—Ah!... exclamára o negro, recomeçando as suas lamentações.

—Toma sentido, Fry, toma sentido! dizia Francisco Tapage, porque olha que

o mestre pode mandar-te para o balouço.

E Fricollin engulia os seus suspiros com os pedaços de comida que mettia

na bôcca em duplicado.

Durante este tempo, Uncle Prudent e Phil Evans, que não eram homens

para se recriminarem inutilmente, acabavam de tomar uma resolução. Era

evidente que a fuga se não podia realisar. Se não era possivel pôr o

pé em terra, não se poderia fazer saber aos seus habitantes o que era

feito, depois que haviam desapparecido, do presidente e secretario

do Weldon-Institute! por quem haviam sido arrebatados; a bordo de que

machina voadora estavam retidos? e provocar talvez,—mas de que maneira,

Deus do céo!—uma audaciosa tentativa da parte dos seus amigos para os

arrancar ás mãos d’esse Robur?

Mas corresponderem-se? de que modo? Seria bastante fazer como os

marinheiros em afflicção que lançam á agua uma garrafa contendo um

documento indicativo do local do naufragio?

Mas aqui o mar era a atmosphera. A garrafa não fluctuaria. A menos de

não cahir justamente sobre a cabeça de algum transeunte, rachando-a,

corria-se o risco de não ser encontrada.

Em summa, os dois collegas não tinham senão este meio á sua disposição e

iam sacrificar uma das garrafas de bordo, quando Uncle Prudent teve outra

idéa. Elle tomava rapé, como se sabe, e pode-se perdoar este ligeiro

defeito a um americano, que podia fazer peior.

Ora como tomasse rapé, tinha uma caixa,—n’aquella occasião vasia. Era

de aluminio. Atirada ao chão, se algum honesto cidadão a encontrasse,

apanhal-a-hia, e apanhando-a, leval-a-hia a uma estação de policia, e

alli tomariam conhecimento do documento destinado a dar a conhecer a

situação das duas victimas de Robur, o Conquistador.

É o que se fez. A nota era curta, mas dizia tudo e dava a direcção do

Weldon-Institute, com um pedido para ser enviada ao seu destino.

Então Uncle Prudent, mettendo a nota na caixa, envolveu esta n’um espesso

trapo de lã, e atou-a com cordel, tanto para impedir que se abrisse

durante a quéda, como para se não partir no chão. Não havia mais do que

esperar occasião favoravel.

Realmente, a manobra mais difficil, durante aquella prodigiosa travessia

da Europa, era sahir do beliche, ir de rastos sobre a plataforma, com

risco de ser arrebatado; e tudo isso em segredo.

Por outro lado, era preciso que a caixa não cahisse n’algum mar, golpho,

lago ou outra qualquer porção de agua. Seria perdel-a.

Não era, comtudo, impossivel entrarem os dois collegas em communicação

com o mundo habitado.

Era dia claro, n’aquella occasião; e era melhor esperar pela noite, e

aproveitar, quer uma diminuição de actividade, quer uma paragem, para

sahir do beliche. Talvez então se pudesse ir até á borda da plataforma, e

não deixar cahir a preciosa caixa senão em cima de uma cidade.

Além d’isso, mesmo que todas aquellas condições se déssem, o projecto não

poderia ser posto em execução,—pelo menos n’aquelle dia.

Com effeito o _Albatrós_, depois de ter deixado a terra noruegueza á

altura do Gusta, tinha tomado para o sul. Seguia precisamente o zero

de longitude que não é outro na Europa senão o meridiano de Paris.

Passou portanto por cima do mar do norte, produzindo uma bem natural

estupefacção a bordo d’esses milhares de barcos que fazem cabotagem entre

a Inglaterra, Hollanda, França e Belgica. A não ser que a caixa cahisse

exactamente sobre a ponte de um d’esses navios, o mais certo era ir para

o fundo.

