austral, a agulha da bussola, constantemente endoidada, não podia dar
indicação alguma precisa com respeito á direcção que se levava. Mas a sua
inclinação foi tal n’um certo momento, que Robur poude ter como certo que
passára por sobre esse polo magnetico, situado pouco mais ou menos sobre
o 78.° parallelo.
E mais tarde, pela uma da manhã, calculando o angulo que essa agulha
fazia com a vertical, elle exclamou:
—Temos a nossos pés o polo austral!
Uma convexidade branca appareceu, mas sem deixar vêr nada do que se
escondia sob os seus gelos.
A aurora boreal apagou-se pouco depois, e aquelle ponto ideal, onde
vinham cruzar-se todos os meridianos do globo, está ainda por ser
conhecido.
Evidentemente, se Uncle Prudent e Phil Evans queriam sepultar na mais
mysteriosa das solidões a aeronave e os que ella conduzia através do
espaço, a occasião era propicia. Se o não fizeram, foi decerto porque o
instrumento de que necessitavam lhes faltava ainda.
No entretanto o furacão continuava a desencadear-se com uma violencia
tal, que, se o _Albatrós_ tivesse encontrado alguma montanha no caminho,
ter-se-hia alli esmagado como um navio que dá á costa.
Com effeito, não só não podia dirigir-se horisontalmente, mas nem sequer
era senhor do seu deslocamento em altura.
E comtudo alguns pincaros de montanhas se erguiam n’aquellas terras
antarcticas. A cada instante um choque seria possivel e teria produzido a
destruição do apparelho.
Aquella catastrophe era tanto mais para receiar quanto o vento inclinára
para léste, passando o meridiano zero. Dois pontos luminosos se
apresentaram a uns cem kilometros á frente do _Albatrós_.
Eram os dois vulcões que fazem parte do vasto systema dos Montes Ross, o
Erebus e o Terror.
Iria pois o _Albatrós_ queimar-se nas suas chammas, como uma borboleta
gigante?
Houve uma hora palpitante. Um dos vulcões, o Erebus, parecia
precipitar-se sobre a aeronave, que parecia não se poder desviar do
leito do furacão. Os pennachos de chamma cresciam a olhos vistos. Uma
rede de fogo tomava o caminho. Intensos clarões enchiam agora o espaço.
As figuras, vivamente illuminadas a bordo, tomaram um aspecto infernal.
Todos, immoveis, sem um grito, sem um gesto, esperavam o horroroso
minuto, em que aquella terrivel fornalha os envolveria nas suas chammas.
Mas o furacão que arrastava o _Albatrós_, salvou-o d’aquella espantosa
catastrophe. As chammas do Erebus, lançadas pela tempestade, abriram-lhe
passagem. Foi no meio de uma chuva de substancias lavicas, repellidas
felizmente pela acção centrifuga dos helices suspensivos, que elle
transpoz a cratéra em plena erupção.
Uma hora depois, o horisonte deixava vêr as duas tochas colossaes que
allumiavam os confins do mundo durante a longa noite polar.
Ás duas da manhã, passaram a ilha Ballery no extremo da costa da
Descoberta, sem que a pudessem reconhecer, visto estar soldada ás terras
arcticas por um cimento de gelo.
E então, a partir do circulo polar que o _Albatrós_ cortou sobre o 75.°
meridiano, o furacão levou-o para sobre os bancos de gelo, para sobre os
icebergs, contra os quaes esteve cem vezes no risco de se despedaçar.
Não ia já nas mãos do seu timoneiro, mas nas mãos de Deus ... Deus é um
excellente piloto.
A aeronave caminhava para o meridiano de Paris, que faz um angulo de
cento e cinco graus com o que ella havia seguido para galgar o circulo do
mundo antarctico.
Afinal, para além do parallelo 60.°, o furacão mostrou uma tendencia a
quebrar. A sua violencia diminuiu sensivelmente. O _Albatrós_ começou a
tornar-se senhor de si. Depois,—o que foi um verdadeiro allivio,—entrou
nas regiões illuminadas do globo, e o dia tornou a apparecer pelas oito
horas da manhã.
Robur e os seus, depois de haverem escapado ao cyclone do cabo Horn,
estavam agora livres do furacão. Tinham sido levados para o Pacifico por
sobre toda a região polar, depois de haver galgado sete mil kilometros
em dezenove horas,—isto é, mais de uma legua por minuto—velocidade dupla
da que podia obter o _Albatrós_ sob a acção dos seus propulsores nas
circumstancias ordinarias.
