Advirtamos agora como a associação catholica tem correspondi

[Illustration: AS FARPAS. R. ORTIGÃO. EÇA DE QUEIROZ]

RAMALHO ORTIGÃO--EÇA DE QUEIROZ

AS FARPAS

CHRONICA MENSAL DA POLITICA, DAS LETRAS E DOS COSTUMES

3.º ANNO

Outubro a Novembro de 1873

VOLUME XX

Ironia, verdadeira liberdade! És tu que me livras da ambição do poder,

da escravidão dos partidos, da veneração da rotina, do pedantismo das

sciencias, da admiração das grandes personagens, das mystificações da

politica, do fanatismo dos reformadores, da superstição d'este grande

universo, e da adoração de mim mesmo.

P.J. Proudhon.

SUMMARIO

Regresso. Explicações--Historia de uns pés--Modos de morrer. Os

Lovelaces do sepulchro. Os descamisados da cova--Epistola aos catholicos

do Porto. A associação catholica, seus fins, seus meios, sua

organisação, seu programma. O catholicismo. A egreja refugio da

liberdade. As propagandas catholicas em França e na Italia. Manzoni,

Rosmini, Balbo, Chateaubriand, Lamartine, o sr. conde de Samodães. Os

padres portuguezes. O liberal, o reaccionario, o indifferente. O

confissionario. As academias da rua da Picaria. A mulher christã. O

partido liberal portuense e a infallibilidade do papa. O protestantismo

do sr. Bismark. O seculo XVI. Theoria do scepticismo. A duvida na

politica, na sciencia, na religião. A tolerancia--Festa veneziana nas

aguas de Caparica--O aio de sua alteza. O que é o aio? O perfil do sr.

Martens Ferrão. A corte, a mocidade, a aventura, os tações encarnados,

as espadas dos paladinos. Semiramis, Cleopatra, Penelope e outras. A

regencia. O beijo de Maria Laczinska. A bengala de Constancia de

Arbes--As senhoras hispanholas e os faqueiros--O santo padre, o

imperador Guilherme, o martyrio e as pastilhas de Voltaire. O conde de

Chambord e o constitucionalismo. Saul, Pepino, Henrique IV. Historia

philosophica dos pontapés nas monarchias modernas--Perfil do sr. D.

Miguel de Bragança e influencia politica d'este rei, o seu typo

physionomico, o seu temperamento, a sua popularidade. De como se

fabricou o partido liberal portuguez. O João Sedvem, o José da Policia,

o Telles Jordão e a idéa nova. De como o actual principe D. Miguel é

anemico--O jornalismo, as idéas, os aguadeiros da opinião publica--O

drama do Mexilhoeiro--A falta do elemento feminino nos banquetes

patrioticos.

Leitor querido--Depois de uma longa abstenção de tres mezes--os mezes do

verão--_As Farpas_ voltam a apparecer no teu banquete ao mesmo tempo a

que recomeçam a servir-se tambem as ostras.

Á similhança dos mariscos, qu não é bom comerem-se nos mezes que não

teem r, estas paginas condimentosas e estimulantes, se abusasses d'ellas

no tempo quente, amigo, far-te-hian, talvez, furunculos.

* * * * *

Além de que, o verão tem influencias de expansibilidade que

desconcentram a vida da esphera das suas condições normaes. É a epoca

das viagens, dos banhos, das estações do campo. Abandona cada um o

interior da sua casa, os seus habitos, as suas occupações, a sua

hygiene, o seu trabalho. Fórma-se uma existencia interina, transitoria,

supplementar. Está-se em uma casa alugada por dois mezes como hospede de

uma noite n'uma estalagem. Não se reside; pernoita-se apenas, e

passam-se os dias. Com a supensão do trabalho esterilisam-se tambem as

idéas, porque todo o trabalho é uma fecundação da intelligencia. Assim

todo o ser humano temporariamente transplantado da parte de solo, de

atmosphera moral, em que ordinariamente exerce a sua actividade,

emurchece. O portuguez, que sempre lê pouco, no verão então não lê nada.

Achei-me por muitas vezes durante a estação finda a bordo dos pequenos

vapores que fazem o transporte dos banhistas entre Lisboa e as praias.

Os setenta minutos d'estas breves viagens eram o tempo consagrado por

cada um para, por meio da leitura, pôr as suas idéas em relação com os

interesses intellectuaes e moraes do resto do mundo. Fóra do convez dos

vapores de Belem ninguem nas praias lê, ninguem tem comsigo um livro.

Isto não é uma simples hypothese, é uma observação positiva. Em

Pedroiços, por exemplo, a vida--toda de porta da rua--é transparente:

vê-se o que cada um faz, quasi que tambem se vê todo quanto cada um

sente e quanto cada um pensa. Pois bem, nas viagens dos vapores de

Belem, unico lapso de tempo destinado pelos banhistas ao estudo,

observámos durante o periodo de tres mezes consecutivos que ninguem lia

senão almanachs, collecções de cantigas ou de charadas, e os periodicos

de noticias. Que elementos para, a educação intellectual de alguns

milhares de cabeças: darem mergulhos no Tejo, aprenderem nos livros que

nasceu o dente do sizo ao sr. Alexandre Herculano, e saberem pelos

jornaes que o sr. commendador Santos foi á Outra Banda em partida da

recreio, com os seus amigos, comer um safio!

* * * * *

Não foram essas porém as rasões porque _As Farpas_ se callaram durante a

estação calmosa. Os nossos motivos são inteiramente pessoaes. Nós

adoecemos ... Perdôa, leitor benevolo, estas perigosas tendencias de um

convalescente para a autobiographia. Não, não foi um dente novo que nos

esteve crescendo. Nós não temos, como o immortal historiador a que acima

nos referimos, a honra de abrir estas linhas offerecendo á patria e á

sr.ª D. Guiomar Torrezão mais um novo instrumento gloriosamente

recemnascido para a trincadeira nacional.

O nosso mal, foi simplesmente uma affecção na larynge. Apanhámos isto

no Chiado. Tivemos na mucose da garganta as mesmas granulações que

padecem os beduinos na mucose das palpebras por effeito do pó nas

peregrinações do deserto. O Chiado pagou-nos o pessimo gosto burguez,

especieiro, indigno, abominavel, de o frequentar, dando-nos esta doença

climaterica e local. Os hospitaes de S. José e do Desterro dão as

desyntherias e as gangrenas; os tanques do Passeio do Rocio dão as

febres paludosas e intermittentes; o Limoeiro e a Casa de detenção das

Monicas dão as viciações do sangue e as escrophulas; o Chiado e o

deserto da Arabia dão as affecções granulosas da larynge e dos olhos.