Uncle Prudent e Phil Evans foram pois obrigados a esperar uma occasião

mais favoravel; e, como se vae vêr, uma excellente occasião se lhes ia

offerecer.

Ás dez da tarde acabava o _Albatrós_ de alcançar as costas da França,

pouco mais ou menos á altura de Dunkerque. A noite estava muito escura.

Por um instante se poude vêr o pharol de Gris-Nez cruzar os seus fogos

electricos com o pharol do Passo de Calais. Então o _Albatrós_ avançou

por sobre o territorio francez, mantendo-se a uma altura média de mil

metros.

A sua velocidade não tinha diminuido. Passava como uma bomba por sobre

cidades, villas, aldeias, tão numerosas n’aquellas ricas provincias da

França septentrional. Eram, sobre esse meridiano de Paris,—depois de

Dunkerque—, Doulens, Amiens, Criel, Saint-Denis. Nada o fez desviar da

linha recta. Foi assim que, perto da meia noite, elle estava por sobre a

“Ville-Lumiére„, que merece aquelle nome quando os seus habitantes estão

a dormir,—ou pelo menos deviam estar.

Mas que extranha phantasia levou o engenheiro a fazer alto sobre a cidade

parisiense? não se sabe. O que é certo é que o _Albatrós_ baixou de modo

a dominal-a de alguns centos de pés apenas. Robur sahiu então do seu

beliche e todo o pessoal veio respirar o ar para a plataforma.

Uncle Prudent e Phil Evans não perderam a excellente occasião que se

lhes offerecia. Sahindo dos seus compartimentos, os dois, procuraram

isolar-se, afim de poder escolher o momento mais propicio. Era sobretudo

preciso evitar serem vistos.

O _Albatrós_, semelhante a um gigantesco escaravelho, continuava

suavemente por sobre a grande cidade. Percorreu a linha dos boulevards,

tão brilhantemente illuminados pelos apparelhos Edison. Subia até elles

um ruido de trens, e o rodar das carruagens sobre os multiplos rails

que irradiam sobre Paris. Depois veiu pairar á altura dos mais altos

monumentos, como se tivesse querido ir de encontro á esphera do Pantheon

ou á cruz dos Invalidos. Esvoaçou desde os dois minaretes do Trocadéro

até á torre metallica do Campo de Marte, cujo enorme reflector inundava

toda a capital com os seus clarões electricos.

Aquelle passeio aereo, aquelle vaguear de noctambulo, durou cêrca de uma

hora. Era como uma paragem nos ares, antes de recomeçarem a interminavel

viagem.

E talvez mesmo o engenheiro Robur quizesse dar aos parisienses o

espectaculo de um meteoro que os seus astronomos não haviam previsto.

Os pharoes do _Albatrós_ foram postos em actividade. Dois feixes de luz

passearam então sobre as praças, esquares, jardins, palacios e sobre

as sessenta mil casas da cidade, lançando enormes jorros de luz, de um

horisonte a outro.

Evidentemente fôra visto o _Albatrós_, d’aquella vez; não só bem visto,

mas ouvido tambem, porque Tom Turner, embocando a sua trombeta, enviou

sobre a cidade uma vibrante fanfarra.

N’essa occasião, Uncle Prudent, inclinando-se por sobre o parapeito,

abriu as mãos e deixou cahir a caixa de rapé.

Quasi em seguida o _Albatrós_ subiu rapidamente.

Então, através das alturas do céo parisiense, subiu um hurrah immenso da

multidão, que era enorme ainda nos boulevards, hurrah de estupefacção que

se dirigia ao phantastico meteoro.

De subito se apagaram os pharoes da aeronave, fez-se de novo a sombra em

volta d’ella, ao mesmo tempo que o silencio, e seguiram o caminho com uma

velocidade de duzentos kilometros por hora.

É tudo o que se devia ter visto da capital da França.

