N’um instante passaram-lhes pelo espirito todas as considerações pró e

contra. N’um instante as pesaram. E afinal íam-se atirar da plataforma

abaixo, quando muitos pares de mãos se descarregaram sobre os seus

hombros.

Tinham estado a observal-os. Ficaram na impossibilidade de fugir.

Mas d’esta vez não se renderam sem resistencia. Quizeram repellir os que

os seguravam. Mas era gente solida, essa gente do _Albatrós_.

—Meus senhores, contentou-se com dizer o engenheiro, quando se tem o

prazer de viajar em companhia de Robur, o Conquistador, como os senhores

muito bem me chamaram, e a bordo do seu admiravel _Albatrós_, não se

deixa esse Robur assim á ingleza! Direi mesmo que não se deixa nunca!

Phil Evans arrastou comsigo o seu collega, que se ía entregar a algum

acto de violencia. Ambos entraram para o seu compartimento, resolvidos a

fugir, fôsse para onde fôsse, embora isso lhes custasse a vida.

O _Albatrós_ tinha retomado a sua direcção para oéste. Durante esse dia,

com uma velocidade média, transpoz o territorio de Caboulistan, cuja

capital avistaram por momentos, depois a fronteira do reino de Herát, a

mil e cem kilometros de Cachemir.

N’aquellas regiões, ainda tão disputadas, n’este caminho aberto aos

russos para as possessões inglezas da India, appareceram ajuntamentos de

homens, columnas d’elles, comboios, n’uma palavra, tudo que constitue o

pessoal e o material de um exercito em marcha. Ouviram-se tiros de peça

e o crepitar da fusilaria. Mas o engenheiro não se mettia em negocios de

outrem, a não ser que fôsse para elle um ponto de honra ou uma questão de

humanidade. Continuou ávante. Se o Herát, como dizem, é a chave da Asia

central, pouco lhe importava que essa chave estivesse n’uma algibeira

ingleza ou n’uma algibeira moscovita. Os interesses terrestres nada

tinham que vêr com esse atrevido, que tinha feito do ar o seu unico

dominio.

Além de que não tardou que o paiz desapparecesse debaixo de um verdadeiro

furacão de areia, como é frequente n’aquellas regiões. Esse vento, que se

chama “tebbad„, transporta elementos febris com a poeira imponderavel que

levanta na sua passagem. E quantas caravanas não veem a morrer n’aquelles

turbilhões!

Quanto ao _Albatrós_, no intuito de escapar a essa poeira que podia

prejudicar a finura das suas engrenagens, foi buscar a dois mil metros

uma zona mais pura.

Assim desappareceu a fronteira da Persia e as suas vastas planicies que

permaneceram invisiveis. O andamento era moderado, apesar de não haver a

receiar nenhum escolho.

Com effeito, se a carta indica algumas montanhas, são ellas cotadas a

altitudes médias. Mas, nas proximidades da capital, convinha evitar o

Damavend, cujo cume, cheio de neve, tem a altura de cêrca de seis mil e

seiscentos metros, e depois a cordilheira de Elbrouz, ao pé da qual está

construida Teheran.

Desde os primeiros clarões do dia 2 de julho appareceu esse Damavend,

emergindo do simún de areias.

O _Albatrós_ encaminhou-se pois de maneira a passar por sobre a cidade,

que o vento envolvia n’uma nuvem de fina poeira.

Apesar d’isso, pelas seis da manhã, puderam-se notar largos fossos,

em volta do recinto, e no meio, o palacio do Shah, as suas muralhas

revestidas de tijolos, as suas bacias, que pareciam talhadas em enormes

turquezas de um azul brilhante.

Não passou de uma rapida visão. A partir d’aquelle ponto, o _Albatrós_,

alterando o seu itinerario, dirigiu-se quasi que directamente ao

norte. Algumas horas depois, achava-se por cima de uma pequena cidade,

construida n’um angulo septentrional da fronteira persa, sobre as margens

de uma grande extensão de agua, cujo termo se não podia notar nem ao

norte nem ao sul.

