Havia quinze dias que sahira o decreto concedendo o titulo de «conde de
S. Luiz» ao illustre e philanthropico varão, que, com tanto e tanto
afan, continuava a espalhar as joias da sua caridade.
A condessa, impando de orgulho e de vaidade, ora se pavoneava pelas ruas
mais concorridas da capital, ora embocetada no palacio de S. Francisco
de Paula, aguardava o sequito das fidalgas caridosas, que, esquecendo o
amarellecido dos seus pergaminhos, iam, movidas pela virtude da moderna
titular, fazer antecamara áquella que dias antes se chamava apenas D.
Maria Egypciaca.
Graças ás repetidas instancias do seu amigo o visconde de Coruche,
Tristão de Almeida, ou, para falarmos com mais propriedade, o conde de
S. Luiz, fizera um arrendamento a longo prazo de um magnifico palacio em
Buenos-Ayres, outr'ora pertencente aos marquezes de...
Encarregando-se por especial favor do que dizia respeito ás
cavallariças, o visconde, como homem entendido na materia, fez
acquisição de tudo quanto n'esse genero havia de melhor.
Tornou-se notorio o luxo d'aquella irreprehensivel vivenda.
Os fidalgos, que n'esse tempo--menos por necessidade, do que pelo prazer
de manifestarem aos quatro ventos do céu o seu desamor pela
archeologia--esbanjavam sem dó nem piedade, os mais preciosos objectos
de arte, deparados nos empoeirados sotãos dos seus castellos feudaes,
correram atropellando-se ao escriptorio do conde de S. Luiz, afim de ver
qual seria o primeiro a depositar nas mãos do magnate as nobres
reliquias dos seus preclarissimos antepassados. Não tardou que o palacio
do conde de S. Luiz se tornasse n'um museu de antiguidades! Retratos
houve de familia, que foram jazer empilhados na estrebaria por não lhes
permittirem os salões o seu elevado porte.
O conde, pagava tudo com prodiga generosidade, o que lhe deu o triste
resultado de alguem lhe metter um collar de perolas falsas por barrocas,
o que elle generosamente acceitou e pagou, attendendo que esse mesmo
collar havia figurado no pescoço de um grande ministro de um excelso
monarcha.
Juntem se a estas nobres qualidades, uma mesa esplendida, e que o leitor
avalie se a casa do conde de S. Luiz seria ou não frequentada.
O conselheiro Poderosa, graças ás ausencias do visconde, de dia para dia
se tornava mais sympathico para Olympia, para o conde e para a condessa.
Olympia adivinhava no conselheiro, não só um marido exemplar, como um
dedicado companheiro de mesa, prompto sempre a affrontar qualquer ataque
apopletico por mais anormaes que fossem as epochas.
O conselheiro comia e bebia por dez conselheiros, o que era
extremamente agradavel para Olympia, porém, quando ella um dia notou que
depois do jantar, os olhos do seu futuro se fitaram brandamente n'uma
othomana que estava proxima, Olympia exultou de alegria, e viu n'esse
homem, o unico individuo capaz de fazer a sua felicidade: comer e
dormir, acordar e comer!
Olympia esperava apenas que o conselheiro a pedisse a seu pae.
A condessa sabia d'estes amores. Por mais de uma vez tinha dito a
Olympia, que pela sua parte não encontraria a menor opposição.
Exceptuando duas pessoas, todos alli viviam felizes: essas duas, eram
Magdalena e o conde de S. Luiz! O que entre ambos se havia passado,
sabia-o apenas Deus, que ajudára a primeira nos seus pedidos e escutara
as promessas do segundo!
Quanto á condessa de S. Luiz, ou porque a sua alegria não lhe tivesse
dado tempo a reflectir na tristeza do conde e de sua filha ou porque
inteiramente lhes não desse importancia, não cuidava senão em distrahir
os seus convidados.
Aos almoços, succediam-se os jantares, a estes os bailes, de forma que o
palacio do conde de S. Luiz tornou se em poucos dias o centro da melhor
sociedade de Lisboa.
Debalde tentavam Magdalena e seu pae, encobrir a dôr que lhes roubava a
felicidade. Este ultimo, vendo constantemente deante dos olhos a imagem
grave e severa de D. Marianna de Mendonça, recordando lhe o seu passado;
Magdalena lembrando-se do homem que teria feito a ventura da sua alma,
mas a cujo sacrificio tinha prendido um juramento!
* * * * *
Magdalena no dia immediato áquelle em que entregara Manuel de Mendonça
nos braços de sua mãe, fechada com seu pae no escriptorio do hospital,
communicára-lhe tudo quanto dizia respeito á familia de Athaide de
Mendonça.
O conde de S. Luiz, que não tinha segredos para sua filha, abrindo-lhe
inteira a sua alma, desenhára-lhe em traços rapidos o quadro inteiro da
sua vida, accrescentando-lhe, que por ella e só por ella havia incorrido
em certas _coisas_ de que se arrependia profundamente.
Magdalena exigiu-lhe uma restituição d'aquelle dinheiro extorquido á
viuva, compromettendo-se a preparar tudo de forma que a opinião publica
ainda mais se levantasse em favor de seu pae, vendo-o entregar cem ou
duzentos contos de réis, á filha d'esse homem, para cuja morte
involuntariamente havia concorrido.
Concordando plenamente em tudo quanto Magdalena exigiu, pediu apenas a
sua filha o maior segredo para com a condessa e Olympia, accrescentando
a isto a maior brevidade possivel no casamento, o qual, auctorizando
aquella restituição, lhe ia devolver a paz ao espirito.
Abraçando seu pae, Magdalena assegurou-lhe que partiria immediatamente
para casa de Martha, afim de se oferecer para madrinha do seu casamento.
Com effeito, ás duas horas da tarde, e não ao meio dia como havia
combinado com Manuel de Mendonça, Magdalena entrou em casa do operario.
Martha havia passado a noite mais tranquilla. O doutor não se tinha
illudido; a sua doença era menos physica do que moral.
Desde as onze horas da manhã que Manuel de Mendonça estava ao lado de
sua mãe. Já na vespera tinha visto Jeronymo, e já lhe havia pedido a mão
de sua filha.
Magdalena entrou no quarto de Martha, e, dando-lhe os parabens,
offereceu-se para madrinha do casamento.
Consummara-se o sacrificio!
* * * * *
--Quando se realisará esse casamento? perguntava todos os dias o conde
de S. Luiz.
--Brevemente, respondia-lhe Magdalena!