeito de optica.

Não deixava isto de ser curioso para os espectadores, cujas vertebras

do pescoço quasi se deslocavam, de olhar para o ar. A enorme baleia

tornára-se a pouco e pouco um golphinho, emquanto não fôsse reduzida ao

estado de um simples peixinho.

O movimento ascensional não cessava, e o _Go a head_ attingia uma

altitude de quatro mil metros. Mas n’um céo tão puro, sem uma sombra de

nuvem, esteve constantemente visivel.

Comtudo elle mantinha-se por sobre a clareira, como se estivesse por

fios divergentes. Tivesse uma enorme campanula aprisionado a atmosphera

e não teria estado mais immovel. Nenhuma aragem, nem áquella altura nem

a outra. O aerostato evolucionava sem encontrar resistencia alguma,

diminuindo pela distancia, como se o estivessem a vêr por um lentesinha.

De repente, um grito se ergueu da turba, um grito seguido de cem mil

outros. Todos os braços se extenderam para um ponto do horisonte. Esse

ponto era para o noroéste.

Alli, no azul profundo, appareceu um corpo movel, que se approximava e

crescia. Era uma ave, batendo as azas nas altas camadas do ar? Seria um

bolide, cuja trajectoria cortava obliquamente a atmosphera? Em todo o

caso, era dotado de uma velocidade excessiva, e não tardaria a passar por

cima da multidão.

Uma suspeita, que se communica electricamente a todos os cerebros, corre

por toda a clareira.

Mas parece que o _Go a head_ viu aquelle extranho objecto. Decididamente,

sentiu que um perigo o ameaçava, porque a sua velocidade augmentou, e

dirigiu-se para léste.

Sim! a multidão comprehendêra! Um nome, foi repetido por cem mil bôcas:

—O _Albatrós_! o _Albatrós_!

É o _Albatrós_ com effeito! É Robur que reapparece nas alturas do céo! É

elle que, semelhante a uma gigantesca ave de rapina, ia cahir sobre o _Go

a head_!

E no entretanto, nove mezes antes, a aeronave, espedaçada pela explosão,

com os helices partidos, a sua plataforma em duas, fôra anniquilada. Sem

o sangue frio prodigioso do engenheiro, que modificou o sentido giratorio

do propulsor da frente e o transformou n’um helice suspensivo, todo o

pessoal do _Albatrós_ teria morrido asphyxiado pela rapidez da quéda.

Mas, se tinham podido escapar á asphyxia, como é que elle e os seus se

não tinham afogado nas aguas do Pacifico?

É que os destroços da sua plataforma, as azas dos propulsores, os

tabiques dos beliches, tudo que ficára do _Albatrós_, sobrenadava.

Se a ave ferida cahira na agua, as suas azas sustinham-n’a ainda

sobre as ondas. Durante algumas horas, Robur e os seus homens ficaram

primeiramente sobre esses destroços, depois, no barco de cautchuc que

haviam encontrado á superficie do Oceano.

A Providencia, para os que acreditam na intervenção divina nas cousas

humanas,—o acaso, para os que teem a fraqueza de não acreditar na

Providencia,—veiu em auxilio dos naufragos.

Deu com elles um navio, algumas horas depois de romper o sol. Esse

navio lançou uma embarcação ao mar. Recolheu não só Robur e os seus

companheiros, mas tambem os restos fluctuantes da aeronave. O engenheiro

contentou-se com dizer que o seu barco sossobrára n’um abalroamento, e o

seu incognito foi respeitado.

O navio era inglez, o _Two Friends_, de Liverpool. Dirigia-se para

Melbourno, onde chegou alguns dias depois.

Robur, o Conquistador · 第 13 / 14 段