Cada um dá o que tem.

A poeira do Chiado é uma especialidade curiosa, interessante, tão

romanesca como a sombra da mancenilha. Esta poeira é fina, miuda, subtil

como a _veloutine_ de Lubin. Ligeiramente tocada pela aza morna do vento

leste, ensinua-se, entranha-se, penetra docemente, consoladoramente,

profundamente--como a calumnia. Depois, uma vez inoculada, produz as

ophtalmias e as esquinencias--as duas maiores enfermidades de Lisboa.

Não é simplesmente formada pelas triturações da terra esta poeira. Não,

porque o solo em Lisboa não é de terra. Aqui a terra tem sido de tal

maneira misturada, falsificada, fingida, que, hoje, aquillo que

primitivamente era a terra já não tem terra nenhuma. O solo de Lisboa é

formado de sobreposições de estercos, de amalgamas de lixo, de restos

pulverisados de fructas podres, de cães mortos e de papeis sujos.

De todas estas misturas requeimadas pelo verão, carbonisadas pelo sol

canicular, moidas sob as rodas dos trens e sob os pés pressurosos do sr.

conselheiro Arrobas, resulta o pó envenenado da capital. Os papeis

velhos de Lisboa, dejecções burocraticas ou litterarias dos bancos, dos

cartorios, dos tribunaes, dos escriptorios dos negociantes, dos

jornalistas, dos advogados, dos tabelliães e do sr. Melicio, são de tal

maneira abundantes que todos os esgotos da cidade não bastam para os

engulir. A brisa espalha esses papeis dilacerados pelas povoações

suburbanas. A praia de Belem é uberrima de papeis sujos, e Pedrouços, a

mansão burgueza das villegiaturas officiaes, parece-se no aspecto

especial das suas immundicies com um corredor da secretaria das Obras

Publicas destinado a projecto de nitreira modelo pelos disvellos

agronomicos do sr. Rodrigo de Moraes Soares.

De modo que a antiga expressão «_terra da patria_», com referencia a

Lisboa e seus suburbios, é figura de rhetorica em demasia arrojada. A

patria do lisboeta não tem terra, tem os agglomerados residuos das

podridões e dos papeis velhos. O nauta vigilante, que do alto mar

descobre no azul o ponto escuro e indeciso d'estas praias, procederá com

louvavel exactidão e amor da verdade se em vez do grito poetico de

«_terra! terra!_» começar a exclamar á vista de Lisboa: «Supedaneo de

Melicio!»--ou--«Nitreira de Soares!»

Victima nós mesmo em todo o nosso apparelho respiratorio d'essas

influencias deleterias da geologia e da civilisação lisbonense, achamos

prudente substituir--como fizemos--a convivencia do publico pela do

gargarejo.

* * * * *

No theatro de D. Maria, o drama--_Idiota_.

Suppoz-se pelos annuncios que _Idiota_ seria uma peça sem nome do

auctor. Equivoco. Era um nome do auctor sem peça.

No theatro de S. Carlos exhibição extraordinaria dos pés do sr.

Barberat. A primeira vez que este cantor appareceu em scena os

violinistas da orchestra suppozeram que elle se lhes tinha calçado--nas

caixas das rebecas.

Quando no dia da chegada elle poz á porta as suas botinas para engraxar,

os creados do hotel cuidaram que elle rescindira a escriptura e se

retirava, por se lhes figurar que o sr. Barberat tinha já no corredor as

malas.

Em algumas alfandegas os guardas do fisco, desconfiados d'elle, teem-lhe

pedido as chaves dos pés!

Nunca até hoje poderam dormir juntos os pés e elle. Emquanto elle está

deitado de costas, os seus pés estão erguidos, ao fundo do leito,

embuçados em capas, contemplando-o, firmes e silenciosos. Pela manhã os

pés estão mortos de somno e de fadiga, e para que elles se deitem um

momento, elle então, compadecido--levanta-se.

Ou por que elle os não queira desasocegar de dia, lembrando-se de que

teem de estar a pé de noite, ou porque elles mesmos se recusem

obstinadamente a uma evolução a que debalde os teem querido algumas

vezes violentar, o artista desistiu absolutamente de vestir as calças

pelos pés e começou a vestil-as, como a camisa,--pela cabeça. Antes de

chegar a esta prudente solução, o cantor, para conseguir vestir-se, era

obrigado todas as manhãs ou a descoser as calças, ou a desmanchar os

pés.

Uma das coisas que mais vivamente picou a curiosidade do publico nas

primeiras vezes em que este artista se mostrou em S. Carlos foi saber

como elle poderia cantar n'um theatro pequeno para que podesse estar

mais alguma coisa em scena além d'elle com os pés. O empresario acaba de

confiar-nos a explicação d'esse segredo, que elle nos permitte enviar

d'aqui como uma dadiva sua á justa anciedade das platéas. Mesmo porque o

empresario attribue, com bastantes probabilidades de acerto, a esta

preocupação do publico perante os pés phenomenaes do baixo a frieza

desdenhosa com que nas primeiras noites se escutou o canto tão vivamente

sentido, tão profundo e tão genial da Galetti.

Pois bem, meus senhores, não pensem mais n'isso. Querem saber como elle

cantava nos pequenos palcos?...

Do mesmo modo que cantam os gallos--n'um pé só.

* * * * *

Á praia da Torre em Belem foi hontem arrojado pela maré o cadaver de um

homem afogado Era ainda novo, robusto e forte. Estava vestido de panno

azul. A jaqueta e o collete que vestia tinham botões de metal doirado

com uma ancora em relevo. Na manga estava presa uma corôa tambem de

metal. Tinha na algibeira um relogio e algumas moedas de prata

portuguezas e brazileiras. As auctoridades da policia e da saude vieram

á praia e olharam para o cadaver, como a lei manda. Depois do que,

officialmente averiguado que estava ali effectivamente o cadaver de um

afogado, pegaram nelle, atiraram-o ao fundo de uma cova aberta á pressa

na praia, e cobriram-o com alguns metros de areia.

Bem feita coisa!

