moderada. Parecia roçar na superficie tão calma d’esse mar, todo
impregnado de sol, que ella dominava da altura de uns cem pés apenas.
Pela sua vez, Uncle Prudent, e o seu companheiro haviam ficado nos seus
compartimentos, para se não encontrarem com Robur, que passeava, fumando,
ora só, ora com o contramestre Tom Turner. Só estava metade dos helices
a funccionar, e isso bastou para manter o apparelho nas zonas baixas da
atmosphera.
N’essas condicções a gente do _Albatrós_ poderia ter, conjuntamente com
o prazer da pesca, a satisfação de variar o seu passadio, se as aguas
do Pacifico tivessem peixe. Mas á superficie appareciam apenas algumas
baleias, d’essa especie de ventre amarello que chegam a medir até vinte
e cinco metros de comprimento. São os mais temiveis cetaceos dos mares
boreaes. Os pescadores de profissão fogem de os atacar, tanto a sua fôrça
é prodigiosa.
Comtudo, arpoando-se uma d’essas baleias, ou fôsse com um arpão vulgar,
ou com o foguete Tlechter, ou com o dardo-bomba, de que havia a bordo
grande provisão, a pesca poderia realisar-se sem perigo.
Mas para que servia essa massacragem inutil?
Comtudo, talvez para mostrar aos dois membros do Weldon-Institute o que
elle podia conseguir da sua aeronave, Robur quiz dar caça a um d’esses
monstruosos cetaceos.
Ao grito de “baleia! baleia!„ Uncle Prudent e Phil Evans sahiram do
seu beliche. Talvez estivesse á vista algum navio baleeiro ... N’esse
caso, afim de escapar á sua prisão volante, seriam os dois capazes de se
atirar ao mar, contando com a probabilidade de serem recolhidos por uma
embarcação.
Já todo o pessoal da aeronave estava postado na plataforma, á espera.
—Vamos então experimentar, master Robur? perguntou o contramestre Turner.
—Sim, Tom! respondeu o engenheiro.
Nos compartimentos da machina, o machinista e os seus dois ajudantes
estavam a postos, promptos a executar as manobras que seriam ordenadas
por meio de gestos. O _Albatrós_ não tardou em se abaixar até o mar, e
parou uns cincoenta pés acima d’elle.
Não estava ao largo nenhum navio,—o que foi verificado pelos dois
collegas, nem á vista nenhuma terra que elles pudessem alcançar a nado,
admittindo mesmo que Robur nada fizesse para os colher de novo.
Muitos jactos de vapor e de agua, lançados pelos ventiladores,
annunciaram a presença das baleias que vinham respirar á superficie do
mar.
Tom Turner, auxiliado por um dos seus camaradas, collocára-se na
frente. Ao alcance d’elle estava um d’esses dardos-bombas, de fabrico
californiano, que se lança por meio de um arcabuz. É uma especie de
cylindro de metal que termina em bomba cylindrica, armada de uma haste de
ponta farpada.
Do banco da frente, ao qual acabava de subir, Robur indicava com a mão
direita aos machinistas, e com a esquerda ao homem do leme, as manobras a
fazer. Era assim senhor da aeronave, em todas as direcções, horisontal e
vertical. Não se pode calcular a rapidez e a precisão com que o apparelho
obedecia a todas as ordens. Parecia um ser organico, de que Robur era a
alma.
—Baleia!... Baleia!... exclamou de novo Tom Turner.
Com effeito, umas quatrocentas e oito braças deante do _Albatrós_ emergia
o dorso de um cetaceo.
O _Albatrós_ correu para elle, e quando chegou a uns sessenta pés de
distancia parou.
Tom Turner tinha apontado a espingarda que estivera encostada ao
parapeito. O tiro partiu, e o projectil, levando comsigo uma longa corda,
cuja extremidade se prendia á plataforma, entrou no corpo da baleia. A
bomba cheia de uma materia fulminante, explosiu então, e, explosindo,
lançou uma especie de pequeno arpão de duas voltas, que se incrustou nas
carnes do animal.
—Attenção! gritou Turner.
Uncle Prudent e Phil Evans, por pouco dispostos que estivessem,
achavam-se interessados no espectaculo.
A baleia, gravemente ferida, fustigára o mar com uma tão violenta
rabanada, que a agua repuxou até á altura da aeronave.
Depois o animal mergulhou a uma grande profundidade, ao passo que lhe
iam largando corda, préviamente enrolada dentro de uma celha com agua,
para que se não incendiasse com a fricção. Quando a baleia voltou á tona
d’agua, desatou a fugir a toda a pressa na direcção do norte.
