Durante esse dia, 16 de junho, a aeronave não passou de uma velocidade

moderada. Parecia roçar na superficie tão calma d’esse mar, todo

impregnado de sol, que ella dominava da altura de uns cem pés apenas.

Pela sua vez, Uncle Prudent, e o seu companheiro haviam ficado nos seus

compartimentos, para se não encontrarem com Robur, que passeava, fumando,

ora só, ora com o contramestre Tom Turner. Só estava metade dos helices

a funccionar, e isso bastou para manter o apparelho nas zonas baixas da

atmosphera.

N’essas condicções a gente do _Albatrós_ poderia ter, conjuntamente com

o prazer da pesca, a satisfação de variar o seu passadio, se as aguas

do Pacifico tivessem peixe. Mas á superficie appareciam apenas algumas

baleias, d’essa especie de ventre amarello que chegam a medir até vinte

e cinco metros de comprimento. São os mais temiveis cetaceos dos mares

boreaes. Os pescadores de profissão fogem de os atacar, tanto a sua fôrça

é prodigiosa.

Comtudo, arpoando-se uma d’essas baleias, ou fôsse com um arpão vulgar,

ou com o foguete Tlechter, ou com o dardo-bomba, de que havia a bordo

grande provisão, a pesca poderia realisar-se sem perigo.

Mas para que servia essa massacragem inutil?

Comtudo, talvez para mostrar aos dois membros do Weldon-Institute o que

elle podia conseguir da sua aeronave, Robur quiz dar caça a um d’esses

monstruosos cetaceos.

Ao grito de “baleia! baleia!„ Uncle Prudent e Phil Evans sahiram do

seu beliche. Talvez estivesse á vista algum navio baleeiro ... N’esse

caso, afim de escapar á sua prisão volante, seriam os dois capazes de se

atirar ao mar, contando com a probabilidade de serem recolhidos por uma

embarcação.

Já todo o pessoal da aeronave estava postado na plataforma, á espera.

—Vamos então experimentar, master Robur? perguntou o contramestre Turner.

—Sim, Tom! respondeu o engenheiro.

Nos compartimentos da machina, o machinista e os seus dois ajudantes

estavam a postos, promptos a executar as manobras que seriam ordenadas

por meio de gestos. O _Albatrós_ não tardou em se abaixar até o mar, e

parou uns cincoenta pés acima d’elle.

Não estava ao largo nenhum navio,—o que foi verificado pelos dois

collegas, nem á vista nenhuma terra que elles pudessem alcançar a nado,

admittindo mesmo que Robur nada fizesse para os colher de novo.

Muitos jactos de vapor e de agua, lançados pelos ventiladores,

annunciaram a presença das baleias que vinham respirar á superficie do

mar.

Tom Turner, auxiliado por um dos seus camaradas, collocára-se na

frente. Ao alcance d’elle estava um d’esses dardos-bombas, de fabrico

californiano, que se lança por meio de um arcabuz. É uma especie de

cylindro de metal que termina em bomba cylindrica, armada de uma haste de

ponta farpada.

Do banco da frente, ao qual acabava de subir, Robur indicava com a mão

direita aos machinistas, e com a esquerda ao homem do leme, as manobras a

fazer. Era assim senhor da aeronave, em todas as direcções, horisontal e

vertical. Não se pode calcular a rapidez e a precisão com que o apparelho

obedecia a todas as ordens. Parecia um ser organico, de que Robur era a

alma.

—Baleia!... Baleia!... exclamou de novo Tom Turner.

Com effeito, umas quatrocentas e oito braças deante do _Albatrós_ emergia

o dorso de um cetaceo.

O _Albatrós_ correu para elle, e quando chegou a uns sessenta pés de

distancia parou.

