alguem a quem transmittir o pontapé em giro atravez das instituições e
da politica. A carta do conde de Chambord não é em resumo senão o
testemunho de uma divergencia com a assembléa nacional sobre este ponto
importante do bailado em ensaios: quem é que recebe o pontapé?
A um paiz corrompido e a uma assembléa senil não occorre esta
consideração tão simples: que quando se trata de um stygma de servilismo
e de baixeza a questão não é poder transmittil-o, é não dever
acceital-o. Organisar pela monarchia a responsabilidade dos que se
corrompem é abdicar a faculdade de demittir a corrupção. Os reis quando
não enodoam os povos, tambem não lhes tiram as nodoas que elles tenham.
N'esses casos o que limpa um paiz não é a realesa. Quereis saber o que
é? Pois bem! É a benzina!
* * * * *
A carta do sr. D. Miguel de Bragança ao sr. conde da Redinha é ao mesmo
tempo o tocante documento da estima inviolavel de um amigo ausente, e o
authentico manifesto politico de um principe proscripto.
Sua alteza declara ao _seu paiz_ que quer ser o protector e o amigo de
todos os portuguezes e que considera como sua mais elevada ambição e sua
maior gloria--restaurar o throno pontificio. N'este simples traço
encarna sua alteza a expressão politica da sua indole,--o que nos parece
de uma moderação de intuitos demasiadamente modesta.
Diriamos que sua alteza folga em confundir-se na obscura legião invalida
dos tyranos burguezes, dos cezares bonacheirões, Neros de barrete de
dormir, Caligulas dyspepticos, Eliogabalos em uso do pronto alivio e da
revalenta arabica. A politica affirmada por sua alteza accusa uma
visivel pobresa de sangue. Sua alteza é um anemico. Tal é o infortunio
da nossa raça! Que degeneração!
O pae do joven principe D. Miguel era sanguineo, esse. A sua
extraordinaria força muscular era a admiração respeitosa, a maravilha
profundamente inclinada do _sport_ lusitano de 1827. Nas redondezas do
paço de Queluz, nas terras do Infantado, via-se ás vezes atravessar os
campos, a pé, caçando acompanhado do seu falcoeiro, um homem de mais de
meia estatura, de solidos hombros, faces morenas, barba rapada, mãos
enormes, beiços sensuaes, grandes olhos negros, rasgados, peninsulares;
vestia um casaco de baetão verde, calção preto, botas altas, de cava,
com tações de prateleira e esporas de prata; usava um bonet azul, do
prato largo, com vizeira. Este homem, que amava a convivencia dos
plebeus, a quem dava largas esmolas de dinheiro e de conversação,
comprazia-se em ensinar a lavrar os moços do campo: tomava na mão
esquerda a rabiça de um arado, azorragava com a direita uma parelha de
mulas, e abria no solo mais empedrado e mais endurecido, sob a poderosa
pressão do seu pulso, um rego profundo, extenso de um kilometro, e recto
como um risco passado a regoa por um tira-linhas. Suffocava um forte
cavallo de Alter puchando-lhe a ponta da cilha com os dentes. Segurava
pela bocca, que juntava e cerrava no punho, um sacco de sete alqueires
do trigo, e lançava-o ao hombro, com uma só mão, erguendo o braço por
cima da cabeça e conservando o corpo immovel, erecto e firme. Quando
vinha de Queluz a Lisboa, galopando á desfilada, com uma vara debaixo da
perna, entre os seus companheiros mais assiduos, João Sedvem, o picador,
o José Verissimo, o da policia, a força de soldados de cavallaria que o
acompanhava, ficava aos poucos pela estrada destroçada pela fadiga: elle
nunca chegou senão só. No dia em que recebeu ao pé da mata, na Quinta
Velha, onde estava caçando ao falção, por volta das duas horas da tarde,
a noticia de ter entrado a barra de Lisboa a flotilha que apresou e
levou para França todos os nossos vasos de guerra surtos no Tejo, elle
veiu de Queluz a Belem, em menos de tres quartos de hora. Esse homem que
tinha a grande popularidade que trazem comsigo as legendas da força e da
destreza physica, era sua magestade el-rei o sr. D. Miguel I.
O soberano tinha os defeitos do homem e as qualidades dos seus defeitos.