Imagine-se a rapidez com que o _Albatrós_ foi rebocado! Além de que, os
propulsores tinham sido parados. Deixaram o animal andar, pondo-se em
alinhamento com elle. Tom Turner estava prestes a cortar a corda, para o
caso de um novo mergulho tornar muito perigoso esse reboque.
Durante meia hora, e talvez á distancia de seis milhas, o _Albatrós_ foi
assim arrastado; mas via-se que o cetaceo começava a enfraquecer.
Então, a um gesto de Robur, os ajudantes dos machinistas andaram com a
machina atraz, e os propulsores começaram a oppôr uma certa resistencia á
baleia, que, a pouco e pouco, se approximou de bordo.
A aeronave batia ainda nas aguas com uma violencia incrivel. Ás voltas
sobre si propria, a baleia produzia remoinhos enormes.
De repente poz-se, por assim dizer, de pé, e atirou-se á agua com uma tal
velocidade, que Tom Turner mal teve tempo de lhe alar a corda.
N’um puxão, a aeronave foi arrastada á superficie das aguas. Um turbilhão
se formara no sitio onde o animal desapparecêra. Uma vaga entrou para
dentro da aeronave, como acontece com um navio que caminha contra o
vento e contra a onda.
Felizmente, com um golpe de machado, Tom Turner cortou a corda, e o
_Albatrós_, livre do reboque, subiu duzentos metros, com o poder dos seus
helices ascensionaes.
Quanto a Robur, manobrára o apparelho sem que o seu sangue frio o
houvesse abandonado um momento.
Alguns minutos depois a baleia voltava á tona da agua,—porém morta d’esta
vez. Por todos os lados as aves do mar accorriam, soltando gritos capazes
de ensurdecer todo um Congresso.
O _Albatrós_, não sabendo o que fazer áquelle cadaver, retomou para léste
o seu andamento.
No dia seguinte, 17 de junho, ás seis horas da manhã, uma terra se
avistou no horisonte. Era a peninsula de Alaska, e a longa sementeira de
rochedos das Aleutes.
O _Albatrós_ saltou por cima d’essa barreira onde pullulam as focas, para
pelles, que os habitantes d’aquelle paiz pescam por conta da Companhia
Russo-Americana. Excellente cousa, a captura d’esses amphibios, do
comprimento de seis a sete pés, côr de ferrugem, e que pesam trezentos e
quinhentos arrateis. Eram filas interminaveis d’elles, em formatura de
batalha, e contavam-se aos milhares.
Se não se mexeram á passagem do _Albatrós_, não aconteceu o mesmo com os
mergulhões, e outros animaes, cujos gritos roucos encheram o espaço, e
que desappareceram nas aguas como se fôssem ameaçados por algum grande
animal aereo.
Os dois mil kilometros do mar de Behring, desde as primeiras Aleutes
até a ponta extrema do Kamtchalka, foram transpostos durante as vinte
e quatro horas d’esse dia e da noite immediata. Para pôr em execução
o seu plano de fuga, Uncle Prudent e Phil Evans não se encontravam em
condições favoraveis. Não era nem sobre as margens desertas da extrema
Asia, nem nas paragens do mar de Okhotsk que se podia realisar essa fuga,
com alguma probabilidade de exito. Visivelmente o _Albatrós_ dirigia-se
para as terras do Japão e da China. Alli, apesar de não ser talvez
prudente pôrem-se á discreção dos Chinezes e Japonezes, os dois collegas
estavam resolvidos a fugir, se a aeronave fizesse alto em qualquer ponto
d’aquelles territorios.
Mas faria alto, com effeito? Não se tratava precisamente de uma ave que
se fatiga de um longo vôo, ou de um balão que, á falta de gaz, é obrigado
a descer. Havia provisões para muitas mais semanas ainda, e os seus
orgãos, de uma solidez maravilhosa, desafiavam toda a fraqueza e todo o
cançaço.
Um pulo por sobre a peninsula do Kamtchalka, de que apenas se viu o
estabelecimento de Petropaulovsk e o vulcão de Klutschen durante o dia 18
de julho, depois um novo salto por sobre o mar de Okhotsk, pouco mais ou
menos á altura das ilhas Kurilas, que lhe põem uma barreira, cortada por
centos de pequenos canaes, e no dia 19, pela manhã, tinha o _Albatrós_
alcançado o estreito de la Peruse, apertado entre a ponta septentrional
do Japão e a ilha Saghaliana, n’aquella pequena Mancha, onde desagua esse
grande rio siberico, o Amor.
