São tres horas da tarde. O palacio dos condes de S. Luiz, que na vespera
ainda brilhantemente illuminado, abria os seus magnificos salões á
primeira sociedade de Lisboa, apresenta se agora entristecido como
fachada de edificio legendario!
É que a morte, estranha e indifferente a todas as grandezas humanas,
assenta-se melancholicamente sobre os degraus d'aquellas escadas de
marmore, e, erguendo-se de vez em quando, fixa o seu olhar invisivel,
que atravessando as salas, vae pousar lugubremente no rosto pallido e
cadaverico do conde de S. Luiz!
Tristão sente-lhe as mãos frias e descarnadas pesando-lhe sobre o
peito. Quer falar; a voz prende-se-lhe na garganta! De vez em quando,
levanta um olhar de piedade para um Christo, que de braços abertos o
contempla da sua cruz, como se o convidasse a recolher-se ao seu divino
seio! Então o conde torna a abaixar os olhos como se aquella imagem o
assustasse, e, levantando ao mesmo tempo uma das mãos, pede a Magdalena
que se lhe approxime.
Ha quatro horas que não fala! Para maior expiação, a sua intelligencia
está clara e completamente serena!
Magdalena, debruçada sobre o leito, pegando n'um lenço de cambraia,
limpa-lhe de vez em quando o rosto banhado por um suor lento e copioso.
O seu rosto, denota-lhe o martyrio e a resignação.
A condessa, curvada n'uma poltrona, descança a fronte nas mãos,
erguendo-se de minuto em minuto para contemplar o infeliz esposo. O seu
olhar é triste, mas resignado como o de sua filha.
Olympia ao fundo do quarto, sentada n'um sophá tapa os olhos com um
lenço de assoar, mastigando occulta e prestidigiosamente, umas
bolachinhas de agua e sal.
O commendador Lopes de Miranda e o banqueiro Vaz Mendes, ora se
approximam dos pés do leito, ora se dirigem aos outros gabinetes, onde
uma multidão de individuos esperam com anciedade saber o estado do
enfermo.
N'este comenos entra o conselheiro Poderosa. Demora-se um minuto olhando
para o conde, e, engatilhando um gesto de sofrimento dirige-se para a
condessa.
Esta extende-lhe silenciosamente a mão, occultando ao mesmo tempo o
rosto com um lenço de cambraia.
João Poderosa fica immovel por alguns segundos, e em seguimento
retira-se para falar com Olympia.
Ao approximar-se lhe, a noiva simula um estremecimento de surpreza, e,
esquecendo o embrulho das bolachinhas que conservava no regaço,
entorna-o, fazendo rebolar as bolachas sobre a alcatifa.
O conselheiro curva o busto, e salva os despojos farinaceos que se
preparavam para fazer as delicias da mastigação da sua futura esposa!
No momento em que o conselheiro principiava o seu dialogo com Olympia,
Magdalena, que havia chegado o rosto aos labios de seu pae, volta-se
para a condessa.
Esta pergunta lhe o que deseja.
--Meu pae, necessita estar sosinho commigo e pede a todos que se
retirem, responde Magdalena.
A condessa levanta-se. Olympia e o conselheiro seguem-n'a. Este ultimo
demora se no gabinete com sua futura sogra; Olympia aproveita a occasião
de ir á copa tomar uma canja de gallinha.
--Sinto que me foge a vida, filha, disse o conde extendendo a mão para
Magdalena. Não quero morrer sem ter cumprido os meus e os teus desejos.
Agora que me sinto mais tranquillo, vae tu, Magdalena, vae tu mesma
buscar D. Marianna de Mendonça. Quero ouvir-lhe o perdão de seus
proprios labios, e tambem do Manuel. Vae Magdalena, vae, minha filha,
cumpre com este ultimo desejo de teu pae.
--E minha mãe?... e toda a gente?...