Aquella cidade era o porto de Ashurada, a estação russa mais avançada do

sul. Aquella extensão de agua era um mar, o mar Caspio.

Já se não viam turbilhões de poeira. Era a vista de um conjunto de casas

á européa, dispostas ao longo de um promontorio, com um campanario a

dominal-as.

O _Albatrós_ desceu sobre aquelle mar, cujas aguas estão tresentos pés

abaixo do nivel do oceano. Junto á tarde, ía ao longo da costa,—outr’ora

turkestana, hoje russa,—que sobe até o golpho de Balkan, e no dia

seguinte, 3 de julho, pairava cem metros acima do mar Caspio.

Nenhuma terra á vista, nem do lado da Asia, nem do lado da Europa. Á

superficie do mar, algumas vélas brancas, enfunadas pela brisa. Eram os

navios indigenas, que se reconheciam pela sua forma, kesebeys de dois

mastros, kayuks, antigos barcos piratas de um mastro, teimils, simples

botes de serviço ou de pesca. Aqui e acolá subiam até o _Albatrós_

algumas nuvens de fumo, lançadas pelos canos dos vapores de Ashurada, que

a Russia mantém para fazer a policia das aguas turcumanas.

N’aquella manhã, o contramestre Tom Turner conversava com o mestre

cozinheiro, François Tapage, e a uma pergunta d’este, respondera:

—Sim, estaremos cêrca de quarenta e oito horas por cima do mar Caspio.

—Bem! respondeu o mestre cozinheiro. Isso permittir-nos-ha decerto pescar.

—Perfeitamente!

Se se gastariam quarenta e oito horas em percorrer as cento e vinte e

cinco milhas que aquelle mar mede de comprimento, sobre duzentas de

largo, é porque a velocidade do _Albatrós_ seria muito moderada, e mesmo

nulla durante as operações de pesca.

Ora aquella resposta de Tom Turner foi ouvida por Phil Evans, que estava

então na frente.

N’aquelle momento, Fricollin teimava em o maçar com as suas incessantes

queixas, pedindo-lhe para intervir junto a seu amo, afim de elle ser

pousado em terra.

Sem responder áquelle pedido absurdo, Phil Evans voltou atraz para ir ter

com Uncle Prudent. Ahi, com todas as precauções para não serem ouvidos,

contou as phrases trocadas entre Tom Turner e o mestre cozinheiro.

—Phil Evans, respondeu Uncle Prudent, quero crer que nos não resta

illusão alguma com respeito ás intenções d’esse miseravel a nosso

respeito?

—Nenhuma! respondeu Phil Evans. Não nos dará a liberdade senão quando lhe

convier, se é que nol-a dará!

—N’esse caso devemos tentar tudo para deixarmos o _Albatrós_.

—Famoso apparelho, devemos confessar!

—É possivel! exclamou Uncle Prudent, mas apparelho de um patife que nos

retem, desprezando todo o direito. Ora este apparelho representa para nós

e para os nossos um perigo permanente. Se conseguissemos destruil-o ...

—Tratemos primeiro de nos salvar; depois veremos.

—Pois sim! respondeu Uncle Prudent, e aproveitemos as occasiões que se

vão proporcionar ... Evidentemente o _Albatrós_ vae atravessar o mar

Caspio, e lançar-se depois sobre a Europa, quer ao norte, por sobre a

Russia, quer ao oéste, por sobre as regiões meridionaes. Pois bem! em

qualquer ponto que ponhamos o pé, estará segura a nossa salvação até o

Atlantico. É conveniente portanto estarmos promptos para tudo.

—Mas, perguntou Phil Evans, fugir de que maneira?