Levantou-se então um nevoeiro densissimo, que a aeronave teve de
deixar por baixo de si. Não que tivesse necessidade de se desembaraçar
d’aquelles vapores para se dirigir; na altitude em que ia, nenhum
obstaculo havia a recear, nem monumentos com que pudesse esbarrar na
passagem, nem montanhas contra as quaes corresse o risco de se espedaçar
no seu vôo. O paiz era bem pouco accidentado, mas aquelles vapores não
deixavam de ser desagradabilissimos, e tudo ficaria molhado a bordo.
Nada mais tinha portanto do que collocar-se acima d’aquelles vapores cuja
espessura medía tresentos ou quatrocentos metros. De modo que os helices
foram rapidamente activados, e, para além do nevoeiro, o _Albatrós_
encontrou regiões cheias de sol.
N’estas condições, Uncle Prudent e Phil Evans teriam tido certa
difficuldade em dar execução aos seus projectos de fuga, admittindo que
elles tivessem podido deixar a aeronave.
N’esse dia, no momento em que passava junto d’elles, Robur parou um
instante e sem que parecesse dar a menor importancia ao que dizia:
—Meus senhores, disse elle, um navio á véla, ou um vapor, perdido nas
brumas d’onde não pode sahir, está sempre embaraçado. Não navega senão
com o auxilio de assobio ou da tuba. Tem de diminuir o andamento;
e, apesar de tantas precauções, é para recear a cada instante um
abalroamento. O _Albatrós_ não tem nenhum d’estes cuidados. Que lhe
podiam fazer os nevoeiros se tinha meio de se desembaraçar d’elles? O
espaço é seu, todo o espaço!
Dito isto, Robur continuou tranquillamente o seu passeio, sem esperar uma
resposta que não pedia; e as baforadas do seu cachimbo perderam-se no
espaço.
—Uncle Prudent, disse Phil Evans, parece que este espantoso _Albatrós_
não tem medo de cousa alguma!
—Veremos isso! respondeu o presidente do Weldon-Institute.
O nevoeiro durou tres dias, 19, 20 e 21 de junho, com uma persistencia
lamentavel. Fôra necessario subirem mais para evitar as montanhas
japonezas de Fousi-Zama. Mas tendo-se rasgado o véo da névoa, notou-se
uma immensa cidade com palacios, _villas_, chalets, jardins e parques.
Mesmo sem a vêr a teria Robur reconhecido pelo ladrar das suas myriades
de cães, pelos gritos das suas aves de rapina, e sobretudo pelo cheiro de
cadaver que os corpos dos seus suppliciados lançam no espaço.
Os dois collegas estavam na plataforma, no momento em que o engenheiro
tomára este ponto de referencia para o caso de ter de continuar o seu
caminho através do nevoeiro.
—Meus senhores, disse elle, não tenho razão alguma para lhes occultar que
esta cidade é Yedo, a capital do Japão.
Uncle Prudent não respondeu. Em presença do engenheiro, sentia-se
suffocado, como se o ar lhe faltasse nos pulmões.
—Esta vista de Yedo, continuou Robur, é na realidade curiosissima.
—Por mais curiosa que seja ... respondeu Phil Evans.
—Não chega a Pekin?... concluiu o engenheiro. Tambem sou d’essa opinião,
e podem avalial-o dentro em pouco.
Era impossivel ser mais amavel.
O _Albatrós_, que se dirigia para o sudoéste, mudou então de direcção
tres quartos, a fim de buscar ao léste um novo caminho.
Durante a noite dissipou-se o nevoeiro. Havia symptomas de um grande
tufão pouco distante: baixa rapida de barometro, desapparição de vapores,
grandes nuvens, de forma ellipsoidal, pegadas ao céo cobreado; no
horisonte opposto, longas listas de carmim, nitidamente traçadas sobre um
fundo de ardosia, e uma larga aberta, muito clara, ao norte; depois o mar
unido e calmo, mas cujas aguas, ao pôr do sol, tomavam uma côr vermelha
escura.
Felizmente, aquelle tufão desencadeiou-se ao sul, e não teve outros
resultados senão dissipar as névoas amontoadas havia tres dias.