--E o que temos nós com toda esta gente, Magdalena? Trata-se agora da
minha consciencia. Quero apresentar-me deante de Deus arrependido de
todos os males que causei n'este mundo. Desde que confiei todos os
peccados áquelle santo padre que me trouxeste, minha filha, já não
receio o desconhecido. Sinto-me muito mais alliviado. Quando eu morrer,
Magdalena, dentro da minha secretaria, encontrarás um pequeno cofre de
platina; guarda-o, e a mais ninguem confies os segredos que elle
encerra. Só tu serás digna d'isso. O meu testamento está na gaveta
pequena d'aquella secretaria. Ha quatro dias que foi feito. Parecia
adivinhar o que succedia! Foi Deus! Deixo quatrocentos contos a D.
Marianna de Mendonça: ainda não é muito, para o que lhe fiz soffrer!
Agora, que sabes o principal, vae filha, e possa o perdão d'essa mulher
fazer com que a minha alma, voando aos pés de Deus, seja acolhida no seu
divino regaço.
Afastando-a brandamente, tornou a pedir-lhe que fosse buscar D. Marianna
de Mendonça.
--Se tua mãe te perguntar onde vaes, accrescentou elle, responde-lhe que
é um segredo que juraste guardar a um moribundo.
Magdalena, depois de beijar seu pae na fronte, saíu do quarto e
atravessou pelo gabinete onde sua mãe conversava com o conselheiro.
--Onde vaes? perguntou-lhe a condessa.
--Vou saír.
--Saír?
--Buscar uma pessoa a quem meu pae deseja falar antes de morrer.
--E essa pessoa... quem é?
--É um mysterio e um segredo, e recommendando á condessa que fosse para
junto de seu pae, Magdalena atravessou as salas, e subindo ao quarto,
preparou-se para saír.
Era tal o respeito e consideração que Magdalena inspirava a sua mãe;
tinha tanta certeza da inutilidade de todos os seus esforços, para lhe
quebrar qualquer dever, que a condessa resumiu-se ao silencio, e
dirigiu-se sem mais reflexões ao quarto de seu marido.
--Aonde foi Magdalena?
--Buscar uma pessoa a quem desejo pedir perdão antes de morrer, e com
quem pretendo ficar sósinho.
A condessa, sem responder uma palavra, foi sentar se na mesma poltrona
d'onde momentos antes se havia levantado.
Amparado por aquelle desejo ardente, o conde de S. Luiz parecia de
momento para momento ganhar mais tranquillidade.
Um quarto de hora depois, Magdalena entrou de novo no quarto de seu
pae, participando lhe a chegada de D. Marianna. O conde fez um gesto
significativo a sua mulher, esta comprehendendo o em seguida com uma
obediencia passiva, levantou-se e saíu do quarto. Pouco depois entrava
D. Marianna de Mendonça e seu filho. Magdalena fechou a porta
deixando-os a sós com o conde.
Magdalena dissera-lhe apenas que seu pae os queria ver antes de expirar.
O conde, ao vel-os parados no meio da sala, extranhos e alheios áquella
situação, ergueu se n'um supremo esforço, e, chamando-os pelos nomes,
convidou-os a approximarem-se do leito.
D. Marianna, accedendo immediatamente aos seus desejos, acercou-se do
enfermo.
--Lembra-se D. Marianna de Mendonça, recorda-se Manuel, d'um banqueiro
chamado Felix Justino de Araujo, que em 1835 a mandou ir um dia em
companhia do seu advogado, levantar um deposito de perto de quarenta
contos de réis?
--Lembro-me, respondeu D. Marianna de Mendonça, fixando demoradamente o
semblante do conde de S. Luiz.
--Se esse homem, que fez a sua desgraça, que lhe roubou filho, haveres,
e por ultimo a razão, debruçado sobre a sepultura, lhe extendesse a mão
supplice e arrependida, implorando lhe o perdão para sua alma, que lhe
faria?