Ás quatro da manhã, o _Albatrós_ tinha transposto obliquamente todo o

territorio. Depois, afim de não perder tempo em transpôr os Pyrinéos

ou os Alpes, deslisou á superficie da Provença até á ponta do Cabo das

Antibes. Ás nove, os San-pietrini, reunidos no terraço de S. Pedro de

Roma, ficavam embasbacados ao vêl-o passar por cima da Cidade Eterna.

Duas horas depois, dominava a bahia de Napoles, balouçava-se um instante

entre as volutas fuliginosas do Vesuvio. Afinal, depois de ter cortado

o Mediterraneo com um vôo obliquo, desde a primeira hora depois do meio

dia, era visto pelas vigias da Guletta, na costa tunisina.

Depois da America, a Asia! Depois da Asia, a Europa! Eram mais de trinta

mil kilometros que o prodigioso apparelho acabava de fazer em menos de

vinte e tres dias!

E agora, eil-o por sobre as regiões conhecidas ou desconhecidas da terra

de Africa!

* * * * *

Talvez queiram saber o que veiu a succeder á famosa caixa de tabaco,

depois da sua quéda?

A caixa cahira na rua de Rivoli, em frente do numero 210, no momento em

que aquella rua estava deserta.

No dia seguinte foi apanhada por uma honrada varredoura, que se apressou

a leval-a á Prefeitura de Policia.

Alli, tomada ao principio por um apparelho explosivo, foi desatada,

desenrolada, aberta com a maxima cautela.

De subito houve uma especie de explosão ... Um formidavel espirro, que o

chefe de segurança não tinha podido suster!

Tiraram então o documento de dentro da caixa, e, com geral surpreza,

leu-se o seguinte:

“Uncle Prudent e Phil Evans, presidente e secretario do

Weldon-Institute de Philadelphia, arrebatados na aeronave do

engenheiro Robur.

“Participem isto aos amigos e conhecimentos.

U.P. e P.E.„

Era o inexplicavel phenomeno explicado finalmente aos habitantes dos

Dois Mundos. Era o socego restituido aos numerosos observatorios que

funccionam á superficie do globo terrestre.

CAPITULO XII

DE COMO O ENGENHEIRO ROBUR PROCEDE, COMO SE QUIZESSE CONCORRER PARA UM

PREMIO MONTHYON

N’este ponto da viagem de circumaviação do _Albatrós_, é permittido fazer

as seguintes perguntas:

Quem é afinal esse Robur, cujo nome se não conhece até agora? Passa a

sua vida nos ares? A sua aeronave não descança nunca? Não tem um retiro

em qualquer logar inaccessivel, onde, embora não precise de descançar,

vá pelo menos abastecer-se? Seria espantoso se assim não fôsse. Os mais

poderosos voadores teem sempre um abrigo ou um ninho em qualquer parte.

Além d’isso, o que pretendia o engenheiro fazer d’aquelles dois

incommodos prisioneiros? Pretendia conserval-os em seu poder,

condemnal-os á aviação perpetua? Ou então, depois de os haver passeado

por sobre a Africa, a America, a Australia, o Oceano Indico, o Atlantico,

o Pacifico, para os convencer de vez, mesmo a despeito d’elles, dar-lhes

liberdade, dizendo:

—Agora, meus senhores, espero que se mostrarão menos incredulos com

respeito ao “Mais pesado que o ar„!

Em todo o caso, o tal ninho, a ave Robur não se incommodou em o procurar

na fronteira septentrional da Africa. Contentou-se com passar o fim

d’aquelle dia por sobre a regencia de Tunis, desde o cabo Bon até o

cabo Carthago, ora esvoaçando, ora pairando, á mercê de um capricho. Um

pouco depois, dirigiu-se para o interior, e enfiou o admiravel vale da

Medjerda, seguindo o seu caminho pardacento, perdido entre os arbustos de

cactus e loureiros rosas. E que centos de papagaios elle não espantou,

que pousados nos fios telegraphicos pareciam esperar pelos despachos, na

sua passagem, para os levar nas suas azas!