—Ora ouça, disse Uncle Prudent. Succede ás vezes, durante a noite, que

o _Albatrós_ paira a uns centos de pés acima do solo. Ha a bordo alguns

cabos com esse comprimento, e com um pouco de ousadia, talvez se pudesse

deslisar por um d’elles abaixo ...

—Sim, respondeu Phil Evans, e n’esse caso não hesitarei.

—Nem eu, disse Uncle Prudent. Mas note que, excepto o homem do leme

que fica atraz, ninguém está de noite acordado. Ora, precisamente um

d’aquelles cabos está na frente, e, sem se ser visto, sem se ser ouvido,

não era difficil desenrolal-o.

—Bem, disse Phil Evans. Vejo com prazer, Uncle Prudent, que está mais

sereno. É melhor assim. Mas eis-nos sobre o mar Caspio. Numerosos navios

estão á vista. O _Albatrós_ vae descer e parar durante a pesca ... Não

poderiamos aproveitar d’isso?

—Oh! somos vigiados, mesmo quando mal imaginâmos, respondeu Uncle

Prudent. Bem o viu, quando nos quizemos lançar ao Hydaspe.

—E quem nos diz que não somos tambem vigiados de noite? observou Phil

Evans.

—Mas é necessario acabarmos com isto! exclamou Uncle Prudent, sim! acabar

com este _Albatrós_ e com o seu dono!

Como se vê, sob o imperio da colera, os dois collegas,—Uncle Prudent

principalmente—podiam ser levados a praticar os actos mais temerarios e

talvez os mais contrarios á sua propria segurança.

O sentimento da sua impotencia, o desdem ironico com que Robur os

tratava, as respostas brutaes que elle lhes dava, tudo contribuia para

tornar tensa uma situação cujo aggravamento era cada dia mais manifesto.

N’esse mesmo dia uma nova scena esteve para produzir uma altercação das

mais lamentaveis entre Robur e os dois collegas. Mal imaginava Fricollin

que seria elle quem a provocasse.

Vendo-se sobre este mar sem limites, o poltrão teve uma grande surpresa.

Como uma creança, como um negro que era, poz-se a gemer, a gritar, a

agitar-se em mil contorsões e caretas.

—Quero-me ir embora!... quero-me ir embora! gritava elle. Não sou

passaro!... Não fui feito para voar!... Ponham-me em terra!...

depressa!...

É claro que Uncle Prudent não se importava nada com socegal-o,—pelo

contrario. De modo que aquelles berros acabaram por impacientar Robur,

fortemente.

Ora como Tom Turner e os seus companheiros iam proceder ás manobras

da pesca, o engenheiro, para se vêr livre de Fricollin, ordenou que o

fechassem no seu compartimento. Mas o negro continuou a debater-se, a

patear, a berrar cada vez mais.

Era meio dia. O _Albatrós_ estava então a uns cinco ou seis metros apenas

do nivel do mar. Algumas embarcações, espantadas com a sua presença,

tinham desatado a fugir. Não tardaria em ficar deserta aquella porção do

mar Caspio.

Como se pode imaginar, n’estas condições em que elles não tinham mais do

que atirar-se á agua para fugir, os dois collegas deviam ser, e eram de

facto, objecto de uma vigilancia especial. Admittindo mesmo que elles se

atirassem pela borda fora, facil seria apanhal-os com o barco de cautchuc

do _Albatrós_. Portanto nada se podia fazer durante a pesca, a que Phil

Evans julgou dever assistir, emquanto que Uncle Prudent, em perpetuo

estado de raiva, se retirava para o seu beliche.