--Perdoar-lhe tudo, para que Deus tambem me perdôe os meus peccados,
respondeu ainda D. Marianna.
--Perdôa-me tambem, Manuel de Mendonça? disse o conde. Perdoa a este
homem, que durante vinte e tres annos o separou de tudo quanto tinha de
mais caro no mundo! Perdoa a este homem, accrescentou elle, que conduziu
sua mãe á miseria e á loucura.
--Perdoae-lhe, Senhor, como eu lh'o perdôo de todo o meu coração,
respondeu Manuel de Mendonça, voltando-se para a cruz do Redemptor, juiz
supremo d'esta tocante scena.
--Morrerei tranquillo, disse então o moribundo, com a voz já
enfraquecida.
--Que Deus perdôe ao pae d'aquelle anjo, disse D. Marianna caindo de
joelhos, e apontando para a porta por onde Magdalena havia saido.
--Diz bem, D. Marianna; d'aquelle anjo, accrescentou o conde de S. Luiz.
Foi aquella candida pomba a encarregada por Deus para me conduzir á sua
divina presença! A ella devo o seu perdão, sr.ª D. Marianna!
--E eu devo-lhe o meu filho, respondeu D. Marianna, arrastando-se de
joelhos sobre a alcatifa, até se collocar deante do Christo. Pela vossa
infinita misericordia, exclamou ella levantando as mãos para a cruz,
perdoae-lhe Senhor, como eu de todo o coração lhe perdôo, e queira a
vossa infinita vontade conservar-lhe largos annos de vida, para que este
arrependido conheça a sinceridade das minhas palavras.
--Chamem a minha filha que deve estar n'aquelle quarto, murmurou o
conde, voltando-se para Manuel de Mendonça, e apontando para uma porta
que separava os dois aposentos.
Magdalena entrou immediatamente. Ainda que dotada de uma organização
robustissima, a infeliz, já principiava a resentir-se de tantas
commoções.
D. Marianna, lançando-se-lhe nos braços, debalde tentava occultar as
lagrimas.
--Falta me aqui uma pessoa a quem desejava ver antes de morrer. Queria
abraçar a Martha, a minha companheira do hospital.
--Deus favorece-lhe os seus desejos, meu pae. Ha dois minutos que alli
estão todos tres: e, abrindo a porta, deu passagem a Balbina, Jeronymo e
sua filha.
--Approximem-se, meus amigos, disse-lhes o conde de S. Luiz. E, emquanto
fôr tempo, accrescentou elle, apertem esta mão, que sempre se lhes
extendeu com amizade.
As lagrimas embargaram-lhes as vozes. Uma pessoa apenas se conservava
n'uma serenidade de martyr. Era Magdalena!
--Infelizmente, accrescentou o conde voltando-se para Martha e Manuel de
Mendonça, não lhes posso assistir ao casamento mas aqui lhes fica este
anjo, continuou elle voltando-se para Magdalena.
Esta ficou immovel!
Alma temperada nas grandes agonias, a que realeza de martyrio foste
arrancar esse diadema que te corôa?
Momentos depois, retiraram se todos do quarto.
O conde ficou em estado de profunda atonia.
Não se ouvia um ruido. Apenas o estremecimento da prece passando pelos
labios descorados de Magdalena.
Como tudo isto estivesse em socego entraram no quarto a condessa,
Olympia, o conselheiro e o visconde de Coruche. Seguiam n'os o
commendador e o banqueiro.
--Dorme tranquillo! disse o visconde olhando na direcção do leito.
--Dorme acudiu a condessa, á medida que se approximava de seu esposo.
Magdalena, n'esse momento, adeantou se mais, e debruçou-se a escutar a
respiração.
--Morto! exclamou a pobre filha, n'um arranco d'alma! Bemdito Deus, que
me permittiste salvar meu pae! ajuntou ella caindo sobre o cadaver do
conde, e aproveitando nos seus labios o derradeiro calor d'aquelle rosto
extremecido.