—Que não seja sem nos termos vingado, disse Uncle Prudent, sem termos

anniquilado este apparelho, com toda a gente que elle encerra!

Os dois collegas tinham chegado a isto, á fôrça de furor impotente, de

rancor concentrado. Sim! Já que era necessario, sacrificar-se-hiam para

destruir o inventor e o seu segredo. Alguns mezes, eis quanto poderia

durar aquella prodigiosa aeronave, cuja incontestavel superioridade em

locomoção aerea elles eram obrigados a reconhecer.

Ora esta idéa estava tão bem incrustada no seu espirito, que elles

não tinham outro desejo senão pôl-a em execução. De que maneira?

Apoderando-se de um dos apparelhos explosivos, que estavam n’um dos

armazens de bordo, e com que fariam saltar pelos ares a aeronave. Mas era

necessario penetrar até o deposito das munições.

Felizmente Fricollin não suspeitava d’estes projectos. Á idéa de que o

_Albatrós_ ía explodir nos ares, era capaz de denunciar o amo!

Foi no dia 23 de julho que a terra tornou a apparecer no sudoéste,

pouco mais ou menos perto do Cabo das Virgens, á entrada do estreito de

Magalhães. Para além do parallelo 54, n’aquella épocha do anno, a noite

durava já perto de dezoito horas, e a temperatura baixava na média de

seis graus acima de zero.

Primeiramente, o _Albatrós_, em vez de avançar mais para o sul, seguiu os

meandros do estreito, como se quizesse alcançar o Pacifico. Depois de ter

passado por sobre a bacia de Lomas, deixando ao norte o monte Gregory e

os montes Brecknocks ao oéste, reconheceu a Punta Arena, pequena povoação

chilena, no momento em que o sino da egreja repicava, e depois, algumas

horas mais tarde, o antigo estabelecimento de Porto da Fome.

Se os patagonios, cujas lareiras se viam aqui e acolá, teem realmente

uma estatura acima da mediana, os passageiros da aeronave não o puderam

apreciar, porque a altura em que estavam os fazia parecer-lhes anões.

Mas, durante as tão curtas horas d’aquelle dia austral, que espectaculo!

Montanhas abruptas, pincaros eternamente cobertos de neve, com espessas

florestas sobre as suas costas; mares interiores; bahias formadas

entre as peninsulas e ilhas d’esse archipelago; conjunto das terras

de Clarence, Dawson, Desolação; canaes e passagens; innumeros cabos e

promontorios, todo esse matto inextricavel de que o gêlo fazia já uma

massa solida, desde o cabo Forward, que termina o continente americano,

até o cabo Horn, onde acaba o Novo Mundo!

Comtudo, chegados ao Porto da Fome, notou-se que o _Albatrós_ ia tomar de

novo o seu caminho para o sul. Passando entre o monte Torn da peninsula

de Brunswick e o monte Grasve, dirigiu-se em direitura para o monte

Sarmiento, pincaro enorme, coberto de gêlos, que domina o estreito de

Magalhães, dois mil metros acima do nivel do mar.

Era o paiz dos Pechereses, ou fuegios, indigenas que habitam a Terra de

Fogo.

Seis mezes mais cedo, em pleno verão, por occasião dos longos dias de

quinze a dezeseis horas, como essa terra se mostraria fertil e bella,

sobretudo na sua parte meridional! Então, por toda a parte, valles,

pastagens que poderiam alimentar milhares de animaes, florestas virgens,

arvores gigantescas, vidoeiros, faias, freixos, cyprestes, fetos

arboreos, planicies que bandos de guanacos, de cegonhas e de abestruzes

percorrem; depois, exercitos de pinguins, myriades de volateis.

De modo que, quando o _Albatrós_ poz em acção os seus pharoes electricos,

patos, gansos e outras aves vieram ter a bordo, em quantidade cem vezes

superior ao que seria necessario para encher de provisões a cozinha de

François Tapage.

D’ahi um augmento de trabalho para o mestre cozinheiro, que sabia

preparar aquella caça de maneira a tirar-lhe todo o sabor gorduroso.

Tambem augmento de trabalho para Fricollin, que não se poude recusar a

depennar duzias sobre duzias d’esses interessantes volateis.

N’esse dia, no momento em que o sol se ia pôr, pelas tres da tarde,

appareceu um vasto lago, emmoldurado n’uma orla de florestas soberbas. O

lago estava então completamente gelado, e alguns indigenas, com as suas

longas raquettas nos pés, deslisavam rapidamente á superficie.

