Magdalena, ao ver a cruel realidade das suas suspeitas, resolveu esmagar
nos seios d'alma aquelle affecto que lhe era vida, e dirigindo-se a casa
de Martha, exigir da sua amizade a revelação de todos os segredos.
Havia dias que a pobre criança, cada vez mais enfraquecida, parecia
levantar os olhos a Deus, como pedindo-lhe pela sua infinita
misericordia que a recolhesse na paz divina de seus braços.
Balbina e Jeronymo, sem se retirarem um só momento do lado de sua filha,
erguiam de vez em quando os seus olhos supplices e inquietos para a
Virgem da Conceição.
Martha não falava, afóra algumas palavras á tia Marianna, com quem abria
inteira a sua alma.
Bem sabia Martha, que n'aquelle peito podia sem receio depositar todos
os seus arcanos! A pobre velha havia-lhe jurado nunca revelar a pessoa
alguma as confidencias que lhe depositasse no cofre do seu coração!
* * * * *
* * * * *
São duas horas da tarde. Martha na vespera havia peiorado! A febre,
augmentando-lhe consideravelmente, dera graves receios ao doutor
Hermenegildo, distincto facultativo do hospital do magnate.
Ouve-se o rodar de um trem, que pára á porta do operario, e, de dentro
d'elle, envolta n'uma comprida capa de velludo preto, apeia-se uma
mulher. É a filha de Tristão, Magdalena. Escusado seria dizel-o, que
n'essa hora, Olympia, á mesa do _lunch_, saboreia em doce encantamento
as altas locubrações d'um intelligente cozinheiro.
Contra o seu habito, Magdalena vem completamente só. O olhár e a
pallidez do rosto, denunciam-lhe um soffrimento profundo. No pisado das
palpebras, adivinha-se-lhe o rasto produzido pelas lagrimas. A sua voz,
ordinariamente firme e sonora, perturba-se á mais pequena palavra, como
receiando que as lagrimas lh'a interrompam! O descuidado da _toilette_,
o desalinho dos cabellos, tudo emfim lhe descobre a tempestade em que se
agita o seu coração!
Não era Magdalena, era apenas a sua sombra!
Bate á porta de Jeronymo, e Balbina vem abrir.
Ao vel-a n'esse estado, a mulher do operario não pode occultar o seu
assombro.
Jeronymo secunda sua esposa na admiração.
--Mas que é isto! Valha-me Deus, minha querida menina, disse a mulher de
Jeronymo voltando-se para Magdalena.
--Preciso falar-lhe em particular, e depois, com sua filha. O que me
traz aqui, é grave e muito grave sr.ª Balbina.
Esta, fazendo toda a diligencia para que Martha se não apercebesse da
presença de Magdalena, leva a para uma pequena alcova que deita para o
quintal de Jeronymo, outr'ora tão cuidadosamente tratado, e triste ha
uns tempos a esta parte, como o coração do seu cultivador.
--Estamos sós? perguntou Magdalena para Balbina.
--Tão sós que ninguem nos póde ouvir, respondeu Balbina sem comprehender
o que se passava em torno de si.
--Em primeiro logar, como está a pobre Martha?
--Mal! bastante mal, minha boa menina, e tanto que, hoje o medico...
--O quê?
--Disse-me que me não illudisse, ajuntou Balbina agarrando se á amiga de
sua filha.
--Pobre anjo! exclamou Magdalena apertando-lhe fortemente as mãos. E o
que diz elle a respeito da sua doença?
--Que é toda moral, e portanto mais difficil de se lhe encontrar o
curativo.
--E a que attribue a senhora isso? perguntou Magdalena fitando a mulher
do operario.
--Eu sei! respondeu esta, tornando a resumir-se ao silencio.
--Seja sincera commigo, sr.ª Balbina, e lembre-se que ninguem n'este
mundo será capaz de ser mais amiga de sua filha do que eu sou.
--Creio o bem, minha senhora.
--Pois então porque não abre commigo a sua alma? Diga me não deposita em
mim bastante confiança no meu caracter? Olhe, continuou Magdalena,
descobrindo inteiramente o rosto. Diga-me se n'estas feições adivinha a
menor sombra de hypocrisia?
--Por Deus, minha senhora! acudiu rapidamente a mulher de Jeronymo.