Em uma hora, tinham transposto os duzentos kilometros do estreito da
Coréa, e em seguida a ponta extrema d’aquella peninsula. Emquanto o tufão
ia bater as costas suéste da China, o _Albatrós_ abalançava-se sobre o
Mar Amarello, e, durante os dias 22 e 23, sobre o golpho de Pelchéli;
no dia 24 seguia o valle de Pei-Ho e pairava afinal sobre a capital do
Celeste Imperio.
Curvados para fora da plataforma, os dois collegas puderam ver muito
distinctamente, como o engenheiro havia annunciado, aquella immensa
cidade, a muralha que a separa em duas partes—cidade mandchúa e cidade
chineza—; os doze bairros que a cercam, os amplos boulevards que irradiam
para o centro; os templos, cujos tectos amarellos e verdes se banham no
sol nascente; os parques, que rodeiam os palacios dos mandarins; depois,
no meio da cidade mandchúa, os seiscentos setenta e oito hectares[1] da
cidade Amarella, como um quadrado de _casse-tête_ chinez, emmoldurado
dentro de outro; a cidade Vermelha, isto é, o Palacio Imperial com todas
as phantasias da sua architectura inverosimil.
N’aquelle momento, por baixo do _Albatrós_, o ar estava cheio de uma
harmonia singular. Dir-se-hia um concerto de harpas eolias. No ar
pairavam um cento de papagaios de papel, de diversas formas, feitos
de folhas de palmeira ou de pandano, munidos na parte superior de uma
especie de arco de madeira, distendido por meio de uma lamina de bambú.
Ao sôpro do vento, todas estas laminas, de notas variadas, como as de um
harmonium, soltavam um murmurio do mais melancholico effeito. Parecia
que, n’aquelle meio, se respirava oxygenio musical.
Robur teve então a phantasia de se approximar d’aquella orchestra aérea,
e o _Albatrós_ veiu lentamente banhar-se nas ondas sonoras que os
papagaios emittiam através da atmosphera.
Mas immediatamente se produziu um effeito extraordinario no meio
d’aquella enorme população. Sons do tamtam e outros instrumentos
formidaveis das orchestras chinezas, tiros de espingarda aos mil, tiros
de morteiros aos centos, tudo foi posto em acção para afastar a aéronave.
Os astronomos chinezes reconheceram n’esse dia que aquella machina aérea
era a causa de tantas questões que se haviam levantado; mas os milhões de
habitantes do Celeste Imperio, desde o humilde tankadére até os mandarins
mais cheios de botões, tomaram-n’o por um monstro apocalyptico que
acabava de apparecer no céo de Budha.
No inaccessivel _Albatrós_ não se preoccuparam com taes demonstrações.
Mas as guitas que seguravam os papagaios ás estacas dos jardins imperiaes
foram, ou cortadas ou içadas a toda a pressa. D’estes leves apparelhos,
uns vieram rapidamente a terra, accentuando os seus accordes, outros
cahiram como aves que o chumbo ferisse nas azas e cujo canto expira com
o ultimo alento. Um som violento, sahido da trombeta de Tom Turner, se
espalhou sobre a capital, e cobriu as ultimas notas do concerto aéreo.
Isso não interrompeu a fusilaria terrestre. Comtudo uma bomba viera
rebentar apenas a alguns pés da plataforma, e o _Albatrós_ subiu de novo
para as zonas inaccessiveis do céo.
O que se passou durante alguns dias que se seguiram? Nenhum incidente de
que os prisioneiros pudessem aproveitar. Que direcção tomou a aéronave?
Invariavelmente a do sudoéste, o que denotava o projecto de se approximar
do Industão.
Era visivel, além d’isso, que o solo, alteando-se cada vez mais, obrigava
o _Albatrós_ a regular-se segundo o seu perfil. Umas dez horas depois de
haverem deixado Pekin, Uncle Prudent e Phil Evans tinham podido entrevêr
a parte da grande muralha no limite do Chen-Si. Depois, evitando os
montes Loungs, passaram por sobre o valle de Wang-Ho e transpuzeram a
fronteira do Imperio Chinez, no limite do Tibet.
O Tibet, elevados planaltos sem vegetação, barrancos dissecados,
torrentes alimentadas pelos geleiros, baixios com brilhantes camadas de
sal, lagos emmoldurados em florestas virentes. Acima de tudo, um vento
muitas vezes glacial.
O barometro, baixado a 450 millimetros, indicava então uma altitude
de mais de quatro mil metros acima do nivel do mar. A esta altura, a
temperatura, apesar de se estar nos mezes mais quentes do hemispherio
boreal, não passava de zero. Aquelle resfriamento, combinado com a
velocidade do _Albatrós_, tornava a situação pouco supportavel. De modo
que, apesar dos dois collegas dispôrem de quentes mantas de viagem,
preferiram entrar para os seus compartimentos.
