XXXII

Espera-o, martyr! Unge-lhe o peito com o divino balsamo do teu nobre

sacrificio! Lagrimas misericordiosas foram as tuas, derramadas sobre a

face da pobre virgem! Vae, infeliz; fere, profunda, arranca uma por uma

as fibras do coração, e que o sangue que d'ahi te gotejar, lavando as

nodoas do futuro conde lhe purifique a alma para um dia entrar no reino

dos justos com o passaporte de uma retribuição!

* * * * *

* * * * *

Manuel subiu á montanha.

Magdalena não faltára.

--Venho cumprir com as ordens de vossa excellencia, disse Manuel de

Mendonça, approximando-se.

--Ah! respondeu ella, como se despertasse de um sonho. E accrescentou,

visivelmente perturbada: realmente, deve estranhar o meu proceder,

porém, uma circumstancia grave e muito grave me obrigou a procural-o

hoje mesmo. Tracta-se de salvar uma pessoa cuja vida me interessa.

--Estou ás ordens de vossa excellencia para tudo quanto me fôr possivel.

--Sabe que tem estado á morte a filha de Jeronymo?

--Não o sabia, minha senhora, respondeu Manuel começando tambem a

perturbar-se.

--Ha quinze dias que a infeliz, deitada sobre o leito da agonia, olha

para o céu que lhe pertence. Hontem, que foi a ultima vez que lá estive,

o medico sahiu completamente desanimado. A sua enfermidade é menos

physica do que moral, e só á ultima hora lhe podemos descobrir a causa.

--E essa causa é?... perguntou Manuel.

--Amar um homem que a tem desprezado! Aquelle anjo, occultando a todos o

sentimento que a devora, reclinou se sobre a sua sepultura, aguardando

apenas que lh'a venham abrir para desprender a alma a Deus!

Os olhos de Manuel humedeceram se de lagrimas. Havia tanto sentimento

nas palavras de Magdalena, a sua voz, ainda ha pouco perturbada,

tornára-se tão firme e tão segura, que elle não pôde ver em Magdalena

mais do que uma amiga verdadeira e dedicada de Martha.

--E onde existe esse homem que a póde salvar?

--Onde existe?... accudiu Magdalena com uma expressão que principiava a

denunciar-lhe o seu estado. Esse homem... accrescentou ella, é... o sr.

Manuel de Mendonça!

--Eu! exclamou o maritimo n'um transporte de indescriptivel alegria.

--Sim, continuou Magdalena. O senhor, em cujo espirito adivinhou

inteira a sua felicidade. O senhor a quem uma vez encontrou na

existencia para nunca mais o esquecer! Mais tarde, o seu coração candido

e inexperiente fez-lhe conhecer que o amava. O seu nascimento, a

humildade de educação, a pobreza de seus paes, tudo emfim concorreu para

que Martha não se atrevesse a declarar a pessoa alguma o amor que o

senhor lhe tinha inspirado. Emquanto teve forças, lutou, mas um dia,

exhausta, a pobre Martha cahiu como essas flores delicadas que não têem

força bastante para supportarem a furia dos elementos. Hontem,

finalmente, abriu-me inteira a sua alma, alma candida e serena como a

dos anjos que hoje lhe tecem o seu diadema de martyr! Sem lhe

descortinar as minhas ideias, resolvi commigo mesma de o procurar, e

pedir-lhe que salve da morte a minha pobre amiga. Não sei quem v. s.ª é,

porém, julgo-o um homem de bem e capaz de fazer a felicidade de qualquer

mulher.

Pallida, com as fontes palpitantes e os olhos afogueados por aquella

immensa lucta em que a alma se lhe debatia, Magdalena parecia elevar-se

nas azas de uma inspiração sublime! Levantando depois a voz que

principiava a enfraquecer-lhe, Magdalena pediu a Manuel que lhe

concedesse a sua mão para a filha do operario.

Manuel não respondeu!

E no emtanto as aves chilreando por entre as ramas dos arvoredos vinham

como n'um concerto infernal soar aos ouvidos da pobre Magdalena!

--Que me diz, sr. Manuel de Mendonça? Hesita? Não a ama? É possivel?

Quem póde deixar de amar aquelle anjo?! exclamou Magdalena dando emfim

livre curso ás suas lagrimas.

--Mas porque chora? perguntou Manuel de Mendonça dirigindo-se meigamente

para Magdalena.

--Porque choro? Porque avalio a dôr de Martha! Porque a sinto tão viva

e tão penetrante como ella que a soffre! Porque choro? Porque sei quanta

agonia ha, n'esse amar em silencio, o homem que nunca póde ser nosso!

--Pelo que vejo... ama alguem? perguntou Manuel com voz tremula.

--Já amei alguem... sim... mas ha muito tempo. Hoje não, sr. Manuel de

Mendonça! Hoje, toda a minha vida cifra-se apenas n'uma missão que tenho

a cumprir.

--E essa missão, é?..

--Vel-o casado com Martha. Vão ambos ser muito felizes. Ella ama-o

tanto, tanto como eu seria...

Aqui a voz ficou-lhe embargada n'uma torrente de lagrimas.

E as avesinhas chilreando por entre a moita dos junquilhos que

emmolduravam a montanha, acordavam no espirito de Magdalena um como

concerto infernal!

Finalmente, Manuel de Mendonça prometteu-lhe que pediria a Jeronymo a

mão de sua filha.

Apertando-lhe fortemente a mão, Magdalena despediu-se do maritimo e saiu

do passeio.

Como aturdido por aquelles estranhos acontecimentos, Manuel dirigiu-se

para o sitio onde Mascatudo o esperava, e, saindo tambem do passeio

dirigiram-se pela rua da Boa Morte.

--Para onde vae, sr. Manuel de Mendonça, perguntou Mascatudo vendo que o

seu capitão seguia a direcção da estrada do cemiterio dos Prazeres.

--Preciso de ar livre, respondeu-lhe Manuel. Escalda-me a febre. Para

que haviamos de ter vindo a Lisboa?

Era tal a agitação do seu espirito, que Mascatudo nem se atreveu a

perguntar-lhe o resultado da entrevista que tivera com aquella senhora.

O mais que entre ambos se passou foi um mysterio. Soube-o ella e Manuel

de Mendonça. Agora, quando estas paginas escrevemos, Magdalena dorme o

somno da morte. Manuel, discreto como a sepultura da pobre amiga, seria

incapaz de o revelar.

O Conde de S. Luiz · 第 47 / 59 题