* * * * *

Nem toda a gente vae para a sepultura com esta simplicidade de

apparatos, a que podemos chamar o _enterro incivil_. Mas todos os cães

se enterram por este modo, e não é por isso menos repousado o seu eterno

somno. Além de que, é preciso que cada um se apresente na eternidade em

condições que não desdigam da gerarchia em que viveu e do conceito em

que o teve a sociedade e a opinião publica. Pretender o contrario é

querer lograr a divina justiça sujeitando-a a illudir-se com o aspecto

exterior dos mortos e a acolher com os mesmos cumprimentos na côrte do

ceu o primeiro aguadeiro que chegue assim como o mais digno e

respeitavel ministro de estado ou general de divisão que se

apresente,--o que seria certamente para Deus um desgosto profundo. Logo:

que cada qual morra como o que é e vá para o outro mundo como o que foi,

para não pôr em equívocos a celestial etiqueta!

* * * * *

É um senhor conselheiro a pessoa que morre, na sua cama, victima da sua

gotta? Vestem-se-lhe as suas calças de presilhas e galão de oiro, e a

sua farda bordada; prega-se-lhe no peito a constellação das suas placas

de diamantes, faz-se-lhe a barba, retinge-se-lhe o cabello, põe-se-lhe

ao lado o espadim e as luvas brancas, o chapeu armado sobre o ventre e

um pouco de carmim nas faces. E eil-o ahi está em toda a plenitude e em

toda a magestade dos seus meios physicos e da sua importancia social. As

pallidas Julietas dos sepulchros e as immodestas Rigolboches da tabida

podridão e dos gulosos vermes do _chic_, que se acautelem d'esse maganão

de bom gosto!

Elle é poderoso: deixou na terra muitos necrologios e muitas missas, e

vae optimamente recommendado pelo alto clero á especial protecção do

Padre Eterno.

* * * * *

O que morre é pelo contrario um destes infimos e asquerosos animaes, de

jaqueta de panno azul com botões de ancora, que andam a bordo dos navios

sobre a agua do mar? Uma onda envolve-o no tombadilho e arroja-o ao

abysmo inclemente? Suspende-se então por dois ou tres minutos a marcha

da embarcação--um sólido paquete talvez, luxuoso, commodo, de uma forte

companhia, em que tudo está seguro para os riscos da navegação, tudo

menos a gente,--lança-se uma boia de salvação, arreia-se uma lancha com

quatro homens, e alguns _gentlemen_ que sobem á tolda, tiram dos estojos

de couro de Varsovia que trazem ao tiracollo os seus binoculos e

assestam-os sobre o elemento. Apesar porém d'estas delicadas attenções,

o bruto desagradecido desapparece. Dois ou tres dias depois, a maré, com

nojo, cospe-o á praia da Torre juntamente com outras immundicies.

Que queres tu d'aqui, meu estupido? Isto não é nenhuma selvagem ilha

deserta e encantada, querida dos luares transcendentes de que fallam á

phantasia as musicas de Bethowen e os versos do Ileine, e em que se

figuram, sob uma luz de esmeralda, os bailados da opera.

Aqui não ha os profundos paraizos aquaticos habitados pelas ondinas e

pelas sereias de beijos deliciosos e gelados. Não ha os duendes das

phantasticas florestas que te suspendam, sob o luar impregnado de

calidos aromas e de nocturnas harmonias, nos berços aereos das magnolias

e dos lilazes em flor, nem beneficas deidades transparentes que te

cinjam nos seus doces braços e te levem n'uma festa nupcial para os seus

leitos de algas, de coral e de perolas, no fundo dos dormentes lagos,

sob as folhas dos nenufares.

Não, isto aqui é uma praia decente e grave onde os senhores oficiaes de

secretaria o os senhores desembargadores veem durante a villegiatura

sentar-se pela fresquidão das tardes, com suas mulheres, contemplando

austeros e recolhidos as babugens da vasante e o fronteiro panorama, tão

magestoso e solemne, da Fonte da Pipa. É d'esta praia que o senhor

commendador Santos e o senhor commendador Firmo e o senhor commendador

Eloy teem partido em fina companhia de virtuosas damas, com honestas

guitarras e casto peixe frito, a bordejar no Tejo. É aqui que a illustre

e veneravel burguesia de Lisboa faz as suas estações balneatorias. É

n'estas aguas que ella annualmente refresca e desemporcalha a sua gorda

carne. É aqui que o mesmo poder moderador tem vindo, por vezes, com sua

augusta e elegante consorte demolhar no argento o excelso e inviolavel

systema nervoso da monarchia e da constituição.

Portanto, ó immundo, tu que morreste afogado no oceano e te deixaste

rolar para a praia da Torre, impertinente como o esqueleto de um goso

morto de fome na Trafaria, tu, imbecil, se querias mais alguma

consideração, mais algum respeito com os teus restos, fosses cahir a

outra parte.

Trazias algum dinheiro na algibeira, o sufficiente para te pagares o

luxo de um padre e de uma cova, mas, realmente tu não tinhas aspecto de

mereceres a pena de que alguem se occupasse por um minuto comtigo.

Animal! se querias ser enterrado com respeito e commoção, se querias ter

artigos nos jornaes e padres a cantarem-te o _De profundis_, porque foi

que em vez de te afogares de jaqueta, te não afogaste com uma farda de

almirante, ou de casaca preta e grã cruz dentro de um _coupé_ da

companhia?!

Deixaste por acaso na terra uma velha mãe desamparada, uma esposa

lacrimosa, uma filha orphã, uma familia, a que seria doce ajoelhar sobre

a tua sepultara ou plantar algumas flores sobre a terra que te cobrisse?

Querias permittir-lhes essa extrema consolação? Deixasses-te ficar no

Chiado ou no Terreiro do Paço, tornasses-te um dos elementos

constituitivos da civilisação lisbonense, fizesses-te moço de recados,

agiota ou empregado publico. Vive-se assim na corrupção, na usura, na

humilhação ou na miseria, mas enfim morre-se bem, barato--e muito!

* * * * *

O _Jornal da Noite_ publica uma conta de despeza feita pelo presidente

da republica dos Estados Unidos, Abrahão Lincoln, em um hotel de Albany.

O illustre democrata e as pessoas do seu sequito pagaram a somma de um

conto e alguns mil réis por uma hospedagem de menos de vinte e quatro

horas.

Este facto argumenta vivamente contra a opinião dos que acham as

republicas mais baratas para os povos do que as monarchias.