--Pois então, Balbina, se acredita na lealdade de minha alma, seja
sincera commigo, e fale-me como se eu fosse uma outra sua filha. Não
imagina o prazer que me vae dar. Como eu serei feliz podendo desabafar
n'um coração de mãe, quanta dôr existe n'este meu pobre peito.
--Já que tanto insiste, minha senhora, vou confiar-lhe um segredo, que
nunca me teria atrevido a revelar, se não fosse conhecer a nobreza da
sua alma! O que a minha filha tem, é uma paixão, paixão que a leva á
sepultura.
--E esse homem que lh'a inspirou, é?... perguntou Magdalena, como se
ainda uma pequena esperança lhe restásse.
--Esse homem é o commandante da galéra Esperança, o mesmo que descobriu
aonde estava meu marido, na noite do dia em que foi atropellado por seu
excellentissimo pae.
--Manuel de Mendonça! exclamou Magdalena.
--Elle mesmo!
--E elle?
--Nunca mais o tornou a ver.
--E como soube tudo isso? perguntou Magdalena.
Balbina então contou-lhe quanto se havia passado entre Jeronymo e a
filha, não lhe omittindo a circumstancia d'estas terriveis palavras:
«esse homem é amado pela filha do nosso protector.» Magdalena pensou
morrer. A nobreza d'alma d'aquelle anjo, deixando se descer á sepultura,
sem interromper o sentimento que dominava o coração de Magdalena, a sua
generosidade, abandonando-lhe por assim dizer aquelle homem que ella
amava, e de quem tinha a certeza de ser correspondida, tudo concorreu
para que no seu coração immenso tambem como o de Martha, se formassem
mil conjecturas tendentes todas á generosidade.
«Morrerei, pensava ella, mas salvarei este anjo que tão nobremente se
me sacrificou. E que m'importa a vida? De que me serve este eterno
martyrio? Vivam! que vivam para serem muito felizes, e abençoarem a
minha memoria se eu concorrer como espero para a sua ventura!»
--Bem, ajuntou Magdalena voltando-se para Balbina, vá ao quarto de
Martha, veja o estado do seu espirito e se ella estiver mais tranquilla,
quero-lhe falar.
A pobre Balbina sem comprehender o choque que este encontro poderia
produzir na alma de sua filha, apressou-se em cumprir as ordens de
Magdalena.
«Parece que sobre a nossa familia peza uma grande desgraça, continuou a
filha de Tristão de Almeida olhando para o pequeno horto. De que serve a
enorme riqueza de meu pae! A sua alegria, é sempre aquella eterna
mascara com que tenta encobrir as lagrimas que o devoram na eterna
solidão de sua alma. Minha mãe, afeita a illudir, tem chegado a
convencer-se que é muito feliz, não passando d'uma desgraçada! Eu, que
tenho passado uma existencia de tristeza, no momento em que pela
primeira vez na vida me poderia considerar venturosa, vem o destino, e
corta-me rapidamente o fio da minha felicidade. Olympia, graças ao seu
genio, é a unica fadada para a completa tranquillidade da alma! Vive e
come, pobre irmã, que seria o mesmo que dizer-te: vive e sê feliz!
«Falarei com Martha, e hoje mesmo lançar-me-hei aos pés de meu pae,
pedindo-lhe que d'esse dote dos quatrocentos contos que tantas vezes me
tem promettido me conceda apenas cincoenta para dar a Martha, e depois
de os ver ambos casados, felizes, abençoando a minha mão que lhe
estreitou a sua ventura, eu então, ou buscarei a morte, ou fechar-me-hei
entre as grades d'um convento!»
N'este comenos entrou Balbina. Martha havia accordado e esperava a
visita de Magdalena.
Esta sem mais hesitar, entrou no quarto da criança, e, occultando a
custo as lagrimas que a suffocavam, lançou-se sobre o leito abraçando a
pobre amiga.