A sua politica era apopletica simplesmente porque elle era plethorico.
Esse principe, com o seu temperamento, o qual constituia, politicamente
assim como physiologicamente, toda a sua personalidade, fez á liberdade
e ás idéas modernas o mais relevante serviço: foi elle o que fabricou o
partido liberal portuguez.
Os constitucionaes foram uma invenção da policia do sr.D. Miguel. Elles
não combatiam o direito divino, nem os privilegios da nobreza e do
clero, nem o regime absoluto, nem a servidão popular; o que elles
combatiam principalmente era o José Verissimo. Affirmavam-se os direitos
do homem porque se tinha percebido que esses direitos prejudicavam os do
João Sedvem. Os revolucionarios portuguezes não vieram da sciencia, não
vieram do amor da justiça, das impaciencias da liberdade, dos contagios
da Convenção, da revolta da dignidade humana. Não. Elles vieram
simplesmente dos carceres, dos carceres em que o regime despotico
recalcou de mais a força viva da nação. Os principios eram o pretexto
sob o qual se vingavam as offensas feitas não ás idéas vigentes, mas aos
interesses estabelecidos. As denuncias partiam dos lesados. A idéa
exposta na organisação da Companhia dos vinhos preoccupava mais os
espiritos em Portugal do que o principio representado em França pela
existencia da Bastilha. Havia martyres da liberdade que nunca tinham
amado a liberdade com devoção mais intensa que a do Sedvem e que não
teriam posto duvidas irremissiveis em continuar a «dobrar a cerviz, ao
jugo da tyrannia» como se dizia no stylo do tempo; sómente o que elles
tinham recusado era emprestar algumas moedas ao José da Policia. Para a
maior parte da gente a victoria da idéa liberal foi simplesmente a morte
do Telles Jordão. Finalmente o sr. D. Miguel de Bragança, _primeiro_,
foi o principe cuja força fez na monarchia portugueza o rombo por onde a
liberdade appareceu. O sr.D. Miguel de Bragança, _segundo_,
figura-se-nos pela sua expressiva carta ao sr. conde da Redinha, uma
pessoa extremamente debilitada. Ser o protector e o amigo de todos os
portugueses é enfraquecer-se diffundindo-se. Os antigos fortes
concentravam-se.
Pobres de nós! Como somos diversos de nossos paes! Os plethoricos,
sangrados, legaram á geração que lhes succedeu a impotente anemia!
* * * * *
Acabamos de lêr um livro que foi publicado era Lisboa ha cerca de tres
mezes e a respeito do qual ainda não ouvimos á critica uma palavra de
menção. Foi abafado pelo silencio. Se lhe não dessem esse destino teria
sido um livro escandaloso porque foi inteiramente concebido fóra da
rotina, fóra da convenção, fóra do compadrio, por um espirito
justo, esclarecido, honrado, fatalmente inclinado ao bem.
Intitula-se--_Portugal e o socialismo_, e é escripto pelo sr. Oliveira
Martins.
A litteratura portugueza actual apresenta este notavel caracter:--o
bysantinismo. Ella não é um documento historico, nem um documento moral
do tempo em que vivemos. Não tem importancia na direcção dos espiritos,
não tem influencia na formação dos caracteres, não tem validade no
estabelecimento dos principios. Não dá nenhuma theoria á razão, não dá
nenhuma lei á consciencia, não dá nenhuma norma á dignidade.
A imitação, a convenção, o servilismo, o estreito espirito de seita, de
partido, de escola, a ignorancia, a indolencia, a bajulação, a
orthodoxia official puzeram a pouco e pouco as lettras portuguezas
inteiramente fóra do seu objecto--a simples e pura verdade humana.
O que actualmente se escreve não é absolutamente nada o que actualmente
se pensa. Todas as grandes questões capitaes que preoccupam a sociedade,
a litteratura ou as evita ou as falsea. Ou as evita porque as não sabe
tratar, ou as falsea porque as trata com um espirito particular de
interesse, hostil á sciencia e rebelde á arte.
