maiores! animo, senhores ministros de estado! É por ellas, que vos
pedimos isto, pelas que tiveram sempre o seu logar nas nossas gloriosas
tradicções dymnasticas! Lembrae-vos d'ellas, e ide lançar-vos aos pés da
Aline! Lembrae-vos d'ellas, e consenti em decotardes os vossos hombros!
Elanguescei, meus senhores, reclinae meigamente as frontes, cerrae
levemente as palpebras, agitae um pouco os vossos leques, dae suspiros,
ponde tações de setim escarlate, vinde de cuia! e, sobretudo--não o
esqueçaes--trazei _tournure_ ... Que vos custa trazer _tournure_? Uma
coisa tão facil, que se traz como as patronas!
É pelo throno, pelo mesmo throno de que vos declaraes adeptos, que vos
supplicamos isto! é pelas vossas excelsas e augustas soberanas, não
representadas no vosso banquete ... Em nome de Mecia Lopes, meus
senhores! Em nome de D. Urraca!
* * * * *
A imprensa de Lisboa não tem opinião. Aquelles dos seus membros que por
excepção presentem as idéas proprias, vivas, originaes zumbindo-lhes
importunamente no cerebro, enxotam-as como vespas venenosas. É que a
missão do jornalismo portuguez não é ter idéas suas, é transmittir as
idéas dos outros. Por tal razão em Lisboa o homem que pensa não é nunca
o homem que escreve. O jornalista nunca se concentra, nunca se recolhe
com o seu problema para o meditar, para o estudar, para o resolver.
Nunca procura a verdade. Procura apenas a solução achada pelo publico,
pelo publico d'elle, pelo seu partido politico, pelos consocios do seu
club, pelos seus amigos, pelos seus protectores, pelos seus assignantes.
Portanto trabalha na rua, debaixo da arcada do Terreiro do Paço, nos
corredores ou nas tribunas de S. Bento, no Chiado, no Martinho, no
Gremio. Como trabalha? Trabalha d'este modo: _informando-se_;--é o termo
technico. Uma vez informado, o jornalista considera-se instruido. Desde
que tem a informação recebida tem o jornal feito. O que elle vos escreve
hoje--notae-o bem--é o que vós lhes dissestes hontem. O jornal não é uma
fonte de critica, de analyse, de investigação. O jornal é o barril de
transporte das idéas em circulação, das soluções previamente recebidas e
approvadas pelo consenso publico. O jornalista é o aguadeiro submisso e
fiel da opinião. Não a dirige, não a corrige, não a modifica, não a
tempera. O unico serviço que lhe faz é este: transporta-a dos centros
publicos aos domicilios particulares. O publico é a nascente, é o veio,
é o manancial; a imprensa periodica é simplesmente--o cano.
* * * * *
Essa é a lei geral da conducta da publicidade em Portugal. Toda a
transgressão d'essa lei é um eminente perigo para o que a commette. O
leitor portuguez não quer que o seu livro ou o seu periodico o obriguem
ás fadigas da discussão e da controversia com o seu proprio espirito. A
conquista desinteressada e pura da verdade não tem attractivo algum para
as suas faculdades. As curiosidades e os interesses especiaes da alma
portugueza repastam-se no sentimento: a reflexão molesta-a. Entre tantos
escriptores nacionaes nunca houve um pensador. Descartes, Spinosa, Kant
seriam inteiramente impossiveis no seio d'esta sociedade, a que falta a
respiração logo que a tirem da rotina. Não se lhes dá, aos leitores
portuguezes, de verem a verdade, mas querem a verdade atravez da
opinião. Ninguem pensa fóra das materias da ordem do dia. «Que ha de
novo?» é a nossa pergunta de todas as manhãs. Esta phrase profundamente
caracteristica quer dizer: «Dêem-me a senha e a contrasenha; digam-me em
que pensam para eu saber o que hei do pensar.» O meu jornal vem bom ou
vem mau segundo é ou não é em cada dia a expressão das minhas convicções
baseadas em idéas preconcebidas na convivencia do publico. O criterio é
substituido pelo _mot d'ordre_.
Se n'um tal meio intellectual apparece um miseravel solitario, que não
tem um partido, que não tem um centro, que não tem um _club_, que não
tem sequer um botequim, mas que, não obstante, segue os successos do seu
tempo e exprime a respeito d'elles uma opinião absolutamente individual,
isto é--livre, sobre esse homem cáem todas as suspeitas, todas as
presumpções malevolas que acompanham atravez de uma multidão apalavrada
um intruso mysterioso e sinistro. Tal é a especie de acolhimento que por
differentes vezes nos tem sido feito e que mais particularmente nos foi
manifestado depois da publicação do nosso ultimo numero a proposito de
dois artigos, um consagrado ao sr. Alexandre Herculano, outro destinado
á casa de correcção installada no convento das Monicas.
