alta, os helices suspensivos foram afrouxados, e sendo o cabo içado para
bordo, o _Albatrós_ começou a approximar-se do solo.
N’esse momento ouviu-se distinctamente a voz de Phil Evans:
—Engenheiro Robur, disse elle, compromette-se, sob sua honra, a
deixar-nos livres n’esta ilha?...
—Nunca! exclamou Robur.
E essa resposta foi seguida de um tiro de espingarda, cuja bala roçou
pelo hombro de Phil Evans.
—Ah! patife! exclamou Uncle Prudent.
E de faca na mão, precipitou-se para o lado dos rochedos, onde a ancora
se tinha incrustado. A aeronave estava apenas a uns 50 pés do solo.
E em poucos segundos o cabo estava cortado, e a brisa, que tinha
refrescado sensivelmente, batendo de lado o _Albatrós_, afastava-o para o
nordéste, por sobre o mar.
CAPITULO XVI
ONDE O LEITOR FICARÁ N’UMA INDECISÃO TALVEZ LAMENTAVEL
Era então meia noite e vinte. Cinco ou seis tiros mais tinham sido dados
da aeronave. Uncle Prudent e Fricollin, sustentando Phil Evans, tinham-se
posto ao abrigo dos rochedos. Não haviam sido feridos. Nada a receiar
n’aquelle momento.
Primeiramente, o _Albatrós_, ao mesmo tempo que se afastava da ilha
Chatam, foi levado a uma altura de novecentos metros. Tinha sido preciso
forçar a velocidade ascensional afim de não cahir ao mar.
No momento em que o vigia, livre da mordaça, soltava o primeiro grito,
Robur e Tom Turner, precipitando-se sobre elle, tinham-n’o desembaraçado
do pedaço de panno que lhe cobria o rosto, e dos laços que o prendiam.
Depois o contramestre entrára no beliche de Uncle Prudent e de Phil
Evans: estava vasio!
François Tapage, pelo seu lado, havia esquadrinhado no beliche de
Fricollin: e não vira ninguem!...
Vendo que os prisioneiros lhe haviam escapado, Robur entregou-se a um
movimento de colera. A evasão de Uncle Prudent e Phil Evans era o seu
segredo, era a sua pessoa revelada a todo o mundo. Se não se inquietára
com o documento lançado durante a travessia da Europa, é que havia muitas
probabilidades de elle se perder na quéda!... Mas agora!...
Depois, serenando:
—Fugiram! deixal-os! disse elle. Como não poderão safar-se da ilha Chatam
antes de alguns dias, eu voltarei!... Eu os procurarei!... eu os tornarei
a apanhar!... e então ...
Com effeito a salvação dos tres fugitivos estava longe de ser garantida.
O _Albatrós_, tornando-se senhor da sua direcção, não tardaria em
alcançar de novo a ilha Chatam, d’onde os fugitivos não podiam sahir tão
cedo. Antes de doze horas estariam em poder do engenheiro.
Antes de doze horas! Mas antes de duas o _Albatrós_ seria anniquilado!
Esse cartuxo de dynamite, não era como um torpedo preso ao seu flanco, e
destinado a realisar a sua obra de destruição nos ares?
Entretanto a brisa tornava-se mais fresca, a aeronave era levada para o
nordéste. Embora a sua velocidade fôsse moderada, devia ter perdido de
vista a ilha Chatam antes do nascer do sol.
Para voltar contra o vento, seria preciso que os propulsores, ou pelo
menos os da frente, estivessem em estado de funccionar.
—Tom, disse o engenheiro, põe os pharoes a toda a luz.
—Sim, master Robur.
—E todos á obra!
—Todos! respondeu o contramestre.
Não era cousa que se deixasse para o dia seguinte. Não se tratava de
cançaço agora. Não havia um unico no _Albatrós_ que não partilhasse das
paixões do seu chefe. Nenhum que não estivesse resolvido a fazer tudo
para tornar a apanhar os fugitivos! Apenas o helice da frente fôsse
collocado no seu logar, voltariam a Chatam, alli, amarrariam de novo, e
dariam caça aos prisioneiros. Só então começariam as reparações do helice
de traz, e a aeronave poderia continuar com toda a segurança através o
Pacifico a sua viagem de regresso á ilha X.
