XXVIII

Graças aos rasgos de valor e profunda dedicação que o dono do hospital

da rua de S. Francisco de Paula espalhava a cada a hora sobre a cidade

de Lisboa, o seu nome tornou-se popular.

Todos á uma desejavam encontrar esse homem, que, arriscando

constantemente não só a sua preciosa existencia, como tambem a de sua

mulher e duas filhas, se chegava hoje ao leito do moribundo com palavras

consoladoras, ámanhã amortalhava o cadaver de outro por cuja existencia

batalhára até a ultima. Era de justiça, mais do que justiça,

indispensavel até conceder-se-lhe a mercê em que sua magestade dias

antes havia falado com o ministro do reino, segundo este havia dito ao

visconde de Coruche.

Uma manhã em que o visconde, fazendo a sua demorada _toilette_, se

preparava para ir ao hospital, foi procural-o o conselheiro Poderosa.

--Sua magestade encarregou-me hontem de te procurar, fiado na amisade

que existe entre ti e o Tristão da Almeida.

--Estou ás ordens de sua magestade, respondeu o visconde.

--El-rei deseja agraciar Tristão de Almeida com o titulo de conde, e

mandou-me que te viesse procurar com o fim de lhe perguntares qual o

nome que deseja juntar ao titulo.

--Quanto agradeço a honra que el-rei me dispensa, fazendo-me

intermediario para um acto de tanta justiça! Tencionava hoje passar o

dia em casa, mas, em virtude das ordens de el-rei, corro immediatamente

a casa do meu amigo, afim de lh'o participar, e juntamente pedir-lhe que

me diga o nome que deseja juntar a esse titulo.

--Nunca se fez um acto de maior justiça, disse o conselheiro.

--Escuso de te repetir que sou da mesma opinião.

--Realmente, tem-se portado como um heroe.

--E suas filhas?! e sua mulher! parece impossivel como tenham escapado a

tantos perigos, acudiu o visconde.

--É um verdadeiro milagre da Providencia. Mas, aqui para nós, visconde,

quem será esse Tristão de Almeida?

--Ora essa! Tristão de Almeida, segundo elle o diz, e eu o creio,

descende d'uma das principaes familias de Monforte. Seu pae, homem d'um

caracter excentrico e ao mesmo tempo muito gastador, quando se encontrou

completamente arruinado, mandou este rapaz e um outro irmão para

Val-Paraiso, para casa d'um primo que alli estava estabelecido com uma

riqueza enorme. Vasco, seu irmão mais velho, ficou empregado na casa

gerindo os negocios de seu primo, de quem era o unico herdeiro, emquanto

que Tristão dotado de um genio mais energico e emprehendedor, seguiu uma

vida aventureira. Ao cabo de cinco annos, isto peço-te que não contes a

pessoa alguma, que foi dito confidencialmente por Tristão, ao cabo de

cinco annos repito, já elle tinha feito cinco viagens a salvo,

introduzindo na Havana uma grande porção de Chins. Feliz em todos os

negocios que emprehendia, Tristão d'alli a dez annos estava

archi-millionario. Achando-se uma occasião em Buenos Ayres viu n'um

jornal que havia fallecido o seu parente, tendo deixado por unicos

herdeiros a elle e a seu irmão.

--E seu pae? interrompeu o conselheiro.

--Já tinha morrido a esse tempo.

--Dias depois partiu para Val-Paraiso. A riqueza que seu primo deixara

estava calculada em quatro mil contos. Ao cabo de um mez teve a desgraça

de perder o irmão.

--Que fatalidade! murmurou o conselheiro.

--É verdade! vê tu que fatalidade! Tristão, continuou o visconde,

reduziu toda a fortuna a dinheiro e partiu para a Europa, onde annos

depois se casou com D. Maria Egypciaca, senhora do Minho, com quem

fizera conhecimento uma das vezes que viera a Portugal.

--É um romance a vida d'esse homem.

--Tem coisas admiraveis! disse o visconde.

--Com que então, acudio o conselheiro, a sua fortuna póde calcular-se

em...

--Cinco ou seis mil contos.

--Já se póde passar com isso!

--Agora, disse o visconde, é um homem d'uma generosidade incalculavel!

Se tem cahido nas mãos dalguns individuos que nós conhecemos...

--Haveriam tirado um grande partido da sua bolsa, emquanto que tu...

--Como graças a Deus não preciso recorrer a ella; mas, se o fizesse,

tenho toda a certeza que sempre a encontraria disposta a abrir-se-me.

--Eu tambem não digo que tenhas precisão, mas um homem d'esses, pode-se

aproveitar para qualquer empreza, grande já se vê, e de que outros

tirassem bom partido, tirando o elle tambem.

--Ainda não pensei n'isso.

--E as filhas são bonitas?

--Uma d'ellas, Magdalena, é um anjo de bondade e formosura.

--E a outra?

