Buckle, o historiador da civilisação: scepticismo é a difficuldade de
crer; de sorte que o scepticismo que se augmenta é a percepção
augmentada da difficuldade de provar asserções, ou, n'outros termos, é
a applicação augmentada e a diffusão augmentada das regras do raciocinio
e das leis da evidencia. Esse sentimento de hesitação é em todo o campo
do pensamento o preliminar invariavel de todas as revoluções
intellectuaes por que tem passado o espirito humano; sem o scepticismo,
progresso, mudança, civilisação, tudo seria impossivel. Na physica é
elle o precursor necessario da sciencia; na politica o precursor da
liberdade; na religião o precursor da tolerancia.
Ora defendendo a integridade da fé, vós fazeis á philosophia este
serviço relevante: suggeris a duvida, procuraes accordar a razão
individual, a qual nunca em nenhum outro meio social se desenvolveu tão
larga e tão arrojadamente, como no seio da egreja christã, a qual apezar
de todos os seus erros e dos seus mesmos crimes, tem sido sempre o mais
forte nucleo da vida moral e o mais alto objecto de todos os grandes
desenvolvimentos da intelligencia e da vontade.
De resto entendo que o Porto, esse feliz e arrojado industrial, vos deve
ser especialmente grato e reconhecido, porque vós o dotastes com um
estabelecimento que Lisboa ainda não possue--A associação catholica da
rua da Picaria,--a qual, á similhança dos antigos moinhos do Tibet e das
cabaças rotatorias dos Kalmuks, assegura á commodidade dos habitantes um
systema permanente, uma especie de moagem mechanica, com motuo continuo,
de adorações e de preces.
* * * * *
Algumas das familias que durante a estação finda se achavam a banhos de
mar em Pedrouços, resolveram de uma vez fazer uma festa nocturna,
mysteriosa, venesiana. Tomaram um vapor da carreira de Belem,
illuminaram-o com balões de papel como as gondolas do canal da Zueca que
deslisam em frente dos terrassos do palacio Barbarigo no primeiro acto
da _Lucrecia_. Para que a commoção de todas as pessoas que tomaram parte
n'esta scena fosse profunda e illimitada, os homens tinham-se
apresentado todos vestidos como os tenores nas scenas de _barcarola_. O
jubilo era indescriptivel.
Reunida a bordo toda a sociedade, o vapor levantou ferro, e penetrou na
treva, vibrante de aventura, saturado de drama, na direcção de
Caparica.
O Tejo porém estava grosso e picado, de modo que começou a dar ao vapor
uns balanços intermittentes para um lado e para o outro como de quem
escabacea com somno. Com isto principiaram a manifestar-se com uma
insistencia progressiva os symptomas spasmodicos nos esophagos da
assembléa. Os Mazaniellos, verdes como azebre, tristes como condemnados
á morte, procurando sorrir á catastrophe com sorrisos dilacerados como
os que apresentam os cotovellos rotos, enrolavam-se nas suas capas e
prostravam-se como trôchos inuteis nos bancos da tolda. As senhoras
punham os seus lenços na bocca, corriam a mão pela testa, cuspiam
desconsoladamente no mar, e tinham ligeiros movimentos extaticos e
doloridos como de quem está escutando no ar o rumor de uma angustia que
chega.
Então o sr. Mathias Ferrari, segundo lemos no _Diario de Noticias,_ «fez
correr um abundante serviço de neve». Todos se serviram.
Os effeitos foram taes que quando os criados repassaram com a segunda
roda de sorvetes, todos os convivas, com as boccas ainda abertas,
estremeceram de horror, porque cuidaram que esses segundos gelados eram
outra vez--os primeiros.
Então um homem forte, que tinha ido para bordo armado de um violão,
tentando arrancar a companhia a uma consternação abatida e geral,
começou, a dedilhar o instrumento e a entoar uma chacara. Mas, de
repente, suspende-se, torce-se, arripiam-se-lhe os cabellos,
encurva-se-lhe a espinha dorsal, cae-lhe o violão desfallecido nos
braços das senhoras, e o resto da chacara destinada aos eccos nocturnos
do oceano e recolhida pelos circumstantes n'uma bacia.
Era immenso a bordo o desalento.