Entre tantos escriptores portuguezes que quotidianamente enegrecem em
Portugal o innocente papel sobre o qual se orça a medida das nossas
faculdades, onde está o homem cuja obra represente o precurso das idéas
predominantes d'este seculo atravez d'esta sociedade? Onde está o
artista, onde está o philosopho, onde está o poeta que tenha atacado de
frente a solução desinteressada, independente, firme, clara, nitida, dos
multiplos problemas que agitam o espirito, a consciencia, o coração do
homem moderno no meio do sentimento, do temperamento, da religião e da
politica da sociedade moderna?
Será tal escriptor o sr. Alexandre Herculano, philosopho collaborador da
sr.ª D. Guiomar Torresão no _Almanack das Senhoras_?
Será o poeta sr. Nunes, deputado conservador, o mais arrojado dos vates
que conhecemos dentro dos limites da carta constitucional e do systema
representativo?
Não nos parece.
O sr. Oliveira Martins faz parte de um pequeno grupo de alguns
trabalhadores obscuros, inteiramente penetrados da corrente scientifica
do tempo actual, que teem procurado introduzir na litteratura as idéas
correspondentes ás preoccupações, ás necessidades e aos interesses mais
altos, mais legitimos e mais vitaes da sociedade em que vivem, fixando
assim scientificamente algumas das bases do programma geral da revolução
por meio da qual se vae transformando o mundo europeu.
Esses humildes obreiros, aos quaes cabe a gloria de terem iniciado em
Portugal quasi todos os grandes principios das civilisações modernas,
não teem encontrado, como galardão dos seus estudos, da sua
independencia e da sua andácia de pensadores, senão a surda guerra das
maledicências, das calumnias e dos desdens, evantada pelo obscurantismo,
pelo fanatismo, pela ignorancia. Accusam-os de attentarem contra a
moral, contra a religião, contra a ordem, contra o patriotismo, e
expulsaram-os vilmente e infamemente do respeito publico e da
consideração social como jacobinos, como communistas, como incendiarios.
* * * * *
É do livro acima citado que extrahimos a seguinte pagina tão sensata,
tão viva, tão humana:
«Portugal não tem pauperismo. É por isso que entre nós se não levantaram
ainda, nem se levantarão já, Nelsons ou Sydney Smiths para dizerem como
em Inglaterra: «A pobreza é infame.» É por isso que a definição ingleza
da fabrica--_manufactura de algodão e de pobres_--não pode servir-nos. O
não attingirmos porém um termo tão elevado de preversão social não quer
dizer que as classes trabalhadoras de todas as industrias vivas do paiz,
extractivas e transformadoras, encontrem para cá das nossas fronteiras
um modo de vida essencialmente differente. Não, a nossa organisação
politica, semi-monarchica, semi-liberal, dá em resultado ser duplamente
absurda, immoral, pauperisadora. Porque, como liberal, permitte a livre
concorrencia do capital e do trabalho, aliena as funcções e
propriedades collectivas, e, para corrigir as consequencias de
distribuição viciosa que d'ahi resultam, mantem uma protecção
anachronica, com as alfandegas, com a divida e com o imposto, protecção
que recaindo afinal toda no consumo, vem ainda aggravar as condições do
trabalhador pela elevação no preço das coisas. Acima da preversão
economica devemos pôr a preversão moral. No pequeno mundo industrial de
Lisboa, não contaste nunca, leitor, aos sabados o numero de ebrios que
povôa as vielas escuras e nauseabundas, onde á crapula vem juntar-se a
orgia das mulheres perdidas? Onde o prostibulo está em frente da
taberna, ao lado o bilhar, e entre o bilhar, o prostibulo e a taberna,
se funde a feria?
A desordem e a immoralidade são contra a natureza. Se esses homens não
fossem pobres seriam melhores. Se não tivessem de trabalhar doze horas
para comer saberiam ler. Se tivessem pão e liberdade seriam paes de
familia. Olhae as mulheres e as creanças. Termo medio a familia tem
quatro pessoas; termo medio o salario é de 400 réis. O trabalhador
recorre ao celibato, á prostituição, ás relações illicitas, d'onde
resultam os infantecidios (tão frequentes em Portugal como na China) e a
roda dos expostos. Quando um homem foi agarrado por esta engrenagem
d'aço morreu. Ha muitos a quem uma certa energia de caracter ou uma
constituição artistica e sentimental levaram ao casamento e á familia: é
então que se encontram quatro pessoas com quatro tostões por dia. A
industria offerece uma tentação diabolica: augmentar o salario
destruindo a familia. N'esse momento a esposa e os filhos entram na
_fabrica_ ...»