Á vista do apparelho, no auge do espanto, os fuegios fugiam em todas as

direcções, e, quando não podiam fugir, escondiam-se, agachavam-se na

terra, como os animaes.

O _Albatrós_ não deixou de seguir para o sul, para lá do canal de Beagle,

ainda além da ilha de Nevarino, cujo nome grego destôa um pouco dos nomes

rudes d’essas terras longinquas, mais longe que a ilha de Wollaston,

banhada pelas ultimas aguas do Pacifico. Emfim, depois de haver

transposto sete mil e quinhentos kilometros, desde a costa de Dahomey,

passou os extremos ilhotes do archipelago de Magalhães, e depois, o

mais avançado de todos, para o sul, cuja ponta é eternamente roida pela

resaca,—o cabo Horn.

CAPITULO XIV

DE COMO O “ALBATRÓS„ FAZ O QUE NUNCA PODERIA TALVEZ SER FEITO

Estamos no dia seguinte ao 24 de julho. Ora o 24 de julho do hemispherio

austral é o 24 de janeiro do hemispherio boreal. Além de que, o 56.° grau

de latitude acabava de ficar atraz, e esse grau corresponde ao parallelo

que, no norte da Europa, atravessa a Escocia, á altura de Edimburgo.

De modo que o thermometro se conservava constantemente n’uma média

inferior a zero. Tinha sido portanto necessario pedir um certo calor

artificial aos apparelhos destinados a aquecer os compartimentos da

aeronave.

É claro que, se a duração dos dias tendia a augmentar depois do solsticio

de 21 de junho do inverno austral, aquella duração diminuia n’uma

proporção bem mais consideravel, pelo facto do _Albatrós_ descer para as

regiões polares.

Em consequencia d’isto, pouca claridade, por sobre aquella parte do

Pacifico meridional que confina com o circulo antarctico. D’ahi pouca

luz, e com a noite, um frio ás vezes intensissimo. Para resistir a elle,

era necessario vestirem-se á maneira dos esquimáos, ou dos fuegios.

Ora como estes arranjos não faltavam a bordo, os dois collegas, bem

enroupados, puderam permanecer na plataforma, com a idéa no seu plano,

e não buscando senão ensejo de o pôr em execução. De resto, elles viam

pouco Robur, e, desde as ameaças trocadas de parte a parte, no paiz de

Tombuctú, o engenheiro e elles não se falavam.

Quanto a Fricollin, não sahia da cozinha, onde François Tapage lhe

concedia uma generosa hospitalidade, sob condição de que faria de

ajudante de cozinheiro. Como isto tinha as suas vantagens, o negro

tinha-o acceitado de muito boa vontade, com permissão de seu amo. Além

d’isso, fechado d’aquelle modo, elle não via nada do que se passava lá

fora, e podia reputar-se livre de perigo. Pois não se parecia elle com o

abestruz, não só no physico, pelo seu prodigioso estomago, mas no moral

pela sua rara estupidez?

Para que ponto do globo ia agora dirigir-se o _Albatrós_? Seria

admissivel que, em pleno inverno, se aventurasse por sobre os mares

austraes ou continentes do polo? N’aquella atmosphera glacial não

correspondia isso á morte do pessoal, a uma horrivel morte pelo frio,

admittindo mesmo que os agentes chimicos das pilhas pudessem resistir a

uma tal congelação? Que Robur tentasse transpôr o polo durante a estação

quente, vá! Mas no meio d’essa noite permanente do inverno antarctico,

seria o acto de um louco!

Assim raciocinavam o presidente e o secretario do Weldon-Institute, agora

levados ao extremo d’aquelle continente do Novo Mundo, que é ainda a

America, mas não a dos Estados Unidos!

Sim! o que ía fazer esse intratavel Robur? Não teria chegado o momento de

terminar a viagem destruindo o apparelho voador?

O certo é que durante aquelle dia de 24 de julho, o engenheiro teve

frequentes entrevistas com o seu contramestre. Muitas vezes os dois

consultaram o barometro, não para calcular d’esta vez a altura que

haviam attingido, mas para tomar nota das indicações relativas ao tempo.

Evidentemente, alguns symptomas se produziam que era necessario ter em

consideração.

Uncle Prudent julgou tambem notar que Robur buscava inventariar o que lhe

restava de provisões de toda a especie, tanto para entreter as machinas

propulsivas e suspensivas da aeronave, como tambem as machinas humanas,

cujo funccionamento não devia ser menos garantido a bordo.