Mathias Ferrari, descorçoado, abatido, já «não fazia correr os
serviços.» Este grande confeiteiro, dominando inteiramente a situação
com a profundidade da sua critica, comprehendera--e muito bem!--que a
questão ali já não era de _fazer correr_, mas de _fazer parar_.
Era alta noite quando o vapor abicou outra vez á praia de Belem,
recolhendo-se todos perfeitissimamente satisfeitos pelo modo como se
passara tão bello tempo. Apenas, para que desembarcassem, houve o
pequeno trabalho de virar os que tinham assistido a esta festa, a mais
brilhante talvez que se tem dado no Tejo, por que os convivas em virtude
dos reiterados exforços que tinham feito no mar para puxar para fora o
interior, succedera-lhes terem-o effectivamente conseguido, e haverem
chegado todos a terra--pelo avesso.
* * * * *
Com a mais extranha commoção lemos ultimamente que fôra nomeado aio de
sua alteza o principe real sua ex.ª o sr. Martens Ferrão, abalisado
jurisconsulto e procurador geral da corôa.
* * * * *
É talvez uma bem perigosa temeridade da parte de prosaicos e obscuros
burgueses como nós somos o atrevermo-nos a meditar um momento no que
possam ser perante a educação e perante a sciencia as attribuições
especiaes de um aio junto de um principe. Todavia--debalde procurariamos
escondel-o--em presença de similhante assumpto, profunda e illimitada é
a confusão do nosso espirito. Por isso que, por mais assignaladas que se
nos representem as differenças que devem distinguir o alto e poderoso
filho de um monarcha do mero filho de um fabricante de velas de cebo,
nunca, por maiores que sejam na direcção do infinito os arrojos da nossa
phantasia curiosa, nunca podemos chegar a alcançar, nem pelas
presumpções mais vagas nem pelas mais remotas suspeitas nem pelas mais
affastadas conjecturas, qual o emprego pratico e effectivo que possa dar
um principe aos prestimos de um aio. Para satisfação de que
necessidades, de que conveniencias ou de que simples formalidades, em
que condições, em que circumstancias, em que especial momento da
preciosa e augusta vida do real infante vae sua excellencia o aio á
presença de sua alteza o principe?!... Nós o ignoramos.
Porque, quando as ordens de sua alteza procedam das necessidades do seu
espirito, das curiosidades da sua intelligencia, dos interesses da sua
instrucção, sua alteza pedirá naturalmente algum dos seus mestres ou
algum dos seus livros, e a sua alteza será então applicado um professor
de linguas, um compendio do sr. João Felix ou um numero do _Diario de
Noticias_. Quando os desejos manifestados por sua alteza dimanem das
urgencias physicas da sua naturesa, das fatalidades animaes do seu
organismo ou do seu temperamento, sua alteza pedirá o seu banho, o seu
jantar, as suas pastilhas ou o seu escarrador; e então os camaristas de
sua alteza, as suas aias e os seus escudeiros cumprirão os desejos de
sua alteza.
E não vemos, nem na ordem physica, nem na ordem moral, nem na ordem
inlellectual das relações de sua alteza com o mundo externo, a
necessidade, a conveniencia ou a plausibilidade da intervenção do aio.
A não ser que a concorrencia d'esta legendaria entidade methaphysica se
deva considerar nos reaes paços como um acepipe _hors d'oeuvre_ ou como
um objecto supplementar de recreio, porque então comprehendemos de certo
modo que ao serviço particular de sua alteza um camareiro exclame:
«Está o _lunch_ na mesa: ha _galantine_, rabanetes e o sr. Martens
Ferrão com salsa picada e manteiga fresca.» ou então: «Eis os brinquedos
de sua alteza: aqui está a bola de guttapercha e a caixa com o sr.
Martens Ferrão de engonsos.»
* * * * *
Se porém--e perdoe-se-nos esta hypothesese, sob a senhoreal e demievica
palavra «aio», devemos entender a idéa perfeitamente logica, sensata,
popular, de um preceptor pratico, de um mestre experimental, de um
amigo, de um companheiro, n'esse caso notaremos com o mais profundo
respeito a Sua Magestade a Rainha, dedicada mãe e primeira educadora do
joven principe, que foi singularmente illudida a sua perspicacia
elegendo o sr. Martens Ferrão como conselheiro official e privado de seu
filho, como guia experimentado da candida existencia inexperiente do
innocente alumno. E isto por uma razão que de nenhuma maneira desabona
os altos merecimentos de sua excellencia o actual senhor procurador
geral da corôa, antes pelo contrario os confirma e corrobora. Esta razão
é que: o sr. Martens Ferrão, pela sua natureza, pela sua organisação,
pelo seu temperamento, pelo seu caracter, pela sua biologia, é tão
inexperiente, tão candido, tão ingenuo, tão innocente e tão puro como o
proprio alumno que elle é chamado a aconselhar e a dirigir na difficil e
complicada navegação da vida.
