Ao metter-se no trem, Magdalena dissera ao cocheiro que parasse na rua
do Meio.
Ao voltar para a esquerda da rua da Bella Vista, ouviu que a chamavam.
Era Monica!
Magdalena mandou parar o trem e a beata approximou-se.
--Ora aqui a temos outra vez com os olhos arrasados de lagrimas!
exclamou ella. São essas as promessas que me tem feito? Pois, minha
querida menina, accrescentou a velha, quanto estimo tel-a encontrado!
Fique vossa excellencia sabendo, que o amigo do meu sobrinho, com quem
me vou encontrar, ficou de me dizer hoje tudo _tim tim por tim tim_!
--Pois, sr.ª Monica, respondeu-lhe Magdalena, tirando duas libras do
_porte-monnaie_, e entregando-as na mão da beata, escusa de se
incommodar mais por minha causa.
--Ora essa, minha senhora! accudiu rapidamente a velha, fechando ao
mesmo tempo a mão onde as libras se occultavam. Dar-se ha o caso,
continuou ella, que não esteja satisfeita com os meus serviços? Se tal
succede, ralhe-me, ralhe-me muito mas não me tracte por essa forma.
--Não é isso, tia Monica: é que já sei tudo quanto tinha que saber; e,
fazendo um signal ao cocheiro, fez com que o trem seguisse a sua
direcção, deixando a beata estupefacta pelo que vinha de lhe acontecer.
Ter-lhe-ia Manuel de Mendonça contado a historia dos seus amores?
Ter-lhe-ia narrado o que se dera entre Mascatudo e a beata? Ignoramol-o!
O trem chegou á porta de Jeronymo. Ao apear-se, Magdalena foi recebida
de braços abertos por Balbina e pela sua amiga.
Como era de esperar, Martha n'aquella noite havia peiorado!
--Venho prevenil-a, que ámanhã antes do meiodia, alguem virá pedir-lhe a
mão de sua filha, disse Magdalena. Agora mesmo acabo de estar com essa
pessoa. Quando prometto, cumpro, embora vá n'isso a existencia.
A gratidão não tem phrases! Balbina e Marianna, abraçando-se a
Magdalena, confundiam entre as suas, as lagrimas da pobre martyr!
--Agora, murmurou Magdalena desembaraçando-se das suas protegidas,
cumpre-me falar com Martha.
--Mas, é possivel que um senhor d'aquella ordem deseje casar-se com a
filha de um mestre de obras perguntou Balbina com as lagrimas nos olhos.
--Almas como as de Manuel de Mendonça, olham apenas para a virtude e
nunca para o nascimento, respondeu Magdalena.
--Manuel de Mendonça?! exclamou Marianna com uma voz tremula e
indecisa. E que edade tem esse homem? E quem são os seus paes? ajuntou a
pobre mulher approximando-se cada vez mais da filha de Tristão de
Almeida.
--Infelizmente, não tem paes, respondeu Magdalena.
--E sabe vossa excellencia quem elle é, perguntou Marianna.
--Sei.
--Oh! por piedade! diga m'o! Dar-se-ha o caso que seja...
--Quem? perguntou Magdalena visivelmente perturbada.
--O meu filho, que ha vinte e tres annos supponho morto!
--Como se chama elle? perguntou Magdalena.
--Manuel de Mendonça Athayde, respondeu a velha com uma voz
enfraquecida.
--E seu marido?... como se chamava? ajuntou Magdalena.
-Alvaro de Mendonça...
--Justiça de Deus! exclamou a filha de Tristão, caindo sobre o canapé, e
occultando o rosto entre as mãos.
--Oh! mas por Deus não me torture! bradou Marianna, lançando-se aos pés
de Magdalena. Diga-me se é elle o meu querido filho! É; não ha duvida!
Essa sua perturbação... Vive ainda o meu Manuel, o meu querido filho da
minh'alma? Não a deixo, minha senhora, não a deixo emquanto me não
contar tudo!
--É o seu filho! respondeu Magdalena levantando-se com uma serenidade
heroica. Deus que nunca desamparou os que são verdadeiramente bons,
concedeu-lhe em mim o instrumento da sua justiça, e n'elle a consolação
para a sua velhice. Agora sr.ª D. Marianna, ajuntou ella lançando-se aos
pés da velha, sou eu quem lhe devolve o seu filho, que, em nome de Deus
e em meu nome, lhe pedimos o perdão para um culpado! Concede-m'o?
Marianna não sabia que responder!
--É de joelhos que lh'o imploro! ajuntou ella, collocando-se deante da
velha, e confundindo as suas vestes de setim negro, com os andrajos da
infeliz!
--Eu vos perdôo de todo o meu coração! exclamou D. Marianna de Mendonça
cahindo sobre o chão. Mas a quem perdôo eu? accrescentou a infeliz
senhora, que não pensava senão em ver seu filho!
--Obrigada, disse Magdalena levantando D. Marianna, e levando-a de
encontro ao coração! Agora que _lhe_ perdoou, vou buscar seu filho, e
trazel o aqui mesmo.
Com uma physionomia alvar, Balbina contemplava toda esta scena sem a
comprehender.
Magdalena fechou-se por alguns instantes no quarto de Martha. Afinal
sahiu, e, abraçando de novo as suas amigas, entrou no trem, e seguiu
para o hospital.
No entretanto, Manuel de Mendonça descendo a calçada das Necessidades
dirigia-se para bordo.