Tom Turner tinha apontado a espingarda que estivera encostada ao

parapeito. O tiro partiu, e o projectil, levando comsigo uma longa corda,

cuja extremidade se prendia á plataforma, entrou no corpo da baleia. A

bomba cheia de uma materia fulminante, explosiu então, e, explosindo,

lançou uma especie de pequeno arpão de duas voltas, que se incrustou nas

carnes do animal.

—Attenção! gritou Turner.

Uncle Prudent e Phil Evans, por pouco dispostos que estivessem,

achavam-se interessados no espectaculo.

A baleia, gravemente ferida, fustigára o mar com uma tão violenta

rabanada, que a agua repuxou até á altura da aeronave.

Depois o animal mergulhou a uma grande profundidade, ao passo que lhe

iam largando corda, préviamente enrolada dentro de uma celha com agua,

para que se não incendiasse com a fricção. Quando a baleia voltou á tona

d’agua, desatou a fugir a toda a pressa na direcção do norte.

Imagine-se a rapidez com que o _Albatrós_ foi rebocado! Além de que, os

propulsores tinham sido parados. Deixaram o animal andar, pondo-se em

alinhamento com elle. Tom Turner estava prestes a cortar a corda, para o

caso de um novo mergulho tornar muito perigoso esse reboque.

Durante meia hora, e talvez á distancia de seis milhas, o _Albatrós_ foi

assim arrastado; mas via-se que o cetaceo começava a enfraquecer.

Então, a um gesto de Robur, os ajudantes dos machinistas andaram com a

machina atraz, e os propulsores começaram a oppôr uma certa resistencia á

baleia, que, a pouco e pouco, se approximou de bordo.

A aeronave batia ainda nas aguas com uma violencia incrivel. Ás voltas

sobre si propria, a baleia produzia remoinhos enormes.

De repente poz-se, por assim dizer, de pé, e atirou-se á agua com uma tal

velocidade, que Tom Turner mal teve tempo de lhe alar a corda.

N’um puxão, a aeronave foi arrastada á superficie das aguas. Um turbilhão

se formara no sitio onde o animal desapparecêra. Uma vaga entrou para

dentro da aeronave, como acontece com um navio que caminha contra o

vento e contra a onda.

Felizmente, com um golpe de machado, Tom Turner cortou a corda, e o

_Albatrós_, livre do reboque, subiu duzentos metros, com o poder dos seus

helices ascensionaes.

Quanto a Robur, manobrára o apparelho sem que o seu sangue frio o

houvesse abandonado um momento.

Alguns minutos depois a baleia voltava á tona da agua,—porém morta d’esta

vez. Por todos os lados as aves do mar accorriam, soltando gritos capazes

de ensurdecer todo um Congresso.

O _Albatrós_, não sabendo o que fazer áquelle cadaver, retomou para léste

o seu andamento.

No dia seguinte, 17 de junho, ás seis horas da manhã, uma terra se

avistou no horisonte. Era a peninsula de Alaska, e a longa sementeira de

rochedos das Aleutes.

O _Albatrós_ saltou por cima d’essa barreira onde pullulam as focas, para

pelles, que os habitantes d’aquelle paiz pescam por conta da Companhia

Russo-Americana. Excellente cousa, a captura d’esses amphibios, do

comprimento de seis a sete pés, côr de ferrugem, e que pesam trezentos e

quinhentos arrateis. Eram filas interminaveis d’elles, em formatura de

batalha, e contavam-se aos milhares.

Se não se mexeram á passagem do _Albatrós_, não aconteceu o mesmo com os

mergulhões, e outros animaes, cujos gritos roucos encheram o espaço, e

que desappareceram nas aguas como se fôssem ameaçados por algum grande

animal aereo.