Como se sabe, o mar Caspio é uma depressão vulcanica do solo. N’aquella

bacia caem as aguas d’esses grandes rios, o Volga, o Ural, o Kur, o

Kuma, o Yemba e outros. Sem a evaporação que lhe absorve a agua a mais,

aquella cavidade, de uma superficie de dezesete mil leguas quadradas, de

uma profundidade média comprehendida entre sessenta e quatrocentos pés,

teria inundado as costas do norte e léste, baixas e pantanosas. Apesar

de não estar em communicação nem com o mar Negro, nem com o mar de Aral,

cujos niveis são muito superiores ao seu, não deixa por isso de crear uma

grande quantidade de peixe,—d’esses, claro está, que se não dão mal com

as aguas, de um amargo pronunciado, devido á naphta que alli trazem as

correntes desde o extremo meridional.

Ora, com a idéa da variedade que ia trazer ao seu passadio, o pessoal do

_Albatrós_ não dissimulava o prazer que isso lhe ia dar.

—Attenção! exclamou Tom Turner, que acabava de fisgar um peixe de um

bello tamanho, quasi do feitio do tubarão.

Era um magnifico solho, de sete pés de comprido, da especie chamada

Belonga, entre os russos, e cujos ovos, misturados com sal, vinagre e

vinho branco, constituem o caviar. Talvez que os solhos, ou esturjões,

pescados no rio, sejam melhores que os pescados no alto mar; mas estes

foram bem recebidos a bordo do _Albatrós_.

Comtudo, o que tornou aquella pesca mais fructifera ainda, foi a rêde

de arrastar que apanhou, a esmo, carpas, douradas, salmões, lucios

marinhos, e sobretudo uma quantidade de outros peixes, os _sterlets_, de

tamanho médio, que os ricos apreciadores mandam vir vivos de Astrakan, a

Moscow e S. Petersburgo. Estes iam passar do seu elemento natural para as

caldeiras de bordo, sem despesa de transporte.

A gente de Robur puxava alegre as redes que o _Albatrós_ arrastára

durante algumas milhas. O gascão François Tapage gritava de prazer,

justificando bem o seu nome. Uma hora de pesca bastou para encher os

viveiros da aeronave, que se dirigiu para o norte.

Durante esta paragem, Fricollin não tinha deixado de berrar, de bater nas

paredes do quarto, de fazer finalmente uma algazarra dos diabos.

—Aquelle maldito negro não se calará! disse Robur, já com a paciencia

exgottada.

—Quer-me parecer, meu caro senhor, que elle está no seu direito de se

queixar! respondeu Phil Evans.

—Sim, como eu no direito de poupar este supplicio aos meus ouvidos!

replicou Robur.

—Engenheiro Robur!... bradou Uncle Prudent, que acabava de apparecer na

plataforma.

—Presidente do Weldon-Institute?

Avançaram um para o outro. Encaravam-se fixamente.

Depois, Robur, encolhendo os hombros:

—No extremo de uma corda! disse elle.

Tom Turner tinha comprehendido. Fricollin foi tirado do beliche.

Que gritos elle não deu quando o contramestre e um dos seus companheiros

o seguraram e o ataram a uma especie de celha, a que prenderam a

extremidade de um cabo!

Era precisamente um d’esses cabos de que Uncle Prudent queria fazer o uso

que sabemos.

O negro julgára a principio que ia ser enforcado ... Mas não! devia ser

apenas suspenso.

Com effeito foi desenrolado o cabo para fora, no comprimento de cem pés,

e Fricollin achou-se a balançar no espaço.

Podia agora gritar á vontade. Mas o pavor estrangulava-o, e ficou sem

fala.

Uncle Prudent e Phil Evans tinham querido oppôr-se áquella execução:

fôram porém repellidos.

—É uma infamia!... É uma cobardia! exclamou Uncle Prudent, que estava

fora de si.

—Serio! respondeu Robur.

—É um abuso da fôrça contra o qual eu hei de protestar de outro modo que

não sejam só palavras.

—Pois proteste.

—Hei de me vingar, engenheiro Robur!

—Pois vingue-se, presidente do Weldon-Institute!

—Hei de me vingar de si e dos seus!

O pessoal do _Albatrós_ approximára-se em disposições pouco benevolas.