Tudo isto parecia annunciar projectos de regresso.

—De regresso!... dizia Phil Evans. Mas para onde?

—Onde esse Robur se possa abastecer, respondeu Uncle Prudent.

—Deve ser alguma ilha perdida no Oceano Pacifico, com uma colonia de

scelerados, dignos do seu chefe.

—É tambem a minha opinião, Phil Evans. Parece-me, com effeito, que elle

pretende dirigir-se para o oéste, e, com a velocidade de que dispõe, terá

alcançado rapidamente o seu fim.

—Mas não poderemos pôr os nossos projectos em execução ... se elle lá

chega ...

—Não chegará, Phil Evans!

Evidentemente, os dois collegas tinham em parte adivinhado os

planos do engenheiro. Durante aquelle dia, era fora de duvida que o

_Albatrós_, depois de ter avançado para os limites do Mar Atlantico, ía

definitivamente retrogradar. Quando os gelos tivessem invadido aquellas

paragens até o cabo Horn, todas as baixas regiões do Pacifico seriam

cobertas de _icefields_ e de _icebergs_. A grande massa de gelo formaria

então uma barreira impenetravel aos mais solidos navios, como aos mais

intrepidos navegadores.

É certo que, batendo mais rapidamente o vôo, o _Albatrós_ poderia

transpôr as montanhas de gelo, accumuladas sobre o Oceano, depois

as montanhas de terra, erguidas sobre o continente do polo, se é um

continente que forma a calote austral. Mas aventurar-se-hia a affrontar,

no meio da noite polar, uma atmosphera que pode esfriar até sessenta

graus abaixo de zero? Não, decerto!

De modo que depois de ter avançado uns cem kilometros ao sul, o

_Albatrós_ obliquou para o oéste, de maneira a tomar a direcção de alguma

ilha desconhecida dos grupos do Pacifico.

Por baixo d’elles extendia-se a planicie liquida, lançada entre a terra

americana e a terra asiatica. N’aquelle momento, as aguas tinham tomado

essa côr singular que lhes faz dar o nome de “mar de leite„. Na meia

sombra que não conseguiam dissipar os raios enfraquecidos do sol, toda

a superficie do Pacifico era de um branco leitoso. Dir-se-hia um vasto

campo de neve, cujas ondulações não eram sensiveis, vistas d’aquella

altura. Tivesse aquella porção de mar sido solidificada pelo frio, e

convertida n’um immenso _icefield_, e o seu aspecto não seria outro.

Como se sabe, são myriades de particulas luminosas, de corpusculos

phosphorecentes que produzem aquelle curiosissimo phenomeno. O que podia

surprehender era que se encontrasse aquelle conjunto opalescente fora

das aguas do Oceano Indico.

De subito o barometro, depois de se ter mantido assaz alto durante as

primeiras horas do dia, cahiu bruscamente. Havia evidentemente symptomas

com que um navio se poderia preoccupar, mas que a aeronave desprezava.

Comtudo, como era de suppôr, alguma formidavel tempestade tinha

recentemente abalado as aguas do Pacifico.

Era uma hora depois do meio dia quando Tom Turner, approximando-se do

engenheiro, lhe disse:

—Master Robur, repare n’aquelle ponto negro do horisonte!... Acolá ...

perfeitamente ao norte de nós!... Não poderá ser um rochedo?

—Não, Tom, não ha terras d’aquelle lado.

—N’esse caso deve ser um navio ou pelo menos um barco.

Uncle Prudent e Phil Evans, que tinham ido para a frente, olhavam o ponto

indicado por Tom Turner.

Robur pediu o seu oculo de mar, e poz-se a observar attentamente o

objecto apontado.

—É um barco, disse elle, e iria affirmar que traz homens a bordo.

—Naufragos? exclamou Tom.

—Sim! naufragos, que terão sido forçados a abandonar o seu navio,

continuou Robur; infelizes, que não sabem bem onde é a terra, e que

morrem talvez de fome e de sêde. Pois bem! não se dirá que o _Albatrós_

não procurou ir em auxilio d’elles!

Foi dada uma ordem ao machinista e aos seus dois ajudantes. A aeronave

começou a baixar lentamente. A cem metros parou, e os seus propulsores

impelliram-n’a rapidamente para o norte.