Mas Robur não sabia já onde estava, em consequencia das perturbações da
agulha nas proximidades do polo magnetico. Era necessario esperar que o
sol se mostrasse em condicções sufficientes de se fazer uma observação.
Infelizmente grossas nuvens carregavam o céo n’aquelle dia, e o sol não
appareceu.
Foi um desapontamento tanto mais sensivel, quanto os dois helices
propulsivos haviam tido certas avarias durante a tormenta.
Robur, contrariadissimo com este accidente, não poude seguir, durante
este dia, senão com uma velocidade relativamente moderada. Quando passou
por sobre os antipodas de Paris, não o fez senão a razão de seis leguas
por hora.
Era necessario, além d’isso, tomar bem sentido em não aggravar as
avarias. Se os seus dois propulsores fôssem postos fora das condições
de funccionar, a situação da aeronave por sobre esses vastos mares do
Pacifico estaria muito compromettida. Assim o engenheiro perguntava a si
proprio se não deveria proceder ás reparações alli, de modo a assegurar a
continuação da viagem.
No dia seguinte pelas sete da manhã, foi avistada uma terra ao norte.
Reconheceu-se logo que era uma ilha. Mas qual d’essas milhares de ilhas
de que está semeado o Pacifico?
Comtudo Robur resolveu parar alli, sem vir a terra. Segundo elle,
bastaria o dia para reparar as avarias, e partiria n’essa mesma noite.
O vento tinha serenado de todo, circumstancia favoravel para a manobra
que se tratava de executar. Pelo menos, visto que ficára estacionario, o
_Albatrós_ não seria arrastado sem se saber para onde.
Um longo cabo de cento e cincoenta pés, com uma ancora na extremidade,
foi lançado pela borda fora. A aeronave chegava ao extremo da ilha,
a ancora tocou de raspão nos primeiros escolhos, e depois prendeu-se
solidamente entre dois rochedos. O cabo destendeu-se sob a acção dos
helices suspensivos, e o _Albatrós_ ficou immovel, como um navio prêso da
praia com uma ancora.
Era a primeira vez que se ligava á terra, desde a sua partida de
Philadelphia.
CAPITULO XV
ONDE SE PASSAM COUSAS QUE NA REALIDADE MERECEM SER CONTADAS
Quando o _Albatrós_ occupava ainda uma zona elevada, tinham podido
reconhecer que aquella ilha era de mediocre tamanho. Mas qual o parallelo
que a cortava? Sobre que meridiano estava? Era uma ilha do Pacifico, da
Australasia, do Oceano Indico? Não se poderá saber senão quando Robur
tiver feito os seus calculos. Comtudo, apesar de elle não ter podido
tomar em conta as indicações do compasso, havia razão para pensar que
estava sobre o Pacifico. Apenas o sol nascesse, seriam excellentes as
circumstancias para obter uma boa observação.
D’aquella altura, cento e cincoenta pés, a ilha que media cerca de mil e
quinhentas milhas de circumferencia, desenhava-se como uma estrella do
mar, de tres pontas.
Á ponta de suéste emergia um ilhote, precedido de uma sementeira de
rochedos. Á borda, nenhum indicio de marés, o que levava a confirmar a
opinião de Robur relativamente á situação, porque o fluxo e refluxo são
quasi nullos no Oceano Pacifico.
Na ponta noroéste erguia-se uma montanha conica, cuja altitude podia ser
calculada em duzentos pés.
Não se via nenhum indigena, mas talvez occupassem o littoral opposto.
Em todo o caso, se elles tinham dado com a aeronave, era natural que o
espanto os levasse a esconderem-se e a fugir.
Fôra pela ponta suéste que o _Albatrós_ atracára á ilha. Não longe, n’uma
pequena insua, lançava-se um riacho, por entre rochedos. Para além,
alguns valles sinuosos, arvores de essencias variadas, caça de matto,
perdizes e abetardas em grande quantidade. Se a ilha não era habitada,
pelo menos parecia habitavel. Decerto que Robur podia alli pousar em
terra, e se o não fizera, fôra decerto porque o solo, muito accidentado,
lhe parecêra que não offerecia um logar conveniente para a aeronave.
Esperando lançar-se nos ares, o engenheiro mandou começar os
preparativos, que esperava concluir durante o dia. Os helices
suspensivos, em perfeito estado, tinham funccionado admiravelmente no
meio das violencias do furacão, o qual, como vimos, tinha acalmado.