Robur fez um signal para se afastarem.

—Sim! de si e dos seus!... continuou Uncle Prudent, que o seu collega em

vão tentava socegar.

—Quando queira! respondeu o engenheiro.

—E por todos os meios possiveis!

—Basta! disse então Robur n’um tom ameaçador, basta! Ha mais cabos a

bordo! Cale-se, ou, quando não, faz-se ao amo o que se fez ao creado!

Uncle Prudent calou-se, não de medo, mas porque lhe deu uma tal

suffocação, que Phil Evans teve de o levar para o beliche.

Havia uma hora que o tempo se modificára singularmente. Havia symptomas

que não enganavam. Estava eminente uma tempestade. A saturação electrica

da atmosphera fôra levada a tal ponto que pelas duas e meia Robur

presenceára um phenomeno que elle jamais observára.

Nas bandas do norte, d’onde provinha a tempestade, subiam volutas de

vapor quasi luminosas, o que decerto era devido á variação da carga

electrica das camadas de nuvens.

O reflexo d’aquellas fachadas fazia correr, á superficie do mar, myriades

de luzes, cuja intensidade se tornava tanto mais viva quanto o céo

começava a escurecer.

O _Albatrós_ e o meteoro não tardariam em encontrar-se, visto caminharem

um para o outro.

E Fricollin? Fricollin continuava sempre a reboque, e reboque é o termo

proprio, porque o cabo fazia um angulo muito aberto com o apparelho

lançado a uma velocidade de cem kilometros, o que deixava a celha um

tanto atraz.

Calcule-se o seu espanto quando os relampagos começavam a sulcar o espaço

em volta d’elle, emquanto o trovão rolava nas profundezas do céo.

Todo o pessoal de bordo occupava-se em manobrar, de prevenção contra

a tempestade, quer para se elevar mais alto que ella, quer para se

distanciar, lançando-se através das camadas inferiores.

O _Albatrós_ achava-se então na sua altura média,—mil metros

proximamente,—quando rebentou uma trovoada de uma violencia extrema.

O tufão subiu rapidamente. Em alguns segundos, as nuvens em fogo

precipitaram-se sobre a aeronave.

Phil Evans veiu então interceder a favor de Fricollin e pedir que

o trouxessem para bordo. Mas Robur não tinha esperado pelo pedido.

Tinha dado as suas ordens, e já se tratava de içar a corda, quando de

repente se produziu um afrouxamento inexplicavel na rotação dos helices

suspensivos.

Robur deu então um pulo para os compartimentos centraes.

—Fôrça! fôrça!... gritou elle ao machinista. É preciso subir rapidamente

e mais alto que a tempestade.

—Impossivel, mestre!

—O que ha?

—As correntes estão desarranjadas!... Dão se intermittencias!...

E de facto o _Albatrós_ baixava sensivelmente.

Como acontece com as correntes dos fios electricos durante a tempestade,

o funccionamento electrico não actuava senão de um modo incompleto nos

accumuladores da aeronave. Mas, o que não passa de um inconveniente,

quando se trata de despachos telegraphicos, aqui era nada menos que o

apparelho precipitado no mar, sem se poder ser senhor d’elle.

—Deixa-o descer, gritou Robur, e saiâmos da zona electrica! Vamos,

rapazes! tenham sangue frio!

O engenheiro tinha-se posto em pé sobre o banco de quarto. Os homens, no

seu posto, estavam prestes a executar as ordens do mestre.

O _Albatrós_, apesar de ter baixado alguns centos de metros, estava

ainda immerso na nuvem, no meio de relampagos que se cruzavam como peças

de fogo de artificio. Era caso de imaginarem que ia ser fulminado. Os

helices afrouxaram-se ainda mais, e o que até então não fôra mais do que

uma descida um pouco mais rapida, ameaçava agora tornar-se n’uma quéda.

