Quereis a definição precisamente scientifica do scepticismo? Ouvi

Buckle, o historiador da civilisação: scepticismo é a difficuldade de

crer; de sorte que o scepticismo que se augmenta é a percepção

augmentada da difficuldade de provar asserções, ou, n'outros termos, é

a applicação augmentada e a diffusão augmentada das regras do raciocinio

e das leis da evidencia. Esse sentimento de hesitação é em todo o campo

do pensamento o preliminar invariavel de todas as revoluções

intellectuaes por que tem passado o espirito humano; sem o scepticismo,

progresso, mudança, civilisação, tudo seria impossivel. Na physica é

elle o precursor necessario da sciencia; na politica o precursor da

liberdade; na religião o precursor da tolerancia.

Ora defendendo a integridade da fé, vós fazeis á philosophia este

serviço relevante: suggeris a duvida, procuraes accordar a razão

individual, a qual nunca em nenhum outro meio social se desenvolveu tão

larga e tão arrojadamente, como no seio da egreja christã, a qual apezar

de todos os seus erros e dos seus mesmos crimes, tem sido sempre o mais

forte nucleo da vida moral e o mais alto objecto de todos os grandes

desenvolvimentos da intelligencia e da vontade.

De resto entendo que o Porto, esse feliz e arrojado industrial, vos deve

ser especialmente grato e reconhecido, porque vós o dotastes com um

estabelecimento que Lisboa ainda não possue--A associação catholica da

rua da Picaria,--a qual, á similhança dos antigos moinhos do Tibet e das

cabaças rotatorias dos Kalmuks, assegura á commodidade dos habitantes um

systema permanente, uma especie de moagem mechanica, com motuo continuo,

de adorações e de preces.

* * * * *

Algumas das familias que durante a estação finda se achavam a banhos de

mar em Pedrouços, resolveram de uma vez fazer uma festa nocturna,

mysteriosa, venesiana. Tomaram um vapor da carreira de Belem,

illuminaram-o com balões de papel como as gondolas do canal da Zueca que

deslisam em frente dos terrassos do palacio Barbarigo no primeiro acto

da _Lucrecia_. Para que a commoção de todas as pessoas que tomaram parte

n'esta scena fosse profunda e illimitada, os homens tinham-se

apresentado todos vestidos como os tenores nas scenas de _barcarola_. O

jubilo era indescriptivel.

Reunida a bordo toda a sociedade, o vapor levantou ferro, e penetrou na

treva, vibrante de aventura, saturado de drama, na direcção de

Caparica.

O Tejo porém estava grosso e picado, de modo que começou a dar ao vapor

uns balanços intermittentes para um lado e para o outro como de quem

escabacea com somno. Com isto principiaram a manifestar-se com uma

insistencia progressiva os symptomas spasmodicos nos esophagos da

assembléa. Os Mazaniellos, verdes como azebre, tristes como condemnados

á morte, procurando sorrir á catastrophe com sorrisos dilacerados como

os que apresentam os cotovellos rotos, enrolavam-se nas suas capas e

prostravam-se como trôchos inuteis nos bancos da tolda. As senhoras

punham os seus lenços na bocca, corriam a mão pela testa, cuspiam

desconsoladamente no mar, e tinham ligeiros movimentos extaticos e

doloridos como de quem está escutando no ar o rumor de uma angustia que

chega.

Então o sr. Mathias Ferrari, segundo lemos no _Diario de Noticias,_ «fez

correr um abundante serviço de neve». Todos se serviram.

Os effeitos foram taes que quando os criados repassaram com a segunda

roda de sorvetes, todos os convivas, com as boccas ainda abertas,

estremeceram de horror, porque cuidaram que esses segundos gelados eram

outra vez--os primeiros.

Então um homem forte, que tinha ido para bordo armado de um violão,

tentando arrancar a companhia a uma consternação abatida e geral,

começou, a dedilhar o instrumento e a entoar uma chacara. Mas, de

repente, suspende-se, torce-se, arripiam-se-lhe os cabellos,

encurva-se-lhe a espinha dorsal, cae-lhe o violão desfallecido nos

braços das senhoras, e o resto da chacara destinada aos eccos nocturnos

do oceano e recolhida pelos circumstantes n'uma bacia.

Era immenso a bordo o desalento.