Effectivamente vemos que, ao passo que o presidente da republica da

America do Norte faz um conto de réis de despeza em algumas horas em

Albany e paga essa despeza, sua magestade o imperador da America do Sul

dispende no Porto mil libras em quatro dias, e não as paga.

É indubitavel pois que as monarchias são incomparavelmente mais baratas

do que as republicas.

Deve-se porém observar que, sob este ponto de vista, o descredito das

democracias prodigas procede principalmente das estalagens exigentes.

Porque está provado que sempre que um republicano em viagem pretende

gastar tão pouco como um rei economico, os estalajadeiros fazem ao

republicano o seguinte: sequestram-lhe a bagagem.

* * * * *

Parece-nos arriscado estabelecer entre os principes e os povos esta

perigosa competencia de quem ha de pagar menos em viagem. Pois que,

realmente, desde que as testas coroadas chegaram ao ideal de se

apoderarem das contas e não pagarem nada, os povos só poderão desbancar

os reis se, não pagando egualmente nada, começarem a estabelecer este

uso: depois de se apoderarem das contas, apoderarem-se egualmente--das

pratas.

* * * * *

_Primeira aos membros da Associação Catholica no Porto_

Meus senhores e minhas senhoras.--Em nome da Nosso Senhor Jesus Christo

e da Santa Madre Egreja Catholica Apostolica Romana, eu vos saúdo e vos

desejo a divina graça. Como tenho obrigação de vos suppôr--taes como o

dizeis--sinceros e dedicados servos de Deus, devotados a cumprir a sua

lei e a divulgar a sua doutrina, mais vos desejo que nunca vos persigam

os bens e as riquezas temporaes de que certamente vos despojastes para

seguir a Jesus. Eu sei que o divino mestre, antes de mandar aos

apostolos que o acompanhassem, lhes ordenou que deixassem as redes,

fazendo-nos sentir por esta fórma que ninguem póde estar com Deus

estando ao mesmo tempo com o mundo, e que para ter os bens do céo é a

condição essencial--abandonar os da terra. Primeiro: _deixae as redes_;

depois: _vinde commigo_.

Amados irmãos, presumindo-vos pobres, desvalidos, tendo previamente dado

o vosso pão aos que tinham fome e os vossos vestidos aos que tinham

frio, eu desejo ainda sobre a vossa nudez a mortificação da vossa carne,

a santa mortificação que raspa a vaidade e o orgulho e limpa o

entendimento e a alma das lepras mundanaes.

Que a graça de Nosso Senhor vos assista e que nada mais do que é

temporal se vos pegue, porque n'este mundo tudo é esterco: _Omnia ut

stercora_, como muito bem disse S. Paulo!

Se vos não poderdes furtar aos contactos impuros do seculo, permitta o

ceo que em todas as vossas relações com a sociedade todas as invectivas

e todas as malquerenças pharisaicas vos punjam e vos espicassem o

coração, assim como os chacaes famintos furam e rasgam no deserto as

tendas dos piedosos peregrinos. Porque--bem o sabeis--só com as

inimisades do mundo podereis merecer e lograr a amisade de

Deus:_amicitia hujus mundi inimica est Dei_.

Finalmente, meus senhores e minhas senhoras, resumindo os meus votos

pelo molde mais consentaneo com as vossas aspirações, que o Senhor vos

veja eternamente no ceu e vos aplane o caminho da promissão, tendo-vos

tanto de sua mão que nunca sobre vós deixem de chover as dores e as

ruinas, por isso que, como diz o psalmista, será pela somma das vossas

penas contingentes, transitorias e mundanaes, que serão medidas as

vossas alegrías celestiaes e eternas!--_Secundum multitudinem dolorum

meorum in corde meo, consolationes tuae laectificaverunt animam meam._

* * * * *

Permittí-me agora que, antes de entrar em algumas breves considerações

que a natureza do vosso instituto me suggere, eu me detenha um momento

na simples contemplação do nome que lhe puzestes.

Que razões poderiam levar-vos, beatissimos senhores, a denominardes

_catholica_ a associação que fundastes, ahi no Porto, em certa casa da

rua da Picaria? Que significa uma associação chamada _catholica_ no meio

de uma sociedade egualmente catholica? Quem é que não é _catholico_ em

Portugal? Não temos nós todos a mesma religião, que não é uma religião

especial da rua da Picaria, mas sim a bem conhecida religião do paiz, a

religião do estado, a religião famosa da carta? Ignoraes por acaso que

nenhuma associação póde ser em Portugal senão isso--_catholica_?

Ignoraes que não temos a liberdade dos cultos, a divergencia de

religiões?...

Ora, não havendo o mosaismo aqui no Chiado, não existindo o pantheismo

no Rocio, nem o lutheranismo no Terreiro do Paço, nem o fetichismo no

Arco do Bandeira, o que vem a ser um catholicismo da rua da Picaria na

cidade do Porto? Terá cahido o Porto porventura no paganismo idolatra?

Estará elle sacrificando a Jupiter a sua rica vacca cosida? Tel-o-hiam

levado os seus representantes, os seus philosophos, os srs. Faria

Guimarães e Pinto Bessa, ás vertiginosas regiões do livre exame, onde o

espirito humano, abatido, fatigado, morde na solidão o fructo amargo da

sciencia?...

Não. Eu visitei o Porto ha pouco tempo. Cheguei ahi no dia 24 de junho.

A cidade tinha o aspecto mais jubiloso e festival. Erguiam-se arcos

triumphaes nas embocaduras das ruas, palpitavam á viração matutina

bandeiras desfraldadas nas janellas das casas. Na rua de S. João os

habitantes, de camisa lavada e barba feita, passavam com bandejas cheias

de lanternas para luminarias, outros espetavam no chão mastros

embandeirados; iam, vinham, fallavam alto, tinham gestos abundantes e

felizes. As egrejas por onde passei estavam cheias até á porta de fieis

que ouviam as primeiras missas. Os sinos repicavam em todas as torres, e

os foguetes furavam o limpido azul da manhã.

O Porto, onde n'esse dia devia celebrar-se um grande _meeting_ liberal,

começava no emtanto--por festejar o S. João!

Portanto, meus senhores, se vós vos denominaes catholicos, não é porque

supponhaes que os outros o não são; é porque vos parece que o sabeis ser

melhor do que os outros, e pretendeis que vos considerem como unicos

catholicos perfeitos, catholicos affiançados, catholicos garantidos.