Depois, tendo vindo a noite, o _Albatrós_ balouçou sobre as fronteiras

da Krumeria, e, se ainda restava um krumir, este não deixou decerto

de se prostrar em terra, invocando Allah, á apparição d’aquella aguia

gigantesca.

No dia seguinte de manhã era Bone, e as graciosas collinas dos arredores;

era Philippeville, agora uma pequenina Argel, com os seus novos caes

em arcadas, as suas admiraveis vinhas, cujas cepas eriçam todo aquelle

campo, que parece recortado no campo bordelez, ou nos torrões da

Borgonha.

Este passeio de quinhentos kilometros, por sobre a grande e pequena

Kabylia, terminou ao meio dia á altura da Kasbah de Argel.

Que espectaculo para os passageiros da aeronave! o ancoradouro aberto

entre o Cabo Matifú e a Ponta Pescada, esse littoral ornado de palacios,

de marabuts, de casas de campo; esses valles caprichosos, revestidos nos

seus mantos de vinhas; esse Mediterraneo, tão azul, sulcado pelos vapores

transatlanticos, que parecem lanchas a vapor!

E foi assim até Oran, a pittoresca, cujos habitantes, mais retardatarios

nos jardins da cidade, puderam vêr o _Albatrós_ confundir-se com as

primeiras estrellas da noite.

Se Uncle Prudent e Phil Evans perguntassem a si proprios a que phantasia

obedecia o engenheiro Robur, ao passear a prisão volante por sobre a

terra argelina,—essa continuação da França do outro lado do mar, que

mereceu o nome de lago francez,—deviam ter pensado que a sua phantasia

estava satisfeita, duas horas depois do pôr do sol.

Um movimento do leme acabava de encaminhar o _Albatrós_ para o suéste, e

no dia seguinte, depois de se ter desembaraçado da parte montanhosa do

Tell, viu o astro do dia levantar-se sobre as areias do Sahará.

Eis o itinerario do dia 8 de julho. Vista da pequena aldeia de Geryville,

creada, como Laghouat, sobre o limite extremo do deserto, para facilitar

a conquista ulterior da Kabylia. Passagem do desfiladeiro do Stillen, com

certa difficuldade, contra uma brisa violentissima. Travessia do deserto,

ora lenta, por sobre verdejantes oasis ou ksars, ora com uma rapidez

fogosa, que vencia o vôo das gypaétas. Muitas vezes mesmo, foi preciso

fazer fogo contra temiveis aves, que, aos bandos de doze e de quinze, não

receavam precipitar-se sobre a aeronave, com grande espanto de Fricollin.

Mas, se as gypaétas não podiam responder senão com gritos horrorosos, com

bicadas e patadas, os indigenas não menos selvagens, não lhes pouparam

tiros de espingarda, sobretudo quando passavam a montanha do sal, cujo

arcabouço, verde e côr de violeta, transparecia sob o véo branco que a

cobria.

Dominavam então o grande Sahará. Alli se viam os restos dos bivaques

de Abdel-Kader. Alli o paiz é sempre perigoso para o viajante europeu,

principalmente na confederação do Beni-Mzal.

O _Albatrós_ teve então de subir ás zonas mais altas, afim de escapar

a um assalto do _simún_ que passeava uma lamina de areia avermelhada á

superficie do solo, como faria um excesso de maré á superficie do Oceano.

Em seguida, os planaltos desolados da Chebka espraiaram o balastro de

lavas ennegrecidas até ao fresco e verde valle de Ain-Massin. Seria

difficil imaginar a variedade d’aquelles territorios que o olhar podia

abraçar no seu conjunto. Ás collinas cobertas de arvores e arbustos

succediam-se longas ondulações pardacentas, ás pregas, como um albornoz

arabe, cujos soberbos recortes accidentavam o solo. Ao longe viam-se as

“oueds„ de aguas torrenciaes, bosques de palmeiras, grupos de pequenas

cabanas sobre um monticulo, em volta de uma mesquita, e entre outras

Metliti, onde vegeta um chefe religioso, o grande Marabut Sidi Chick.

