O conselheiro saira da casa do conde de S. Luiz acompanhado pelo
visconde.
Ao despedirem se, este ficou de ir no dia seguinte almoçar com João
Poderosa, para saber todos os promenores da sua entrevista com o conde
de S. Luiz.
São dez horas da manhã. Louco de alegria pelo negocio que viera de
fazer, o conselheiro formúla mil planos para o seu dourado porvir!
A geada de muitos invernos que lhe nevara no coração, ia desfazer-se aos
raios do sol de melhores dias. Ia subir aos pinaculos da felicidade, e
contemplar de uma grande altura os lodaçaes da pobreza, onde havia
alguns annos se estorcia.
N'este momento, entrou um criado annunciando o visconde de Coruche.
--Que entre, disse o conselheiro.
Minutos depois, entrou o visconde.
O fidalgo vinha pallido como uma estatua.
--Que temos! Meu Deus! Como vens perturbado! acudiu o conselheiro
fitando o rosto do seu amigo.
--Uma grande desgraça! Uma grande fatalidade! exclamou o visconde.
--Uma grande desgraça?! Uma grande fatalidade?!
--Venho agora mesmo de casa do conde de S. Luiz, e...
--Morreu Olympia de alguma indigestão?...
--Peior! tartamudeou o visconde, sentando-se n'uma othomana.
--Peior do que isso?! Ora essa! O que poderia acontecer peior do que
isso!
--O conde de S. Luiz foi atacado pela febre, e porque forma, meu caro
amigo! A sua morte é irremediavel, mas o peior, ainda não é isso, o
peior foi o que me disse agora a condessa...
--O que te disse a condessa? perguntou anciosamente o conselheiro.
--Que Magdalena entrará para um convento no mesmo momento em que seu pae
morrer.
--Respiro! disse emfim o conselheiro.
--Respiras?! perguntou o visconde profundamente admirado.
--Sim, cuidei que fosse alguma coisa que me dissesse respeito.
--Mas diz-me respeito a mim, louco! Não sabes que amava essa mulher? Que
eu era amado por ella?
--Pois se tu a amas, e és amado por ella, é collocares-te á porta d'esse
convento e não a deixares entrar.
--É que tu não comprehendes o seu caracter, João. Não sabes a especie de
amor que essa mulher me consagra? Amor que a tem feito soffrer e que lhe
vae abrir a sepultura!
--Não comprehendo, murmurou o conselheiro.
--Pois eu t'o explico. Magdalena dirigindo-se pela opinião geral,
julga-me incapaz de ser um bom marido, por estes dez ou doze annos,
emquanto tiver sangue na guelra, segundo a phrase de Olympia! Ora, meu
amigo, Magdalena é ciumenta como uma leôa, que não admitte que se divida
o coração, prefere morrer por mim, abraçada á cruz do seu amor, do que
ser minha, sem ter fé na fidelidade da minha alma. Comprehendes?
--Olha, se queres que te diga a verdade, não comprehendo bem essas
cousas. Ahi tens tu porque eu gosto da minha Olympia. Quanto a essa,
estou certo que me não ha de atormentar muito com ciumes, nem aturdir-me
com aquelles estirados monologos de sentimento, em que Magdalena está
constantemente delirando. Sempre te disse que não trocava a minha
felicidade pela tua, se por ventura viesses a ser meu cunhado, o que
jámais pude acreditar, e se queres que seja sincero comtigo, nunca me
pude aperceber d'essa paixão, que tu dizias ter-lhe inspirado, apezar de
m'a estares querendo metter pelos olhos. E que tencionas fazer? ajuntou
elle mudando de tom.
--Que tenciono fazer! Conformar-me com o meu destino, como ella...
--Como ella quê? interrompeu o conselheiro, recolheres te tambem a um
convento?
--Não, mas esquecel-a em todas as loucuras da vida! No jogo, na
embriaguez...
--Mau systema, respondeu o conselheiro.
--Sabes uma cousa, João? acudiu o visconde despeitado com a serenidade
do conselheiro.
--Dize, respondeu este fleugmaticamente.
--Está-me revoltando essa tua serenidade! Devias interessar-te mais por
mim, lembra-te...
--Que te sou devedor da minha futura felicidade, mas que queres! Creio
pouco na tua paixão. Tenho-te visto trinta vezes apaixonado, e no dia
seguinte, curado d'esse sentimento com o coração prompto e limpo para
receber outro que te appareça. Se fosses pobre como eu, se tivesses as
minhas theorias sobre o dinheiro, então poderia acreditar que estavas
penalizado pela entrada no convento, porém como se não dá isso,
felizmente para ti, pouco tenho a compadecer-me. Ámanhã por estas horas,
completamente esquecido de Magdalena, apaixonas-te por qualquer mulher
que seduzes pelo teu ouro e pela tua intelligencia, e appareces-me
d'aqui a dias curado d'essa paixão que te atormenta.
O visconde mordeu os beiços de raiva. Havia tanto de ironia nas palavras
do conselheiro, que não tardou muito que as intenções lhe fossem
completamente denunciadas.
--Que tencionas portanto fazer? perguntou elle a Poderosa, querendo
dissimular a perturbação que lhe haviam produzido as suas palavras.
--Que tenciono fazer? Ir immediatamente para Buenos-Ayres. E tu?
--Tenho muitas voltas a dar, não poderei ir senão de tarde. E
despedindo-se do conselheiro, o visconde saiu, deixando o entregue ás
suas profundas reflexões.
«Pobre visconde! Realmente, compadeço-te. Quanto melhor te fôra o teres
sido sincero para commigo. Se tens sido esperto, apanhavas-me cincoenta
ou sessenta contos por me teres conseguido este casamento. Assim, melhor
foi, custar-me-ha apenas cincoenta ou sessenta libras!»
Meia hora depois, o conselheiro mandou buscar um trem, e dirigiu-se
para Buenos-Ayres.