N’aquelle momento, metade do jogo funccionava, o que era bastante para
assegurar a tensão do cabo, fixado perpendicularmente ao littoral.
Mas os dois propulsores haviam soffrido, e mais ainda do que Robur
suppunha. Era necessario pôr novas hastes e concertar a engrenagem que
lhes transmittia o movimento de rotação.
Foi do helice anterior que o pessoal se occupou primeiramente sob a
direcção de Robur e de Tom Turner. Era melhor começar por elle, para o
caso em que um motivo qualquer obrigasse o _Albatrós_ a partir antes do
trabalho estar concluido. Bastava esse propulsor, para se poder continuar
razoavelmente o caminho.
Entrementes, Uncle Prudent e o seu collega, depois de haverem passeado
sobre a plataforma tinham-se ido sentar atraz.
Quanto a Fricollin, estava singularmente socegado. Que differença! não
se estar suspenso senão a uns cincoenta pés do chão!
Os trabalhos não foram interrompidos senão no momento em que a elevação
do sol sobre o horisonte permittiu tomar primeiro um angulo horario,
depois, quando elle estava na sua inclinação, calcular o meio dia do
logar.
O resultado da observação, feita com a maior exactidão, foi o seguinte:
Longitude: 176.° 17´ a léste do meridiano zero.
Latitude: 43.° 37´ austral.
O ponto sobre a carta, referia-se á posição da ilha Chatam e do ilhote
Viff, cujo grupo é tambem designado pelo nome commum de ilhas Brongthon.
Aquelle grupo está a quinze graus ao léste de Taivaï-Pomanú, ilha
meridional da Nova Zelandia, situada na parte sul do Oceano Pacifico.
—É pouco mais ou menos o que eu suppunha, disse Robur a Tom Turner.
—E então, estamos?...
—A quarenta e seis graus ao sul da ilha X, isto é, a uma distancia de
duas mil e oitocentas milhas.
—Mais uma razão para concertarmos os nossos propulsores, respondeu o
contramestre. N’aquelle trajecto podemos encontrar ventos contrarios, e,
com o pouco que nos resta de provisões, é necessario alcançarmos a ilha X
o mais depressa possivel.
—Sim, Tom, e espero pôr-me a caminho esta noite, mesmo que tenha de
partir só com um helice, podendo concertar o outro no caminho.
—Master Robur, perguntou Tom Turner, e esses dois cavalheiros, e o
creado?...
—Tom Turner, respondeu o engenheiro, serão elles para lastimar por se
terem tornado colonos da ilha X?
Mas que ilha é essa ilha X? Uma ilha perdida na immensidade do Oceano
Pacifico, entre o equador e o tropico de Cancer, uma ilha que justificava
bem aquelle signal algebrico de que Robur fizera o seu nome. Emergia
d’esse vasto mar das Marquezas, fora de todos os caminhos de communicação
interoceanicos.
Era alli que Robur fundára a sua pequena colonia, alli que vinha repousar
o _Albatrós_, quando estava cançado de voar; alli que fazia provisão de
tudo que era necessario para as suas perpetuas viagens.
N’essa ilha X, Robur, que dispunha de grandes recursos, tinha podido
estabelecer um estaleiro e construir perfeitamente a sua aeronave. Alli a
podia concertar e mesmo fazer outra de novo. As suas officinas continham
as materias, as substancias, as provisões de toda a especie, accumuladas
para a manutenção de uns cincoenta habitantes, a população da ilha.
Quando Robur dobrou o cabo Horn, alguns dias antes, o seu intento era
alcançar a ilha X, atravessando obliquamente o Pacifico. Mas o cyclone
tinha apanhado o _Albatrós_ no seu turbilhão. Depois d’elle, o furacão
tinha-o levado para além das regiões austraes. Em summa, tinha sido
trazido pouco mais ou menos á sua direcção primitiva, e, sem as avarias
dos propulsores, o atrazo teria bem pouca importancia.
Iam pois alcançar a ilha X. Mas, como dissera o contramestre, Tom Turner,
o caminho era ainda longo. Teriam provavelmente de luctar com ventos
desfavoraveis. E todo o seu poder mechanico sería pouco para se chegar
ao seu destino nos prasos desejados. Com um tempo médio, n’um andamento
ordinario, essa travessia devia realisar-se em tres ou quatro dias.