Antes da noite, alguns centos de kilometros foram transpostos por sobre

um territorio chatissimo, sulcado de grandes dunas. Se o _Albatrós_

tivesse querido fazer alto, teria pousado em terra no fundo do oasis

de Marglá, sob um immenso bosque de palmeiras. A cidade apresentou-se

muito visivel com os seus tres quarteirões distinctos, o antigo palacio

do sultão, especie de Kasbah fortificada, as suas casas construidas de

tijolos que o sol se encarregou de cozer, e os seus poços artesianos,

abertos no valle, onde a aeronave podia refazer a sua provisão liquida.

Mas graças á sua extraordinaria velocidade, as aguas do Hydaspe, sugadas

no valle de Cachemir, enchiam ainda os seus depositos, no meio dos

desertos de Africa.

Teria o _Albatrós_ sido visto pelos Arabes, Mozabitas, e negros que

habitam o oasis de Marglá? Certamente que sim, porque foi saudado por

alguns centos de tiros de espingarda, cujas balas voltaram á terra, sem o

haverem alcançado.

Veiu depois a noite, essa noite silenciosa do deserto, cujos segredos

Felicien David interpretou tão bem!

Durante as horas seguintes, desceram para o sudoéste, cortando os

caminhos do El-Goléa, um dos quaes foi reconhecido em 1859, pelo

intrepido viajante Francisco Duveyrier.

A escuridão era profunda. Nada puderam vêr do railway transsahariano em

construcção, segundo o projecto Duponchel, longa fita de ferro que deve

ligar Argel a Tombuctú por Laghuat, Gardaia, e alcançar mais tarde o

golpho da Guiné.

O _Albatrós_ entrou então na região equatorial, para além do tropico de

Cancer. A mil kilometros da fronteira septentrional do Sahará, transpunha

o caminho em que o major Lang encontrou a morte em 1846; cortava os

caminhos das caravanas de Marrocos ao Sudão, e sobre essa porção de

deserto que os Tuaregs espumam, ouvia o que se chama o “canto das

areias„, murmurio dôce e plangente que parece surgir do solo.

Apenas se deu um incidente: uma nuvem de gafanhotos se ergueu no espaço,

e cahiu uma tal carregação d’elles a bordo, que o navio aereo esteve

prestes a sossobrar. Trataram porém de deitar fora o excesso da carga,

menos alguns centos de que François Tapage fez provisão. E cozinhou-os

de um modo tão succulento, que Fricollin esqueceu por momentos os seus

transes perpetuos.

—Isto vale por camarões! dizia elle.

Estavam então a mil e oitocentos kilometros do oasis de Marglá, quasi no

limite norte d’esse immenso reino do Sudão.

Pelas duas da tarde appareceu uma cidade no cotovello formado por um

grande rio. Era o rio Niger. A cidade, Tombuctú.

Se até então não tinham tido que visitar essa Méka africana senão

os viajantes do Mundo Antigo, os Batuta, os Khazan, os Imbert, os

Mungo-Park, os Adams, os Laing, os Caillé, os Barth, os Lenz, n’esse dia,

graças aos acasos da mais singular aventura, dois americanos podiam falar

d’ella _de visu, de auditu e de olfactu_, no seu regresso á America, se

lá regressassem de facto.

_De visu_, porque o seu olhar poude chegar a todos os pontos d’aquelle

triangulo de cinco a seis kilometros, formado pela cidade; _de auditu_,

porque esse dia era um dia de grande mercado, e faziam uma algazarra

espantosa; _de olfactu_, porque o nervo olfactivo não podia ser muito

agradavelmente affectado pelos odores da praça de Yubu-Kamo, onde está o

mercado de carne, perto do palacio dos antigos reis So-mais.