--Olympia? Também não é feia, mas é muito gorda. Essa representa o

estomago, e a sua irmã o coração. Magdalena ama, suspira e desfaz-se em

sentimento. Olympia come, dorme, e emquanto dorme sonha no que ha de

comer ao despertar. Afóra isso, é uma creatura esplendida.

--Eis a mulher que me convinha, disse o conselheiro. Confesso-te que já

não tenho outra distracção senão a meza. Seria capaz de me casar não

pelo coração mas sim pelo estomago! Que verdadeiro achado seria para mim

essa Olympia! Uma mulher com bom paladar, que deve infallivelmente saber

fazer muito bons doces. Que dorme muito e que come muito!

--Mas tu d'antes não eras assim! disse o visconde accendendo um charuto.

O teu typo era a mulher magra, vaporosa, sentimental. Gostavas das

olheiras, das rosetas da febre, e sobretudo da pontinha de tosse, como

regularmente se diz.

--Isso foi antigamente, meu amigo, quando eu tinha vinte annos, e

conservava intacta a riqueza que herdei de meus paes. Porém agora, não;

prefiro a mulher sadia, forte, que possa ser uma boa ama de leite para

me crear os garotos, se porventura Deus me quizer conceder os deleites

da paternidade.

--Como tu estás mudado, João!

--Que queres? são as circumstancias que me fazem assim pensar.

--Pois meu amigo, habilíta-te e terás em Olympia a mulher que te convém.

Junta a todas essas qualidades, um dote de trezentos a quatrocentos

contos de réis. Que tal, hein? Agora só te peço uma coisa: se á força da

tua vontade, ajudada pelos meus esforços, conseguires realizar este

sonho...

--Dirás.

--Has de fazer um novo fardamento ao teu guarda-portão.

--Approvo e desde já t'o prometto! Se Olympia fôr minha, o meu

guarda-portão terá outro fardamento. Mas agora serio, ajuntou o

conselheiro, eu ainda não estou feio de todo, falam por ahi do meu

talento, sou filho de gente fina, que mulher se poderá esquivar a

conceder-me a sua mão, muito mais, estando eu nas disposições em que me

encontro, que é viver pura e simplesmente para comer e dormir e depois

accordar para tornar a comer, sem que minha mulher nem os criados de

casa me ouçam levantar a voz, a não ser que os pequenos me venham

interromper o somno, amotinando me os ouvidos com algum tambor de feira?

--Estou d'accordo comtigo, e tanto, que se me falas serio, mas bem

serio, entendes, farei com que Olympia te encontre alguma vez, e se te

guiares pelos meus conselhos, vencerás a batalha. Se por ventura a fôres

visitar ao hotel e falares com a tua futura, não te approximes da

janella, erguendo olhares inspirados para o Tejo; não, longe d'isso, faz

um gesto de profunda meditação, engatilhando ao mesmo tempo o ouvido em

direcção ao corredor e aspirando o aroma das iguarias que se espalha na

atmosphera. Não fales nem de flores nem de estrellas, discute-lhe as

empadas do José Romão, e os pasteis de nata da rua da Rosa. Não lhe

fales de Dumas nem de Eugenio Sue, conta-lhe a biographia de Vatel,

promette-lhe a phisiologia de paladar de Brillat Savarin, e conta lhe

isto, com os olhos radiantes de enthusiasmo, e as faces incendiadas pelo

quinto peccado. Se assim fizeres, Olympia terá um conselheiro e o teu

guarda-portão um fardamento novo!

--Convem-me, respondeu o conselheiro, e tu, ajuntou elle, porque não

aproveitas a poetica Magdalena? O teu espirito ainda ás vezes infantil e

sonhador, casar-se-ia admiravelmente com a sua organização. Então é que

era, visconde: nós os amigos de tantos annos, casados com duas irmãs,

que representavam já oitocentos contos e que representariam seis mil

para o futuro!

--Se o quizesse fazer, não tinha senão dar o meu sim. Se tu soubesses o

que tem ido por essa casa a meu respeito! Magdalena ama-me desde o

primeiro dia que me viu. Orgulhosa de mais nunca se atreveu a declarar

me o seu amor, mas de sobejo se lhe lê no olhar com que me contempla, na

voz que lhe estremece quando por ventura me dirige a palavra, no gesto

cuja melancolia me chega ás vezes a causar remorso. Eu tenho sempre

feito que nada comprehendo, porém seu pae não o ignora nem a mãe. Falta

só dizerem-me em voz clara, o sentimento que a minha presença inspirou á

filha.

--Pois acho que fazes uma grande asneira, disse o conselheiro.

--Eu ás vezes também assim penso, mesmo porque talvez venha no futuro a

sentir remorsos de ter concorrido para a morte d'aquella creança. Se tu

soubesses quanto soffre. Aquelle ardente desespero com que Magdalena se

lança a todos os perigos, penso eu ás vezes ser mais vontade que tem de

morrer para não affrontar a minha indifferença, do que realmente

caridade.