Comtudo era necessario que o _Albatrós_ não fôsse levado para muito longe
ao nordéste. Ora, circumstancia desagradavel! a brisa ía-se accentuando,
e elle não podia nem vencel-a, nem ficar estacionario. Privado dos seus
propulsores, tornou-se um balão indirigivel. Os fugitivos, postados no
littoral, tinham podido vêr que elle desappareceria antes que a explosão
puzesse tudo em pedaços.
Este estado de cousas não podia deixar de inquietar Robur com respeito
aos seus projectos ulteriores.
Pois não resultava isso n’um atrazo em voltar á ilha Chatam? De modo que
emquanto os concertos eram feitos activamente, elle tomou a resolução de
descer até ás baixas camadas na esperança de alli encontrar correntes
mais fracas. Talvez o _Albatrós_ chegasse a manter-se n’aquellas paragens
até o momento de se ter sufficiente fôrça para resistir á aragem.
Fez-se immediatamente a manobra. Se algum navio tivesse assistido ás
evoluções d’este apparelho, então envolto nos seus clarões electricos,
que espanto não teria a guarnição!
Quando o _Albatrós_ não esteve senão a alguns centos de pés da superficie
do mar, parou.
Infelizmente Robur teve de notar que a aragem soprava com mais fôrça
n’esta zona inferior, e a aeronave afastou-se com velocidade maior.
Arriscava-se a ser arrastada para mais longe ao nordéste, o que
retardaria o seu regresso a Chatam.
Em summa, feitas algumas tentativas, ficou provado que havia vantagem
em se manter nas altas camadas em que a atmosphera estava melhor
equilibrada. Assim o _Albatrós_ subiu uma média de tres mil metros.
Alli, se não ficou estacionario, pelo menos o seu andamento foi lento. O
engenheiro poude esperar melhor que ao romper do dia, e d’aquella altura,
teria ainda em vista as paragens da ilha, cuja posição elle tomara com
uma exactidão perfeita.
Quanto á questão de saber se os fugitivos haviam recebido bom acolhimento
dos indigenas, no caso da ilha ser habitada, Robur nem se preoccupava com
isso. Que os indigenas lhes viessem em auxilio pouco se lhe dava! Com
os meios offensivos de que o _Albatrós_ dispunha, seriam promptamente
espantados e dispersados. A captura dos prisioneiros, não podia, pois,
trazer receios, e, estando presos ...
—Não ha meio de fugir da ilha X! disse Robur.
Cêrca da uma hora depois do meio dia, o propulsor da frente estava
concertado. Não se tratava senão de o pôr no seu logar, o que exigia
ainda uma hora de trabalho. Feito isto, o _Albatrós_ tornaria a partir,
na direcção sudoéste, e então desmontariam o propulsor de traz.
E a mécha que ardia no beliche abandonado! Essa mécha cuja terça parte
tinha já ardido. E a chamma que se approximava do cartucho de dynamite!
Evidentemente, se os homens da aeronave não estivessem occupados, talvez
um d’elles tivesse ouvido o tenue crepitar que começara a produzir-se
no beliche; talvez tivesse sentido o cheiro da polvora queimada. E
ter-se-hia preoccupado; teria prevenido o engenheiro Robur ou Tom Turner.
Teriam então dado busca, e descoberto o cofre em que haviam guardado o
cartucho. Seria ainda tempo de salvar esse maravilhoso _Albatrós_ e todos
que elle levava!
Mas os homens trabalhavam na frente, isto é, a vinte metros do beliche
dos fugitivos. Nada os levara ainda a essa parte da plataforma, como nada
podia distrahil-os de um trabalho que chamava toda a sua attenção.
O proprio Robur trabalhava, como habil machinista que era. Apressava o
trabalho, mas sem esquecer que tudo fôsse feito com o maior cuidado! Era
necessario que elle se tornasse absolutamente senhor do seu apparelho. Se
não conseguisse apanhar os fugitivos, estes acabariam por voltar á sua
terra. Fariam investigações. A ilha X não escaparia talvez ás pesquizas.
E isso, seria acabar com a situação da gente do _Albatrós_, situação
sobrehumana e sublime!
N’aquelle momento, o contramestre approximou-se do engenheiro. Era uma
hora e um quarto.
—Master Robur, disse elle, parece-me que o vento annuncia agua para oéste.
—E o que indica o barometro? perguntou Robur, depois de ter observado o
aspecto do céo.
—Está quasi estacionario, respondeu o contramestre. Comtudo parece-me que
as nuvens descem para baixo do _Albatrós_.