Passando em tenros annos do regaço d'aquella que lhe deu o ser para os
braços da austera jurisprudencia, que tinha de amamental-o para a
sciencia e para a gloria, o sr. Martens Ferrão tem até hoje passado a
sua vida _en nourrice_ em casa do Direito Publico.
Os seus dias teem decorrido transcendentemente fora das condições
historicas do tempo e do espaço. A sua existencia tem sido
exclusivamente mystica e symbolica. Quando tem os seus impetos mais
ferozes de extravagancia, de anarchia, de deboche, elle sae a passear
pelas viçosas campinas da philosophia do direito e faz patuscadas
orgiacas e escandalosas com as origens celticas do direito e com as
liberdades municipaes do imperio romano. Depois o remorso apodera-se
d'elle. No dia seguinte acorda pallido, abatido, com a lingua grossa: o
espectro pavoroso e formidavel do sr. Batbie appareceu-lhe em sonhos, e
elle ouviu vozes vingadoras que lhe bradavam das profundidades da noite
e do arrependimento: «João Baptista, para onde deixaste o direito de
punir? que fizeste do direito administrativo, João? que é do direito
internacional, Baptista?!» Taes são os seus dias de mais desdem, de mais
anormalidade, de mais sexo, de mais jogo e de mais champagne! tal é o
seu despertar contricto para a legalidade, para a descentralisação
districtal e para as reformas de administração! Tal, resumidamente, é
elle! E quando dizemos _elle_, commettemos uma incerteza de
concordancia, porque tão pura, tão transcendental, tão scientifica é a
personalidade do sr. Martens Ferrão, que nada obsta a que a historia
referindo-se a sua excellencia, em vez de dizer _elle_, diga--_ella_.
Pela nossa parte, aguardando ácerca da resolução d'esse ponto as
ulteriores disposições definitivas da posteridade, diremos por emquanto
simplesmente _el_, sem a desinencia de genero, sob a respeitosa formula
neutra.
Como diziamos, pois, tal é--el.
* * * * *
Analysando, timidamente como o temos feito, a nomeação do sr. Martens
Ferrão para aio do principe real--note-se bem isto--não é a sorte de sua
alteza o que nos inspira receios sob a guarda de um tal guia ... Ah! não!
É pelo contrario o destino de sua excellencia o que nos inquieta sob a
influencia de um tal companheiro. Por _elle_ podemos estar perfeitamente
socegados. Mas _el_? o que será d'_el, el_ tão puro ou pura, tão
candido ou candida, sob os impulsos da nova existencia que
repentinamente vae no seu temeroso vertice arrebatal-o ou arrebatal-a?!
Na vida da côrte, fina, scintillante, irritavel, cheia de factos, de
commoções, de rasgos de espirito e de valor, de emboscadas, de
surpresas, de malicias, de tentações, quantos perigos, quantos laços,
quantas ratoeiras para a innocencia virginal, para a candida pureza
inexperiente e inerme d'_el!_ ...
Os principes por effeito da sua vida reclusa, claustral, vigiada,
monotona, amam naturalmente a escapada, o mysterio, a aventura, a
innocente anormalidade. Apraz-lhes a sortida arriscada, a partida
carnavalesca, o ruido dos festins secretos, a mascara inescrutavel, a
longa capa dramatica e a espada ligeira e subtil dos paladinos;--o que
se lhes deve relevar, porque é esse o unico despique dos principes para
a secca official dos intrigantes, dos bajuladores, dos ambiciosos, dos
sensaborões e dos hypocritas que ordinariamente os rodeiam. Estes porém
não são ainda para _el_ os unicos perigos. Não é licito esconder que ha
outros mais e muito mais temerosos. Pensemos nas influencias
tempestuosas d'esse elemento, terrivel para a mocidade, que se chama--a
mulher. Sentimos magoar com este promenor a pudicicia do sr. procurador
geral da corôa, mas esta é a verdade que não devemos occultar aos olhos
de sua excellencia. Diz Michelet, o casto, o austero Michelet, que em
todo o tempo a mulher attrahiu o homem, assim como a vinha da Italia
chamou os gaulezes, e a laranja da Sicilia chamou os normandos. Ellas
chamam-nos, ó srs. procuradores geraes da corôa, ellas chamam-nos!