Os dois mil kilometros do mar de Behring, desde as primeiras Aleutes

até a ponta extrema do Kamtchalka, foram transpostos durante as vinte

e quatro horas d’esse dia e da noite immediata. Para pôr em execução

o seu plano de fuga, Uncle Prudent e Phil Evans não se encontravam em

condições favoraveis. Não era nem sobre as margens desertas da extrema

Asia, nem nas paragens do mar de Okhotsk que se podia realisar essa fuga,

com alguma probabilidade de exito. Visivelmente o _Albatrós_ dirigia-se

para as terras do Japão e da China. Alli, apesar de não ser talvez

prudente pôrem-se á discreção dos Chinezes e Japonezes, os dois collegas

estavam resolvidos a fugir, se a aeronave fizesse alto em qualquer ponto

d’aquelles territorios.

Mas faria alto, com effeito? Não se tratava precisamente de uma ave que

se fatiga de um longo vôo, ou de um balão que, á falta de gaz, é obrigado

a descer. Havia provisões para muitas mais semanas ainda, e os seus

orgãos, de uma solidez maravilhosa, desafiavam toda a fraqueza e todo o

cançaço.

Um pulo por sobre a peninsula do Kamtchalka, de que apenas se viu o

estabelecimento de Petropaulovsk e o vulcão de Klutschen durante o dia 18

de julho, depois um novo salto por sobre o mar de Okhotsk, pouco mais ou

menos á altura das ilhas Kurilas, que lhe põem uma barreira, cortada por

centos de pequenos canaes, e no dia 19, pela manhã, tinha o _Albatrós_

alcançado o estreito de la Peruse, apertado entre a ponta septentrional

do Japão e a ilha Saghaliana, n’aquella pequena Mancha, onde desagua esse

grande rio siberico, o Amor.

Levantou-se então um nevoeiro densissimo, que a aeronave teve de

deixar por baixo de si. Não que tivesse necessidade de se desembaraçar

d’aquelles vapores para se dirigir; na altitude em que ia, nenhum

obstaculo havia a recear, nem monumentos com que pudesse esbarrar na

passagem, nem montanhas contra as quaes corresse o risco de se espedaçar

no seu vôo. O paiz era bem pouco accidentado, mas aquelles vapores não

deixavam de ser desagradabilissimos, e tudo ficaria molhado a bordo.

Nada mais tinha portanto do que collocar-se acima d’aquelles vapores cuja

espessura medía tresentos ou quatrocentos metros. De modo que os helices

foram rapidamente activados, e, para além do nevoeiro, o _Albatrós_

encontrou regiões cheias de sol.

N’estas condições, Uncle Prudent e Phil Evans teriam tido certa

difficuldade em dar execução aos seus projectos de fuga, admittindo que

elles tivessem podido deixar a aeronave.

N’esse dia, no momento em que passava junto d’elles, Robur parou um

instante e sem que parecesse dar a menor importancia ao que dizia:

—Meus senhores, disse elle, um navio á véla, ou um vapor, perdido nas

brumas d’onde não pode sahir, está sempre embaraçado. Não navega senão

com o auxilio de assobio ou da tuba. Tem de diminuir o andamento;

e, apesar de tantas precauções, é para recear a cada instante um

abalroamento. O _Albatrós_ não tem nenhum d’estes cuidados. Que lhe

podiam fazer os nevoeiros se tinha meio de se desembaraçar d’elles? O

espaço é seu, todo o espaço!

Dito isto, Robur continuou tranquillamente o seu passeio, sem esperar uma

resposta que não pedia; e as baforadas do seu cachimbo perderam-se no

espaço.

—Uncle Prudent, disse Phil Evans, parece que este espantoso _Albatrós_

não tem medo de cousa alguma!

—Veremos isso! respondeu o presidente do Weldon-Institute.

O nevoeiro durou tres dias, 19, 20 e 21 de junho, com uma persistencia

lamentavel. Fôra necessario subirem mais para evitar as montanhas

japonezas de Fousi-Zama. Mas tendo-se rasgado o véo da névoa, notou-se

uma immensa cidade com palacios, _villas_, chalets, jardins e parques.

