XXXV

Havia quinze dias que sahira o decreto concedendo o titulo de «conde de

S. Luiz» ao illustre e philanthropico varão, que, com tanto e tanto

afan, continuava a espalhar as joias da sua caridade.

A condessa, impando de orgulho e de vaidade, ora se pavoneava pelas ruas

mais concorridas da capital, ora embocetada no palacio de S. Francisco

de Paula, aguardava o sequito das fidalgas caridosas, que, esquecendo o

amarellecido dos seus pergaminhos, iam, movidas pela virtude da moderna

titular, fazer antecamara áquella que dias antes se chamava apenas D.

Maria Egypciaca.

Graças ás repetidas instancias do seu amigo o visconde de Coruche,

Tristão de Almeida, ou, para falarmos com mais propriedade, o conde de

S. Luiz, fizera um arrendamento a longo prazo de um magnifico palacio em

Buenos-Ayres, outr'ora pertencente aos marquezes de...

Encarregando-se por especial favor do que dizia respeito ás

cavallariças, o visconde, como homem entendido na materia, fez

acquisição de tudo quanto n'esse genero havia de melhor.

Tornou-se notorio o luxo d'aquella irreprehensivel vivenda.

Os fidalgos, que n'esse tempo--menos por necessidade, do que pelo prazer

de manifestarem aos quatro ventos do céu o seu desamor pela

archeologia--esbanjavam sem dó nem piedade, os mais preciosos objectos

de arte, deparados nos empoeirados sotãos dos seus castellos feudaes,

correram atropellando-se ao escriptorio do conde de S. Luiz, afim de ver

qual seria o primeiro a depositar nas mãos do magnate as nobres

reliquias dos seus preclarissimos antepassados. Não tardou que o palacio

do conde de S. Luiz se tornasse n'um museu de antiguidades! Retratos

houve de familia, que foram jazer empilhados na estrebaria por não lhes

permittirem os salões o seu elevado porte.

O conde, pagava tudo com prodiga generosidade, o que lhe deu o triste

resultado de alguem lhe metter um collar de perolas falsas por barrocas,

o que elle generosamente acceitou e pagou, attendendo que esse mesmo

collar havia figurado no pescoço de um grande ministro de um excelso

monarcha.

Juntem se a estas nobres qualidades, uma mesa esplendida, e que o leitor

avalie se a casa do conde de S. Luiz seria ou não frequentada.

O conselheiro Poderosa, graças ás ausencias do visconde, de dia para dia

se tornava mais sympathico para Olympia, para o conde e para a condessa.

Olympia adivinhava no conselheiro, não só um marido exemplar, como um

dedicado companheiro de mesa, prompto sempre a affrontar qualquer ataque

apopletico por mais anormaes que fossem as epochas.

O conselheiro comia e bebia por dez conselheiros, o que era

extremamente agradavel para Olympia, porém, quando ella um dia notou que

depois do jantar, os olhos do seu futuro se fitaram brandamente n'uma

othomana que estava proxima, Olympia exultou de alegria, e viu n'esse

homem, o unico individuo capaz de fazer a sua felicidade: comer e

dormir, acordar e comer!

Olympia esperava apenas que o conselheiro a pedisse a seu pae.

A condessa sabia d'estes amores. Por mais de uma vez tinha dito a

Olympia, que pela sua parte não encontraria a menor opposição.

Exceptuando duas pessoas, todos alli viviam felizes: essas duas, eram

Magdalena e o conde de S. Luiz! O que entre ambos se havia passado,

sabia-o apenas Deus, que ajudára a primeira nos seus pedidos e escutara

as promessas do segundo!

Quanto á condessa de S. Luiz, ou porque a sua alegria não lhe tivesse

dado tempo a reflectir na tristeza do conde e de sua filha ou porque

inteiramente lhes não desse importancia, não cuidava senão em distrahir

os seus convidados.

Aos almoços, succediam-se os jantares, a estes os bailes, de forma que o

palacio do conde de S. Luiz tornou se em poucos dias o centro da melhor

sociedade de Lisboa.

Debalde tentavam Magdalena e seu pae, encobrir a dôr que lhes roubava a

felicidade. Este ultimo, vendo constantemente deante dos olhos a imagem

grave e severa de D. Marianna de Mendonça, recordando lhe o seu passado;

Magdalena lembrando-se do homem que teria feito a ventura da sua alma,

mas a cujo sacrificio tinha prendido um juramento!

* * * * *

Magdalena no dia immediato áquelle em que entregara Manuel de Mendonça

nos braços de sua mãe, fechada com seu pae no escriptorio do hospital,

communicára-lhe tudo quanto dizia respeito á familia de Athaide de

Mendonça.

O conde de S. Luiz, que não tinha segredos para sua filha, abrindo-lhe

inteira a sua alma, desenhára-lhe em traços rapidos o quadro inteiro da

sua vida, accrescentando-lhe, que por ella e só por ella havia incorrido

em certas _coisas_ de que se arrependia profundamente.

Magdalena exigiu-lhe uma restituição d'aquelle dinheiro extorquido á

viuva, compromettendo-se a preparar tudo de forma que a opinião publica

ainda mais se levantasse em favor de seu pae, vendo-o entregar cem ou

duzentos contos de réis, á filha d'esse homem, para cuja morte

involuntariamente havia concorrido.

Concordando plenamente em tudo quanto Magdalena exigiu, pediu apenas a

sua filha o maior segredo para com a condessa e Olympia, accrescentando

a isto a maior brevidade possivel no casamento, o qual, auctorizando

aquella restituição, lhe ia devolver a paz ao espirito.

Abraçando seu pae, Magdalena assegurou-lhe que partiria immediatamente

para casa de Martha, afim de se oferecer para madrinha do seu casamento.

Com effeito, ás duas horas da tarde, e não ao meio dia como havia

combinado com Manuel de Mendonça, Magdalena entrou em casa do operario.

Martha havia passado a noite mais tranquilla. O doutor não se tinha

illudido; a sua doença era menos physica do que moral.

Desde as onze horas da manhã que Manuel de Mendonça estava ao lado de

sua mãe. Já na vespera tinha visto Jeronymo, e já lhe havia pedido a mão

de sua filha.

Magdalena entrou no quarto de Martha, e, dando-lhe os parabens,

offereceu-se para madrinha do casamento.

Consummara-se o sacrificio!

* * * * *

--Quando se realisará esse casamento? perguntava todos os dias o conde

de S. Luiz.

--Brevemente, respondia-lhe Magdalena!

O Conde de S. Luiz · 第 50 / 59 题