* * * * *
A fabrica é para as mulheres e para as creanças o sepulchro do pudor, da
honestidade e da saude. Emquanto as instituições sociaes não assegurarem
á mulher o seu legitimo logar na familia é absolutamente preciso que,
pelo menos a protejam na miseria fatal da fabrica. Porque nas fabricas
portuguezas o que succede com a mulher é que, pela sua fraqueza e pela
sua ignorancia, ella é no trabalho o escravo do homem. Ninguem entre nós
tem lançado os olhos a esses desgraçados destinos obscuros.
* * * * *
Acostura que ainda ha pouco era o grande refugio das raparigas pobres
desappareceu com a machina de cozer. A mulher não póde sustentar essa
concorrencia, porque ella não póde, por maiores que sejam os esforços
dar por suas mãos mais de 30 pontos por minuto: a machina dá 643 pontos
no mesmo espaço de tempo. Para se empregar n'outros serviços precisaria
de uma educação preparatoria pratica, para a qual são indispensaveis as
escolas profissionaes que não existem em Portugal. Em França, na
Inglaterra, na Allemanha e principalmente na Suecia, as mulheres
habilitadas em cursos especiaes teem já muitos empregos uteis na
industria e no commercio. Em 1871 havia na Suecia 4:055 mulheres
empregadas no commercio e na industria. D'estas 2:675 dirigiam os seus
proprios negocios. Quinhentas e quatro mulheres eram proprietarias de
fabricas e de officinas. Além d'isto muitas outras se achavam empregadas
nos bancos, nas caixas de soccorros, nas companhias de seguros, etc. com
emolumentos annuaes variando de 800 a 5:000 rixdalers. No serviço dos
correios, dos caminhos de ferro, dos telegraphos, a mulher alarga de dia
para dia os seus dominios. A America, a Suecia, o Wurtemberg,
offerecem-lhe sob esse ponto de vista as maiores facilidades.
Em Darmstadt muitas mulheres se acham empregadas nas repartições de
estatistica com optimos resultados para o serviço publico. Os cuidados
aos doentes são um bello emprego para o trabalho das mulheres. Na
Hollanda muitas teem sido auctorisadas a tirar diplomas de
pharmaceuticos. A profissão medica tem-lhes sido permittida em diversos
paizes. Na America, em S. Petersburgo, em Zurich, em Upsel e em varias
outras universidades ha um consideravel numero de alumnos do sexo
feminino estudando a medicina. Na Suecia estabeleceu-se pelo estado um
fundo permanente de soccorros para as mulheres que seguem a carreira
medica.
A ultima exposição de Vienna veiu provar ainda quanto as mulheres se
teem ultimamente occupado nas artes industriaes e nas bellas artes. Na
exposição sueca vê-se no pavilhão dos productos da industria o perfeito
exito com que as mulheres teem cultivado n'aquelle paiz a pintura, a
gravura em madeira, a xylographia, a lythographia, a gravura em cobre, a
photographia, a cartographia, a pintura em porcelana, a modelagem. Na
Suecia concedeu-se-lhes accesso, como aos demais empregados, nos
serviços dos telegraphos, dos correios e dos caminhos de ferro.
Admittem-as como gravadoras na casa da moeda; muitas são empregadas nas
academias, nas imprensas e n'outros estabelecimentos como xylographas,
impressoras, compositoras, directoras de officina, etc.
Na Suecia ha hoje immensas escolas sustentadas pelo governo, pelas
communas e por associações particulares onde ensinam ás raparigas pobres
todos os trabalhos femininos do «ménage». Ha escolas especiaes
destinadas a formar creadas. Em Stockolmo ha escolas de remendagem onde
as raparigas aprendem a concertar os seus fatos e a sua roupa branca com
um acceio e uma arte inexcedivel. As meninas burguezas teem á sua
disposição a escola industrial de Stockolmo, as escolas normaes reaes, o
instituto central de gymnastica onde se formam mestras de gymnastica, a
academia real de musica, a academia das bellas artes os estabelecimentos
de instrucção das parteiras e a mesma universidade, onde se ministram
subsidios a tres raparigas que estudam por conta do estado. Depois da
Suecia devem-se citar os Paizes Baixos e a Austria. Em Vienna a
municipalidade fundou em alguns bairros escolas industriaes nocturnas.