D’ahi o partido que Robur tomára de se fixar na ilha Chatam. Alli se
achava em condições melhores para concertar pelo menos o helice da
frente. Não receiava, no caso de uma brisa contraria se levantar, ser
arrastado para o sul, quando quizesse ir para o norte. Chegada a noite,
aquelle concerto estaria terminado. Manobraria então para desprender
a ancora. Se estivesse solidamente agarrada aos rochedos, venceria a
difficuldade cortando o cabo e retomaria o vôo para o Equador.
Como se vê, aquella maneira de proceder era a mais simples, e a melhor
tambem, sendo executada cabalmente.
O pessoal do _Albatrós_, sabendo que não havia tempo a perder, poz-se
resolutamente a trabalhar.
Emquanto se trabalhava na frente da aeronave, Uncle Prudent e Phil Evans
tinham entre si um dialogo cujas consequencias iam ser de um alcance
excepcional.
—Phil Evans, disse Uncle Prudent, está bem resolvido, como eu, a fazer o
sacrificio da sua vida?
—Estou!
—Pela ultima vez: é bem certo que nada temos a esperar d’esse Robur?
—Nada!
—Pois bem, Phil Evans, a minha resolução está tomada. Já que o _Albatrós_
deve partir esta noite mesmo, não passará a noite sem termos realisado a
nossa obra. Cortaremos as azas a esse passaro do engenheiro Robur. Esta
noite voará pelos ares!
—Vamos a isso! respondeu Evans.
Como se vê, os dois collegas estavam de accôrdo em todos os pontos, mesmo
quando se tratava de acceitar com indifferença a horrivel morte que os
esperava.
—Tem tudo que é necessario? perguntou Phil Evans.
—Sim! A ultima noite, emquanto Robur e a sua gente não pensavam senão na
salvação da aeronave, pude introduzir-me no deposito e tirar um cartucho
de dynamite!
—Uncle Prudent, vamos á obra!
—Não! ha de ser esta noite. Quando ella vier, entraremos nos nossos
compartimentos, e o senhor vigiará para que nos não surprehendam.
Pelas seis horas os dois collegas jantaram segundo o costume. Duas horas
depois, tinham-se retirado para o seu beliche, como pessoas que vão
dormir para se refazerem de uma noite passada em claro.
Nem Robur, nem nenhum dos seus companheiros, podiam suspeitar a
catastrophe que ameaçava o _Albatrós_.
Eis como Uncle Prudent contava proceder:
Como dissera, tinha conseguido penetrar no deposito de munições,
accommodado a um canto, no fundo da aeronave. Alli se apoderára de uma
certa quantidade de polvora e de um cartucho semelhante áquelles de que
o engenheiro se servira em Dahomey. Entrando para o seu beliche, tinha
escondido cautelosamente o cartucho, com o qual estava resolvido a fazer
saltar o _Albatrós_ durante a noite, quando elle tivesse retomado o seu
vôo pelos ares.
N’aquelle momento, Phil Evans examinava o cartucho roubado pelo seu
companheiro.
Era uma bainha metallica, contendo cêrca de um kilograma da substancia
explosiva, o que devia bastar para deslocar a aeronave e partir o seu
jogo de helices. Se a explosão não a destruisse rapidamente, acabaria
com ella de todo na quéda. Ora nada havia mais facil do que depositar
aquelle cartucho n’um canto do beliche, de modo que rompesse a plataforma
e alcançasse o casco, até ao cavername.
Mas, para provocar a explosão, seria preciso fazer rebentar a capsula
fulminante, de que estava munido o cartucho. Era a parte mais delicada
da operação, porque a inflammação da capsula não se devia produzir senão
n’um tempo calculado com uma extrema precisão.
Com effeito, Uncle Prudent tinha imaginado o seguinte: desde que o
propulsor da frente estivesse concertado, a aeronave devia continuar o
seu caminho para o norte; mas feito isto, era provavel que Robur e a sua
gente voltassem atraz para arranjar o helice posterior. Ora a presença
de todo o pessoal junto ao beliche podia embaraçar Uncle Prudent na sua
operação. É a razão por que se resolvêra a servir-se de uma mécha, de
maneira a não provocar a explosão senão n’um tempo dado.
Eis o que elle disse a Phil Evans.
—Juntamente com o cartucho tirei polvora. Com essa polvora vou fazer
uma mécha, cujo comprimento estará na razão do tempo que seja preciso
gastar a queimar, e que estaria metade na capsula do fulminante. A minha
intenção é accendel-a á meia noite, de modo que a explosão se produza
entre as tres e quatro da manhã.
—Bem combinado! respondeu Phil Evans.
