«Felizmente, pensava Magdalena, Manuel de Mendonça nem sequer desconfia
que Tristão de Almeida foi Felix Justino de Araujo e muito menos
Domingos de Andrade. Poderei conseguir tudo sem comprometter meu pae.
Vejamos; seriam quarenta, cincoenta contos... Pedir-lhe-hei o meu dote,
e será uma retribuição generosa! Ao principio oppôr se-ha ao meu pedido,
mas por ultimo, não terá outro remedio senão acceder. Occultarei tudo de
minha mãe. Permitta Deus que o possa encontrar no hospital. São estas as
suas horas.»
N'este momento, o trem chegava á rua de S. Francisco de Paula. Ao entrar
o portão, a primeira pessoa que lhe appareceu, foi a criada de Olympia,
dando lhe os parabens não só pelo titulo que haviam concedido a seu pae,
como pelo lindo nome que elle tinha escolhido: o conde de S. Luiz.
Sem lhe prestar attenção alguma, Magdalena perguntou-lhe apenas se alli
estivera seu pae.
--Ora essa! respondeu a criada de Olympia; acaba agora mesmo de ir para
o paço, afim de agradecer a sua magestade.
--E Olympia?
--Sua irmã está lá em cima na casa de jantar a comer umas gallinholas,
que até dá nauseas a quem vê similhante coisa! Mandou fazer umas
torradas, e deitar sobre ellas o miolo das tripas. Já viram maior
porcaria? E diz ella que é o melhor cozinheiro que tem tido, e que faz
pena que esteja no hospital!
Magdalena subiu á casa do jantar, onde encontrou sua irmã deliciando o
paladar n'uma soberba torrada coberta dos despojos ornithologicos
d'aquella innocente gallinhola.
--Já sabes o titulo que o papá escolheu? perguntou Olympia.
--Sei, respondeu Magdalena quasi sem lhe prestar attenção.
--É muito bonito! não achas?
--Muito bonito!
--Estiveste em casa de Martha?
--Estive.
--Vae melhor?
--Muito melhor.
--Não te offereço d'esta gallinhola porque é de suppôr que não esteja ao
teu gosto, disse Olympia dissecando a _carcassa_ da avesinha.
--Agradeço, murmurou Magdalena deixando sua irmã, e dirigindo-se para o
terceiro andar d'onde dias antes contemplava a galera de Manuel de
Mendonça.
Alli pôde emfim dar livre curso ás suas lagrimas!
D'aquella janella por mais de uma vez, insciente da cruel realidade,
contemplára o Tejo, no Tejo a barca, na barca o homem, no homem, tudo
quanto havia de mais valioso para o seu coração!
Fôra d'alli que vira o seu primeiro desengano, quando Manuel de
Mendonça, afastando o oculo, lhe denunciava não ser ella a pessoa que
tão anciosamente buscava!
Só, entregue a uma multidão de pensamentos, Magdalena começou a planear
o modo de seu pae restituir os quarenta contos de réis extorquidos a D.
Marianna de Mendonça.
Magdalena tinha sobejas provas de que a virtude nem sempre havia adejado
sobre o proceder de Felix Justino de Araujo. Não ignorava que uma grande
parte da sua riqueza tinha sido adquirida em commercios illicitos,
porém, o que ella jamais suppozera, é que seu pae tivesse sido capaz de
um roubo.
Juntem-se a estas grandes agonias, o infeliz amor que lhe ia n'alma, e
vossa excellencia que me lê, e, cujo coração é egual ao de Magdalena,
diga me se dôres tamanhas podem caber em coração humano!
Alli se demorou perto de meia hora. Depois, como se um pensamento lhe
acudisse rapidamente á imaginação, a infeliz saiu d'aquelle quarto,
lançando-lhe uma ultima e dolorosa despedida!
Ao descer ao segundo pavimento encontrou Olympia.
--Que tens? perguntou esta ao notar a pallidez de Magdalena.
--Doe-me a cabeça.
--Isso é fraqueza, respondeu Olympia. Assim estou eu.
Magdalena desceu ás enfermarias e depois de dar as suas ordens, entrou
no trem e mandou seguir para Alcantara.
* * * * *
* * * * *
«Disse-me que ia para bordo. Já lá deve estar. Mas isto é uma loucura,
pensava ella. Uma mulher da minha edade ir procurar um homem a bordo do
seu navio? Embora! A minha consciencia está livre e tranquilla! Não foi
Deus quem predispoz todas estas circumstancias, servindo-se de mim para
sua intermediaria? Que poderei receiar?»
Voltando-se para o cocheiro disse-lhe que parasse na rocha do Conde de
Obidos.
Ao chegar ao boqueirão, Magdalena apeou-se, e dirigindo-se aos
catraeiros, pediu a um d'elles que a levassem a bordo da galera
Esperança.
Todos queriam ser o primeiro a conduzil-a.
Escolhendo o mais edoso, desceu a rampa e entrou no bote.
Que de poemas se agitavam em sua alma á medida que se approximava da
galera! Como ella, escrava de um dever, ia para sempre abandonar a sua
ventura!
Restava-lhe apenas no meio dos seus infortunios, a grata lembrança de
devolver aos braços d'aquelle homem a pobre mãe que elle tão anciosa e
infructiferamente havia buscado!
A pouca distancia viu Manuel de Mendonça, de pé, encostado á amurada.
Com o rosto curvado sobre o peito, olhava para as aguas da corrente, que
vinham no seu eterno movimento gemer de encontro á quilha da embarcação.