Sociedades de senhoras estabeleceram escolas profissionaes de
differentes especies. Ha uma sociedade especial encarregada de obter ás
mulheres meios de subsistência (Frauenerwerb-Verein). Além das escolas
preparatorias para a instrucção geral elementar e para a instrucção
superior, estabeleceu a referida sociedade uma escola de costura, uma
escola superior de trabalho com um curso de estudos que dura tres annos,
uma escola de desenho industrial, uma escola de commercio, uma escola de
linguas, um curso especial para as empregadas na telegraphia. Na
Hollanda é na escola industrial de Amsterdam que se instrue a mocidade
feminina não só nos trabalhos manuaes, taes como o bordado, costura á
mão e á machina trabalhos de cartonagem e obras de palha, escripturação
commercial, legislação commercial e pharmacia. Na Alemanha do norte e na
Alemanha central ha egualmente muitas escolas industriaes fundadas por
sociedades especiaes e por outras corporações para a educação das
raparigas e das mulheres. Um fabricante de Munich fundou uma excellente
escola de ensino commercial para as raparigas da classe burgueza e da
classe operaria. As mulheres que sáem d'esta escola encontram
immediatamente emprego nos bancos, ou nas casas de commercio.
A Russia resolveu ultimamente facultar a matricula na escola de medicina
de S. Petrsburgo ás mulheres habilitadas com determinados titulos de
capacidade. Logo depois da promulgação d'esta lei, quatrocentas mulheres
se apresentaram como candidatos á frequencia da alludida faculdade.
* * * * *
Sabem dizer-nos o que é que, sob este ponto de vista, se tem feito em
Portugal? Esperamos que suas excellencias os senhores conservadores se
dignarão responder-nos.
* * * * *
O sr. marquez de Vallada mandou correr este mez os reposteiros
brasonados dos seus salões para inaugurar as soirées elegantes do
presente inverno com um jantar _prié_.
Assistiram todos os membros do gabinete e varios outros personagens
illustres na politica e na burocracia. Sentia-se apenas uma falta n'essa
reunião selecta: a ausência absoluta de senhoras no palacio do nobre
fidalgo. Bem sabemos que um jantar não é precisamente como uma valsa
para a qual a gente não ha de ir convidar a lagosta, nem dançar com o
perú. Mas mesmo para o que é comer não basta apenas a comida. O sr.
marquez sabe a este respeito a opinião de Savarin: o bruto pasta, o
homem come, só o homem de espirito é que sabe comer. Ora uma duzia de
barbatolas postos a mascar trufas uns diante dos outros em volta de uma
mesa não nos parece que deem o espectaculo da espiritualidade mais fina.
É preciso que concorram tambem as senhoras, com a _toilette_, com a fina
pelle, com os perfumes, com as rendas, com as perolas, com as frescas
risadas cristalinas, com os agudos ditos penetrantes, com a elevação
finalmente, com a idealidade, com o espirito.
* * * * *
Atravessar a gente por entre duas filas de criados gordos e graves como
embaixadores, indo por baixo dos lustres, pizando um tapete espesso,
dando o braço a alguem, ou seguindo mesmo, atraz, sosinho, na turba dos
obscuros, com a claque debaixo do braço; entrar na sala de jantar,
tepida, fulgurante de luz; contemplar a mesa de um aspecto tropical pela
natureza das fructas e pela fórma das flôres trasvasadas do plateau,
procurarmos o nosso nome nos bilhetes que estão em cima dos guardanapos;
sentarmo-nos ao dôce murmurio dos vestidos que se enfôfam ao nosso lado
e dos talheres que telintam; desdobrar nos joelhos um amplo guardanapo,
frio, lustroso e pesado, de linho de Irlanda; aconchegarmo-nos, unirmos
os cotovellos ao corpo e inclinarmo-nos sobre o prato; metter na bocca a
primeira colher do sopa, sentir estalar e derreter-se no dente o
primeiro rabiolo, escorrendo no paladar o acre succo dos espinafres, em
quanto a nossa visinha da esquerda mette a sua luva enrolada no copo do
Madeira, e a nossa visinha da direita morde atrevidamente no pão
deixando-nos vêr de lado todos os seus pequeninos dentes mais lindos que
as suas perolas ... isto é realmente acharmo-nos n'um dos momentos mais
augustos que a civilisação e a elegencia concedem ao homem em paga dos
sacrificios que elle lhes tem feito nos esmeros da educação e na alta
cultura do espirito. É então que as mulheres, sómente as mulheres--ellas
que vivem na graça e no mimo como os solitarios vivem no egoismo e no
tedio--desenvolvem o talento especial de fazer romper os alados
assumptos ligeiros e subtis, em torno dos quaes adejam as conversações,
as phantasias, as replicas, os repentes, como doiradas abelhas famintas
sobre um ramo de rosas.
