No dia seguinte á entrevista do conselheiro, á mesma hora que este e o
visconde se preparavam para ir falar com Tristão, Manuel de Mendonça
resolvia procurar informações de Martha.
--Se tudo quanto te disse aquella infame beata, não fosse mais do que
uma calumnia... pensava Manuel ao mesmo tempo que o proferia a
Mascatudo.
--Póde muito bem ser que tal aconteça, respondia-lhe o marinheiro. Em
todo o caso, se eu fosse ao sr. Manuel de Mendonça...
--Que fazias? acudiu rapidamente o capitão.
--Ia saber d'aquella pobre menina.
--Tomarei o teu conselho. Vou. Não sei o que me adivinha o coração;
porém, ou eu me illudo muito, ou Martha está innocente como os anjos.
--Estou da sua opinião. No que o senhor fez mal, foi em acreditar nas
primeiras palavras d'essa mulher. Se eu sei, tinha-lhe occultado tudo
quanto a seu respeito ouvi dizer.
--Não te arrependas, Mascatudo; nos teus casos, teria feito o mesmo.
--E se essa mulher não passasse de uma infame mentirosa?
--E se tudo quanto a tia Monica te disse fosse verdadeiro? Que remorsos
não terias n'este momento, se me tivesses dito que a conducta de Martha
era irreprehensivel?
--Isso lá é que é verdade, sr. Manuel de Mendonça. Em todo o caso, tudo
se poderá hoje descobrir. Se o senhor consentisse que eu fosse em sua
companhia...
--Da melhor vontade e até me fazes muito favor.
* * * * *
* * * * *
Em menos de um quarto de hora, Manuel de Mendonça acompanhado por
Mascatudo, desembarcava na rocha do conde de Obidos e, subindo a rampa,
dirigia-se para a rua do Meio.
--Se lhe parece, disse Mascatudo ao chegarem á rua das Praças, vamos á
tenda em que lhe falei. O caixeiro, que já é meu conhecido, póde nos dar
mais algumas informações.
--Confesso-te que me vae custando esta espionagem, respondeu
placidamente Manuel de Mendonça.
Seria a delicadeza da sua alma, ou o receio de saber alguma
circumstancia menos favoravel ácerca da vida intima de Martha, que fazia
com que o maritimo fugisse a mais investigações?
Deixaremos isto ao juizo da intelligente leitora, que para casos de tal
monta não nos julgamos habilitados.
Ao chegar defronte da casa onde habitava a filha do operario, Manuel de
Mendonça estremeceu. Lembrou-se da noite em que pela primeira vez a
encontrára, quando ella com as supplicas de piedade lhe pediu entre
lagrimas que a ajudasse a procurar seu pae. Logo, recordou-se das duas
ou tres vezes que a vira no hotel Bragança, quando ainda as boccas
maliciosas não se haviam aberto para lhe cuspir o fel da maledicencia.
Em toda a pureza angelica da sua castidade, Martha desenhava-se-lhe
deante dos olhos, como muitas e muitas vezes a imagem grata de sua mãe
lhe apparecia por entre as nevoas da tarde, quando a galera, sulcando as
aguas do oceano, o conduzia a estranhos climas onde nem um só coração
amigo se lhe approximava.
Mascatudo comprehendeu-lhe o soffrimento.
--Que devemos fazer? perguntou Manuel.
--Sondar estes baixios, e se o rumo não fôr perigoso, seguiremos a nossa
derrota, respondeu Mascatudo.
N'este momento passava uma carruagem.
Manuel olhou instinctivamente para dentro do trem.
Ao mesmo tempo, o cocheiro como se já estivesse prevenido, estacou os
cavallos.
Era Magdalena que vinha dentro da carruagem!
Collocando a cabeça fóra do postigo, a filha de Tristão fez um aceno a
Manuel para que se approximasse.
--Necessito falar-lhe quanto antes, acudiu ella rapidamente, dirigindo
se ao maritimo, que a contemplava com um gesto de espanto impossivel de
descrever. Provavelmente, accrescentou ella, tenciona ir ver a pobre
Martha; não o faça sem primeiro me falar.
--Estou ás ordens de vossa excellencia, respondeu Manuel de Mendonça,
reconhecendo n'esse momento a filha de Tristão de Almeida.
--Mas aqui é inteiramente impossivel por causa da visinhança,
accrescentou ella, com uma voz tremula e assustada.
--Dir-me-ha então?... perguntou Manuel.
--Dirija-se ao passeio da Estrella. Espero-o na montanha; e antes que
Manuel tivesse tido tempo de reflectir, Magdalena falou ao cocheiro, e
os cavallos partiram n'um trote largo, caminho da rua dos Navegantes.
Manuel ficou como assombrado! Não sabia que pensar! Aquella mulher, que
na ante-vespera o estivera olhando por um telescopio, seria a confidente
dos amores de Martha, ou seria ella mesma que o amava? Aquella insolita
maneira de o avisinhar; a perturbação das suas palavras; a visivel
pallidez do rosto, que augmentava á proporção que os seus olhos o
contemplavam, tudo concorria para que o maritimo ficasse como abysmado.
--Que foi isso? perguntou Mascatudo, ao notar a profunda perturbação de
Manuel de Mendonça.
Manuel contou-lhe o que se havia passado.
--E que tenciona fazer? perguntou Mascatudo.
--Ir immediatamente para o passeio da Estrella. Que te parece?
--Que vá quanto antes, respondeu Mascatudo.
Sem mais hesitação, Manuel de Mendonça entrou na rua da Bella Vista, e
seguiu para o passeio da Estrella.
--Espera-me aqui junto ao lago, disse elle a Mascatudo ao entrarem as
portas do passeio.