Os dois collegas, como se vê, tinham chegado a examinar com o maior
sangue frio a terrivel destruição em que deviam morrer. Havia n’elles uma
tal somma de odio contra Robur e os seus, que o sacrificio da sua propria
vida parecia indicado para destruir, com o _Albatrós_, os que elle levava
comsigo. O acto era de facto insensato, odioso mesmo! Mas eis a que elles
haviam chegado, depois de cinco semanas d’essa existencia cheia de colera
que não pudera ainda rebentar, de raiva que não haviam podido conter.
—E Fricollin, disse Phil Evans, temos nós direito de dispôr da sua vida?
—Pois se sacrificâmos a nossa! respondeu Uncle Prudent.
Não é provavel que Fricollin achasse sufficiente a razão.
Immediatamente Uncle Prudent pôz mãos á obra, emquanto Phil Evans vigiava
as immediações dos seus aposentos.
O pessoal continuava occupado na frente. Não havia receio de ser
surprehendido.
Uncle Prudent começou por triturar uma pequena quantidade de polvora a
ponto de a tornar em pó fino. Depois de a molhar ligeiramente, metteu-a
n’um envolucro de panno, em forma de mécha. Accendendo-a, reconheceu
que queimava na razão de cinco centimetros por dez minutos, isto é, um
metro em tres horas e meia. A mécha foi então apagada, depois fortemente
apertada n’uma espiral de corda e applicada á capsula do cartucho.
O trabalho estava concluido pelas dez horas da noite, sem haver excitado
a minima suspeita.
N’aquelle momento, Phil Evans veiu ter com o seu collega ao beliche.
Durante aquelle dia, as reparações do helice anterior tinham sido
activamente conduzidas; mas tinha sido preciso mettel-o para dentro para
poder desmontar os seus ramos, que estavam desarranjados.
Quanto ás pilhas, aos accumuladores, ao que produzia a fôrça mechanica do
_Albatrós_, nada havia soffrido com as violencias do cyclone. Havia com
que alimental-os ainda durante quatro ou cinco dias.
Viera a noite, quando Robur e os seus homens interromperam o seu
trabalho. O propulsor da frente não estava ainda collocado no seu logar.
Eram necessarias tres horas de reparações para que estivesse apto a
funccionar. De modo que, depois de conversar com Tom Turner, o engenheiro
resolveu-se a dar algum descanço ao seu pessoal, morto de cançaço, e
guardar para o dia seguinte o que ficava por fazer. Além de que, era
necessaria a claridade do dia para esse trabalho extremamente delicado, e
a que os pharoes não dariam uma luz sufficiente.
Eis o que Uncle Prudent e Phil Evans ignoravam. Atidos ao que haviam
ouvido dizer a Robur, deviam pensar que o propulsor da frente seria
concertado antes da noite e que o _Albatrós_ seguiria immediatamente o
seu caminho para o norte. Julgavam-n’o pois desprendido da ilha, quando
estava ainda preso a ella pela ancora. Isto ía conduzir as cousas de um
modo completamente diverso do que elles haviam imaginado.
A noite estava sombria e sem luar. Sentia-se que ía estabelecer-se
uma brisa ligeira. Vinham aragens do sudoéste; mas não deslocavam
o _Albatrós_, que permanecia immovel, preso á ancora, cujo cabo,
verticalmente tenso, o retinha ao solo.
Uncle Prudent e o seu collega, encerrados no seu beliche, poucas
palavras trocavam, prestando ouvidos ao fremito dos helices suspensivos
que dominava todos os outros ruidos de bordo. Esperavam o momento de
proceder.
Um pouco antes da meia noite:
—É tempo! disse Uncle Prudent.
Sob os leitos do beliche estava um cofre em forma de gaveta. Foi n’esse
cofre que Uncle Prudent depositou o cartucho de dynamite, munido da
mécha. D’esse modo, a mécha podia queimar sem se revelar pelo fumo ou
pela crepitação. Uncle Prudent accendeu-o no extremo. Depois, empurrando
o cofre para baixo da caixa:
—Agora lá para traz e esperemos!
Sahiram os dois e ficaram ao principio admirados de não vêr o timoneiro
no seu posto habitual.
Phil Evans curvou-se então para fora da plataforma.
—O _Albatrós_ continúa no mesmo logar! disse em voz baixa. Os trabalhos
não concluiram!... Não pode naturalmente partir.
Uncle Prudent teve um gesto de desapontamento.
—É preciso apagar a mécha, disse.