Mathias Ferrari, descorçoado, abatido, já «não fazia correr os

serviços.» Este grande confeiteiro, dominando inteiramente a situação

com a profundidade da sua critica, comprehendera--e muito bem!--que a

questão ali já não era de _fazer correr_, mas de _fazer parar_.

Era alta noite quando o vapor abicou outra vez á praia de Belem,

recolhendo-se todos perfeitissimamente satisfeitos pelo modo como se

passara tão bello tempo. Apenas, para que desembarcassem, houve o

pequeno trabalho de virar os que tinham assistido a esta festa, a mais

brilhante talvez que se tem dado no Tejo, por que os convivas em virtude

dos reiterados exforços que tinham feito no mar para puxar para fora o

interior, succedera-lhes terem-o effectivamente conseguido, e haverem

chegado todos a terra--pelo avesso.

* * * * *

Com a mais extranha commoção lemos ultimamente que fôra nomeado aio de

sua alteza o principe real sua ex.ª o sr. Martens Ferrão, abalisado

jurisconsulto e procurador geral da corôa.

* * * * *

É talvez uma bem perigosa temeridade da parte de prosaicos e obscuros

burgueses como nós somos o atrevermo-nos a meditar um momento no que

possam ser perante a educação e perante a sciencia as attribuições

especiaes de um aio junto de um principe. Todavia--debalde procurariamos

escondel-o--em presença de similhante assumpto, profunda e illimitada é

a confusão do nosso espirito. Por isso que, por mais assignaladas que se

nos representem as differenças que devem distinguir o alto e poderoso

filho de um monarcha do mero filho de um fabricante de velas de cebo,

nunca, por maiores que sejam na direcção do infinito os arrojos da nossa

phantasia curiosa, nunca podemos chegar a alcançar, nem pelas

presumpções mais vagas nem pelas mais remotas suspeitas nem pelas mais

affastadas conjecturas, qual o emprego pratico e effectivo que possa dar

um principe aos prestimos de um aio. Para satisfação de que

necessidades, de que conveniencias ou de que simples formalidades, em

que condições, em que circumstancias, em que especial momento da

preciosa e augusta vida do real infante vae sua excellencia o aio á

presença de sua alteza o principe?!... Nós o ignoramos.

Porque, quando as ordens de sua alteza procedam das necessidades do seu

espirito, das curiosidades da sua intelligencia, dos interesses da sua

instrucção, sua alteza pedirá naturalmente algum dos seus mestres ou

algum dos seus livros, e a sua alteza será então applicado um professor

de linguas, um compendio do sr. João Felix ou um numero do _Diario de

Noticias_. Quando os desejos manifestados por sua alteza dimanem das

urgencias physicas da sua naturesa, das fatalidades animaes do seu

organismo ou do seu temperamento, sua alteza pedirá o seu banho, o seu

jantar, as suas pastilhas ou o seu escarrador; e então os camaristas de

sua alteza, as suas aias e os seus escudeiros cumprirão os desejos de

sua alteza.

E não vemos, nem na ordem physica, nem na ordem moral, nem na ordem

inlellectual das relações de sua alteza com o mundo externo, a

necessidade, a conveniencia ou a plausibilidade da intervenção do aio.

A não ser que a concorrencia d'esta legendaria entidade methaphysica se

deva considerar nos reaes paços como um acepipe _hors d'oeuvre_ ou como

um objecto supplementar de recreio, porque então comprehendemos de certo

modo que ao serviço particular de sua alteza um camareiro exclame:

«Está o _lunch_ na mesa: ha _galantine_, rabanetes e o sr. Martens

Ferrão com salsa picada e manteiga fresca.» ou então: «Eis os brinquedos

de sua alteza: aqui está a bola de guttapercha e a caixa com o sr.

Martens Ferrão de engonsos.»