--Mas porque motivo não lhe retribues tu com muito amor, o affecto que

essa creança te consagra?

--Porque a não amo, João. E como, graças a Deus, não estou na posição de

me casar por necessidade, não quero sacrificar os longos annos que ainda

me restam de vida, passando os ao lado de uma mulher, que nada tem a

desejar, mas pela qual o meu coração não palpita de amor. O motivo é

este, apenas este.

--Tens-me falado com seriedade em tudo isto? acudiu o conselheiro depois

de alguns instantes de profunda reflexão.

--Dou-te a minha palavra de honra que tenho.

O visconde não mentia. Fiado ainda na sua belleza proverbial, e afeito a

que todas as mulheres o estremecessem, pensou que esse sentimento que a

pobre Magdalena nutria em silencio por Manuel de Mendonça, era o

resultado de uma paixão que elle lhe havia inspirado.

Orgulhoso do seu nome, o visconde, apezar da inquestionavel vantagem que

lhe poderia resultar d'esse enlace, não queria, diremos, baixar da sua

dignidade entregando-se n'uma facil conquista, a essa mulher cujo

coração o estremecia, a quem elle nunca poderia ter sido indifferente,

attendendo á sua formosura e altas virtudes que a distinguiam.

Viu n'um relancear de olhos o proveito que poderia tirar, arranjando o

casamento do conselheiro com a irmã de Magdalena. Por essa fórma viveria

mais em familia, e se um dia, exasperada de amor e incendiada de paixão,

Magdalena se lançasse em seus braços, pedindo-o em casamento, elle então

do alto do seu throno de vaidade, extenderia a mão para lhe dar um sim

de protecção. Eram estas as suas idéas, as que elle estreitamente

guardava no fundo da sua alma.

Por isso não mentia, quando respondeu ao conselheiro que lhe estava

falando a serio.

--Pois então, disse João Poderosa, visto não me teres illudido, digo-te

tambem, e muito de coração t'o peço, que me auxilies n'esta tentativa,

cuja realização póde fazer a tua e a minha felicidade. Pensa nos meios

que temos a empregar; dirige-me em tudo se te apraz; serei um automato

se m'o exigires, mas colloca-me ao contacto d'essa mulher. Agora,

accrescentou elle, como se um mundo novo se desenrolasse a seus olhos,

vou contar a el-rei o que se passou comtigo, e logo, sendo sete horas,

antes de ir para o theatro, aqui te venho buscar. Ficamos certos?

--Pois não, respondeu o visconde, e á fé de quem sou te prometto, que em

menos de um mez, Olympia será tua mulher.

Despedindo-se do visconde, o conselheiro seguiu para o paço.

* * * * *

* * * * *

«Vae tudo ás mil maravilhas, pensava elle. Com esta missiva official

farei de Tristão quanto me aprouver! Tenho até a certeza que obteria a

mão de Magdalena. E porque não hei de requisital-a? Requisital-a não,

que ella m'a requisite. Se eu me curvava á filha de um Tristão de

Almeida! Parece-me mais razoavel, accrescentou o visconde depois de

alguns momentos de graves locubrações, fazer com que o Poderosa consiga

a mão de Olympia; feito isso serei eu a entrar em scena. Por agora não,

tratemos apenas do titulo. Quem tudo quer tudo perde!»

Vestindo-se em seguida, montou n'um magnifico cavallo inglez, e partiu

a trote largo, dirigindo se para o hospital.

Proximo á calçada do marquez de Abrantes, viu que um homem o chamava de

dentro de um trem. Estacando de repente o cavallo, approximou-se do

postigo da sege.

Era Gil de Carvalho.

--Encontrei-o emfim, disse o jogador. Então onde se póde ver o seu amigo

Tristão de Almeida?

--Aonde se póde ver? por ahi, respondeu o visconde.

--Não é isso o que eu queria dizer; perguntava aonde elle joga para lhe

pagar as cem libras que sabe.

--Ah! o meu amigo Tristão de Almeida? esse já não joga, respondeu o

visconde, mas se lhe quer pagar as cem libras, entregue-m'as, que eu

lh'as darei.

--Peior é essa! exclamou Gil de Carvalho, suspendendo o movimento que

fizera para tirar as notas da algibeira.

--Então não quer que lh'as entregue? repetiu o visconde, que começava a

desconfiar da velhacaria do jogador.

--Suppuz que vinha prevenido, mas enganei-me, respondeu Gil de Carvalho.

Ámanhã passarei por sua casa.

--Pois então adeus, meu amigo, disse o visconde, batendo as pernas ao

cavallo.

Deixemos o visconde e Tristão de Almeida no jardim do hospital

discutindo ácerca do nome que tencionam escolher para o titulo, e

subindo pela rua do Conde, vamos a casa da pobre Martha, de quem não

sabemos desde aquelle dia em que se prostrou sem sentidos ao ouvir a

historia do mestre de obras.

O Conde de S. Luiz · 第 43 / 59 题