Lembremo-nos da bella Helena, sr. Martens Ferrão, lembre-mo-nos de
Semiramis, de Cleopatra, da casta Penelope, das Sabinas!
Os principes não estão mais isemptos que os outros homens d'esta lei
geral da humanidade, e os que vivem com elles--ponderemol-o bem--ficam
sujeitos ás mesmas influencias que envolvem os reis.
Guilherme VII, cuja fé religiosa era tão ardente que elle foi á Terra
Santa com cem mil homens, o proprio Guilherme VII levou tambem na viagem
do Santo Sepulchro a galante legião das suas amantes, e diz d'elle uma
velha chronica que, bom trovador e bom cavalleiro d'armas, por muito
tempo correra o mundo _para enganar as damas_. Tal é a raça de que elles
sáem, ás vezes, quando não sáem peores que o mystico e piedoso
Guilherme! Que a actual procuradoria geral da corôa emquanto é tempo o
medite!
De Francisco I, um dos mais sabios e dos mais uteis reis que tem tido o
mundo, diz-se que ás bellas milanezas se deve a mais importante parte na
perseverança com que elle combateu pela conquista da Italia.
Sem fallarmos na cohorte das peccadoras, tão gentis como funestas, dos
_boudoirs_ de Luiz XIV e da Regencia, recordemos ainda as dissolutas e
ferozes mulheres da côrte de Carlos IX, Catharina de Medicis, Maria
Touchet, e as grosseiras amantes torpes de Luiz XI, a Gigogne e a
Passefilou ... Oh! pudor! oh decoro! oh reforma administrativa!
Suppondes que a educação, os exemplos salutares e os conselhos sabios
possam preservar os principes dos perigos das suas ligações
clandestinas? Mas quando assim pudesse ser, quantos outros riscos na
propria convivencia legal das mulheres legitimas!
Um dia Maria Laczinska, legitima mulher de Luiz XV, recusou um beijo ao
rei com o fundamento de que este cheirava a vinho. Luiz, segundo a
expressão pittoresca de um chronista das galanterias escandalosas do
seculo passado, começava então _a tomar o gosto ao champagne_. O rei
resolveu n'esse dia nefasto separar-se para sempre da rainha, e são
sabidos os desgostos e as desgraças que o rompimento d'essas relações
custou á felicidade da França e á moral da Europa. Que remorso para o
aio de Luiz XV! Foi d'elle a culpa d'esse desastre. Se o aio do joven
rei, em vez de começar _a tomar o gosto ao champagne_ juntamente com o
seu alumno, fosse, como pelo contrario devia ser, um experimentado e
antigo _soupeur_, conhecedor esperto de todas as ciladas armadas ao
homem pela bebida e pelo amor, elle teria evitado o divorcio do rei.
Tel-o-hia evitado, porque teria ensinado ao seu alumno, com a
auctoridade da experiencia, que a intemperança nas ceias e o abuso no
champagne produzem as hepatites, as predisposições para a apoplexia e
para a gotta e a manifestação das areias no rim. Se o principe não
obedecesse a estes conselhos e persistisse em ceiar, n'esse caso o seu
aio lhe faria comprehender que depois de ter bebido champagne nenhum
homem vae conversar com senhoras sem ter concluido a sua digestão e sem
haver previamente lavado a bocca com um elixir dentifrico. Um pequeno
passeio ao ar livre, uma gota de laudano ou uma pastilha, qualquer
d'estas tres coisas ministrada opportunamente por um aio intelligente e
dedicado, teria obstado ao rompimento das relações de Luiz XV com sua
mulher e a todas as consequencias que d'ahi se seguiram.