—É verdade, Tom Turner. E n’esse caso não é impossivel que chova á
superficie do mar. Mas comtanto que permaneçamos por cima das nuvens,
pouco importa! Não seremos perturbados na conclusão do nosso trabalho.
—Se chover, continuou Tom Turner, deve ser uma chuva fina,—pelo menos a
forma das nuvens assim o faz suppôr,—e é provavel que mais em baixo o
vento serene completamente.
—Decerto, Tom, respondeu Robur. Comtudo, parece-me preferivel não descer
ainda. Acabemos de reparar as avarias e poderemos então manobrar á
vontade. Tudo está n’isso.
Ás duas horas e alguns minutos, estava concluida a primeira parte do
trabalho. Reinstallado o helice anterior, fôram postas em movimento as
pilhas que n’elle actuavam. O movimento accelerou-se a pouco e pouco
e o _Albatrós_, evolucionando na direcção do sudoéste, voltou com uma
velocidade média em direcção da ilha Chatam.
—Tom, disse Robur, ha duas horas e meia, approximadamente, que nos
dirigimos ao nordéste. A brisa não mudou, como pude notar observando o
compasso. Portanto calculo que em uma hora, o maximo, poderemos encontrar
de novo as paragens da ilha.
—Assim o julgo, master Robur, respondeu o contramestre; porque avançamos
na razão de uns doze metros por segundo. Entre as tres e as quatro da
manhã terá o _Albatrós_ alcançado o seu ponto de partida.
—E será assim melhor, Tom! respondeu o engenheiro. Temos interesse
em chegar de noite, e mesmo em pousar em terra, sem sermos vistos.
Os fugitivos julgando-nos para o norte, não se previnirão. Quando o
_Albatrós_ estiver rente da terra trataremos de o esconder por detraz de
alguns altos rochedos da ilha. Depois, teremos de passar alguns dias em
Chatam.
—Pois passaremos, e quando tivermos de luctar contra um exercito de
indigenas ...
—Luctaremos, Tom, luctaremos pelo nosso _Albatrós_!
O engenheiro voltou-se então para a sua gente, que esperava novas ordens.
—Meus amigos, disse elle, não chegou ainda a hora de descançar. É preciso
trabalhar até ser dia.
Estavam todos prestes.
Tratava-se agora de recomeçar para o propulsor de traz os concertos que
haviam sido feitos para o da frente. Eram as mesmas avarias, produzidas
pela mesma causa, isto é, pela violencia do furacão durante a travessia
do continente antarctico.
Mas afim de auxiliar a metter o helice para dentro, entenderam dever
suspender, durante alguns minutos, a marcha da aeronave e mesmo
imprimir-lhe um movimento retrogrado. Á ordem de Robur, o ajudante do
machinista deu o movimento de recúo á machina, mudando a rotação do
helice anterior. A aeronave começou portanto a “descahir„ lentamente,
para empregarmos uma expressão maritima.
Tudo se dispunha então a andar para traz, quando Tom Turner foi
surprehendido por um cheiro singular.
Eram os gazes da mécha, accumulados agora no cofre, e que começavam a
sahir do beliche dos fugitivos.
—Hein? fez o contramestre.
—O que ha? perguntou Robur.
—Pois não lhe cheira?... dir-se-hia que é polvora a queimar-se.
—É verdade, Tom!
—E o cheiro vem dos ultimos compartimentos!
—Sim, e até do ultimo beliche ...
—Será possivel que esses miseraveis tivessem deitado fogo?...
—Oh! se fôsse fogo apenas!... exclamou Robur. Mette a porta dentro, Tom,
mette-a já!
Mal o contramestre dera um passo para traz, e já uma formidavel explosão
abalava o _Albatrós_.
Os beliches voaram em estilhaços. Os pharoes apagaram-se, por lhes faltar
subitamente a corrente electrica, e fez-se escuridão completa. Comtudo,
se a maior parte dos helices suspensivos, torcidos ou partidos, estavam
de todo inutilisados, alguns, á prôa, não haviam parado ainda de girar.
De repente, o casco da aeronave abriu-se um pouco atraz dos primeiros
compartimentos, cujos accumuladores actuavam ainda no propulsor da
frente, e a parte posterior da plataforma deu uma viravolta no espaço.
Quasi em seguida pararam os helices suspensivos, e o _Albatrós_ foi
precipitado no abysmo.