—Não!... é preciso safarmo-nos!... respondeu Phil Evans.
—Safarmo-nos?
—Sim!... Pelo cabo da ancora, visto ser noite escura. Cento e cincoenta
pés de descida não é nada.
—Não é nada, com effeito, Phil Evans, e seriamos loucos se não
aproveitassemos esta occasião inesperada.
Mas, entraram no seu beliche e tomaram tudo que puderam levar comsigo
de provisões para uma estação mais ou menos prolongada na ilha Chatam.
Depois, fechando a porta, avançaram sem ruido para a frente.
A sua intenção era despertar Fricollin e obrigal-o a fugir com elles.
A escuridão era profunda. As nuvens começavam a soprar do sudoéste. Já a
aeronave balançava um pouco, presa á ancora, afastando-se ligeiramente
da vertical com relação ao cabo que a segurava. A descida devia pois
offerecer uma certa difficuldade. Mas não era cousa que fizesse recuar
homens que estavam resolvidos a expôr a vida.
Arrastaram-se os dois até á plataforma, parando ás vezes ao abrigo dos
compartimentos para escutar se ouviam algum ruido. Silencio absoluto
por toda a parte. Nenhuma luz nas vigias. Não era só no silencio, que a
aeronave estava immersa; mas no somno.
No emtanto Uncle Prudent e o seu companheiro approximavam-se do beliche
de Fricollin, quando Phil Evans estacou:
—O vigia! disse elle.
Com effeito um homem estava deitado junto aos compartimentos centraes.
Passava pelo somno. Toda a fuga se tornára impossivel no caso de elle dar
o alarme.
Estavam n’aquelle logar algumas cordas, pedaços de panno e de estopa, que
tinham servido para o concerto do helice.
Um instante depois, o homem era amordaçado, encapuzado, atado a um dos
varões do parapeito, sem poder dar um grito ou fazer um movimento.
Tudo isto se passára quasi sem ruido.
Uncle Prudent e Phil Evans puzeram-se a escutar....
O silencio não foi perturbado no interior dos compartimentos. A bordo
tudo dormia.
Os dois fugitivos,—pois não os podemos já chamar assim?—chegaram á frente
do beliche occupado por Fricollin. François Tapage fazia ouvir um resonar
digno do seu nome, o que era tranquillisador.
Com grande surpresa sua, Uncle Prudent não teve de empurrar a porta de
Fricollin. Estava aberta. Entrou até meio beliche, e depois, retirando-se:
—Ninguem! disse elle.
—Ninguem! Onde estará elle? murmurou Phil Evans.
Os dois foram de rastos até á frente, pensando que Fricollin dormia
talvez em algum canto ...
Ninguem!
—Ter-se-ha anticipado a nós o maroto? disse Uncle Prudent.
—Seja como fôr, respondeu Phil Evans, não podemos esperar por mais tempo.
Partamos!
Sem hesitar, um após outro, os fugitivos agarraram-se ao cabo com ambas
as mãos e ambos os pés, e, deixando-se escorregar, chegaram a terra sãos
e salvos.
Que alegria para elles o pizarem o chão que lhes faltava havia tanto
tempo, caminharem sobre um terreno solido, e não estarem á mercê da
atmosphera!
Preparavam-se para se internar na ilha quando uma sombra se ergueu deante
d’elles. Era Fricollin.
Sim! O negro tinha tido a mesma idéa que seu amo, e a audacia de se lhe
anticipar, sem o prevenir.
Mas não era aquella a occasião para recriminações, e Uncle Prudent
dispunha-se a procurar um refugio em qualquer ponto afastado da ilha,
quando Phil Evans o deteve.
—Uncle Prudent, escute, disse elle. Eis-nos livres de Robur. Está votado,
com os seus collegas, a uma morte espantosa. Merece-a, é verdade! Mas se
elle jurasse sobre a sua honra que não tentaria tornar a apanhar-nos ...
—A honra n’um tal sujeito....
Uncle Prudent não poude concluir. Produzira-se um movimento a bordo do
_Albatrós_.
Evidentemente, fôra dada voz de alarme, e a evasão ía ser descoberta.
—Soccorro! Soccorro! gritaram.
Era o vigía que tinha podido expellir a mordaça.
Passos precipitados resoaram na plataforma. Immediatamente os pharoes
lançaram os seus clarões electricos sobre um largo sector.
—Lá estão!... lá estão! exclamou Tom Turner.
Os fugitivos tinham sido vistos.