Se é isto o que quereis dizer-nos com o titulo escolhido para a

vossa associação, e não podeis querer dizer outra coisa,

então--meditae-o--achaes-vos em peccado mortal de soberba, de jactancia,

de presumpção de merecimentos.

Localisando por esse modo a religião na rua da Picaria, vós lançaes

tacitamente a suspeita de impiedade nas demais ruas da cidade da Virgem.

Pois bem, que a Picaria o saiba: a viella do Ferraz tambem vae á missa,

e Deus sabe se jejua ou não, ás sextas-feiras, a Ferraria de Cima!

* * * * *

Advirtamos agora como a associação catholica tem correspondido pela

importancia dos seus actos á audaciosa escolha do seu titulo.

Até o momento em que vós vos apoderastes do catholicismo para vos

fechardes com elle na rua da Picaria, cabia ao catholicismo a gloria de

ter inspirado as maiores obras produzidas pelo espirito humano.

Foi esse pobre catholicismo, ainda então desprotegido do valioso

patrocinio que n'este seculo lhe devia conceder a vossa associação, meus

illustres senhores e minhas preclaras senhoras, foi elle, ainda

desalbergado da rua da Picaria, o que na edade media fez brotar da

imaginação dos povos o que ha mais bello nas artes, os maravilhosos

poemas, as ternas legendas melancolicas, as portentosas cathedraes. Foi

elle que levou Pedro Eremita e Godofredo de Bulhões a descerem o valle

do Danubio e a seguirem o caminho de Attila. Foi elle que inspirou Tasso

e Dante. Foi elle que produziu S. Thomaz, o _boi mudo de Sicilia_, o

Aristoteles do christianismo--como lhe chamou Michelet--, o mais

poderoso cerebro da egreja. Foi elle que creou em Hispanha desde o

seculo XVI até o seculo XVII no meio da maior escravidão e do maior

fanatismo, o mais brilhante grupo de artistas que tem visto o mundo:

Velasquez, Murillo, Herrera, Zurbaran, Lope de Vega, Calderon,

Cervantes, Tirso de Molina, Luiz de Leon. O profundo mysticismo de

«Quixote» é um reflexo do poder da fé em todos esses espiritos. Calderon

era official do santo officio e Lope de Vega desmaiava em extase ao

dizer missa. O catholicismo inaugurou ainda a sociedade mais popular,

mais accessivel, mais equalitaria. No meio da barreira levantada diante

da plebe pelos privilegios do sangue, a egreja era o portico de todos

os grandes talentos e de todas as elevadas ambições: o papa Urbano IV,

filho de um sapateiro, edificava a egreja de Santo Urbano e expunha

n'ella, bordado em uma rica tapessaria, o retrato de seu pae fazendo

sapatos.

Por outro lado o catholicismo deu-nos ainda a Saint-Barthelemy, a

carnificina nacional dos christãos novos, a Inquisição, a guerra dos

trinta annos, os monges bretões que envenenaram o calix de Abeilard e os

dominicanos de Buon Convento que assassinaram Henrique VII, fazendo-lhe

commungar o veneno na hostia consagrada.

Protegido por vós, meus senhores, tutelado pela vossa sociedade

propagandista da rua da Picaria, o catholicismo portuense tem-nos dado

apenas:--como carnificina, quatro pranchadas nas espaduas de quatro

patriotas á porta da Sé; como arte, a _Palavra_, um pobre jornal piegas,

lacrimoso e beato, com pouca elevação, com pouco enthusiasmo, com pouca

fé, e com alguns erros de grammatica.

Ora realmente, meus senhores, para resultados tão mediocres não valia a

pena de vos dardes o apparato de quem funda uma agencia para a

Bemaventurança e nos fecha o ceu--n'um armazem de commissões.

Em 1849 havia na Italia uma propaganda catholica, cujos membros todavia

não chegaram nunca a aggremiar-se e a constituir-se em sociedade como os

cavalheiros e as damas da rua da Picaria.

O chefe da propaganda italiana era um dos espiritos mais rectos e mais

benignos, era o doce e pacifico poeta Manzoni, recentemente fallecido.

_I promessi Sposi_, o celebre romance tão conhecido, foi como o _Genio

do Christianismo_, de Chateaubriand e como as odes religiosas de

Lamartine, inspirado por essa reacção catholico-litteraria com que os

romanticos de 1830 bateram as idéas philosophicas do seculo XVIII.

Manzoni porém, servindo a causa catholica como propagandista, e abrindo

um exemplo que se tornou escola de muitos escriptores e poetas

italianos, Manzoni, em primeiro logar, escrevia para esse fim livros

adoraveis,--e que vós, meus queridos senhores não resolvestes ainda

começar a fazer na vossa officina religiosa da rua da Picaria. Em

segundo logar Manzoni considerava a idéa religiosa como um elemento de

emancipação e de regeneração para a Italia então opprimida e

escravisada. Finalmente Manzoni não tinha por fim especial glorificar os

padres, arregimental-os, armal-os, pôl-os em pé de guerra, como o está

fazendo a associação catholica portuense. Pelo contrario, Manzoni sabia

que os padres italianos do seu tempo eram, como Cantú os descreve tomado

do mais santo horror: «glutões, avaros, estupidos e bandidos». O perfil

ideal do padre Borromeu nos _Promessi Sposi_ não tinha pois a intenção

de um retrato, era o estabelecimento de um novo nivel para a opinião,

era um exemplo, era uma lição dada pelo modo delicado e brando com que o

desgosto profundo inspirára a alma candida e honesta do piedoso

escriptor.

Feita assim, n'estas circumstancias, n'estas condições, por estes meios,

eu comprehendo a propaganda catholica, e inclino-me respeitosamente

diante dos que a servirem e a promoverem. Não me parece todavia que seja

esse o caso da Associação catholica portuense, nem no que diz respeito

aos fins que ella se propõe, nem no que toca aos meios que emprega para

conseguir o seu fim.

* * * * *

Que pretende a associação catholica?

Libertar a patria, chamal-a á independencia, fortificando com o

sentimento religioso a fé patriotica, como fizeram Manzoni, Rosmini,

Gioberti, Balbo e outros na Italia invadida pela dominação? Não, porque

Portugal, é por emquanto independente e livre.

Estabelecer a cathechese? Diffundir a moral? Regenerar os costumes? Não,

porque, não sendo publicas as sessões da associação e não tomando parte

n'ellas senão os mesmos associados, pessoas cujos costumes e cujas

crenças religiosas foram d'antemão affiançados, estes acham-se

satisfatoriamente moralisados e instruidos.