Era uma quéda de tres mil metros para os oito homens agarrados, como
naufragos, áquelles destroços.
Além d’isso a quéda ia ser muito mais rapida porque os propulsores da
frente, depois de se pôrem verticalmente, funccionavam ainda!
Foi então que Robur, com um grande sangue frio, se deixou deslisar até
o beliche meio deslocado, pegou na alavanca e mudou a rotação do helice
que, de propulsiva que era, tornou-se suspensiva.
Quéda inevitavel, apesar de um tanto retardada; mas, pelo menos, sem essa
velocidade crescente dos corpos abandonados aos effeitos da gravidade. E
se em todo o caso era certa a morte para os que sobrevivessem, visto que
se precipitavam no mar, não era a morte por asphixia, no meio de um ar
que a rapidez da descida teria tornado irrespiravel.
Oitenta segundos depois da explosão, o que restava do _Albatrós_
abysmara-se nas ondas.
CAPITULO XVII
DE COMO SE VOLTA DOIS MEZES ATRAZ E SE SALTA PARA NOVE MEZES MAIS TARDE
Algumas semanas antes, a 13 de junho, no dia seguinte ao da sessão,
durante a qual o Weldon-Institute se abandonára a tão tempestuosas
discussões, tinha havido em todas as classes da população philadelphia,
negros e brancos, uma emoção difficil de descrever.
Já, nas primeiras horas da manhã, as conversações versavam unicamente
sobre o inesperado e escandaloso incidente da vespera. Um intruso,
que dizia ser engenheiro, um engenheiro que pretendia chamar-se com
um nome inverosimil de Robur,—Robur, o Conquistador!—um personagem de
origem desconhecida, de nacionalidade anonyma, tinha-se apresentado
inopinadamente na sala das sessões, havia insultado os balonistas,
infamado os partidarios dos aerostatos, exaltára as maravilhas dos
apparelhos mais pesados que o ar, levantára celeuma no meio de um tumulto
espantoso, provocado por ameaças que revirára contra os seus adversarios.
Finalmente, depois de ter abandonado a tribuna no meio de tiros de
revolvers, tinha desapparecido, e, apesar de todas as pesquisas, não
tinham mais ouvido falar d’elle.
Com effeito, isto fizera-se para dar exercicio a todas as linguas, e
inflammar todas as imaginações. O que se deu na Philadelphia, deu-se em
todos os outros trinta e seis Estados da União, e, para dizer a verdade,
tanto no Antigo Mundo como no Novo Mundo.
Mas este alarme cresceu de ponto quando na noite de 13 de junho foi
voz geral que nem o presidente nem o secretario do Weldon-Institute
tinham apparecido no domicilio, sendo aliás pessoas bem comportadas e
prudentes. Na vespera tinham deixado a sala das sessões como pessoas que
pretendem recolher tranquillamente para suas casas, na sua qualidade
de celibatarios, que nenhum rosto aborrecido espera á entrada. Não se
teriam ausentado, por acaso? Não; pelo menos nada haviam dito que levasse
a suppôl-o. E mesmo tinha ficado combinado que no dia seguinte elles
tomariam o seu logar no club, um como presidente, outro como secretario,
na previsão de uma sessão em que se discutissem os acontecimentos da
vespera.
E não só houvera desapparição completa dos dois personagens importantes
do Estado de Pensylvania, mas nenhuma noticia havia do creado Fricollin.
Não havia meio de o encontrar, como a seu amo. Não! negro nenhum, depois
de Toussaint Louverture, ou Soulouque, tinha dado tanto que falar!
Elle ia agora ter um logar importante, tanto entre os seus collegas da
domesticidade philadelphia, como entre todos esses originaes a quem uma
excentricidade qualquer basta para se pôrem em relevo n’esse formoso paiz
da America!
No dia seguinte nada de novo. Nem os dois collegas, nem Fricollin
tornaram a apparecer. Séria inquietação. Principiaram então a
agitar-se. Grande multidão começou a reunir-se nas proximidades dos
Post-and-Telegraph-offices para saber se havia alguma noticia.
Nada de novo.
E, comtudo, bem os haviam visto, aos dois, sahir do Weldon-Institute,
conversar em voz alta, irem ter com Fricollin, que os esperava, e depois
descer a Walnut Street, indo até á encosta de Fairmont-Park.
Jem Cip, o legumista, tinha até apertado a mão direita do presidente,
dizendo-lhe:
—Até ámanhã!