* * * * *

Se porém--e perdoe-se-nos esta hypothesese, sob a senhoreal e demievica

palavra «aio», devemos entender a idéa perfeitamente logica, sensata,

popular, de um preceptor pratico, de um mestre experimental, de um

amigo, de um companheiro, n'esse caso notaremos com o mais profundo

respeito a Sua Magestade a Rainha, dedicada mãe e primeira educadora do

joven principe, que foi singularmente illudida a sua perspicacia

elegendo o sr. Martens Ferrão como conselheiro official e privado de seu

filho, como guia experimentado da candida existencia inexperiente do

innocente alumno. E isto por uma razão que de nenhuma maneira desabona

os altos merecimentos de sua excellencia o actual senhor procurador

geral da corôa, antes pelo contrario os confirma e corrobora. Esta razão

é que: o sr. Martens Ferrão, pela sua natureza, pela sua organisação,

pelo seu temperamento, pelo seu caracter, pela sua biologia, é tão

inexperiente, tão candido, tão ingenuo, tão innocente e tão puro como o

proprio alumno que elle é chamado a aconselhar e a dirigir na difficil e

complicada navegação da vida.

Passando em tenros annos do regaço d'aquella que lhe deu o ser para os

braços da austera jurisprudencia, que tinha de amamental-o para a

sciencia e para a gloria, o sr. Martens Ferrão tem até hoje passado a

sua vida _en nourrice_ em casa do Direito Publico.

Os seus dias teem decorrido transcendentemente fora das condições

historicas do tempo e do espaço. A sua existencia tem sido

exclusivamente mystica e symbolica. Quando tem os seus impetos mais

ferozes de extravagancia, de anarchia, de deboche, elle sae a passear

pelas viçosas campinas da philosophia do direito e faz patuscadas

orgiacas e escandalosas com as origens celticas do direito e com as

liberdades municipaes do imperio romano. Depois o remorso apodera-se

d'elle. No dia seguinte acorda pallido, abatido, com a lingua grossa: o

espectro pavoroso e formidavel do sr. Batbie appareceu-lhe em sonhos, e

elle ouviu vozes vingadoras que lhe bradavam das profundidades da noite

e do arrependimento: «João Baptista, para onde deixaste o direito de

punir? que fizeste do direito administrativo, João? que é do direito

internacional, Baptista?!» Taes são os seus dias de mais desdem, de mais

anormalidade, de mais sexo, de mais jogo e de mais champagne! tal é o

seu despertar contricto para a legalidade, para a descentralisação

districtal e para as reformas de administração! Tal, resumidamente, é

elle! E quando dizemos _elle_, commettemos uma incerteza de

concordancia, porque tão pura, tão transcendental, tão scientifica é a

personalidade do sr. Martens Ferrão, que nada obsta a que a historia

referindo-se a sua excellencia, em vez de dizer _elle_, diga--_ella_.

Pela nossa parte, aguardando ácerca da resolução d'esse ponto as

ulteriores disposições definitivas da posteridade, diremos por emquanto

simplesmente _el_, sem a desinencia de genero, sob a respeitosa formula

neutra.

Como diziamos, pois, tal é--el.

* * * * *

Analysando, timidamente como o temos feito, a nomeação do sr. Martens

Ferrão para aio do principe real--note-se bem isto--não é a sorte de sua

alteza o que nos inspira receios sob a guarda de um tal guia ... Ah! não!

É pelo contrario o destino de sua excellencia o que nos inquieta sob a

influencia de um tal companheiro. Por _elle_ podemos estar perfeitamente

socegados. Mas _el_? o que será d'_el, el_ tão puro ou pura, tão

candido ou candida, sob os impulsos da nova existencia que

repentinamente vae no seu temeroso vertice arrebatal-o ou arrebatal-a?!

Na vida da côrte, fina, scintillante, irritavel, cheia de factos, de

commoções, de rasgos de espirito e de valor, de emboscadas, de

surpresas, de malicias, de tentações, quantos perigos, quantos laços,

quantas ratoeiras para a innocencia virginal, para a candida pureza

inexperiente e inerme d'_el!_ ...

Os principes por effeito da sua vida reclusa, claustral, vigiada,

monotona, amam naturalmente a escapada, o mysterio, a aventura, a

innocente anormalidade. Apraz-lhes a sortida arriscada, a partida

carnavalesca, o ruido dos festins secretos, a mascara inescrutavel, a

longa capa dramatica e a espada ligeira e subtil dos paladinos;--o que

se lhes deve relevar, porque é esse o unico despique dos principes para

a secca official dos intrigantes, dos bajuladores, dos ambiciosos, dos

sensaborões e dos hypocritas que ordinariamente os rodeiam. Estes porém

não são ainda para _el_ os unicos perigos. Não é licito esconder que ha

outros mais e muito mais temerosos. Pensemos nas influencias

tempestuosas d'esse elemento, terrivel para a mocidade, que se chama--a

mulher. Sentimos magoar com este promenor a pudicicia do sr. procurador

geral da corôa, mas esta é a verdade que não devemos occultar aos olhos

de sua excellencia. Diz Michelet, o casto, o austero Michelet, que em

todo o tempo a mulher attrahiu o homem, assim como a vinha da Italia

chamou os gaulezes, e a laranja da Sicilia chamou os normandos. Ellas

chamam-nos, ó srs. procuradores geraes da corôa, ellas chamam-nos!