Era effectivamente um barco. A véla batia sobre o mastro. Á falta de

vento não sabia andar, e decerto que a bordo ninguem tinha fôrças para

pegar n’um remo.

No fundo estavam cinco homens, adormecidos ou immobilisados pela fadiga,

a não ser que estivessem mortos.

O _Albatrós_ chegou acima d’elles e desceu lentamente.

Atraz d’aquella embarcação, puderam ler então o nome do navio a que

ella pertencia; a era _Jeannette_, de Nantes, navio francez, que a sua

tripulação teria naturalmente tido que abandonar.

—Eh! gritou Tom Turner.

E deviam tel-o ouvido, porque a embarcação não estava oitenta pés acima

d’elles.

Nada de resposta.

—Um tiro! disse Robur.

A ordem foi executada, e a detonação propagou-se longamente á superficie

das aguas.

Viram então um dos naufragos erguer-se difficultosamente, com os olhos

esgazeados, um verdadeiro rosto de esqueleto.

Dando com o _Albatrós_ teve primeiramente um gesto de espanto.

—Nada receie! gritou Robur em francez. Vimos em vosso soccorro! Quem sois?

—Marinheiros da _Jeannette_, barca de que eu era o immediato, respondeu o

homem. Ha quinze dias que a deixámos ... na occasião de sossobrar!... Não

temos nem agua nem viveres!...

Os outros quatro naufragos tinham-se levantado a pouco e pouco. Lividos,

exhaustos, n’um horroroso estado de magreza, levantavam as mãos para a

aeronave.

—Attenção! gritou Robur.

Uma corda se desenrolou da plataforma, e uma celha, contendo agua dôce,

foi arreada até á embarcação.

Os desgraçados lançaram-se a ella e beberam com uma avidez que

incommodava vêr.

—Pão!... pão!... gritaram elles.

Immediatamente, um cabaz contendo alguns viveres, alimentos de conserva,

um frasco de brandy, e boa porção de café, desceu até elles. O immediato

viu-se grego para os conter no mitigamento da fome.

E elles perguntaram depois:

—Onde estamos?

—A cincoenta milhas da costa do Chili, e do archipelago dos Chonas,

respondeu Robur.

—Muito obrigado. Mas falta-nos o vento e ...

—Vamos dar-vos reboque!

—Quem sois?

—Gente que se sente feliz por vos ter vindo em auxilio, respondeu apenas

Robur.

O immediato comprehendeu que havia um incognito a respeitar. E quanto á

machina volante, seria possivel que ella tivesse fôrça bastante para os

rebocar?

Sim! e a embarcação, presa a um cabo de uns cem pés de comprimento, foi

arrastada para o léste por um poderoso apparelho.

Ás dez da noite, a terra estava á vista, ou antes viam-se brilhar as

luzes que indicavam a sua situação. Viera a tempo aquelle auxilio do céo,

para os naufragos da _Jeannette_, e estes tinham bem de que pensar que na

sua salvação havia o quer que fôsse de miraculoso.

Depois, tendo-os conduzido á entrada das passagens das ilhas Chonas,

Robur gritou-lhes para largarem o reboque, o que elles fizeram abençoando

os seus salvadores, e o _Albatrós_ retomou o seu amplo vôo.

Decididamente tinha muito de bom essa aeronave, que assim podia vir em

auxilio de marinheiros perdidos no alto mar. Qual o balão, por mais

aperfeiçoado que elle fôsse, que seria capaz de prestar aquelle serviço?

E de si para si Uncle Prudent e Phil Evans tiveram de concordar n’isto,

apesar de estarem na disposição de espirito de negar a propria evidencia.

O mar sempre mau. Symptomas assustadores. O barometro desceu ainda alguns

millimetros. Rabanadas terriveis de vento, que silvava violentamente nos

engenhos helicoptericos do _Albatrós_, e que parava n’um momento.

N’estas circumstancias, um navio de véla teria já dois rizes no mastro

da gavea, e um na mesena. Tudo indicava que o vento ia saltar para o

noroéste. O tubo do storm-glass começava a perturbar-se de um modo

inquietador.

Á uma da manhã, o vento fixou-se com uma extrema violencia. Comtudo,

apesar de vir de frente, a aeronave, movida pelos seus propulsores, poude

ainda vencel-o, e subir, na razão de quatro a cinco leguas por hora. Mas

não se lhe podia exigir mais.

Evidentemente preparava-se um cyclone, o que é raro n’aquellas latitudes.