Educar o clero, aprestando-o para uma influencia mais directa e mais

proficua nos interesses da cidade ou nos interesses do ceu? Tambem não,

pelas razões seguintes:

Os padres portuguezes acham-se todos incluidos em uma d'estas tres

classes:--os indifferentes, os liberaes e os reaccionarios.

O padre indifferente vive obscuro e tranquillo no fundo de uma aldeia

entre a sua lavoira e o seu campanario. Baptisa as creanças, confessa

os adultos e absolve os que morrem. Se não forem todos para o ceu, a

culpa não é d'elle. Cartilha e bons conselhos propina-lh'os todos os

domingos depois da missa conventual; se os não tomarem para seu bem, lá

se avirão com o demonio no outro mundo e cá na terra com o regedor. De

resto elle cava a sua horta, é grande madrugador, deita-se com as

gallinhas, diz a missa ao romper d'alva, caça a perdiz no inverno e

pesca os barbos no verão. Além de um bocado de breviario, não lê senão

um repertorio para estar ao facto das luas e saber quando convém

alporcar as pereiras e semear os pepinos. Bom homem, rijo, satisfeito,

sanguineo, infatigavel companheiro na caça e na mesa, se tentardes

esgrimir com elle algumas idéas politicas ou religiosas, algumas

subtilezas de critica, de controversia, terá tonturas, arregalará os

olhos, ouvír-se-lhe-hão rugidos interiores e não sentirá senão um

desejo: o de vos açular ás pernas os seus cães e cascar-vos pela cabeça

com o seu grosso marmeleiro argolado.

O padre liberal habita as cidades, lê os periodicos, intervém em

eleições, frequenta os botequins e as casas de jogo, fuma cigarros, e

protesta vigorosamente contra a reacção e contra o jesuitismo, trazendo

os dedos amarellos e tomando medicamentos secretos.

O padre reaccionario anda quasi sempre de loba; tem os olhos baixos, o

passo miudo e commedido, o sorriso contrafeito como uma coisa azeda

misturada com assucar; gordura fria e pallida, um tanto sinistra; mãos

brancas, suadas, viscosas; pés moles, de pato, arrastando. O

confissionario é para elle uma vocação, um destino, um prazer: é a sua

arte. Algumas vezes mobila-o com certo luxo, introduz-lhe um sophá e

abastece-o de viveres: uma lata de pão de ló e copos com geléa. É ahi

que elle escuta, de olhos meio cerrados e mãos crusadas no peito, as

confidencias secretas das mulheres, os casos encobertos ás mães e aos

maridos, os inveterados vicios escondidos e os grandes crimes occultos,

as obras e os pensamentos, os alvoroços da carne no meio da penitencia e

da oração, as tentações do inimigo, os ardentes desejos diabolicos, os

pungentes escrupulos de alcova, a grande tragedia intima dos mysticos e

dos solitarios. Elle escuta, manda repetir, inquire, investiga, indaga,

minucia por minucia, as circumstancias que aggravam e as circumstancias

que attenuam; disseca o peccado, desfibra-o musculo por musculo, nervo

por nervo, arteria por arteria; depois reconstitue-o, recompõe-o,

inteira-o, evoca-o, fal-o resurgir nos olhos da penitente--para a

moralisar com a enormidade do erro. A culpa, assim rediviva pelos

retoques finos, dialecticos, incisivos do stylo theologico e casuistico

dos commentadores do Decalogo, a culpa repintada com essa arte mais

sabia, mais poderosamente minuciosa que a de todos os modernos

romancistas psychologos dos vicios torpes e vergonhosos, cinge outra vez

a peccadora, collêa-se estreitamente com ella como a serpente do Eden,

envolve-a nas suas espiraes, penetra-a da sua essencia magnetica,

communica-lhe a electricidade dos seus filtros. É então, n'esse momento

terrivel de crise, nevralgico, histerico, allucinado, que elle critica

friamente, com uma analyse perpendicular, dominadora, arbitra da

commoção; e consola, aconselha, admoesta, subjuga, domina, e absolve ou

condemna, elle, elle em nome do Creador, a fragil creatura desmaiada aos

seus pés. O padre reaccionario faz parte da grande centralisação

catholica, é uma das rodas do grande machinismo, vive no systema de

partido como na obediencia e na regra de um instituto. Não pensa nem

discute. O seu rumo está tomado; segue-o apezar de tudo, atravez de

tudo, como um boi abre um rego, com os olhos tapados. Tem heranças de

velhas devotas, avultadas esmolas de missa, frequentes presentes de

confessadas. Vende agua de Nossa Senhora de Lourdes ou de La Salette.

Cobra os dinheiros de S. Pedro e remette-os para Roma, assigna a

_Nação_, e quasi sempre é rico.

Dos padres d'estas tres categorias quaes são aquelles que a associação

Catholica influe, aconselha ou dirige?

O padre obscuro nem mesmo sabe que tal associação existe. O padre

liberal é seu inimigo e adversario intransigente. Resta-lhe o padre

ultramontano.

Ora este ultimo padre é o ôvo de que a associação Catholica é a ave.

Ella não o modifica, não o educa, não o adverte, não o illustra. Faz-lhe

simplesmente isto: choca-o. Depois, quebrada a casca do sr. padre Couto,

o sr. conde de Samodães apparece.

* * * * *

A associação Catholica celebra periodicamente reuniões, a que chama

academias. Que se faz n'estas reuniões frequentadas por muitas senhoras

da primeira sociedade portuense, o que ha de mais digno, de mais

inviolavel e de mais sagrado?

Relevem-nos este ponto de interrogação, que não tem de nenhum modo a

impertinencia de uma pergunta e deve apenas ser considerado da nossa

parte como um simples ponto de perturbação e de pasmo.

Se os homens estivessem sós comprehendemos que as reuniões da associação

Catholica fossem para elles um meio do repousarem suavemente das fadigas

temporaes, dos enganos do mundo, das illusões e das vaidades do seculo.

Concebemos perfeitamente que depois de terminados os seus negocios,

assignada a sua correspondencia, pagas as suas lettras, despachadas as

suas mercadorias, fechada a sua caixa, comido amplamente o seu jantar,

saboreado o seu café e o seu _kumel_, elles encerrassem o seu dia

juntando-se todos fradescamente, sem etiqueta, sem cerimonias de

elegancia nem de _toilette_, e que, em seguida, descalçassem as botas e

dissessem: «Ora dissertemos lá um bocado sobre a immortalidade da alma!»