Lembremo-nos da bella Helena, sr. Martens Ferrão, lembre-mo-nos de

Semiramis, de Cleopatra, da casta Penelope, das Sabinas!

Os principes não estão mais isemptos que os outros homens d'esta lei

geral da humanidade, e os que vivem com elles--ponderemol-o bem--ficam

sujeitos ás mesmas influencias que envolvem os reis.

Guilherme VII, cuja fé religiosa era tão ardente que elle foi á Terra

Santa com cem mil homens, o proprio Guilherme VII levou tambem na viagem

do Santo Sepulchro a galante legião das suas amantes, e diz d'elle uma

velha chronica que, bom trovador e bom cavalleiro d'armas, por muito

tempo correra o mundo _para enganar as damas_. Tal é a raça de que elles

sáem, ás vezes, quando não sáem peores que o mystico e piedoso

Guilherme! Que a actual procuradoria geral da corôa emquanto é tempo o

medite!

De Francisco I, um dos mais sabios e dos mais uteis reis que tem tido o

mundo, diz-se que ás bellas milanezas se deve a mais importante parte na

perseverança com que elle combateu pela conquista da Italia.

Sem fallarmos na cohorte das peccadoras, tão gentis como funestas, dos

_boudoirs_ de Luiz XIV e da Regencia, recordemos ainda as dissolutas e

ferozes mulheres da côrte de Carlos IX, Catharina de Medicis, Maria

Touchet, e as grosseiras amantes torpes de Luiz XI, a Gigogne e a

Passefilou ... Oh! pudor! oh decoro! oh reforma administrativa!

Suppondes que a educação, os exemplos salutares e os conselhos sabios

possam preservar os principes dos perigos das suas ligações

clandestinas? Mas quando assim pudesse ser, quantos outros riscos na

propria convivencia legal das mulheres legitimas!

Um dia Maria Laczinska, legitima mulher de Luiz XV, recusou um beijo ao

rei com o fundamento de que este cheirava a vinho. Luiz, segundo a

expressão pittoresca de um chronista das galanterias escandalosas do

seculo passado, começava então _a tomar o gosto ao champagne_. O rei

resolveu n'esse dia nefasto separar-se para sempre da rainha, e são

sabidos os desgostos e as desgraças que o rompimento d'essas relações

custou á felicidade da França e á moral da Europa. Que remorso para o

aio de Luiz XV! Foi d'elle a culpa d'esse desastre. Se o aio do joven

rei, em vez de começar _a tomar o gosto ao champagne_ juntamente com o

seu alumno, fosse, como pelo contrario devia ser, um experimentado e

antigo _soupeur_, conhecedor esperto de todas as ciladas armadas ao

homem pela bebida e pelo amor, elle teria evitado o divorcio do rei.

Tel-o-hia evitado, porque teria ensinado ao seu alumno, com a

auctoridade da experiencia, que a intemperança nas ceias e o abuso no

champagne produzem as hepatites, as predisposições para a apoplexia e

para a gotta e a manifestação das areias no rim. Se o principe não

obedecesse a estes conselhos e persistisse em ceiar, n'esse caso o seu

aio lhe faria comprehender que depois de ter bebido champagne nenhum

homem vae conversar com senhoras sem ter concluido a sua digestão e sem

haver previamente lavado a bocca com um elixir dentifrico. Um pequeno

passeio ao ar livre, uma gota de laudano ou uma pastilha, qualquer

d'estas tres coisas ministrada opportunamente por um aio intelligente e

dedicado, teria obstado ao rompimento das relações de Luiz XV com sua

mulher e a todas as consequencias que d'ahi se seguiram.

