XXIV

--Aposto a minha cabeça em como o visconde ha-de ser tão nescio que se

não lembre de arranjar um montesinho antes da ceia.

--Se o não fizer alguns motivos tem para isso. Por tolo, não é, decerto.

--Tambem, se queres que te diga a verdade, não lhe encontro grande

esperteza. Já lá vão duas heranças importantissimas, e ambas tiveram o

mesmo fim. Se isto é ser esperto, está o mundo cheio de espertalhões!

--Sabes o que eu chamo ser esperto, é saber lavar a sua roupa em

familia, como diz o dictado. De quantas lagrimas não lhe tem sido

testemunha o seu travesseiro? Vê tu, se já alguem deixou de lhe

encontrar o mesmo sorriso? Dizem todos: o visconde está arruinado, é

impossivel que possa aguentar por mais tempo aquella opulencia, em menos

de um anno hão-de vel-o miseravel, porém desde que morreu o conde, não

abandonou o seu palacio, ainda não despediu um criado, ainda não vendeu

um cavallo, ainda não deixou de dar almoços, jantares e ceias! Está

arruinado: tão arruinado que não ha muitos dias deu um presente, que

valia mil libras. Quem dá um presente de mil libras não póde estar

pobre.

--Isso leva agua no bico!...

--E que importa? O que não ha duvida, é que pessoa alguma seria capaz de

fazer o que elle tem feito.

--Eu tambem não lhe contesto o seu cavalheirismo.

--E o que lhe tem custado as mulheres e o jogo? Tomára eu ter o dinheiro

que lhe ganhei ha uns vinte annos, quando estive associado com um grande

espertalhão que havia em Lisboa, chamado Felix de Araujo.

--Felix de Araujo? Não me recordo.

--Um vivo demonio, que fez tudo quanto lhe pareceu em Lisboa, acabando

por ter uma casa commercial.

--Ai, ai, agora me lembro. Por signal que roubou uma senhora, a casa de

quem ia muitas vezes! A pobresinha foi acabar os seus dias no hospital

de S. José. Já sei. Era um tratante de marca maior, que fez a desgraça

de muita gente. Nunca mais se soube d'elle?

--Disseram-me que tinha morrido envenenado na Costa d'Africa. Que a

terra lhe seja leve, que eu, assim como assim, não tenho razão de queixa

da sua pessoa; basta lembrar-me que o pouco que sei a elle lh'o devo.

--O pouco que sabe! Se eu soubesse metade...

--Aquillo é que eram mãos! Aquillo é que era dar um _salto_ com limpeza,

sem que o baralho desse o mais pequeno estallido! E trabalhar com cinco

dados! e _tirar_ ao pegote!

--É verdade, é verdade! A ultima vez que joguei com elle foi em casa do

barão. Por tal signal que me roubou quatorze notas de dez moedas á banca

portugueza.

--Se aquelle homem não tivesse morrido, com a audacia que possuia, ainda

tinha voltado a Portugal...

--O que estará fazendo o visconde?

--Como não usa de cerimonia para comnosco, provavelmente dá as suas

ordens para que tudo se faça segundo os seus desejos.

Passava-se este dialogo entre Gil de Carvalho e Bernardo de Paiva.

O primeiro, era um jogador de profissão e refinado velhaco, ao qual

todas as portas se abriam por um d'esses desleixos imperdoaveis que é

susceptivel em toda a sociedade de grandes capitaes.

Relacionando-se com os individuos que frequentavam certa sociedade onde

o jogo era permittido por distracção, Gil de Carvalho introduziu se nos

principaes salões de Lisboa.

Ninguem sabia a sua procedencia! As suas maneiras quasi sempre

delicadas, resentiam-se comtudo da primitiva educação!

Gil teria uns sessenta annos. A sua fortuna era um mytho. Uns diziam que

estava pobre; outros, calculando pelo que havia roubado ao jogo,

attribuiam lhe riquezas enormes.

Bernardo de Paiva era um homem pouco mais ou menos da edade do seu

interlocutor. Herdára de seus paes uns vinte ou trinta contos de réis e

dissipára-os immediatamente em mil loucuras, sendo a principal o jogo,

que ainda hoje o dominava com poder immenso!

Bernardo descendia em linha recta de uma das mais distinctas familias de

Olhão. Aparentado com muitos individuos de Lisboa, Bernardo com mais

algum direito do que Gil de Carvalho, tinha entrada em todas as casas.

Ao contrario de Gil, a sua physionomia era sympathica e insinuante.

Jantar onde elle estivesse, corria sempre alegre e animado. Além do seu

vivíssimo _esprit_, tinha outra qualidade que o tornava estimado em

todos os circulos: não dizia mal de ninguem. A sua bocca era sagrada,

como judiciosamente affirmava o mordomo do visconde de Coruche.

Quando Gil e Bernardo de Paiva se dirigiram para uma saccada que olhava

para o pateo, onde se ouviu o rodar de um trem, correu-se um dos

reposteiros e appareceu o visconde.

--Peço-lhes que me desculpem esta demora, mas não me foi possivel

evital-a. Adoeceu de repente o meu mordomo, tenho de o substituir.

--Pela minha parte estás desculpado, disse Bernardo de Paiva,

sorrindo-se para o visconde.

--Repito o mesmo, acudiu Gil.