Ao ver aquelle bote que se lhe dirigia por estibordo, reconheceu
immediatamente a filha de Tristão de Almeida, e, descendo a escada de
corda, veiu recebel-a no momento em que abordava á embarcação.
--Preciso falar-lhe, disse Magdalena. E nem mesmo subo, ajuntou ella,
olhando tristemente para a galera.
Manuel entrou para o bote, e Magdalena mandou que remassem para o caes.
Durante o curto espaço de tempo que levaram em chegar á rocha,
Magdalena não lhe dirigiu uma palavra.
Manuel não sabia que pensar.
Os catraeiros olhando-se mutuamente, conjecturavam entre si, o que seria
a causa d'aquelle mysterio.
Chegaram finalmente á rocha.
Ao subir as escadas, Magdalena voltou-se para Manuel de Mendonça, ergueu
o véu que lhe occultava o rosto, e demorou-se fitando-o por alguns
instantes.
--Vim buscal-o tão apressadamente, porque lhe quero dar o maior prazer
que tem experimentado na sua vida. A Providencia fez com que me
encontrasse, para lhe depositar nos seus braços tudo quanto tem de mais
precioso sobre a terra.
Manuel contemplava-a sem comprehender uma palavra.
--Não lhe offereço o meu trem; poder se-ia tornar reparado, accrescentou
ella; mas, o que lhe peço, é que venha immediatamente a casa de Jeronymo
para onde me dirijo. E saltando para dentro do trem, mandou ao cocheiro
que seguisse para a rua do Meio.
Metteu-se n'uma sege que passava n'aquelle instante Manuel de Mendonça e
acompanhou a carruagem de Magdalena.
Chegaram ao mesmo tempo á porta de Jeronymo.
Magdalena foi a primeira a apear-se, e, entrando rapidamente em casa de
Jeronymo, dirigiu-se ao quarto de D. Marianna de Mendonça.
A pobre senhora lançou-se-lhe nos braços!
--Venho cumprir a minha promessa, disse-lhe Magdalena. Vae ver seu
filho! O que lhe peço, é que tenha valor para resistir a este lance! e,
abrindo a porta que communicava com a saleta, chamou em voz alta por
Manuel de Mendonça.
* * * * *
* * * * *
Vêde a leôa a quem haviam roubado o filho, e que o torna a colher entre
as suas garras, e podereis avaliar o que se passou n'aquella eternidade
de sensações.
* * * * *
* * * * *
Magdalena, de pé, com os olhos arrasados de lagrimas, contemplava esta
scena ao lado da mulher de Jeronymo.
Perto de cinco minutos esteve a pobre mãe agarrada ao pescoço de Manuel
de Mendonça! Ainda lhe parecia impossivel aquella palpavel realidade!
Desprendendo-se emfim do collo de seu filho, D. Marianna lançou-se aos
pés de Magdalena, e, beijando-lh'os no transporte de uma alegria
assustadora, ergueu-se de novo cingindo-a pela cintura e cobrindo-lhe a
face de beijos e lagrimas de gratidão!
--Agora, disse Magdalena desembaraçando se de D. Marianna, devemos
attender ao estado de Martha. É necessario prevenirmos todas estas
circumstancias. Ter-nos-ha ouvido?
--Com certeza que não; e demais tem um somno muito pesado, respondeu
Balbina enxugando as lagrimas que lhe rolavam pelo rosto.
N'este momento, Martha chamava por sua mãe.
Balbina e Magdalena dirigiram-se ao quarto da doente.
--Que voz foi essa que ouvi na saleta, minha mãe? perguntou Martha sem
notar a presença de Magdalena.
--Era a minha voz, respondeu a filha de Tristão approximando-se do leito
e beijando-a na face.
--A sua! exclamou ella. Eu suppunha...
--O quê?
--Que era...
--A voz de Manuel de Mendonça? Não se illudiu. É Manuel que vem hoje
pedil-a a seu pae.
Erguendo se n'um impeto de suprema vontade, Martha lançou-se ao pescoço
de Magdalena.
Que lagrimas não foram as d'essas duas mulheres! N'uma, o pranto
consolador da alegria; na outra, lagrimas que vinham do coração,
abrazando-lhe as palpebras n'um fogo do inferno!
--Valor! disse Magdalena, soltando-se dos braços de Martha, é necessario
que se restabeleça para em breve conceder a sua mão ao filho de D.
Marianna de Athayde!
--Ao filho de Marianna de Athayde! exclamou ella sem comprehender uma
palavra do que acabava de ouvir!
--Sim, ao filho da sua amiga Marianna.
--Então Manuel de Mendonça é...
--Seu filho. Agora, cumpre-me dar ainda alguns passos para resolver
completamente a minha missão, e, abraçando a sua protegida, Magdalena
sahiu do quarto e dirigiu-se á saleta aonde Manuel de Mendonça, ainda
preso nos braços de sua mãe, agradecia á Providencia o ter-lhe devolvido
tudo quanto elle tinha de mais caro n'este mundo.
Ao vel-a, D. Marianna lançou-se-lhe de novo ao pescoço e cobriu-a de
beijos!
Manuel de Mendonça, que fixára o rosto entristecido de Magdalena, cravou
os olhos no chão, como receiando que o trahisse o seu olhar.
Teria elle comprehendido o que se passava no coração de Magdalena?
--Agora, disse Magdalena, retiro-me. Ámanhã sendo meio dia, aqui
estarei, por que tenho graves negocios a tractar com vossa excellencia e
com seu filho. Extendendo a mão a este ultimo e a D. Marianna, Magdalena
retirou-se, caminho do hospital.