Chamem-lhe furacão no Atlantico, tufão nos mares da China, simún no

Sahará, redemoinho na costa occidental, é sempre uma tempestade em

vortice, e temivel. Sim! temivel para todo o navio, apanhado por esse

movimento giratorio, que cresce da circumferencia ao centro e não deixa

senão um unico logar calmo, no meio d’esse Maelström dos ares.

Sabia-o Robur. Sabia tambem que era prudente fugir a um cyclone, sahindo

da sua zona de attracção por uma ascensão até as camadas superiores. Até

então tinha-se sahido sempre bem. Mas não havia hora a perder, nem um

minuto talvez!

Com effeito, a violencia do vento crescia sensivelmente. As ondas,

descoroadas nas suas cristas, faziam correr uma poeira branca á

superficie do mar. Era claro tambem que o cyclone, deslocando-se, ia cair

nas regiões do polo com uma velocidade horrivel.

—Para cima! disse Robur.

—Para cima! respondeu Turner.

Um extremo poder ascencional foi communicado á aeronave, e ella subiu

obliquamente, como se seguisse um plano que se tivesse inclinado para

o sudoéste. N’aquelle momento o barometro baixou mais ainda, uma quéda

rapida da columna de mercurio de oito e depois de doze millimetros. De

subito o _Albatrós_ parou no seu movimento ascencional.

A que causa era devida aquella paragem? Evidentemente a um pêso de ar,

a uma formidavel corrente, que, propagando-se de alto abaixo, diminuia a

resistencia do ponto de apoio.

Quando um vapor sobe um rio, o seu helice produz um trabalho menos util

quanto a corrente tende a fugir sob as suas azas.

O recuo é então consideravel, e pode mesmo tornar-se egual á corrente.

Assim acontecia ao _Albatrós_ n’aquelle momento.

Comtudo Robur não abandonou a partida. Os seus setenta e quatro helices,

actuando n’uma simultaneidade perfeita, foram levados ao seu maximo de

rotação. Mas, irresistivelmente attrahido pelo cyclone, o apparelho não

se lhe podia escapar. Durante curtas calmarias, retomava o seu movimento

ascencional. Depois o grande pêso fazia-o arrastar de novo, e ía abaixo

como um navio que vae ao fundo. E não era isso afundar-se n’esse mar

aereo, no meio de uma noite onde os pharoes da aeronave não rompiam a

escuridão senão n’um raio muito restricto?

Evidentemente, se a violencia do cyclone crescesse, o _Albatrós_ não

seria mais que um feixe de palha, sem direcção, levado n’um d’esses

turbilhões que arrancam arvores pelas raizes, lançam pelos ares os tectos

e derruem muralhas.

Robur e Tom não podiam falar senão por signaes. Uncle Prudent e Phil

Evans, agarrados ao parapeito, perguntavam a si proprios se o meteoro

lhes não iria fazer a vontade destruindo a aeronave, e com elle o

inventor e todo o segredo da sua invenção. Mas já que o _Albatrós_ não

conseguia desembaraçar-se verticalmente d’aquelle cyclone, parecia

que havia apenas uma cousa a fazer: alcançar o centro, relativamente

socegado, onde seria mais senhor das suas manobras. Sim! mas para o

conseguir, seria preciso romper aquellas correntes circulares que o

arrastavam á peripheria.

Possuia elle sufficiente fôrça mechanica para se deslocar?

De subito a parte superior da nuvem desfez-se. Os vapores condensaram-se

em torrentes de chuva.

Eram duas da manhã. O barometro, oscillando com deslocamentos de doze

millimetros, cahira então a 709, o que, na realidade, devia ser diminuido

da baixa devida á altura alcançada pela aeronave por sobre o nivel do mar.

Phenomeno rarissimo: aquelle cyclone formára-se fora das zonas que elle

mais habitualmente percorre, isto é, entre o 30.° parallelo norte e o

26.° parallelo sul. Talvez isto explique como aquella tempestade girante

se transformou subitamente n’uma tempestade rectilinea. Mas que furacão!

Tom Turner puzera-se ao leme. Era necessaria toda a sua destreza para não

dar guinadas de um lado para o outro.

Nas primeiras horas do dia,—se assim se pode chamar áquelles vagos tons

do horisonte,—o _Albatrós_ tinha galgado quinze graus desde o cabo Horn,

isto é, mais de quatrocentas leguas, e passára o limite do circulo polar.