Em todo o caso o engenheiro entendeu não dever deixar ignorar ao

presidente e ao secretario do Weldon-Institute que elles tinham a

felicidade extrema de contemplar a Rainha do Sudão, agora em poder dos

Tuaregs de Taganet.

—Meus senhores, Tombuctú! lhes disse no mesmo tom em que dois dias antes

lhes dissera:

“A India, meus senhores!„

Depois continuou:

—Tombuctú, aos 18 graus de latitude norte, e 5°,56´ de longitude a oéste

do meridiano de Paris, com uma costa de duzentos e quarenta e cinco

metros acima do nivel médio do mar. Importante cidade de doze a trese

mil habitantes, outr’ora illustrada pela arte e pela sciencia! Talvez

quizessem fazer alto alli durante alguns dias?

Uma tal proposta não podia ser feita senão por ironia, pelo engenheiro.

—Mas, continuou elle, seria perigoso para os extrangeiros, no meio dos

negros, dos Berberes, dos Fullanes, e dos Arabes que a habitam, sobretudo

se considerarmos que a nossa chegada em aeronave lhes poderia desagradar.

—Meu caro senhor, respondeu Phil Evans no mesmo tom, para termos o prazer

de o deixar, arriscar-nos-hiamos de bom grado a sermos mal recebidos

pelos indigenas. Prisão por prisão, mais vale Tombuctú que o _Albatrós_!

—É questão de gôsto, replicou o engenheiro. Em todo o caso, não tentarei

a aventura, porque tenho de responder pela segurança dos hospedes que me

fazem a honra de viajar commigo ...

—De maneira que, sr. engenheiro Robur,—disse Uncle Prudent, não podendo

conter a indignação,—de maneira que, não se contenta com ser carcereiro?

Ao attentado junta o insulto?

—Oh! a ironia unicamente!

—Não ha armas a bordo?

—Ha sim! um arsenal completo!

—Dois revolvers bastariam, se eu tivesse um e o senhor outro!

—Um duello! exclamou Robur, um duello, que poderia produzir a morte de um

de nós!

—Que a produzia com certeza!

—Pois, meu caro presidente do Weldon-Institute, não pode ser. Prefiro

conserval-o vivo.

—Para ter a certeza de viver tambem! É prudente!

—Prudente ou não, é isso que me convem. Fica-lhe a liberdade de pensar de

outro modo e de se queixar a quem quizer, se o pode fazer.

—Já o fiz, engenheiro Robur!

—Serio?

—Pois era tão difficil, quando atravessavamos as regiões habitadas da

Europa, deixar cair um documento ...

—E os senhores fizeram isso? disse Robur, arrebatado por um irresistivel

movimento de colera.

—E se o tivessemos feito?

—Se o tivessem feito ... mereceriam ...

—Mereceriamos o que, sr. engenheiro?

—Ir fazer companhia ao documento, pela borda fora!

—Ora experimente lá! exclamou Uncle Prudent. Já o fizemos!

Robur avançou para os dois collegas. A um gesto seu Tom Turner e alguns

dos seus camaradas tinham acudido. Sim! o engenheiro tivera um desejo

furioso de pôr em execução a sua ameaça; mas sem duvida, no receio de

succumbir, entrou precipitadamente no seu beliche.

—Ora bem! disse Phil Evans.

—E o que elle não se atreveu a fazer, respondeu Uncle Prudent,

atrever-me-hei eu a fazel-o! sim, fal-o-hei!

N’aquelle momento, a população do Tombuctú reunia-se nas praças, nas

ruas, sobre os terraços construidos em amphitheatro. Nos ricos bairros de

Sankore e de Sarahama, como nas miseraveis choças conicas do Ragnidi, os

padres lançavam do alto dos minaretes as suas mais violentas maldições

sobre o monstro aereo. Era mais inoffensivo isso que balas de espingarda.