Mesmo sem a vêr a teria Robur reconhecido pelo ladrar das suas myriades

de cães, pelos gritos das suas aves de rapina, e sobretudo pelo cheiro de

cadaver que os corpos dos seus suppliciados lançam no espaço.

Os dois collegas estavam na plataforma, no momento em que o engenheiro

tomára este ponto de referencia para o caso de ter de continuar o seu

caminho através do nevoeiro.

—Meus senhores, disse elle, não tenho razão alguma para lhes occultar que

esta cidade é Yedo, a capital do Japão.

Uncle Prudent não respondeu. Em presença do engenheiro, sentia-se

suffocado, como se o ar lhe faltasse nos pulmões.

—Esta vista de Yedo, continuou Robur, é na realidade curiosissima.

—Por mais curiosa que seja ... respondeu Phil Evans.

—Não chega a Pekin?... concluiu o engenheiro. Tambem sou d’essa opinião,

e podem avalial-o dentro em pouco.

Era impossivel ser mais amavel.

O _Albatrós_, que se dirigia para o sudoéste, mudou então de direcção

tres quartos, a fim de buscar ao léste um novo caminho.

Durante a noite dissipou-se o nevoeiro. Havia symptomas de um grande

tufão pouco distante: baixa rapida de barometro, desapparição de vapores,

grandes nuvens, de forma ellipsoidal, pegadas ao céo cobreado; no

horisonte opposto, longas listas de carmim, nitidamente traçadas sobre um

fundo de ardosia, e uma larga aberta, muito clara, ao norte; depois o mar

unido e calmo, mas cujas aguas, ao pôr do sol, tomavam uma côr vermelha

escura.

Felizmente, aquelle tufão desencadeiou-se ao sul, e não teve outros

resultados senão dissipar as névoas amontoadas havia tres dias.

Em uma hora, tinham transposto os duzentos kilometros do estreito da

Coréa, e em seguida a ponta extrema d’aquella peninsula. Emquanto o tufão

ia bater as costas suéste da China, o _Albatrós_ abalançava-se sobre o

Mar Amarello, e, durante os dias 22 e 23, sobre o golpho de Pelchéli;

no dia 24 seguia o valle de Pei-Ho e pairava afinal sobre a capital do

Celeste Imperio.

Curvados para fora da plataforma, os dois collegas puderam ver muito

distinctamente, como o engenheiro havia annunciado, aquella immensa

cidade, a muralha que a separa em duas partes—cidade mandchúa e cidade

chineza—; os doze bairros que a cercam, os amplos boulevards que irradiam

para o centro; os templos, cujos tectos amarellos e verdes se banham no

sol nascente; os parques, que rodeiam os palacios dos mandarins; depois,

no meio da cidade mandchúa, os seiscentos setenta e oito hectares[1] da

cidade Amarella, como um quadrado de _casse-tête_ chinez, emmoldurado

dentro de outro; a cidade Vermelha, isto é, o Palacio Imperial com todas

as phantasias da sua architectura inverosimil.

N’aquelle momento, por baixo do _Albatrós_, o ar estava cheio de uma

harmonia singular. Dir-se-hia um concerto de harpas eolias. No ar

pairavam um cento de papagaios de papel, de diversas formas, feitos

de folhas de palmeira ou de pandano, munidos na parte superior de uma

especie de arco de madeira, distendido por meio de uma lamina de bambú.

Ao sôpro do vento, todas estas laminas, de notas variadas, como as de um

harmonium, soltavam um murmurio do mais melancholico effeito. Parecia

que, n’aquelle meio, se respirava oxygenio musical.

Robur teve então a phantasia de se approximar d’aquella orchestra aérea,

e o _Albatrós_ veiu lentamente banhar-se nas ondas sonoras que os

papagaios emittiam através da atmosphera.

Mas immediatamente se produziu um effeito extraordinario no meio

d’aquella enorme população. Sons do tamtam e outros instrumentos

formidaveis das orchestras chinezas, tiros de espingarda aos mil, tiros

de morteiros aos centos, tudo foi posto em acção para afastar a aéronave.