Algumas vezes succede ainda que, além de todos estes desgostos, d'estas

decepções e d'estes remorsos, os aios, os validos, os intimos dos

principes levam ainda por cima pancada das princezas. N'este ponto as

chronicas são prodigas de eloquentes e salutares avisos. Constancia de

Arles, por exemplo, mulher de Roberto Pio, tinha taes accessos furiosos

de mau genio que um dia vasou um olho do seu proprio confessor

batendo-lhe com uma bengala que tinha no castão um bico de passaro. Esta

mesma bengala nem sempre se conteve perante a pessoa inviolavel e

sagrada da real magestade, e por muitas vezes se ergueu sobre as cabeças

dos amigos mais particulares do rei para nem sempre deixar inteiros

esses craneos dedicados e fieis. Foi a mesma sobredita princeza a que de

uma vez mandou matar por occasião de um passeio, aos proprios olhos do

soberano, o ministro De Beauvais, que lhe desagradava, e que, de outra

vez impoz para o outro mundo um cortezão antipathico, estafando-o com

uma corrida que o obrigou a dar n'uma caçada.

* * * * *

Ora se a corôa tem por um lado a obrigação de escudar a infancia e a

innocencia dos principes, não deve por outro lado sacrificar a

inexperiencia inerme das instituições pondo os srs. procuradores geraes

como barreira entre as tentações e as culpas, lançando emfim a alta

magistratura ao pego tenebroso, ao Mexilhoeiro insondavel em que ha o

espumar dos vinhos capitosos, o sussurrar das sedas, o arfar dos leques,

os sorrisos tentadores e as bengalas de castão de bico.

* * * * *

Algumas das pessoas que tiveram a honra de serem admittidas a jantar com

as senhoras hispanholas que ultimamente se acharam em uso de banhos de

mar, e de emigração, em Lisboa pedem-nos a nossa intervenção para

dirigirem áquellas senhoras, aliás tão distinctas e tão interessantes,

uma pequena observação que os seus amigos mais dedicados se não atrevem

a fazer-lhes directamente.

Suas excellencias teem á mesa o terrivel habito de comerem o peixe com a

faca, o que os admiradores mais enthusiastas do fino sal de espirito de

suas excellencias e do seu poderoso encanto de maneiras, não podem

abster-se de considerar como uma concorrencia temeraria feita por suas

excellencias aos acrobatas dos jogos malabares, unicos entes que

insistem em accumular os seus meritos pessoaes com o talento

supplementar de metterem as facas pela bocca.

... Sendo certo ainda assim que os malabares que temos visto

entregarem-se a este exercicio, servem-se o seu rodovalho á parte, e

comem as facas--sem peixe!

Submettemos estas simples reflexões a suas excellencias, as quaes em

seu delicado criterio decidirão se, attentos os graves cuidados que nos

inspiram, devem ou não continuar a manter--na lista dos seus acepipes

predilectos--os faqueiros.

* * * * *

Durante este mez, tão inquieto, tão palpitante de commoções, em toda a

Europa, os principes com mão nervosa e febril cultivaram a epistola.

O Santo Padre escreveu ao imperador da Alemanha, o imperador da Alemanha

escreveu ao Santo Padre, o conde de Chambord escreveu ao deputado

Rodez-Benavent, o sr.D. Miguel de Bragança escreveu ao sr. conde da

Redinha, e a historia em geral e os redactores da _Nação_ espeialmente,

escutaram com ardor o fremito d'essas pennas riscando a face do universo

com letras um pouco menos correctas que as de Cicero, de Plinio o moço e

de madame de Sevigné.

* * * * *

O Santo Padre pede ao imperador Guilherme que obste a que o governo da

Alemanha persista na perseguição do clero catholico. O imperador

Guilherme roga a Sua Santidade que impeça o clero catholico de proseguir

na rebelião contra o governo da Alemanha.

D'este modo o Papa deseja que se retire da scena o martyrio, a grande e

bella apotheose da egreja triumphante, e lembra ao verdugo que sirva aos

martyres o antigo fel das legendas gloriosas com o moderno assucar dos

confortos policiaes.

O imperador opina que amargo de mais é o proprio calix que o obrigam a

tragar, e tirando da cabeça o seu ponderoso capacete bellico de ponta de

pára-raios, e humilhando-se dentro das suas botas de couraceiro,

elle--abatido, beato, lacrimoso--pede egualmente para as suas

tribulações de christão as correspondentes e proporcionaes doçuras.