Assim foi até o porto de Kabara, situado no cotovello formado pelo Niger,

e onde o pessoal das flotilhas foi posto em movimento. Se o _Albatrós_

tivesse pousado em terra, teria sido feito em pedaços.

Durante alguns kilometros, bandos atordoadores de cegonhas, de

francolins, e de ibis o escoltaram, luctando em velocidade com elle; mas

o seu vôo rapido em breve os poz a distancia.

Quando veiu a noite, foram os ares atordoados com o mugir de numerosos

rebanhos de elephantes e bufalos, que percorriam aquelle territorio, cuja

fecundidade é verdadeiramente maravilhosa.

Durante vinte e quatro horas, toda a região, encerrada entre o meridiano

zero e o segundo grau no colchete do Niger, se desenrolou sob o

_Albatrós_.

Na realidade, se algum geographo tivesse tido á sua disposição um

tal apparelho, com que facilidade poderia proceder ao levantamento

topographico d’aquelle paiz, obter as cotas da altitude, fixar o curso

dos rios e dos seus affluentes, determinar a posição das cidades e das

aldeias! E desappareceriam então dos mappas da Africa central esses

claros a tintas pallidas, essas linhas a pontos, e essas designações

vagas que constituem o desespero dos cartographos!

No dia 11, pela manhã, o _Albatrós_ transpoz as montanhas da Guiné

septentrional, apertada entre o Sudão e o golpho que usa o seu nome. No

horisonte perfilavam-se confusamente os Montes Kong do reino de Dahomey.

Depois de haverem sahido de Tombuctú, Uncle Prudent e Phil Evans haviam

podido notar que a direcção tinha sido sempre de norte a sul. D’ahi a

conclusão de que, se a direcção se não modificasse, encontrariam, seis

graus além, a linha equinoxial. Iria ainda o _Albatrós_ abandonar os

continentes e lançar-se, não sobre o mar de Behring, ou mar Caspio, ou

mar do Norte, ou Mediterraneo, mas por sobre o Oceano Atlantico?

Esta perspectiva não era para tranquillisar os dois collegas, cujas

probabilidades de fuga se tornavam então nullas.

Comtudo o _Albatrós_ caminhava de vagar, como se hesitasse no acto de

deixar a terra africana.

Quereria o engenheiro Robur voltar atraz? Não! Mas a sua attenção era

particularmente atrahida por aquelle paiz que elle então atravessava.

Sabe-se, e elle sabia tambem, o que era o reino de Dahomey, um dos mais

poderosos do littoral occidental da Africa. Apesar de assaz forte para

poder luctar com o seu vizinho, o reino dos Achantis, os seus limites são

comtudo restrictos, pois que não conta mais de cento e vinte leguas de

sul a norte e sessenta de léste a oéste; mas a sua população comprehende

de setecentos a oitocentos mil habitantes, depois que annexou a si os

territorios independentes de Ardrah e de Wydah.

Apesar de não ser grande, aquelle reino de Dahomey, tem dado muitas vezes

que falar de si. É celebre pelas cruezas horriveis que assignalam as suas

festas annuaes, pelos seus sacrificios humanos, e hecatombes espantosas,

destinadas a honrar o soberano que se fina e o que o substitue. É mesmo

de boa cortezia que quando o rei de Dahomey recebe a visita de algum

alto personagem ou de um embaixador extrangeiro, lhe faça a surpresa de

alguma duzia de cabeças cortadas em sua honra, e cortadas pelo ministro

da justiça, o “minghan„, que desempenha perfeitamente as suas funcções de

carrasco.

Ora na épocha em que o _Albatrós_ passava a fronteira do Dahomey,

acabava de morrer o soberano Bahadú, e toda a população ía proceder á

enthronisação do seu successor.

Robur, o Conquistador · 第 8 / 14 段