Algumas vezes succede ainda que, além de todos estes desgostos, d'estas
decepções e d'estes remorsos, os aios, os validos, os intimos dos
principes levam ainda por cima pancada das princezas. N'este ponto as
chronicas são prodigas de eloquentes e salutares avisos. Constancia de
Arles, por exemplo, mulher de Roberto Pio, tinha taes accessos furiosos
de mau genio que um dia vasou um olho do seu proprio confessor
batendo-lhe com uma bengala que tinha no castão um bico de passaro. Esta
mesma bengala nem sempre se conteve perante a pessoa inviolavel e
sagrada da real magestade, e por muitas vezes se ergueu sobre as cabeças
dos amigos mais particulares do rei para nem sempre deixar inteiros
esses craneos dedicados e fieis. Foi a mesma sobredita princeza a que de
uma vez mandou matar por occasião de um passeio, aos proprios olhos do
soberano, o ministro De Beauvais, que lhe desagradava, e que, de outra
vez impoz para o outro mundo um cortezão antipathico, estafando-o com
uma corrida que o obrigou a dar n'uma caçada.
* * * * *
Ora se a corôa tem por um lado a obrigação de escudar a infancia e a
innocencia dos principes, não deve por outro lado sacrificar a
inexperiencia inerme das instituições pondo os srs. procuradores geraes
como barreira entre as tentações e as culpas, lançando emfim a alta
magistratura ao pego tenebroso, ao Mexilhoeiro insondavel em que ha o
espumar dos vinhos capitosos, o sussurrar das sedas, o arfar dos leques,
os sorrisos tentadores e as bengalas de castão de bico.
* * * * *
Algumas das pessoas que tiveram a honra de serem admittidas a jantar com
as senhoras hispanholas que ultimamente se acharam em uso de banhos de
mar, e de emigração, em Lisboa pedem-nos a nossa intervenção para
dirigirem áquellas senhoras, aliás tão distinctas e tão interessantes,
uma pequena observação que os seus amigos mais dedicados se não atrevem
a fazer-lhes directamente.
Suas excellencias teem á mesa o terrivel habito de comerem o peixe com a
faca, o que os admiradores mais enthusiastas do fino sal de espirito de
suas excellencias e do seu poderoso encanto de maneiras, não podem
abster-se de considerar como uma concorrencia temeraria feita por suas
excellencias aos acrobatas dos jogos malabares, unicos entes que
insistem em accumular os seus meritos pessoaes com o talento
supplementar de metterem as facas pela bocca.
... Sendo certo ainda assim que os malabares que temos visto
entregarem-se a este exercicio, servem-se o seu rodovalho á parte, e
comem as facas--sem peixe!
Submettemos estas simples reflexões a suas excellencias, as quaes em
seu delicado criterio decidirão se, attentos os graves cuidados que nos
inspiram, devem ou não continuar a manter--na lista dos seus acepipes
predilectos--os faqueiros.
* * * * *
Durante este mez, tão inquieto, tão palpitante de commoções, em toda a
Europa, os principes com mão nervosa e febril cultivaram a epistola.
O Santo Padre escreveu ao imperador da Alemanha, o imperador da Alemanha
escreveu ao Santo Padre, o conde de Chambord escreveu ao deputado
Rodez-Benavent, o sr.D. Miguel de Bragança escreveu ao sr. conde da
Redinha, e a historia em geral e os redactores da _Nação_ espeialmente,
escutaram com ardor o fremito d'essas pennas riscando a face do universo
com letras um pouco menos correctas que as de Cicero, de Plinio o moço e
de madame de Sevigné.
* * * * *
O Santo Padre pede ao imperador Guilherme que obste a que o governo da
Alemanha persista na perseguição do clero catholico. O imperador
Guilherme roga a Sua Santidade que impeça o clero catholico de proseguir
na rebelião contra o governo da Alemanha.
D'este modo o Papa deseja que se retire da scena o martyrio, a grande e
bella apotheose da egreja triumphante, e lembra ao verdugo que sirva aos
martyres o antigo fel das legendas gloriosas com o moderno assucar dos
confortos policiaes.
O imperador opina que amargo de mais é o proprio calix que o obrigam a
tragar, e tirando da cabeça o seu ponderoso capacete bellico de ponta de
pára-raios, e humilhando-se dentro das suas botas de couraceiro,
elle--abatido, beato, lacrimoso--pede egualmente para as suas
tribulações de christão as correspondentes e proporcionaes doçuras.