E taes são os dois maximos guardas da fé, os dois summos representantes

na Europa moderna dos dois grandes ramos em que se acha dividida a

christandade!

Oh! Voltaire compungir-se-hia, e, franzindo n'um sorriso bom os feixes

malignos das suas sarcasticas rugas, elle, o caustico philosopho, o

livre espirito, tirando benevolo dos bolsos da sua houppelande de

veludo e martas a caixa das suas pastilhas, offereceria ás potestades

chorosas os bombons sacrilegos dos salões de Mesdames du Deffant e de de

Lambert.

* * * * *

A carta do conde de Chambord é o velho golpe astuto de Jarnac jogado ao

constitucionalismo monarchico.

O principe a quem a França offerecera a corôa burgueza de Luiz Filippe,

pergunta-lhe o que exige d'elle a França, que papel lhe destina, para

que missão o invoca.

Vós, que estaes na liberdade, na democracia, na republica, cedeis ao

invencivel appetite de acclamar um rei. Comprehendestes que é superior

aos vossos meios repressivos e reorganisadores a perturbação corrompida

da sociedade em que viveis. Duvidaes da vontade, da intelligencia, da

força do vosso accordo collectivo. Quereis uma iniciativa individual,

culminante, prestigiosa, predestinada para o mando, para o triumpho,

para a gloria; quereis o monarcha eleito como Saul «para livrar o seu

povo das mãos dos seus inimigos», segundo a formula primitiva do

propheta Samuel.

N'esse caso armae a vossa cathedral de Reims, convidae os vossos

principes do seculo e da egreja, trazei a corôa real, a espada, as

esporas, a dalmatica azul, as botinas de seda estrellada de lizes de

oiro, entregae-nos o sceptro de Carlos Magno, e dae-nos as sete uncções

de Pepino o Breve. Depois do que, nós haveremos por bem deliberar por

quaes secretos caminhos nos apraz mandar-vos, segundo as vossas

gerarchias, para a victoria, para a bemaventurança ou para a força.

Emquanto vós, tranquillos, repousados, deixareis definitivamente de

occupar-vos da coisa publica, e, sem ambições, sem principios, sem

idéas, tereis a felicidade absoluta da besta no seu aprisco; _hoc erit

jus regis qui vobis imperaturus est_.

Se, em vez d'isto porém, o que desejaes ter é, não uma força omnipotente

que vos governe, mas sim um instrumento politico que manejeis; se para

me outorgardes a corôa, precisaes de me tirar a iniciativa, a

personalidade, a dignidade de homem; se para que me julgueis inoffensivo

é preciso que eu vos mostre ser pôdre; se as garantias que me pedis para

que vos não domine são uma fraqueza, uma corrupção, uma inepcia que vos

assegurem a facilidade de me dominardes a mim, então não: não vos

convenho eu, o derradeiro dos Bourbons fundadores da monarchia absoluta

nascida dos terrores da Liga e da Saint-Barthelemy, descendente e

herdeiro de Henrique IV, o que teve a dupla coragem da força e da

miseria, o que na tomada de Cahors se bateu nas ruas durante cinco dias

consecutivos, ôlho a ôlho, dente a dente, braço a braço, o que de Dieppe

escrevia alegremente a Sully que tinha todas as camisas despedaçadas e

um gibão roto nos cotovellos!

Camille Desmoulins conta que em 1790 o poder monarchico era representado

em Londres por meio de um bailado expressivo como uma parabola. N'este

baile a primeira figura era um rei que terminava a execução de um

_entrechat_ cheio de garbo e de pompa alongando um pontapé ao fundo das

costas do seu primeiro ministro; este transmittia o pontapé real ao

segundo ministro, o qual o traspassava ao terceiro, seguindo-se a mais

viva e espirituosa corrente de pontapés que se tem visto n'uma côrte,

até que o personagem que apanhava em cheio no seu volumoso e amplo

hemispherio posterior o ultimo pontapé era o paiz--que ficava com elle.

Nas monarchias constitucionaes imaginou-se reconstituir, por meio da

carta, essa graciosa dança, alterando porém a collocação do soberano ou

a ordem dos pontapés, de maneira que ou o principe está em baixo e os

pontapés vem de cima, ou o tyranno está em cima e os pontapés vão de

baixo.

As Farpas: Chronica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes (1873-10/11) · 第 2 / 4 段