Os astronomos chinezes reconheceram n’esse dia que aquella machina aérea

era a causa de tantas questões que se haviam levantado; mas os milhões de

habitantes do Celeste Imperio, desde o humilde tankadére até os mandarins

mais cheios de botões, tomaram-n’o por um monstro apocalyptico que

acabava de apparecer no céo de Budha.

No inaccessivel _Albatrós_ não se preoccuparam com taes demonstrações.

Mas as guitas que seguravam os papagaios ás estacas dos jardins imperiaes

foram, ou cortadas ou içadas a toda a pressa. D’estes leves apparelhos,

uns vieram rapidamente a terra, accentuando os seus accordes, outros

cahiram como aves que o chumbo ferisse nas azas e cujo canto expira com

o ultimo alento. Um som violento, sahido da trombeta de Tom Turner, se

espalhou sobre a capital, e cobriu as ultimas notas do concerto aéreo.

Isso não interrompeu a fusilaria terrestre. Comtudo uma bomba viera

rebentar apenas a alguns pés da plataforma, e o _Albatrós_ subiu de novo

para as zonas inaccessiveis do céo.

O que se passou durante alguns dias que se seguiram? Nenhum incidente de

que os prisioneiros pudessem aproveitar. Que direcção tomou a aéronave?

Invariavelmente a do sudoéste, o que denotava o projecto de se approximar

do Industão.

Era visivel, além d’isso, que o solo, alteando-se cada vez mais, obrigava

o _Albatrós_ a regular-se segundo o seu perfil. Umas dez horas depois de

haverem deixado Pekin, Uncle Prudent e Phil Evans tinham podido entrevêr

a parte da grande muralha no limite do Chen-Si. Depois, evitando os

montes Loungs, passaram por sobre o valle de Wang-Ho e transpuzeram a

fronteira do Imperio Chinez, no limite do Tibet.

O Tibet, elevados planaltos sem vegetação, barrancos dissecados,

torrentes alimentadas pelos geleiros, baixios com brilhantes camadas de

sal, lagos emmoldurados em florestas virentes. Acima de tudo, um vento

muitas vezes glacial.

O barometro, baixado a 450 millimetros, indicava então uma altitude

de mais de quatro mil metros acima do nivel do mar. A esta altura, a

temperatura, apesar de se estar nos mezes mais quentes do hemispherio

boreal, não passava de zero. Aquelle resfriamento, combinado com a

velocidade do _Albatrós_, tornava a situação pouco supportavel. De modo

que, apesar dos dois collegas dispôrem de quentes mantas de viagem,

preferiram entrar para os seus compartimentos.

Escusado será dizer que fôra preciso dar aos helices suspensivos uma

velocidade extrema, afim de manter a aéronave n’um ar já rarefeito. Mas

elles funccionavam com um conjunto perfeito, e parecia que se estava

embalado pelo fremito das suas azas.

N’esse dia, Garlok, a cidade do Tibet occidental, capital da provincia

de Guari-Khorsum, poude ver passar o _Albatrós_ do tamanho de um pombo

viajante.

No dia 27 de junho, Uncle Prudent e Phil Evans notaram uma enorme

barreira, dominada por alguns altos picos, perdidos na neve, e que lhes

interceptava o horisonte.

Os dois, encostados ao compartimento da frente, afim de resistir á

velocidade do deslocamento, olhavam para aquellas massas colossaes.

Pareciam correr na frente da aéronave.

—É o Himalaya, com certeza, disse Phil Evans, e é provavel que vá

contornar-lhe a base, sem tentar passar pela India.

—Peor para nós! respondeu Uncle Prudent. N’esse immenso territorio,

talvez tivessemos podido ...

—A não ser que elle torneie a cordilheira a léste, ou pelo Nepól a oéste.