Finalmente, em menos de um minuto estaria no nivel do mar. E dado o

mergulho, nada havia que o pudesse arrancar áquelle abysmo.

De subito appareceu por cima d’elle uma nuvem electrica. O _Albatrós_

estava apenas a sessenta pés da crista das ondas. Em dois ou tres

segundos, estas teriam inundado a plataforma.

Mas Robur, aproveitando o instante propicio, metteu-se no compartimento

central, segurou nas alavancas de impulsão, soltou a corrente das pilhas

que já não neutralisava a tensão electrica da atmosphera ambiente ...

N’um momento restituiu aos helices a sua velocidade normal, susteve a

quéda, e manteve o _Albatrós_ a pequena altura, ao mesmo tempo que os

seus propulsores o arrastavam para longe da tempestade, que não tardou em

ser transposta.

Inutil é dizer que Fricollin tomára um banho forçado, durante alguns

segundos apenas. Quando foi trazido para bordo, estava molhado como se

estivesse mergulhado até o fundo do mar. Como se pode imaginar, não

gritou mais.

No dia seguinte, 4 de julho, o _Albatrós_ tinha transposto o limite

septentrional do mar Caspio.

CAPITULO XI

ONDE A COLERA DE PRUDENT CRESCE NA RAZÃO DO QUADRADO DA VELOCIDADE

Se alguma vez Uncle Prudent e Phil Evans renunciaram a toda a esperança

de escapar, foi durante as cincoenta horas que se seguiram. Teria Robur

receado que a guarda dos seus prisioneiros fôsse menos facil durante essa

travessia da Europa? É possivel. Sabia, além d’isso, que elles estavam

resolvidos a tudo para fugir.

Seja como fôr, toda a tentativa teria sido então um suicidio. Saltar de

um expresso, que vae com a velocidade de cem kilometros por hora, não é

talvez mais do que arriscar a vida; mas saltar de um rapido, que vae na

razão de duzentos kilometros, seria desejar a morte.

[Illustration: Viram então um dos naufragos]

Ora, é precisamente essa velocidade, a maxima de que podia dispôr,—que

fôra imprimida ao _Albatrós_. Excedia o vôo da andorinha, isto é, cento

e oitenta kilometros por hora. Tinha-se notado que, desde algum tempo,

os ventos do nordéste dominavam com uma persistencia muito favoravel

á direcção do _Albatrós_, porque seguia no mesmo sentido, isto é, de

um modo geral para o oéste. Mas esses ventos começavam a acalmar, e

tornou-se em breve impossivel manterem-se na plataforma, sem terem a

respiração cortada pela rapidez do deslocamento. Os dois collegas,

n’um certo momento, teriam mesmo sido lançados pela borda fora, se não

tivessem sido apertados contra as paredes dos seus compartimentos pela

pressão do ar.

Felizmente, através as portinholas do seu cubiculo, o homem do leme deu

por elles, e uma campainha electrica preveniu os homens, que estavam nos

compartimentos da frente.

Quatro d’elles vieram ter cá atraz, de rastos sobre a plataforma.

Que os que se teem achado no mar, a bordo de um navio, direito ao vento,

durante uma tempestade, evoquem as suas recordações, e comprehenderão

qual era a violencia de uma tal pressão. Unicamente, aqui, era o

_Albatrós_ que a creava pela sua incomparavel velocidade.

Em summa foi preciso moderar o andamento,—o que permittiu a Uncle Prudent

e a Phil Evans voltar ao seu beliche. No interior dos seus aposentos,

como bem dissera o engenheiro, o _Albatrós_ tinha uma atmosphera

perfeitamente respiravel.

Mas que solidez tinha aquelle apparelho, para poder resistir a tal

deslocamento? Era prodigioso. Quanto aos propulsores da frente e de traz,

nem já se viam girar. Era com um infinito poder de penetração que elle

entrava na camada de ar.

A ultima cidade notada de bordo, era Astrakan, situada quasi no extremo

norte do mar Caspio.

