Instigado pelos conselhos do visconde, e pela persistente côrte que D.
Olympia lhe dirigia, o conselheiro resolveu se emfim a pedir aos condes
a mão de sua filha.
Eram duas horas da tarde. O conde tinha partido para o hospital, mas,
para sua felicidade estava em casa a condessa de S. Luiz, e prompta como
sempre, desde as dez horas da manhã, para receber todas as visitas que
lhe mereciam a honra da sua amizade.
O conselheiro foi introduzido para um pequeno gabinete «á renascença»,
todo mobilado ao gosto do visconde de Coruche.
A condessa não se fez demorar muito tempo. Já esperava que mais dia
menos dia o conselheiro se resolvesse a pedir-lhe Olympia.
--Quanto folgo vel-o n'esta casa, e a esta hora, disse a condessa, ao
mesmo tempo que lhe extendia a mão. Adivinho pouco mais ou menos do que
se tracta, ajuntou ella designando-lhe uma othomana, e puxando uma
cadeira para si.
A condessa queria ser a primeira, sempre, em resolver qualquer questão.
--Provavelmente vem pedir a mão de Olympia?... ajuntou ella, sem
admittir que o conselheiro lhe dirigisse uma só palavra. Quanto o
estimo! e como o conde vae ficar alegre! Pela minha parte, concedo-lh'a
da melhor vontade, e, desde já lh'o affianço, que o conde ha-de ser da
minha opinião. Tenho toda a certeza que v. ex.ª ha de ser o mais feliz
possivel com minha filha. Não parece uma rapariga d'este tempo. Para
Olympia é-lhe tão indifferente ir aos bailes, como passar as noites em
casa. Não dá importancia alguma ao luxo! O seu gosto é estar em casa e
olhar pela dispensa. Nem é mesmo d'essas meninas que passam o dia a lêr
livros, como Magdalena por exemplo, que está ás vezes até as duas horas
da noite amarrada á sua Biblia, e outros romances quejandos. Olympia
detesta os livros, tem-lhes um odio de morte! Lá quanto a isso,
parece-se commigo. Foi coisa que nunca pude supportar! Olympia, o seu
maior prazer é fazer pudins e fructas de compota.
O conselheiro, olhando estupefacto para aquella Niagára de eloquencia,
debalde esperava o ensejo favoravel para lhe dizer o fim que alli o
havia trazido. A condessa não lh'o permittia!
--Em Olympia não ha coisa alguma a desejar, formosura, riqueza, saude,
tudo, tudo, accrescentou a condessa de S. Luiz, tirando o lenço da
algibeira para limpar o suor que em bagas lhe escorria.
--Pois, minha senhora, acudiu rapidamente o conselheiro, aproveitando o
ensejo que lhe favorecia a limpeza d'aquella individualidade titular, o
que me trouxe a casa dos condes de S. Luiz, foi o mesmo que v. ex.ª com
esse instincto que lhe é natural, adivinhou! Escuso portanto de lh'o
repetir.
--Quanto o estimo, meu querido genro, respondeu a condessa,
approximando-se do conselheiro e apertando-lhe ambas as mãos.
--Vae fazer-me o mais feliz de todos os homens.
--Sim?... respondeu a bojuda matrona, vae vêr: levantando-se, puchou o
cordão da campainha.
--E crê v. ex.ª que a sr.ª D. Olympia responde aos eccos do meu coração?
--Não o comprehendo, sr. conselheiro.
Este occultou a custo um sorriso.
--Quero eu dizer, se o meu amor será retribuido por sua excelentissima
filha?
--Ora essa! respondeu a condessa tornando a sentar-se ao lado do
conselheiro, se soubesse quanto ella o estima...
N'este momento appareceu um criado.
--Vá dizer a Maria que participe á Gertrudes que suba ao quarto da aia
da menina Olympia, para lhe dizer que venha immediatamente falar com sua
mãe.
O conselheiro abysmou deante d'aquelle prodigio de memoria, que com
tanta facilidade decorava tão grande porção de nomes!
D'alli a momentos entrou a aia de Olympia, participando que a menina
ainda teria alguma demora, porque se encontrava um pouco indisposta.