Mas, com senhoras, com senhoras elegantes e bellas, que hão de apear-se

das suas carruagens, depôr os seus burnous no _vestiaire_ e penetrar no

salão, sob o gaz, n'uma onda scintillante de setim e de renda, que farão

os homens?

Hão de se ter espalhado na athmosphera os perfumes da _toilette_, os

murmurios dos vestidos, os reflexos das joias e as confusas palavras

finas, magneticas, que susurram sob a palpitação dos leques. Suppomos

que não ha orchestra nem piano, de modo que as pessoas devotas não

poderão dirigir-se immediatamente ao sr. padre Couto para que as faça

valsar; não estarão patentes os ultimos telegrammas dos successos de

Hispanha; não haverá um serviço de gelados trazido em bandejas de prata

por criados de calção curto: não se terá á mão um numero da

_Illustração_ nem um album que se folheie ...

Estranha perplexidade!

Tem um simples associado de abotoar as suas luvas, de adiantar um

_fauteuil_, de se aproximar de um grupo e de lançar um assumpto pela

seguinte fórmula: «Minha senhora, será vossencia assaz boa para querer

fazer-me a honra de me dizer se já tem interlocutor para uma breve

dissertação sobre os novissimos do homem?»

Ou talvez que haja uma organisação parlamentar para a distribuição dos

assumptos e para a ordem das discussões. E n'esse caso, reunido o

claustro pleno, será o sr. conde de Samodães quem abrirá as sessões,

persignando-se, tocando a sua campainha e dizendo:

--«Dou a palavra ao relator da commissão encarregada de dar o seu

parecer ácerca das Divinas Pessoas da Santissima Trindade. Meus senhores

e minhas senhoras, está em discussão o Espirito Santo.»

* * * * *

Porque emfim, meus senhores, celebrando como catholicos as vossas

academias religiosas, das duas coisas uma: ou vós estabeleceis a

controversia e discutis os canones e os dogmas, ou não a estabeleceis e

não os discutis.

No primeiro caso usurpaes os poderes que só competem aos concilios,

entregaes aos debates da razão as materias de obediencia e de fé e cahis

no racionalismo heretico.

No segundo caso, reunidos em nome de Deus, vós não tendes o direito de

fazer senão uma coisa: elevar humildemente ao ceu os vossos espiritos e

prostrar-vos na penitencia e na oração.

Mas para os exercicios da oração e da penitencia vós tendes a egreja

para rezar e a solidão no interior das vossas casas para meditar o

arrependimento. Para similhantes effeitos congregar os fieis nos salões

da rua da Picaria é desviar dos templos a corrente natural da devoção e

arrancar do interior da familia o saudavel recolhimento dos propositos

bons.

Eu creio profundamente que entre vós existem homens dignos, honrados, de

uma piedade limpida, com as mais rectas intenções de espirito e de

consciencia. Acredito mesmo que essas almas, timoratas mas boas,

constituem a grossa maioria dos vossos consocios. Por isso vos consagro,

passando, esta palavra séria:

Nada mais funesto para os costumes do que ensinar ás mulheres que ha

instituições especiaes para o serviço de Deus, para a conquista do ceu,

para a remissão da culpa. O posto digno da mulher christã é em sua casa

ao pé dos seus filhos. Os exercicios espirituaes e as contemplações

mysticas escurecem a alegria domestica, alvoroçam a virtude, perturbam a

consciencia. Na sociedade actual a mulher pertence, integralmente, com

toda a responsabilidade do seu destino, á missão sublime da regeneração

do homem pela attracção do lar. Desviar sob qualquer pretexto que seja

a attenção da mulher dos interesses da familia é commetter para com a

moral um sacrilegio. A casa conjugal tambem é um templo, e a maternidade

é uma religião.

* * * * *

Meus senhores, tenho procurado tanto quanto me tem sido possivel ser

amavel comvosco, tomando para vos observar todos os pontos de vista.

Olho-vos como christão, olho-vos como catholico romano, olho-vos como

cidadão, olho-vos como simples espectador, como _dilettante_. De todos

os modos vós me pareceis ou incongruentes, ou ridiculos, ou absurdos.

Todavia, meus senhores, depois de tão exactas observações, eu não

concluo que dissolvaes o vosso synodo e que vos retireis para vossas

casas. Os senhores liberaes, que vos combatem, são egualmente

incongruentes, egualmente absurdos e um pouco mais comicos do que vós, e

os senhores liberaes tambem se não retiram.

Elles dão morras ao papa, chefe supremo da religião catholica e todavia

continuam a dizer-se catholicos. Odeiam e guerreiam os padres e no

emtanto continuam a entregar as suas mulheres aos confissionarios e as

suas filhas á cathechese. Insultam a theologia do vosso jornal a

_Palavra_ mas não acceitam com elle a controversia porque não sabem

theologia. Não lhes importa o irem para o inferno, mas não querem ir

para o Carmo. O seu atheismo leva-os a quererem «esmagar o infame» como

elles mesmos dizem, mas com a clausula de não molestarem com essa

operação os calos do sr. Bento de Freitas, governador civil, ou do sr.

Pinto Bessa, presidente da camara. Ultimamente vós festejaveis com um

_Te Deum_ na egreja da Sé o anniversario de Pio IX: estaveis

inteiramente no vosso direito e na logica dos vossos principios. Elles,

em vez de combaterem com uma affirmação de sciencia a vossa protestação

de fé, esperaram-vos á porta da egreja, deram vivas á liberdade, a

Victor Manuel e a Garibaldi e alguns morras ao Papa infallivel. Foi com

esta elevação de critica que analysaram o Concilio do Vaticano, consti.

4.ª cap. IV _De infallibilitate romani pontificis magni_, a qual

constituição nunca leram. A policia interveio, espancou varias pessoas,

prendeu varias outras, e eis em resumo o que os periodicos liberaes

chamam os conflictos da liberdade e da reacção religiosa na cidade do

Porto!

Profundas graças ao Altissimo, que não são inteiramente estas as

circumstancias que determinaram as antigas crises do poder entre os

burguezes do senado do Porto e os poderosos barões feudaes da Sé

portuense ou do balio de Leça! Os srs. padre Rademaker e padre Couto não

afivelaram os arnezes de aço dos antigos bispos e dos freires

hospitalarios, não reuniram os seus sergentes e homens d'armas, não

mandaram erguer as levadiças dos seus paços acastellados nem

desembainharam as suas espadas famosas ... Não, elles apenas entoaram a

ladainha de todos os santos, e prometteram, não excursões armadas sobre

os rebeldes dos seus feudos, mas sim jubileus e bençãos telegraphicas

aos seus adeptos.