Escusado será dizer que fôra preciso dar aos helices suspensivos uma
velocidade extrema, afim de manter a aéronave n’um ar já rarefeito. Mas
elles funccionavam com um conjunto perfeito, e parecia que se estava
embalado pelo fremito das suas azas.
N’esse dia, Garlok, a cidade do Tibet occidental, capital da provincia
de Guari-Khorsum, poude ver passar o _Albatrós_ do tamanho de um pombo
viajante.
No dia 27 de junho, Uncle Prudent e Phil Evans notaram uma enorme
barreira, dominada por alguns altos picos, perdidos na neve, e que lhes
interceptava o horisonte.
Os dois, encostados ao compartimento da frente, afim de resistir á
velocidade do deslocamento, olhavam para aquellas massas colossaes.
Pareciam correr na frente da aéronave.
—É o Himalaya, com certeza, disse Phil Evans, e é provavel que vá
contornar-lhe a base, sem tentar passar pela India.
—Peor para nós! respondeu Uncle Prudent. N’esse immenso territorio,
talvez tivessemos podido ...
—A não ser que elle torneie a cordilheira a léste, ou pelo Nepól a oéste.
—Desafio-o a que o faça!
—Serio! disse uma voz.
No dia seguinte, 28 de junho, o _Albatrós_ estava em frente do gigantesco
macisso, por cima da provincia de Zzang. Do outro lado do Himalaya estava
a região de Nepól.
Com effeito, tres cordilheiras impedem successivamente o caminho da
India, a quem vem do norte. As duas cordilheiras septentrionaes, entre as
quaes se insinuára o _Albatrós_, como um navio entre enormes escolhos,
são os primeiros degraus d’aquella barreira da Asia central. Foi
primeiramente o Karakorum, que forma o valle longitudional e parallelo ao
Himalaya, quasi na linha que separa as bacias do Indo, a oéste, das do
Brahmaputra, a léste.
Que soberbo systema orographico! Mais de duzentos cumes já medidos, dos
quaes dezesete passam de vinte e cinco mil pés! Deante do _Albatrós_,
a oito mil oitocentos e quarenta metros, eleva-se o monte Everest.
Á direita, o Dwalaghiri, da altura de oito mil e duzentos metros. Á
esquerda, o Kinchanjunga, da altura de oito mil quinhentos e noventa
e dois metros, posto no segundo plano, depois das ultimas medidas do
Everest.
Evidentemente, Robur não tinha a pretenção de chegar até o pincaro das
montanhas; mas conhecia as diversas passagens do Himalaya, entre outras a
passagem de Ibi-Gamin, que os irmãos Schlagintweit, em 1856, transpuzeram
a uma altura de seis mil e oitocentos metros, e n’ella se metteu
resolutamente.
Houve algumas horas palpitantes, dolorosas mesmo. Comtudo, se a
rarefacção do ar não se tornou tal que fôsse preciso recorrer a
apparelhos especiaes para renovar o oxygenio nos beliches, o frio comtudo
foi excessivo.
Robur, postado na frente, com o seu masculo rosto debaixo do capuz,
commandava as manobras. Tom Turner tinha na mão a canna do leme. O
machinista vigiava attentamente as pilhas, cujas substancias nada tinham,
felizmente, a receiar da congelação. Os helices, levados ao maximo da
corrente, soltavam sons cada vez mais agudos, cuja intensidade foi
extrema, apesar da minima intensidade do ar. O barometro cahiu a 290
milimetros, o que indicava sete mil metros de altitude.
Magnifica disposição a d’esse cahos de montanhas! Por toda a parte cumes
brancos. Nenhum lago, mas geleiros que descem até dez mil pés da base.
Nenhuma herva, apenas raras phanerogamias no limite da vida vegetal.
Nenhum d’esses admiraveis pinheiros e cedros que se agrupam em florestas
esplendidas, nos flancos inferiores da cordilheira. Nenhum d’esses
gigantescos fetos, nem d’esses interminaveis parasitas, extendidos de um
tronco a outro, como nos cannaviaes bravos. Nenhum animal, nem cavallos
selvagens, nem yacks, nem bois tibetanos. De quando em quando uma gazella
perdida n’aquellas alturas. Nenhuma ave, a não ser alguns casaes d’essas
gralhas que se elevam até as ultimas camadas do ar respiravel.