* * * * *
Lemos alguns dos artigos que nos foram consagrados, e achamo-nos
inteiramente edificados ácerca do nosso desacato ás instituições
publicas e da nossa irreverencia com as glorias nacionaes.
Sómente, meus senhores, uma coisa nos parece ter-vos esquecido, e é:
demonstrar-nos que a reverencia das instituições e o respeito das
celebridades gloriosas seja um instrumento de critica ou um meio de
analyse. Porque nós--talvez o não tenhaes comprehendido bem--nós não
somos propriamente os mestres de ceremonias da geração a que
pertencemos. Não estamos aqui a leccionar mesuras nem a praticar
experiencias sobre a variedade das curvas mais ou menos inclinadas a que
se nos presta o espinhaço. Nós somos apenas uns simples chronistas do
tempo que vamos atravessando. Somos os contribuintes especiaes do mez
para a historia geral do seculo. Ora não será pondo-nos humildemente de
cocoras no chão que nós veremos de mais alto as coisas e os homens. No
exame e na apreciação dos factos o minimo vislumbre do respeito é um
perigo da verdade. Michelet, demolindo no seu ultimo livro a legenda
napoleonica filha da reverencia da historia pelo falso heroismo de
Bonaparte, mostra-nos que a fascinação grosseira produzida pelo «heroe
de Marengo e de Austerlitz» teria cahido perante o bom senso e perante a
gargalhada, se a França não tivesse perdido, depois do Terror, o riso, a
sua grande arma contra os tyrannos.
O primeiro dever da critica diante dos grandes acontecimentos e dos
grandes personagens é simplesmente o despreso ou a zombaria ... Michelet
diz mesmo «o sacrilegio» como instrumento da verdade! e aconselha-nos
que imitemos como historiadores o exemplo de Renaud de Montauband
pegando n'um tição para barbear Carlos Magno.
* * * * *
De resto, meus senhores, para que se mantenham na decencia do culto as
tradições patrioticas, parece-nos inutil que nós nos occupemos d'isso.
Lá estaes vós, diligentes e sollitos, para espanardes as teias da aranha
aos velhos principios, para varrerdes as instituições veneraveis, e para
conservardes em bom estado os heroes e os sabios, limpando-lhes as golas
das sobrecasacas, engraxando-lhes os sapatos e pondo-lhes rapé novo no
nariz.
* * * * *
Chegámos tarde para fallar da grande tragedia monumentosa do
Mexilhoeiro. O paiz inteiro se pronunciou já sobre este caso, o maior da
historia contemporanea. O facto tem sido largamente tratado em artigos
de jornaes, em folhetins, em trechos de romance, em pias legendas, em
dramas, em _te-deuns_ cantados em todas as cathedraes, em polkas
expressivas, em missas rezadas em todas as egrejas, em felicitações de
todos os municipios, em sentimentaes mazurkas.
Uma só coisa nos parece que falta, e é a que propomos: um monumento que
eternise tão alto successo, levando ás gerações vindouras esta lapide:
AOS MOLHADOS
POR UMA FRIA TARDE
NO PEGO DO MEXILHOEIRO
A GLORIA
RECONHECE N'ESTE MONUMENTO
OS IRREFRAGAVEIS DIREITOS
DE TÃO ILLUSTRES VICTIMAS
Á
CONSTIPAÇÃO
INDEX
_Dos volumes d'esta chronica_
PUBLICADOS ATÉ HOJE
I--Maio................... 1871
II--Junho.................. »
III--Julho.................. »
IV--Agosto................. »
V--Setembro............... »
VI--Outubro................ »
VII--Novembro............... »
VIII--Dezembro............... »
IX--Janeiro................ 1872
X--Fevereiro.............. »
XI--Março.................. »
XII--Abril.................. »
XIII--Junho a julho.......... »
XIV--Julho a agosto......... »
XV--Setembro a outubro..... »
XVI--Novembro............... »
XVII--Dezembro............... »
XVIII--Janeiro a fevereiro.... 1873
XIX--Março a abril.......... »
XX--Outubro a novembro..... »
Nota. D'hora ávante cada um dos volumes d'esta publicação será marcado
com o correspondente numero.