—Desafio-o a que o faça!

—Serio! disse uma voz.

No dia seguinte, 28 de junho, o _Albatrós_ estava em frente do gigantesco

macisso, por cima da provincia de Zzang. Do outro lado do Himalaya estava

a região de Nepól.

Com effeito, tres cordilheiras impedem successivamente o caminho da

India, a quem vem do norte. As duas cordilheiras septentrionaes, entre as

quaes se insinuára o _Albatrós_, como um navio entre enormes escolhos,

são os primeiros degraus d’aquella barreira da Asia central. Foi

primeiramente o Karakorum, que forma o valle longitudional e parallelo ao

Himalaya, quasi na linha que separa as bacias do Indo, a oéste, das do

Brahmaputra, a léste.

Que soberbo systema orographico! Mais de duzentos cumes já medidos, dos

quaes dezesete passam de vinte e cinco mil pés! Deante do _Albatrós_,

a oito mil oitocentos e quarenta metros, eleva-se o monte Everest.

Á direita, o Dwalaghiri, da altura de oito mil e duzentos metros. Á

esquerda, o Kinchanjunga, da altura de oito mil quinhentos e noventa

e dois metros, posto no segundo plano, depois das ultimas medidas do

Everest.

Evidentemente, Robur não tinha a pretenção de chegar até o pincaro das

montanhas; mas conhecia as diversas passagens do Himalaya, entre outras a

passagem de Ibi-Gamin, que os irmãos Schlagintweit, em 1856, transpuzeram

a uma altura de seis mil e oitocentos metros, e n’ella se metteu

resolutamente.

Houve algumas horas palpitantes, dolorosas mesmo. Comtudo, se a

rarefacção do ar não se tornou tal que fôsse preciso recorrer a

apparelhos especiaes para renovar o oxygenio nos beliches, o frio comtudo

foi excessivo.

Robur, postado na frente, com o seu masculo rosto debaixo do capuz,

commandava as manobras. Tom Turner tinha na mão a canna do leme. O

machinista vigiava attentamente as pilhas, cujas substancias nada tinham,

felizmente, a receiar da congelação. Os helices, levados ao maximo da

corrente, soltavam sons cada vez mais agudos, cuja intensidade foi

extrema, apesar da minima intensidade do ar. O barometro cahiu a 290

milimetros, o que indicava sete mil metros de altitude.

Magnifica disposição a d’esse cahos de montanhas! Por toda a parte cumes

brancos. Nenhum lago, mas geleiros que descem até dez mil pés da base.

Nenhuma herva, apenas raras phanerogamias no limite da vida vegetal.

Nenhum d’esses admiraveis pinheiros e cedros que se agrupam em florestas

esplendidas, nos flancos inferiores da cordilheira. Nenhum d’esses

gigantescos fetos, nem d’esses interminaveis parasitas, extendidos de um

tronco a outro, como nos cannaviaes bravos. Nenhum animal, nem cavallos

selvagens, nem yacks, nem bois tibetanos. De quando em quando uma gazella

perdida n’aquellas alturas. Nenhuma ave, a não ser alguns casaes d’essas

gralhas que se elevam até as ultimas camadas do ar respiravel.

Transposta esta passagem, o _Albatrós_ começou a descer de novo. Ao sahir

do desfiladeiro, para fora da região das florestas, não se via mais do

que uma planicie infinita que se extendia sobre um immenso sector.

Então Robur avançou para os seus hospedes, e com voz amavel:

—A India, meus senhores! lhes disse.

CAPITULO X

ONDE SE VERÁ COMO E PORQUE O CREADO FRICOLLIN FOI POSTO A REBOQUE

O engenheiro não tinha tenção de passear o seu apparelho por sobre

aquellas maravilhosas regiões do Industão. Galgar o Himalaya para mostrar

de que admiravel engenho de locomoção elle dispunha, convencer mesmo os

que não queriam deixar-se convencer, era tudo quanto desejava. Quer isto

dizer que o _Albatrós_ era perfeito, embora não exista a perfeição n’este

mundo? É o que havemos de vêr.

