XXXI

No dia seguinte á entrevista do conselheiro, á mesma hora que este e o

visconde se preparavam para ir falar com Tristão, Manuel de Mendonça

resolvia procurar informações de Martha.

--Se tudo quanto te disse aquella infame beata, não fosse mais do que

uma calumnia... pensava Manuel ao mesmo tempo que o proferia a

Mascatudo.

--Póde muito bem ser que tal aconteça, respondia-lhe o marinheiro. Em

todo o caso, se eu fosse ao sr. Manuel de Mendonça...

--Que fazias? acudiu rapidamente o capitão.

--Ia saber d'aquella pobre menina.

--Tomarei o teu conselho. Vou. Não sei o que me adivinha o coração;

porém, ou eu me illudo muito, ou Martha está innocente como os anjos.

--Estou da sua opinião. No que o senhor fez mal, foi em acreditar nas

primeiras palavras d'essa mulher. Se eu sei, tinha-lhe occultado tudo

quanto a seu respeito ouvi dizer.

--Não te arrependas, Mascatudo; nos teus casos, teria feito o mesmo.

--E se essa mulher não passasse de uma infame mentirosa?

--E se tudo quanto a tia Monica te disse fosse verdadeiro? Que remorsos

não terias n'este momento, se me tivesses dito que a conducta de Martha

era irreprehensivel?

--Isso lá é que é verdade, sr. Manuel de Mendonça. Em todo o caso, tudo

se poderá hoje descobrir. Se o senhor consentisse que eu fosse em sua

companhia...

--Da melhor vontade e até me fazes muito favor.

* * * * *

* * * * *

Em menos de um quarto de hora, Manuel de Mendonça acompanhado por

Mascatudo, desembarcava na rocha do conde de Obidos e, subindo a rampa,

dirigia-se para a rua do Meio.

--Se lhe parece, disse Mascatudo ao chegarem á rua das Praças, vamos á

tenda em que lhe falei. O caixeiro, que já é meu conhecido, póde nos dar

mais algumas informações.

--Confesso-te que me vae custando esta espionagem, respondeu

placidamente Manuel de Mendonça.

Seria a delicadeza da sua alma, ou o receio de saber alguma

circumstancia menos favoravel ácerca da vida intima de Martha, que fazia

com que o maritimo fugisse a mais investigações?

Deixaremos isto ao juizo da intelligente leitora, que para casos de tal

monta não nos julgamos habilitados.

Ao chegar defronte da casa onde habitava a filha do operario, Manuel de

Mendonça estremeceu. Lembrou-se da noite em que pela primeira vez a

encontrára, quando ella com as supplicas de piedade lhe pediu entre

lagrimas que a ajudasse a procurar seu pae. Logo, recordou-se das duas

ou tres vezes que a vira no hotel Bragança, quando ainda as boccas

maliciosas não se haviam aberto para lhe cuspir o fel da maledicencia.

Em toda a pureza angelica da sua castidade, Martha desenhava-se-lhe

deante dos olhos, como muitas e muitas vezes a imagem grata de sua mãe

lhe apparecia por entre as nevoas da tarde, quando a galera, sulcando as

aguas do oceano, o conduzia a estranhos climas onde nem um só coração

amigo se lhe approximava.

Mascatudo comprehendeu-lhe o soffrimento.

--Que devemos fazer? perguntou Manuel.

--Sondar estes baixios, e se o rumo não fôr perigoso, seguiremos a nossa

derrota, respondeu Mascatudo.

N'este momento passava uma carruagem.

Manuel olhou instinctivamente para dentro do trem.

Ao mesmo tempo, o cocheiro como se já estivesse prevenido, estacou os

cavallos.

Era Magdalena que vinha dentro da carruagem!

Collocando a cabeça fóra do postigo, a filha de Tristão fez um aceno a

Manuel para que se approximasse.

--Necessito falar-lhe quanto antes, acudiu ella rapidamente, dirigindo

se ao maritimo, que a contemplava com um gesto de espanto impossivel de

descrever. Provavelmente, accrescentou ella, tenciona ir ver a pobre

Martha; não o faça sem primeiro me falar.

--Estou ás ordens de vossa excellencia, respondeu Manuel de Mendonça,

reconhecendo n'esse momento a filha de Tristão de Almeida.

--Mas aqui é inteiramente impossivel por causa da visinhança,

accrescentou ella, com uma voz tremula e assustada.

--Dir-me-ha então?... perguntou Manuel.

--Dirija-se ao passeio da Estrella. Espero-o na montanha; e antes que

Manuel tivesse tido tempo de reflectir, Magdalena falou ao cocheiro, e

os cavallos partiram n'um trote largo, caminho da rua dos Navegantes.

Manuel ficou como assombrado! Não sabia que pensar! Aquella mulher, que

na ante-vespera o estivera olhando por um telescopio, seria a confidente

dos amores de Martha, ou seria ella mesma que o amava? Aquella insolita

maneira de o avisinhar; a perturbação das suas palavras; a visivel

pallidez do rosto, que augmentava á proporção que os seus olhos o

contemplavam, tudo concorria para que o maritimo ficasse como abysmado.

--Que foi isso? perguntou Mascatudo, ao notar a profunda perturbação de

Manuel de Mendonça.

Manuel contou-lhe o que se havia passado.

--E que tenciona fazer? perguntou Mascatudo.

--Ir immediatamente para o passeio da Estrella. Que te parece?

--Que vá quanto antes, respondeu Mascatudo.

Sem mais hesitação, Manuel de Mendonça entrou na rua da Bella Vista, e

seguiu para o passeio da Estrella.

--Espera-me aqui junto ao lago, disse elle a Mascatudo ao entrarem as

portas do passeio.

O Conde de S. Luiz · 第 46 / 59 题