Espera-o, martyr! Unge-lhe o peito com o divino balsamo do teu nobre
sacrificio! Lagrimas misericordiosas foram as tuas, derramadas sobre a
face da pobre virgem! Vae, infeliz; fere, profunda, arranca uma por uma
as fibras do coração, e que o sangue que d'ahi te gotejar, lavando as
nodoas do futuro conde lhe purifique a alma para um dia entrar no reino
dos justos com o passaporte de uma retribuição!
* * * * *
* * * * *
Manuel subiu á montanha.
Magdalena não faltára.
--Venho cumprir com as ordens de vossa excellencia, disse Manuel de
Mendonça, approximando-se.
--Ah! respondeu ella, como se despertasse de um sonho. E accrescentou,
visivelmente perturbada: realmente, deve estranhar o meu proceder,
porém, uma circumstancia grave e muito grave me obrigou a procural-o
hoje mesmo. Tracta-se de salvar uma pessoa cuja vida me interessa.
--Estou ás ordens de vossa excellencia para tudo quanto me fôr possivel.
--Sabe que tem estado á morte a filha de Jeronymo?
--Não o sabia, minha senhora, respondeu Manuel começando tambem a
perturbar-se.
--Ha quinze dias que a infeliz, deitada sobre o leito da agonia, olha
para o céu que lhe pertence. Hontem, que foi a ultima vez que lá estive,
o medico sahiu completamente desanimado. A sua enfermidade é menos
physica do que moral, e só á ultima hora lhe podemos descobrir a causa.
--E essa causa é?... perguntou Manuel.
--Amar um homem que a tem desprezado! Aquelle anjo, occultando a todos o
sentimento que a devora, reclinou se sobre a sua sepultura, aguardando
apenas que lh'a venham abrir para desprender a alma a Deus!
Os olhos de Manuel humedeceram se de lagrimas. Havia tanto sentimento
nas palavras de Magdalena, a sua voz, ainda ha pouco perturbada,
tornára-se tão firme e tão segura, que elle não pôde ver em Magdalena
mais do que uma amiga verdadeira e dedicada de Martha.
--E onde existe esse homem que a póde salvar?
--Onde existe?... accudiu Magdalena com uma expressão que principiava a
denunciar-lhe o seu estado. Esse homem... accrescentou ella, é... o sr.
Manuel de Mendonça!
--Eu! exclamou o maritimo n'um transporte de indescriptivel alegria.
--Sim, continuou Magdalena. O senhor, em cujo espirito adivinhou
inteira a sua felicidade. O senhor a quem uma vez encontrou na
existencia para nunca mais o esquecer! Mais tarde, o seu coração candido
e inexperiente fez-lhe conhecer que o amava. O seu nascimento, a
humildade de educação, a pobreza de seus paes, tudo emfim concorreu para
que Martha não se atrevesse a declarar a pessoa alguma o amor que o
senhor lhe tinha inspirado. Emquanto teve forças, lutou, mas um dia,
exhausta, a pobre Martha cahiu como essas flores delicadas que não têem
força bastante para supportarem a furia dos elementos. Hontem,
finalmente, abriu-me inteira a sua alma, alma candida e serena como a
dos anjos que hoje lhe tecem o seu diadema de martyr! Sem lhe
descortinar as minhas ideias, resolvi commigo mesma de o procurar, e
pedir-lhe que salve da morte a minha pobre amiga. Não sei quem v. s.ª é,
porém, julgo-o um homem de bem e capaz de fazer a felicidade de qualquer
mulher.
Pallida, com as fontes palpitantes e os olhos afogueados por aquella
immensa lucta em que a alma se lhe debatia, Magdalena parecia elevar-se
nas azas de uma inspiração sublime! Levantando depois a voz que
principiava a enfraquecer-lhe, Magdalena pediu a Manuel que lhe
concedesse a sua mão para a filha do operario.
Manuel não respondeu!
E no emtanto as aves chilreando por entre as ramas dos arvoredos vinham
como n'um concerto infernal soar aos ouvidos da pobre Magdalena!
--Que me diz, sr. Manuel de Mendonça? Hesita? Não a ama? É possivel?
Quem póde deixar de amar aquelle anjo?! exclamou Magdalena dando emfim
livre curso ás suas lagrimas.
--Mas porque chora? perguntou Manuel de Mendonça dirigindo-se meigamente
para Magdalena.
--Porque choro? Porque avalio a dôr de Martha! Porque a sinto tão viva
e tão penetrante como ella que a soffre! Porque choro? Porque sei quanta
agonia ha, n'esse amar em silencio, o homem que nunca póde ser nosso!
--Pelo que vejo... ama alguem? perguntou Manuel com voz tremula.
--Já amei alguem... sim... mas ha muito tempo. Hoje não, sr. Manuel de
Mendonça! Hoje, toda a minha vida cifra-se apenas n'uma missão que tenho
a cumprir.
--E essa missão, é?..
--Vel-o casado com Martha. Vão ambos ser muito felizes. Ella ama-o
tanto, tanto como eu seria...
Aqui a voz ficou-lhe embargada n'uma torrente de lagrimas.
E as avesinhas chilreando por entre a moita dos junquilhos que
emmolduravam a montanha, acordavam no espirito de Magdalena um como
concerto infernal!
Finalmente, Manuel de Mendonça prometteu-lhe que pediria a Jeronymo a
mão de sua filha.
Apertando-lhe fortemente a mão, Magdalena despediu-se do maritimo e saiu
do passeio.
Como aturdido por aquelles estranhos acontecimentos, Manuel dirigiu-se
para o sitio onde Mascatudo o esperava, e, saindo tambem do passeio
dirigiram-se pela rua da Boa Morte.
--Para onde vae, sr. Manuel de Mendonça, perguntou Mascatudo vendo que o
seu capitão seguia a direcção da estrada do cemiterio dos Prazeres.
--Preciso de ar livre, respondeu-lhe Manuel. Escalda-me a febre. Para
que haviamos de ter vindo a Lisboa?
Era tal a agitação do seu espirito, que Mascatudo nem se atreveu a
perguntar-lhe o resultado da entrevista que tivera com aquella senhora.
O mais que entre ambos se passou foi um mysterio. Soube-o ella e Manuel
de Mendonça. Agora, quando estas paginas escrevemos, Magdalena dorme o
somno da morte. Manuel, discreto como a sepultura da pobre amiga, seria
incapaz de o revelar.