E William T. Forbes, o fabricante de assucar feito de trapos, tinha
recebido um cordeal aperto de mão de Phil Evans, que lhe dissera duas
vezes:
—Até á vista!... até á vista!...
Miss Doll e miss Mat Forbes, tão ligadas a Uncle Prudent por laços da
mais pura amizade, não estavam em si com um tal acontecimento, e afim de
obterem noticias do ausente, falavam ainda mais que do costume.
Emfim, tres, quatro, cinco, seis dias se passaram, depois uma semana,
duas semanas ... Ninguem, e indicio nenhum que pudesse pôr na pista dos
tres desapparecidos.
Tinham comtudo procedido ás mais minuciosas pesquizas no bairro ... Nada!
Nas ruas que vão dar ao porto ... Nada! No parque o mesmo, sob os grandes
tufos de arvores, no mais espesso dos mattos ... Nada! Sempre nada!
Comtudo reconheceu-se que na grande clareira a herva tinha sido
recentemente calcada, e de um modo que parecia suspeito, visto não
ter explicação. Á entrada do bosque que a cerca tambem foram notados
vestigios de uma lucta. Teriam pois bandos de malfeitores encontrado e
atacado os dois collegas, a essa hora avançada da noite, no meio d’esse
parque deserto?
Era possivel. Portanto a policia procedia a um inquerito em todas as
formas e com todo o rigor legal. Esquadrinharam o Schuylkill-river,
rasparam-lhe o fundo, bateram as grandes hervas dos mattos. E se não deu
resultado, pelo menos não foi inutil de todo, porque o Schuylkill estava
precisando de um bom trabalho de limpeza. Fizeram-n’o por essa occasião.
É gente pratica, os edis de Philadelphia.
Appellaram então para a publicidade dos jornaes. Annuncios, reclamos
foram enviados a todas as folhas democraticas ou republicanas da União,
sem distincção de côr. O _Daily Negro_, jornal especial da raça negra,
publicou um retrato de Fricollin, segundo uma photographia. Foram
offerecidas recompensas, premios, a quem désse alguma noticia dos tres
ausentes, e mesmo a todos que encontrassem um indicio qualquer de
natureza a pôr-se-lhes no encalço.
—Cinco mil dollars! cinco mil dollars!... A todo o cidadão que ...
Nada de novo. Os cinco mil dollars permaneceram na caixa do
Weldon-Institute.
Impossivel achal-os! Impossivel achal-os! Uncle Prudent e Phil Evans de
Philadelphia!
Escusado será dizer que o club ficou n’uma singular excitação por
este inexplicavel desapparecimento do seu presidente e secretario.
Primeiramente a assembléa tomou uma urgente medida, suspendendo os
trabalhos relativos á construcção do balão _Go a head_, aliás tão
adeantados. Mas como é que, na ausencia dos principaes promotores do
facto, dos que tinham votado a essa empresa uma parte da sua fortuna, em
tempo e dinheiro, poderiam acabar a obra, não estando elles ahi para a
concluir? Era portanto necessario esperar.
Ora, precisamente n’essa épocha, tratou-se de novo do extranho phenomeno,
que tanto havia sobreexcitado os espiritos algumas semanas antes.
Com effeito, o objecto mysterioso tinha sido visto, ou, por outra,
entrevisto por varias vezes nas altas camadas da atmosphera.
Evidentemente ninguem pensava em estabelecer uma relação entre essa
apparição tão singular e o desapparecimento, não menos inexplicavel,
dos dois membros do Weldon-Institute. De facto seria preciso uma
extraordinaria dóse de imaginação para se approximar estes dois factos um
do outro.
Seja como fôr, o asteroide, o bolide, o monstro aereo, ou como lhe
queiram chamar, tinha tornado a apparecer nas condições que melhor
permittiam apreciar as suas dimensões e a sua forma. Primeiramente no
Canadá, por sobre os territorios que se extendem desde Ottawa até Quebec,
e isso no dia seguinte á desapparição dos dois collegas; depois, mais
tarde, por sobre as planicies do Far-West, luctando em velocidade com o
caminho de ferro do Pacifico.