Em todo o caso, se no seu fôro intimo Uncle Prudent e o seu collega

não podiam deixar de admirar o poder de um tal apparelho de locomoção

aerea, não o deixaram conhecer. Só procuravam o ensejo de se safar. Nem

mesmo admiravam o soberbo espectaculo que se lhes offerecia, emquanto o

_Albatrós_ seguia as orlas pittorescas do Pendjab.

Ha na base do Himalaya uma facha de terrenos pantanosos d’onde transpiram

vapores doentios; é o Terai, onde a febre existe no estado endemico. Isso

porém não era cousa que embaraçasse o _Albatrós_, nem compromettesse a

saude do seu pessoal. Dirigiu-se, sem se apressar muito, para o angulo

que o Industão forma no ponto de juncção do Turkestan com a China. No

dia 29 de junho, nas primeiras horas do dia, abria-se deante d’elle o

incommensuravel valle de Cachemir.

Sim, incomparavel essa garganta que deixam entre si o grande e o pequeno

Himalaya! Sulcada de centenas de contrafortes de montanhas, que a enorme

cordilheira leva até á bacia do Hydaspe, é banhada pelos caprichosos

meandros do rio, que assistiu ao choque dos exercitos de Porus e de

Alexandre, isto é, a India e a Grecia em lucta na Asia central. Esse

Hydaspe continúa alli, ao passo que as duas cidades, fundadas pelo

Macedonio, em commemoração da sua victoria, desappareceram a ponto de não

se conhecer onde existiram.

Durante essa manhã, o _Albatrós_ pairou por sobre o Srinagar, mais

conhecido pelo nome de Cachemir. Uncle Prudent e o seu companheiro viram

uma cidade soberba, ao longo das duas margens do rio, com as suas pontes

de madeira da grossura de um fio, os seus chalets adornados de balcões

recortados; as suas ribas ensombradas de altos ulmeiros; os seus tectos

cobertos de musgo, que tomavam o aspecto de ninhos de toupeira; os seus

canaes multiplos, com barcos do tamanho de nozes e barqueiros do tamanho

de formigas; os seus palacios, os seus templos, os seus kiosques; as suas

mesquitas, os seus bangalós, á entrada dos bairros,—todo esse conjunto

duplicado pelo reflexo das aguas; depois a sua velha cidadella de

Hari-Parvata, no alto de uma collina, como o mais importante dos fortes

de Paris no alto do Monte Valeriano.

—Seria Veneza, disse Phil Evans, se estivessemos na Europa.

—E se estivessemos na Europa, respondeu Uncle Prudent, nós saberiamos

encontrar o caminho da America!

O _Albatrós_ não se demorou sobre o lago que o rio atravessa, e retomou o

vôo através do valle do Hydaspe.

Durante meia hora apenas, tendo descido a uns dez metros do rio,

permaneceu estacionario. Então, por meio de um tubo de borracha deitado

abaixo, Tom Turner e os seus companheiros puzeram-se a refazer a sua

provisão de agua, que foi aspirada por meio de uma bomba que as correntes

dos accumuladores puzeram em movimento.

Durante esta operação, Uncle Prudent e Phil Evans tinham olhado um para

o outro. Um mesmo pensamento lhes havia passado pelo cerebro. Estavam

a uns passos apenas do Hydaspe, ao alcance das margens. Ambos eram

bons nadadores. Um mergulho lhes daria a liberdade, e quando tivessem

desapparecido, como é que Robur os poderia apanhar? Para os seus

propulsores terem a possibilidade de se pôrem em acção, não era preciso

que o apparelho estivesse pelo menos dois metros acima do lago?

Robur, o Conquistador · 第 6 / 14 段