XXVII

Ao cabo de quinze dias, graças á sua robusta compleição, Manuel de

Mendonça pôde subir ao convez, esperando, dizia elle, conseguir com a

brisa do mar completo restabelecimento.

Mas não era esse apenas o motivo que alli o conduzia. Mascatudo

havia-lhe dito na vespera, que da galera se via perfeitamente o edificio

do hospital, e quasi todos os dias, depois da uma hora da tarde se

divisava um vulto na varanda, assestando o oculo na direcção do barco.

Achando se completamente restabelecido, Manuel de Mendonça pegou no seu

magnifico telescopio e dirigiu-se á prôa do navio afim de descobrir quem

tão assiduamente o espreitava.

Ao vêr o edificio que Mascatudo lhe designára, já o seu olhar de lynce

havia descoberto que alguem o estava observando.

Manuel de Mendonça levantou o seu oculo, e descobriu o rosto pallido e

insinuante de Magdalena.

Não era esse o semblante que elle cuidava encontrar; comtudo, continuou

por alguns segundos esperando ainda descobrir a imagem que durante a sua

terrivel enfermidade o havia perseguido. Mas tal não succedeu. Magdalena

continuando a olhar, parecia não perder um segundo da sua persistente

observação.

Desalentado, metteu o oculo debaixo do braço, e caminhou serenamente

para a ré.

Então um milhão de reminiscencias lhe acudiu á memoria. Lembrou-se

d'aquelle dia em que Magdalena o contemplára tão demoradamente, quando

fôra visitar Jeronymo.

«Quem sabe, pensou elle, se esta mulher me ama, e se lançou mão d'alguma

intriga para desconceituar a meus olhos a filha do operario? Se tal

fosse! Veremos o que pensa Mascatudo. Não façamos juizos temerarios. Que

importa que eu vá visitar seu pae? Não lh'o prometti eu?»

Erguendo o seu telescopio, Manuel assestou-o pela segunda vez na

direcção do hospital, onde Magdalena se conservava ainda no seu posto de

observação. O maritimo, voltando as costas desceu á camara onde

Mascatudo o aguardava.

Quem n'esse momento tivesse entrado no hospital da rua de S. Francisco

de Paula, e houvesse subido aquelle terceiro andar, onde Magdalena se

achava, teria ouvido o som da queda de um corpo e uma voz entrecortada

pelos soluços, soltando estas palavras:

--Amam-se, não ha duvida!

--Maldito caldo de gallinha, puff, está a escaldar! dizia uma outra

voz. Era a de Olympia.

O Conde de S. Luiz · 第 42 / 59 题