A partir d’esse dia, as incertezas do mundo sabio tiveram em que se
fixar. Aquelle corpo não era um producto da natureza; era um apparelho
volante, com applicação pratica da theoria do “Mais pesado que o ar„. E
se o creador, o dono da aeronave, queria ainda guardar o incognito para a
sua pessoa, evidentemente o não queria já para a sua machina, visto que
acabava de a mostrar tão perto, sobre os territorios do Far-West. Quanto
á fôrça mechanica de que dispunha, quanto á natureza dos apparelhos que
lhe communicavam movimento, era isso desconhecido. Em todo o caso, o que
não deixava duvida alguma era que a aeronave devia ser dotada de uma
extraordinaria facilidade de locomoção. Com effeito, alguns dias depois,
havia sido vista no Celeste Imperio, depois na parte septentrional do
Industão, depois por sobre os immensos steppes da Russia.
Quem era pois esse ousado mechanico que possuia um tal poder de
locomoção, para o qual os Estados não tinham fronteiras, nem os oceanos
limites e que dispunha da atmosphera terrestre como de um dominio?
Devia-se acreditar que era esse Robur, cujas theorias tinham sido tão
brutalmente lançadas em rosto do Weldon-Institute, no dia em que veiu
bater em brecha a utopia dos balões dirigiveis?
Talvez alguns espiritos perspicazes o tivessem pensado. Mas, cousa
singular decerto, ninguem pensou na hypothese de que o tal Robur
pudesse estar relacionado de qualquer maneira com o desapparecimento do
presidente e do secretario do Weldon-Institute.
Em summa isso teria ficado no mysterio, se não fôsse um despacho que de
França chegou á America pelo fio de Nova-York, ás onze e trinta e sete,
do dia 6 de julho.
E o que dizia o despacho? era o texto do documento achado em Paris n’uma
caixa de tabaco, documento que revelava o que havia succedido aos dois
personagens por quem a União ia tomar lucto.
Portanto, o auctor do rapto era Robur, o engenheiro vindo expressamente a
Philadelphia para esmagar no ovo a theoria dos balonistas! Era elle que
commandava a aeronave _Albatrós_. Era elle que, para exercer represalias,
tinha arrebatado Uncle Prudent, Phil Evans e para mais o Fricollin. E
essas personagens deviamos consideral-as para sempre perdidas, a não
ser que, por um meio qualquer, construindo um engenho capaz de luctar
com o poderoso apparelho, os seus amigos terrestres não conseguissem
reconduzil-o a terra.
Que emoção! que pasmo! O telegramma parisiense tinha sido dirigido
ao Weldon-Institute. Os membros do club tiveram conhecimento d’elle
immediatamente. Dez minutos depois, toda a Philadelphia recebia a noticia
pelos seus telephonios, e depois, em menos de uma hora, toda a America,
porque electricamente essa noticia se tinha espalhado pelos innumeros
fios do novo continente. Não queriam acreditar n’isso, e nada havia
comtudo mais certo. Devia ser uma mystificação de mau gôsto, diziam
outros! Como é que esse rapto se podia ter realisado em Philadelphia,
e tão secretamente? Como é que esse _Albatrós_ tinha pousado em
Fairmont-Park, sem que a sua apparição fôsse notada nos horisontes do
Estado de Pensylvania?
Muito bem, eram estes os argumentos.
Os incredulos tinham ainda o direito de duvidar. Mas esse direito, já
não o tinham oito dias depois de ter chegado o telegramma. No dia 13 de
julho, o vapor francez _Normandia_ ancorava nas aguas de Hudson, e trazia
a famosa caixa de rapé. O caminho de ferro de Nova-York expediu-a para
Philadelphia pela grande velocidade.
Era de facto a caixa de rapé do presidente do Weldon-Institute. Jem Cip
não teria feito mal se tomasse n’esse dia um alimento substancial, porque
esteve para cahir desmaiado, quando reconheceu a caixa.
Quantas vezes elle tomára n’ella a sua pitada amigavel! E miss Doll e
miss Matt reconheceram tambem a caixa, para a qual tinham olhado ás vezes
com esperança de metter n’ella um dia os seus magros dedos de solteiras.
Depois foi o pae d’ellas, foi William T. Forbes, Truk Milnor, Bat T.
Fyn, e muitos outros do Weldon-Institute. Cem vezes elles a haviam visto
abrir-se nas mãos do seu venerando presidente. Emfim, teve por si o
testemunho de todos os amigos que Uncle Prudent contava n’aquella boa
cidade de Philadelphia, cujo nome indica,—não é de mais repetil-o,—que os
seus habitantes se amam como irmãos.