XXXVII

Segundo havia combinado com a condessa, o conselheiro ás cinco horas da

tarde foi procurar o conde de S. Luiz.

Este parecia ouvil-o sem lhe prestar attenção alguma; porém, graças á

sua esposa, declarou por ultimo que não tinha duvida em conceder-lhe a

mão de Olympia.

João Poderosa exultou de alegria! Olympia sentia brincar-lhe o travesso

amor nas cavidades estomacaes apontando-lhe ao mesmo tempo as flechas de

ouro, ao orgão musculoso do corpo humano, a que vulgarmente se chama

coração!

Momentos depois começaram a entrar convidados para jantar; entre esses

vinha o visconde de Coruche.

Ao _toast_, a condessa de S. Luiz declarou que estava justo o casamento

de sua filha D. Olympia com o conselheiro João Poderosa.

Em seguimento aos brindes do estylo, não houve quem deixasse de notar

que esta declaração não tivesse sido feita pelo conde. Mas que

influencia tinha isso? Não fôra esplendido o jantar?!

O que ninguem podia descortinar era o motivo da tristeza do conde de S.

Luiz e de Magdalena!

Attribuiam a esta ultima, que uma paixão em silencio pelo visconde de

Coruche, era a causa da sua terrivel melancolia.

Em vez de conversarem com as visitas, de _fazerem sala_, como

vulgarmente se diz, Magdalena e seu pae passaram quasi toda a noite n'um

pequeno gabinete contiguo a um dos salões.

--Planeiam o modo de agarrar o visconde! dizia um individuo que por mais

uma vez intentara fazer a côrte a Magdalena.

--Como se isso fosse uma coisa muito difficil, respondia-lhe o outro.

Não tem Magdalena um dote de quatrocentos contos?

--Póde ser que a não ame, e n'esse caso...

--Que innocencia! Quem despreza quatrocentos contos? E sobre tudo o

visconde que está sem um vintem.

--Tomáras tu assim estar.

--Olha, quem foi esperto foi o João Poderosa... Quem o ha de agora

aturar com quatrocentos contos?

--Felizes dos jogadores!

--Desconfio que não! Já tem comido do pão que o diabo amassou. Não é o

conselheiro que torna a arruinar-se.

--Não digas isso. A lei natural é esta: o homem rico, que se arruina e

que depois por um bafejo da sorte torna a enriquecer, embriaga-se no

fausto e na opulencia, e nunca mais se recorda das terriveis noites de

miseria senão quando ellas principiam a despontar vagamente por entre o

sol da sua felicidade.

--A mim não me succederia outro tanto.

--És uma excepção.

--A excepção, é o que tu dizes.

--Será o que te aprouver. O que eu não estou é para teimas. Já querias

aproveitar esta minha opinião para me ferrares uma _estopada_. Adeus.

Vou lá dentro ver se tomo um _grog_.

* * * * *

Á meia noite, retiraram-se todos os convidados.

--Como deves estar satisfeita, Olympia, dizia Magdalena voltando se para

sua irmã.

--Eu! respondeu Olympia. Ora essa! Pelo muito que jantei.

O Conde de S. Luiz · 第 52 / 59 题