--Provavelmente ceiou muito. É o seu unico defeito, sr. conselheiro. É
muito gulosa esta minha filha.
A criada retirou-se.
--O mesmo sou eu, minha senhora, respondeu o conselheiro.
--Sim?
--É verdade. Tenho dias de jantar tres vezes.
--Ai que ar! gargalhou a condessa de S. Luiz. Pois realmente, sinto que
Olympia não esteja de pé. Em todo o caso, sempre vou lá acima. Talvez
que seja apenas um leve incommodo; e, levantando-se saiu da sala,
deixando o conselheiro na contemplação de umas gravuras em aço que
adornavam as paredes do gabinete.
«Isto corre ás mil maravilhas! pensava o conselheiro. Olympia pelo que
me parece, consultando o estomago, decidiu de si para si que lhe não era
antipathica a minha pessoa. Sua mãe, pelo que se vê, encontrou em mim o
seu sonho dourado! Quanto ao conde de S. Luiz por certo que se conforma
com tudo que sua mulher decidir! Emfim, será o que Deus quizer! Em todo
o caso, foi um achado, um verdadeiro achado, este Tristão de Almeida. E
eu que estive para desprezar a sua apresentação!... Desconfio que,
apezar de todo o amor que Magdalena experimenta pelo visconde, o meu
casamento ainda se ha de effectuar primeiramente do que o seu. Custa-me
a acreditar que um caracter como o de Magdalena, possa experimentar pelo
visconde, outro sentimento, a não ser o de repulsão. O que fôr
verdadeiramente bom e digno, não póde amar senão o que é digno e bom! E
demais, Magdalena deve conhecel-o. Tão pouco falado tem elle sido na
sociedade de Lisboa.»
N'este comenos entrou a condessa; Olympia seguia-a de perto.
Se aos vinte annos a pallidez traduz em absoluto a poesia da alma; se o
desbotado da face é synonimia dos sofrimentos intimos que lavram o
coração, Olympia n'aquelle momento, a despeito da sua anafada
estructura, dir-se-ia nutrida estatua da poesia affectada pelas
terriveis consequencias de uma gastro enterite!
Ao approximar-se do conselheiro, a filha do conde de S. Luiz debalde se
esforçava para, n'uma graciosa mesura, cumprimentar aquelle a quem
brevemente ia conceder a sua mão. O esophago não lhe permittia a mais
leve inclinação do busto. Olympia conservava se firme como um sargento,
deante d'esse que era de ha muito o commandante dos seus pensamentos!
--Venho agora mesmo de saber por minha mãe a sr.ª condessa de S. Luiz
que vossa excellencia deseja estreitar os laços matrimoniaes com a minha
pessoa. Se a meu pae lhe não fôr desagradavel a união das nossas almas,
estou muito prompta a acceder em tudo aos seus desejos.
O conselheiro contentou-se apenas em lhe apertar a mão n'um transporte
de reconhecida ventura.
--Como já tive o gosto de dizer a vossa excellencia o conde de S. Luiz
terá o maior desejo em que este casamento se effectue o mais depressa
possivel, portanto, não tem vossa excellencia mais cousa alguma a fazer
senão vir hoje mesmo pedir-lhe a mão de Olympia. Meu marido e eu mesma,
accrescentou a condessa de S. Luiz, nos temos informado por todas as
pessoas que frequentam o nosso palacio, quem vossa excellencia é; deve
portanto suppor a honra que nos vae causar, entrando para o seio da
nossa familia.
--A honra sou eu que a recebo, senhora condessa de S. Luiz, e é tão
profundo o meu desejo em ver realizadas as nossas esperanças, que, hoje
mesmo, se vossa excellencia acha conveniente...
--Se acho, meu genro! O conde de S. Luiz, sendo cinco horas, mais
_migalha_ menos _migalha_ deve cá estar. Não falte pois, accrescentou
ella extendendo a mão ao conselheiro, que foi recuando sem descravar os
olhos de Olympia, até que se retirou.
--Até que vês as tuas esperanças realizadas, disse a condessa de S. Luiz
voltando-se para sua filha.
--É verdade, minha mãe, suspirou Olympia! E agora, para ter forças de
supportar todas estas commoções, vou ver se me dão um caldo de cabeça de
vitella.