Alli, no mez de julho, a noite dura ainda dezenove horas e meia. O disco

do sol sem calor, sem luz, não apparecia sobre o horisonte senão para

desapparecer quasi immediatamente. No polo, aquella noite prolonga-se

durante cento e setenta e nove horas. Tudo indicava que o _Albatrós_ ia

afundar-se n’ella como n’um abysmo.

N’esse dia, se uma observação fôsse possivel, teria dado 66° 40´

de latitude austral. A aeronave não estava pois mais longe mil e

quatrocentas milhas do polo antarctico.

Irresistivelmente arrastada para aquelle inaccessivel ponto do globo, a

sua velocidade “comia„ por assim dizer, a sua gravidade, apesar d’esta

ser um pouco mais forte, então, em consequencia da chateza da terra no

polo. Quanto aos seus helices suspensivos, parecia que podia passar sem

elles. De subito, a violencia do furacão tornou-se tal, que Robur julgou

dever reduzir os propulsores ao minimo de voltas, afim de evitar algumas

graves avarias, e de modo a poder governar, conservando o menos possivel

da velocidade propria.

No meio d’estes perigos, o engenheiro commandava com sangue frio, e o

pessoal obedecia como se a alma do seu chefe estivesse n’elle.

Uncle Prudent e Phil Evans não deixaram um instante a plataforma. Tambem

podia-se estar alli sem inconveniente. O ar não resistia, ou resistia

muito fracamente. A aeronave estava alli como um aerostato que caminha

com a massa fluida em que está immerso.

O dominio do polo austral comprehende, segundo dizem, quatro milhões,

quinhentos mil metros quadrados de superficie. É um continente? É um

archipelago? é um mar paleocrystico, cujos gelos não se derretem mesmo

durante o longo periodo de verão? Não se sabe. Mas o que é sabido, é

que esse polo austral é mais frio que o polo boreal, phenomeno devido

á posição da terra sobre a sua orbita, durante o inverno das regiões

antarcticas.

Durante aquelle dia nada indicou que a tempestade fôsse diminuir. Era

pelo 75.° grau meridiano, a oéste, que o _Albatrós_ ia alcançar a região

circumpolar. Por que meridiano sahiria, se sahisse?

Em todo o caso, á medida que descia mais ao sul, a duração do dia

diminuia. Antes de pouco, estaria mergulhado n’aquella noite permanente

que não se illumina senão á claridade da lua ou aos pallidos clarões das

auroras austraes. Mas era lua nova então, e os companheiros de Robur

arriscavam-se a não vêr nada d’aquellas regiões, cujo segredo escapava

ainda á curiosidade humana.

Muito provavelmente o _Albatrós_ passou por cima de alguns pontos

já reconhecidos, um pouco antes do circulo polar, no oéste da terra

de Graham, descoberta por Biscoe em 1832, e da terra Luiz Filippe,

descoberta em 1838 por Dumont d’Urville, ultimos limites alcançados sobre

o continente desconhecido.

Comtudo a bordo não se soffria muito com a temperatura, muito menos

baixa então do que era para receiar. Parecia que aquelle furacão era uma

especie de Gulf Stream aereo que levava comsigo um certo calor.

Quanto foi então para lastimar que aquella região estivesse immersa n’uma

obscuridade profunda! É necessario comtudo notar que, mesmo que a lua

allumiasse o espaço, a parte das observações seria muito reduzida. N’essa

épocha do anno, uma immensa rede de neve, uma crusta de gelo, cobre toda

a superficie polar. Não se nota mesmo aquelle “blink„ de gelos, tintura

esbranquiçada cujo reverbero falta aos horisontes obscuros.

N’estas condições, como distinguir a forma das terras, a extensão dos

mares, a disposição das ilhas? A sua propria configuração orographica,

como marcal-a, desde as collinas onde as montanhas se confundem com os

ice-berg, e os montões de gelo?

Um pouco antes da meia noite, uma aurora boreal illuminou aquellas

trevas. Com as suas franjas prateadas, as suas laminasinhas que

irradiavam através do espaço, aquelle meteoro apresentava a forma de

um immenso leque, aberto sobre uma metade do céo. As suas extremas

effluencias electricas vinham perder-se no Cruzeiro do Sul, cujas quatro

estrellas brilhavam no zenith. O phenomeno foi de uma magnificencia

incomparavel, e a sua claridade bastou para mostrar o aspecto d’aquella

região confundida n’uma brancura immensa.

Robur, o Conquistador · 第 10 / 14 段