A estrella do Deserto (foi decerto algum poeta russo que assim a

denominou), tinha então descido da quinta á sexta grandeza. Aquella

simples séde de governo mostrára por instantes as suas velhas muralhas

coroadas de inuteis ameias, as suas torres antigas no centro da

cidade, as suas mesquitas contiguas ás egrejas de estylo moderno, a

sua cathedral cujas cupulas, douradas e semeadas de estrellas azues,

pareciam recortadas n’um pedaço do firmamento; tudo quasi ao nivel d’essa

embocadura do Volga que mede dois kilometros. Depois a partir d’esse

ponto, o vôo do _Albatrós_ não foi mais do que uma especie de desfilada

através das alturas do céo, como se fôsse tirado por esses fabulosos

hippogrifos, que transpõem uma legua em cada movimento de aza.

Eram duas horas da manhã, do dia 4 de julho, quando a aeronave tomou rumo

na direcção noroéste, seguindo quasi o valle do Volga.

As _steppes_ do Don e do Oural seguiam dos dois lados do rio. Se fôsse

possivel lançar a vista sobre aquelles vastos territorios, mal haveria

tempo para contar as cidades e aldeias. Afinal, quando veiu a noite, a

aeronave ia além de Moscow. Em dez horas, tinha transposto os dois mil

kilometros que separam Astrakan da antiga capital de todas as Russias.

De Moscow a S. Petersburgo, a linha de caminho de ferro não conta mais

de mil e duzentos kilometros. Era portanto questão de meio dia. De modo

que o _Albatrós_, pontual como um expresso, alcançou S. Petersburgo e as

margens do Neva pelas duas da manhã.

A claridade da noite, debaixo d’esta latitude onde abunda tão pouco o sol

de junho, permitte abraçar um instante o conjunto d’aquella vasta capital.

Depois foi o golpho de Finlandia, o archipelago de Abo, o Baltico, a

Suecia, na latitude de Stockolmo, a Noruega na latitude de Christiania.

Dez horas apenas para aquelles dois mil kilometros. Como se pode

imaginar, nenhum poder conseguiria então travar a velocidade do

_Albatrós_, como se a resultante da sua fôrça de projecção e de attracção

terrestre o tivesse mantido n’uma trajectoria immutavel em volta do globo.

E comtudo parou, e precisamente por cima da famosa cascata de Rjukanfos,

na Noruega. O Gusta, cujo cume domina aquella admiravel região do

Telemarck, foi como que um limite gigantesco que elle não devia

ultrapassar no oéste.

De modo que a partir d’aquelle ponto, o _Albatrós_ voltou francamente

para o sul, sem moderar a sua velocidade.

E durante aquelle vôo inverosimil o que fazia Fricollin? Permanecia mudo

no fundo do beliche, dormindo o melhor que podia, excepto nas horas da

refeição.

Francisco Tapage fazia-lhe então companhia e gosava com os seus terrores.

—Então! meu rapaz, disse elle, já não gritas?... Não te prendas!... É

questão de duas horas de suspensão!... Hein! com a velocidade que levamos

agora, que excellente banho de ar para o rheumatismo!

—Parece-me que tudo se desmancha! repetia Fricollin.

—Talvez, meu valente Fry! talvez! Mas vamos tão rapidamente que nem

poderiamos cahir! É o que vale!

—Acha isso?

—Á fé de gascão!

Para dizer a verdade e sem exaggerar como Francisco Tapage, o certo era

que, graças áquella rapidez, o trabalho dos helices suspensivos tinha

minorado um pouco. O _Albatrós_ deslisava na camada de ar á maneira de um

foguete.

—E isto durará muito tempo assim? perguntou Fricollin.

—Muito tempo?... Oh! não! respondeu o mestre cozinheiro. Apenas toda a

vida!

Robur, o Conquistador · 第 7 / 14 段