--Ha dias que desejo falar-lhe sobre um assumpto muito importante,
porém, a sua eterna reserva para todas as pessoas que deveras a estimam,
tem sido a causa de me não ter atrevido, disse-lhe Magdalena. Quem mais
do que Martha possue corações verdadeiramente dedicados? accrescentou
ella. Não vê que está offendendo a Deus que a protege? Porque pensa em
morrer, minha amiga? Não vê que morrendo, mataria sua mãe, seu pae, e
que fará soffrer a todos que se interessam pela sua vida? Por que motivo
se tem occultado á sombra da sua agonia sem buscar um peito amigo com
quem desabafe os seus desgostos? Não tinha minha irmã? Não me tinha a
mim? á sua propria mãe? Quem melhor do que ella, podia ser a confidente
dos seus segredos?
--Segredos! Eu? murmurou Martha.
--Sim, Martha; segredos e muito importantes. Não queira negar-me o que
sei.
--Não tenho coisa alguma a negar, minha boa menina, respondeu Martha,
como se já não tivesse forças para sustentar aquelle dialogo.
Insciente do mal que as suas palavras poderiam influir no espirito de
Martha, Magdalena seguia apenas a que o seu coração lhe ordenava.
--Nunca amou ninguem, Martha? Seja sincera commigo. Deposite as suas
magoas n'este coração que lhe quer tanto como se fosse sua propria irmã.
Os olhos da creança inundaram-se de lagrimas. A mentira jámais havia
passado por seus labios! A infeliz não sabia que responder.
--Responda, minha irmã. Até hoje homem algum lhe feriu esse coração?
Jura-m'o?
Haveria ainda algum vestigio de esperança no coração de Magdalena ao
insistir n'aquellas perguntas? Sabia-o Deus e a sua alma!
Martha sem responder agarrou-se ao pescoço de Magdalena e desatou n'uma
torrente de lagrimas.
--Perdôe-me, disse ella emfim, mas eu não sabia que o amava. Foi o
primeiro homem que meus olhos viram. Havia tanta bondade, tanta nobreza
no seu caracter! A quantas pessoas perguntei por meu pae, todas me
responderam brutalmente que não sabiam quem elle era. Aterrada com a
minha desgraça, encontrei-me só, completamente só. Então, appareceu o
sr. Manuel de Mendonça; promptificou-se a procurar meu pae, e
encontrou-o. Desde esse dia, a sua imagem ficou-me impressa na memoria.
Quiz esquecêl-o, mas era-me completamente impossivel! Dias depois, vi-o.
O que eu sentia na minha alma, foi crescendo, crescendo gradualmente,
até que reconheci que o amava. Quando já era tarde foi então que
comprehendi toda a loucura do meu sentimento, avaliando ao mesmo tempo a
immensa distancia que nos separava. Um dia, descobri que esse homem era
amado por quem melhor do que eu o merecia. A dôr quebrava-me a alma, mas
a ninguem revelava a minha angustia! Desde então, minha boa amiga,
entendi que o melhor era esperar resignada o momento em que Deus me
chamasse á sua divina presença sem ter deixado no mundo um rastro de
ingratidão! Ame-o, sr.ª Magdalena! Amem-se, que são dignos um do outro,
e, se um dia se recordarem da pobre Martha, vão ambos, rezem-lhe uma
oração sobre a sua sepultura, e lembrem-se da que está no reino dos
tristes pedindo a Deus pela sua ventura e pela felicidade do sr. Manuel
de Mendonça!
--E quem te disse a ti, filha, que esse homem era amado por mim?
--O meu coração, respondeu Martha, inclinando a cabeça no travesseiro.
--Illudiu-te, e o tempo t'o provará, respondeu-lhe Magdalena. Eu nunca o
amei! accrescentou ella, empregando n'estas ultimas palavras todo o
valor da sua alma. Eu só quero a tua felicidade, Martha.
--A minha felicidade está no céu, respondeu a infeliz, levantando os
olhos para o tecto.
--Enganas-te! exclamou Magdalena. A tua felicidade está nos braços
d'esse homem como a sua ventura deve estar n'um coração nobre e generoso
como o teu! Já a mim mesma o prometti, irei hoje preparar o teu bem
estar. Agora, filha, accrescentou Magdalena, que esses teus olhos se
enxuguem para sempre, e que as lagrimas desçam sobre os meus para jámais
os abandonar. E abraçando estreitamente a pobre creança, Magdalena sahiu
do quarto, e sem quasi se despedir de Balbina, deixou a casa do operario
e partiu para o hotel Bragança!
[Ilustração: É de joelhos que lh'o imploro! (_pag. 213_)]