Ao cabo de quinze dias, graças á sua robusta compleição, Manuel de
Mendonça pôde subir ao convez, esperando, dizia elle, conseguir com a
brisa do mar completo restabelecimento.
Mas não era esse apenas o motivo que alli o conduzia. Mascatudo
havia-lhe dito na vespera, que da galera se via perfeitamente o edificio
do hospital, e quasi todos os dias, depois da uma hora da tarde se
divisava um vulto na varanda, assestando o oculo na direcção do barco.
Achando se completamente restabelecido, Manuel de Mendonça pegou no seu
magnifico telescopio e dirigiu-se á prôa do navio afim de descobrir quem
tão assiduamente o espreitava.
Ao vêr o edificio que Mascatudo lhe designára, já o seu olhar de lynce
havia descoberto que alguem o estava observando.
Manuel de Mendonça levantou o seu oculo, e descobriu o rosto pallido e
insinuante de Magdalena.
Não era esse o semblante que elle cuidava encontrar; comtudo, continuou
por alguns segundos esperando ainda descobrir a imagem que durante a sua
terrivel enfermidade o havia perseguido. Mas tal não succedeu. Magdalena
continuando a olhar, parecia não perder um segundo da sua persistente
observação.
Desalentado, metteu o oculo debaixo do braço, e caminhou serenamente
para a ré.
Então um milhão de reminiscencias lhe acudiu á memoria. Lembrou-se
d'aquelle dia em que Magdalena o contemplára tão demoradamente, quando
fôra visitar Jeronymo.
«Quem sabe, pensou elle, se esta mulher me ama, e se lançou mão d'alguma
intriga para desconceituar a meus olhos a filha do operario? Se tal
fosse! Veremos o que pensa Mascatudo. Não façamos juizos temerarios. Que
importa que eu vá visitar seu pae? Não lh'o prometti eu?»
Erguendo o seu telescopio, Manuel assestou-o pela segunda vez na
direcção do hospital, onde Magdalena se conservava ainda no seu posto de
observação. O maritimo, voltando as costas desceu á camara onde
Mascatudo o aguardava.
Quem n'esse momento tivesse entrado no hospital da rua de S. Francisco
de Paula, e houvesse subido aquelle terceiro andar, onde Magdalena se
achava, teria ouvido o som da queda de um corpo e uma voz entrecortada
pelos soluços, soltando estas palavras:
--Amam-se, não ha duvida!
--Maldito caldo de gallinha, puff, está a escaldar! dizia uma outra
voz. Era a de Olympia.