Transposta esta passagem, o _Albatrós_ começou a descer de novo. Ao sahir
do desfiladeiro, para fora da região das florestas, não se via mais do
que uma planicie infinita que se extendia sobre um immenso sector.
Então Robur avançou para os seus hospedes, e com voz amavel:
—A India, meus senhores! lhes disse.
CAPITULO X
ONDE SE VERÁ COMO E PORQUE O CREADO FRICOLLIN FOI POSTO A REBOQUE
O engenheiro não tinha tenção de passear o seu apparelho por sobre
aquellas maravilhosas regiões do Industão. Galgar o Himalaya para mostrar
de que admiravel engenho de locomoção elle dispunha, convencer mesmo os
que não queriam deixar-se convencer, era tudo quanto desejava. Quer isto
dizer que o _Albatrós_ era perfeito, embora não exista a perfeição n’este
mundo? É o que havemos de vêr.
Em todo o caso, se no seu fôro intimo Uncle Prudent e o seu collega
não podiam deixar de admirar o poder de um tal apparelho de locomoção
aerea, não o deixaram conhecer. Só procuravam o ensejo de se safar. Nem
mesmo admiravam o soberbo espectaculo que se lhes offerecia, emquanto o
_Albatrós_ seguia as orlas pittorescas do Pendjab.
Ha na base do Himalaya uma facha de terrenos pantanosos d’onde transpiram
vapores doentios; é o Terai, onde a febre existe no estado endemico. Isso
porém não era cousa que embaraçasse o _Albatrós_, nem compromettesse a
saude do seu pessoal. Dirigiu-se, sem se apressar muito, para o angulo
que o Industão forma no ponto de juncção do Turkestan com a China. No
dia 29 de junho, nas primeiras horas do dia, abria-se deante d’elle o
incommensuravel valle de Cachemir.
Sim, incomparavel essa garganta que deixam entre si o grande e o pequeno
Himalaya! Sulcada de centenas de contrafortes de montanhas, que a enorme
cordilheira leva até á bacia do Hydaspe, é banhada pelos caprichosos
meandros do rio, que assistiu ao choque dos exercitos de Porus e de
Alexandre, isto é, a India e a Grecia em lucta na Asia central. Esse
Hydaspe continúa alli, ao passo que as duas cidades, fundadas pelo
Macedonio, em commemoração da sua victoria, desappareceram a ponto de não
se conhecer onde existiram.
Durante essa manhã, o _Albatrós_ pairou por sobre o Srinagar, mais
conhecido pelo nome de Cachemir. Uncle Prudent e o seu companheiro viram
uma cidade soberba, ao longo das duas margens do rio, com as suas pontes
de madeira da grossura de um fio, os seus chalets adornados de balcões
recortados; as suas ribas ensombradas de altos ulmeiros; os seus tectos
cobertos de musgo, que tomavam o aspecto de ninhos de toupeira; os seus
canaes multiplos, com barcos do tamanho de nozes e barqueiros do tamanho
de formigas; os seus palacios, os seus templos, os seus kiosques; as suas
mesquitas, os seus bangalós, á entrada dos bairros,—todo esse conjunto
duplicado pelo reflexo das aguas; depois a sua velha cidadella de
Hari-Parvata, no alto de uma collina, como o mais importante dos fortes
de Paris no alto do Monte Valeriano.
—Seria Veneza, disse Phil Evans, se estivessemos na Europa.
—E se estivessemos na Europa, respondeu Uncle Prudent, nós saberiamos
encontrar o caminho da America!
O _Albatrós_ não se demorou sobre o lago que o rio atravessa, e retomou o
vôo através do valle do Hydaspe.
Durante meia hora apenas, tendo descido a uns dez metros do rio,
permaneceu estacionario. Então, por meio de um tubo de borracha deitado
abaixo, Tom Turner e os seus companheiros puzeram-se a refazer a sua
provisão de agua, que foi aspirada por meio de uma bomba que as correntes
dos accumuladores puzeram em movimento.
Durante esta operação, Uncle Prudent e Phil Evans tinham olhado um para
o outro. Um mesmo pensamento lhes havia passado pelo cerebro. Estavam
a uns passos apenas do Hydaspe, ao alcance das margens. Ambos eram
bons nadadores. Um mergulho lhes daria a liberdade, e quando tivessem
desapparecido, como é que Robur os poderia apanhar? Para os seus
propulsores terem a possibilidade de se pôrem em acção, não era preciso
que o apparelho estivesse pelo menos dois metros acima do lago?