Ora não vemos realmente em que estas coisas possam atterrar a liberdade

e sobresaltar o paiz.

É singular esta coincidencia:

O clero catholico tem hoje em toda a Europa o papel sympathico. Os

unicos paizes do mundo em que ainda se gosa a liberdade religiosa são os

paizes catholicos. Na Russia, na Allemanha, temos o despotismo e a

perseguição protestante. O sr. de Bismark prende, processa e desterra

os sacerdotes catholicos. No novo imperio do rei Guilherme, o

patriotismo reforça-se na religião do estado; a recente legislação

allemã submette todos os casos de disciplina ecclesiastica e todas as

deliberações episcopaes ao poder civil, e prohibe o clero sob as mais

severas penas de cumprir preceitos que dimanem de qualquer auctoridade

ecclesiastica estranha á nacionalidade allemã.

Ferida violentamente na sua liberdade, perseguida pela força, a egreja

catholica--quem o diria!--appella para as garantias espirituaes e quer a

distincção dos poderes como salvaguarda da liberdade. Na Allemanha os

ultramontanos mais ardentes fortificam-se nos seus ultimos

entrincheiramentos pedindo como Cavour a egreja livre no estado livre. A

tal estado chegou desprestigiado e abatido o antigo poder clerical!...

Elle já não quer exercer a sua velha tyrannia, contenta-se em não

supportar a perseguição; e, como todos os martyres, pede a liberdade

como o extremo refugio das consciencias apavoradas.

Violentamente ferida no coração, perseguida pela força, a egreja

apresenta esse symptoma infallivel da sua suprema dôr--o grito das

garantias espirituaes, o appello em ultima instancia para a distincção

dos poderes.

Pio IX, fortificado no Vaticano, como n'uma cidadella gloriosa,

desmoronada e vencida, posto que respeitada, soffre as ultimas

consequencias fataes da sua politica, e, indomavelmente pertinaz e

corajoso, esse velho batalhador veneravel, despojado da sua corôa

temporal, arroja aos vencedores o derradeiro desafio do seu despreso,

arvorando impavidamente o dogma e metralhando com as excommunhões a

opinião liberal em ultimo sacrificio a uma causa perdida.

É curioso até o ponto de se tornar ligeiramente comico que seja este o

momento escolhido pela burguezia portuense para começar a apontar-nos a

egreja catholica como um perigo para a liberdade!

No Porto os livres pensadores da calçada dos Clerigos principiam agora a

receiar que os catholicos da rua da Picaria assoberbem e esmaguem sob a

desmaiada e quasi esvahida legenda pontificia o poderoso mundo

scientifico moderno.

Pela sua parte vós, catholicos da Picaria, reunis as vossas mulheres e

as vossas filhas, entoaes ladainhas e procuraes com preces e com

penitencias desaggravar a divindade offendida com as invectivas dos

periodicos liberaes--no que nos parece que confundis tambem um pouco a

religião com a sacristia, e tomaes frequentemente o sr. padre Couto pelo

Padre Eterno. É o vosso erro. No entanto ficae no vosso posto. A

civilisação precisa de vós, não como elemento reconstituinte, mas como

producto lachante. A sciencia estima-vos ... como droga. O velho mundo

invoca a vossa assistencia para o ajudar a morrer, para o enterrar. Para

mim, que acabo de vos discutir como fazendo eu mesmo parte do meio

burguez em que existis, vós sois certamente um absurdo. Perante a

philosophia vós sois porém uma necessidade historica. Nos annaes do

progresso transcendente do espirito humano o vosso nome ha de ficar como

o curioso epitaphio de uma geração que se extinguiu ha tresentos annos.

Porque a verdade é que vós representaes as idéas do seculo XVI.

A associação catholica do Porto instituiu-se para quê? Vós mesmos o

estaes dizendo todos os dias: Para salvaguardar a fé religiosa da

corrente invasora do scepticismo moderno.

Pois bem, meus senhores, foi esse mesmo scepticismo, cuja corrente vós

pretendeis hoje reprimir ou recuar, o que produziu a grande revolução

scientifica do seculo XVII e toda a civilisação subsequente até os

nossos dias.

O scepticismo é o estado de espirito que medeia entre a superstição e a

tolerancia. Ha mais de um seculo que nenhum pensador grave se intromette

na vossa controversia theologica. Ninguem vos combate, ninguem mesmo vos

discute. O mundo novo está já na tolerancia, quando vós combateis ainda

o scepticismo de que a tolerancia é o fructo!

Duvidar, meus bons amigos, é exercer uma das mais poderosas e mais

fecundas faculdades da razão humana. Para chegar á verdade não ha senão

esse caminho: a duvida. Para chegar a Deus, que não é outra coisa senão

a expressão theologica da verdade, o unico meio é tambem esse: a duvida.

Primeiro que tudo duvida-se, depois aprende-se, por fim descobre-se. Tal

é a marcha invariavel dos espiritos na sua grande ascensão do imperfeito

para o absoluto.

O mesmo christianismo não poderia nunca ter principiado a existir se não

o tivesse precedido a duvida nas consciencias da antiguidade pagã.

Antes de acreditar em Jesus Nazareno o homem teve que duvidar de Jupiter

Capitolino. A tradicção christã é uma conquista do scepticismo antigo. A

duvida foi a primeira e a mais augusta expressão da revelação divina.

A duvida tem sido em todos os tempos a luz immortal e a guia suprema do

entendimento humano. Foi a duvida quem levou Colombo ao novo mundo,

Copernico e Newton á astronomia, Boyle e Pascal á hydrostatica, Galyleu

á mecanica e Lavoisier á chimica.

Se nas profundidades da nossa alma o scepticismo não tivesse existido

sempre como uma indomavel força inextinguivel de perfectibilidade

indefinida, a sciencia astronomica não viria occupar o logar da

astrologia, a physica e a chimica não substituiriam a alchimia, e a

imagem de Christo crucificado não succederia nos altares do Vaticano ás

estatuas dos dois mil deuses da Roma antiga.

As Farpas: Chronica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes (1873-10/11) · 第 1 / 4 段