Se n'esses momentos os homens se acham sós, ou caem na bestialidade
indolente e calada dos deuses de Epicuro, ou discutem, questionam,
fallam alto, gritam, põem os cotovellos na mesa, fazem gestos, fazem
bolas de pão, dão estalos com a lingua, limpam as unhas, e quebram
palitos nos dedos--o que ha mais implicativo dos nervos e mais offensivo
do gosto.
* * * * *
Consta-nos que pelas razões referidas o jantar do sr. marquez tocou um
pouco no tetrico. O silencio era a principio tão solemne que apenas se
ouvia confusamente o ruido da maioria parlamentar engolindo pelo
esophago do ministerio e a ordem e a guarda municipal mastigando pela
bocca do sr. barão do Zezere. Tinha-se ar de se estar n'uma sessão
deliberativa e não n'uma festa; parece até que o sr. marquez de Avila, o
illustre parlamentar, dirigindo-se a um criado, se mostrára gravemente
preoccupado ao ponto de que, sendo a sua intenção pedir-lhe Sauterne,
lhe pedira a palavra.
Por fim parece que o dono da casa usara da fala para expôr o objecto
d'aquella reunião, o qual, segundo referem os jornaes, foi:
_Affirmar a adhesão do sr. marques de Vallada á monarchia_.
* * * * *
Achamos extremamente louvavel e digno de ser imitado por todos os
fidalgos portuguezes o exemplo dado pelo sr. marquez de se sacrificarem
pelo throno ao ponto de não hesitarem um momento, para o salvar, em
irem ... para a mesa!
Os vossos avós, quando queriam dedicar-se ao esplendor da corôa iam
bater-se em Arzilla, em Ormuz, em Ceuta, em Tanger, descobriam terras,
venciam batalhas, conquistavam reinos.
Quereis provar-nos que ainda guardaes nos vossos archivos as antigas
cartas do roteiro dos mares? Que ainda tendes nas vossas panoplias as
duras armaduras e as famosas lanças dos vossos maiores? Muito bem! Visto
que não podeis refazer o que está já feito por elles, começae pelo menos
a realisar o que elles tantas vezes omittiram: jantae!
E a corôa verá, pela maneira como vos mostrardes aptos para comer,
quanto sois capazes de amar.
Assim como o Castro forte dizia que por cada pedra da fortaleza de Diu
elle daria um filho, mostrae vós que por cada perna de perú trufado
sereis capazes de dar um avô. E o soberano, jubiloso e grato,
contemplando por cima da gloriosa terrina da historia contemporanea, os
feitos valorosos dos vossos garfos invenciveis, apreciará os vossos
titulos de immortalidade, discriminando, no ardor e na confusão das
refregas, os que se lhe dedicam até ao pato com arroz, os que o
estremecem até ao frango com hervilhas, os que o idolatram até ás
salchichas com couve lombarda!
* * * * *
Mas por Deus, meus senhores, consenti que vol-o repitamos: Não excluaes
dos agapes patrioticos com que preparaes a entranha para a communhão
monarchica, o doce elemento feminino, o melhor encanto do triumpho, o
mais alto premio do heroismo, o mais precioso complemento da gloria! Se
a prosmicuidade dos sexos insuperavelmente vos repugna, que alguns de
vós pelo menos se sacrifiquem ás conveniencias da arte, ás prescripções
do bello, e salvem sequer as apparencias--vestindo-se de mulheres!