E taes são os dois maximos guardas da fé, os dois summos representantes
na Europa moderna dos dois grandes ramos em que se acha dividida a
christandade!
Oh! Voltaire compungir-se-hia, e, franzindo n'um sorriso bom os feixes
malignos das suas sarcasticas rugas, elle, o caustico philosopho, o
livre espirito, tirando benevolo dos bolsos da sua houppelande de
veludo e martas a caixa das suas pastilhas, offereceria ás potestades
chorosas os bombons sacrilegos dos salões de Mesdames du Deffant e de de
Lambert.
* * * * *
A carta do conde de Chambord é o velho golpe astuto de Jarnac jogado ao
constitucionalismo monarchico.
O principe a quem a França offerecera a corôa burgueza de Luiz Filippe,
pergunta-lhe o que exige d'elle a França, que papel lhe destina, para
que missão o invoca.
Vós, que estaes na liberdade, na democracia, na republica, cedeis ao
invencivel appetite de acclamar um rei. Comprehendestes que é superior
aos vossos meios repressivos e reorganisadores a perturbação corrompida
da sociedade em que viveis. Duvidaes da vontade, da intelligencia, da
força do vosso accordo collectivo. Quereis uma iniciativa individual,
culminante, prestigiosa, predestinada para o mando, para o triumpho,
para a gloria; quereis o monarcha eleito como Saul «para livrar o seu
povo das mãos dos seus inimigos», segundo a formula primitiva do
propheta Samuel.
N'esse caso armae a vossa cathedral de Reims, convidae os vossos
principes do seculo e da egreja, trazei a corôa real, a espada, as
esporas, a dalmatica azul, as botinas de seda estrellada de lizes de
oiro, entregae-nos o sceptro de Carlos Magno, e dae-nos as sete uncções
de Pepino o Breve. Depois do que, nós haveremos por bem deliberar por
quaes secretos caminhos nos apraz mandar-vos, segundo as vossas
gerarchias, para a victoria, para a bemaventurança ou para a força.
Emquanto vós, tranquillos, repousados, deixareis definitivamente de
occupar-vos da coisa publica, e, sem ambições, sem principios, sem
idéas, tereis a felicidade absoluta da besta no seu aprisco; _hoc erit
jus regis qui vobis imperaturus est_.
Se, em vez d'isto porém, o que desejaes ter é, não uma força omnipotente
que vos governe, mas sim um instrumento politico que manejeis; se para
me outorgardes a corôa, precisaes de me tirar a iniciativa, a
personalidade, a dignidade de homem; se para que me julgueis inoffensivo
é preciso que eu vos mostre ser pôdre; se as garantias que me pedis para
que vos não domine são uma fraqueza, uma corrupção, uma inepcia que vos
assegurem a facilidade de me dominardes a mim, então não: não vos
convenho eu, o derradeiro dos Bourbons fundadores da monarchia absoluta
nascida dos terrores da Liga e da Saint-Barthelemy, descendente e
herdeiro de Henrique IV, o que teve a dupla coragem da força e da
miseria, o que na tomada de Cahors se bateu nas ruas durante cinco dias
consecutivos, ôlho a ôlho, dente a dente, braço a braço, o que de Dieppe
escrevia alegremente a Sully que tinha todas as camisas despedaçadas e
um gibão roto nos cotovellos!
Camille Desmoulins conta que em 1790 o poder monarchico era representado
em Londres por meio de um bailado expressivo como uma parabola. N'este
baile a primeira figura era um rei que terminava a execução de um
_entrechat_ cheio de garbo e de pompa alongando um pontapé ao fundo das
costas do seu primeiro ministro; este transmittia o pontapé real ao
segundo ministro, o qual o traspassava ao terceiro, seguindo-se a mais
viva e espirituosa corrente de pontapés que se tem visto n'uma côrte,
até que o personagem que apanhava em cheio no seu volumoso e amplo
hemispherio posterior o ultimo pontapé era o paiz--que ficava com elle.
Nas monarchias constitucionaes imaginou-se reconstituir, por meio da
carta, essa graciosa dança, alterando porém a collocação do soberano ou
a ordem dos pontapés, de maneira que ou o principe está em baixo e os
pontapés vem de cima, ou o tyranno está em cima e os pontapés vão de
baixo.