--Não adivinhas, de quem estamos falando? disse Bernardo dirigindo se ao

visconde.

--N'aquelle mariola de Felix Justino de Araujo, accrescentou Gil de

Carvalho.

--Não me recordo respondeu o visconde com modo distrahido.

--Ora essa! exclamou Bernardo. O commendador Araujo que ia á _Casa

Branca_, do Arco do Bandeira.

--Ah! Já sei, respondeu o visconde.

--Sabes quem eu acho muito parecido com elle, e só agora foi que me

lembrou...

--Quem?...

--O teu amigo Tristão d'Almeida.

--E é verdade, respondeu o visconde. Bem me parecia a mim que já tinha

visto n'alguma parte uma physionomia que se lhe assimilhasse.

--É um homem muito sympathico aquelle seu amigo, interrompeu Gil de

Carvalho.

--Aonde o viu? perguntou o visconde.

--Ha dias, no gremio, aonde me foi apresentado. A proposito, sabe se

elle joga?

--Duvido, respondeu o visconde. Nem me convinha por modo algum que se

jogasse em minha casa, accrescentou elle, que tudo havia planeado para

esse fim.

--E se elle pedisse? perguntou Gil, tentando ainda profundar-lhe o

pensamento.

--Isso então era differente. O meu dever é tornar-me sempre amavel para

com as pessoas que me dão a honra da sua companhia.

--Sou da tua opinião, disse Bernardo de Paiva, que lia no mais intimo da

alma do visconde.

N'este momento ouviram-se duas badaladas na sineta da loja, e d'alli a

pouco entrou um criado de libré, annunciando Tristão d'Almeida.

* * * * *

--Venho aqui pura e simplesmente para lhe provar o desejo que tenho de

estar na sua companhia, disse Tristão, depois de falar ao visconde e aos

seus amigos. Se não fôra isso teria ficado de cama.

--Mas que teve, meu amigo? perguntou rapidamente o visconde.

--Quanto póde imaginar de mais infernal! Todos os symptomas que

apresenta a epidemia. Sabe o que fiz? tomei um _grog_ e fui para o

hospital.

--Que valor! interrompeu o visconde.

--Quando alli cheguei, continuou Tristão, augmentaram-se-me os

padecimentos. Querem saber os resultados? Vão admirar-se da força da

minha vontade. Fui receber um doente, que pouco tempo depois me expirou

nos braços. Aquella rapida transposição da vida para a morte, aquelle

instante incalculavel que medeia entre o ser e o nada, entre a vontade e

abstracção, longe de aterrar, robusteceu-me o espirito e, escudado pela

confiança em um mundo melhor e mais perfeito, reanimou-me a ponto de me

sentir completamente restabelecido.

--É mais uma prova da sua religião, meu caro amigo, interrompeu Bernardo

de Paiva. Os que se aterram em presença do moribundo e na observação do

cadaver, é porque receiam o desconhecido! Os que se baseiam nos

preconceitos do vulgo, apegando se á vida, e receiando a morte, que,

segundo as suas crenças, os colloca em contacto com a Divindade, não são

mais que uns miseraveis, uns vermes que vivem e rastejam para a sua e

nossa deshonra! A morte, para todo o homem de intelligencia clara e

illustrada, não é mais que o principio de uma vida infinita.

Espiritos pobres e tacanhos que se lamentam a cada segundo, dizendo que

lhes peza a vida, empallidecem quando a morte de longe lhes acena com as

suas azas, brancas para elles que sopezam constantemente a desgraça nas

suas longas noites de interminavel soffrimento.

Receiam morrer! Elles que deviam tomar a existencia com um eterno

castigo! Que melhor somno para o desgraçado do que o da morte, dormido

sob a lousa! Preferem o bulicio da vida á paz do eterno repouso, o

andrajo ao sudario, a fome á anniquilação!

--Isso é uma grande verdade, mas a maior parte do mundo não pensa como

vossa excelencia, respondeu Tristão. Duas ou tres vezes tenho visto a

morte deante de mim, e nunca me atemorizou! Tenho a minha consciencia

bastante socegada para me apresentar deante de Deus! Não receio o seu

julgamento. Diziam-me em Buenos-Ayres que era um homem de um valor

desmedido, emquanto eu não passava de um pobre diabo a quem os peccados

não perseguiam na existencia, porque nunca os havia procurado. Digo

procurado, porque o homem, a maior parte das vezes, pecca mais por

vaidade do que por instincto. Tenho umas theorias, falsas talvez para o

seculo em que vivemos, mas que apezar de tudo não desprezo. Deus que fez

o homem á sua similhança, ao lançal-o ao mundo, revestiu-o de bons

instinctos, porém, a sociedade envenenando-lhe o coração, insinuou-o no

crime e apresentou-lh'o atravez de um prisma seductor. Então os seus

olhos fascinaram-se, a vontade esmoreceu-lhe, e o coração propenso

sempre a ser dominado ao primeiro impulso, extraviou-se da razão e

lançou-se cego e inexperiente n'esse dedalo artificioso a que a

humanidade nos arrasta! Satanaz ri-se, mas Deus, que tudo perdôa, espera

o momento supremo para indultar o peccador e á humanidade que o

perverteu! Esta é a minha opinião.

--Sabem quem hontem ganhou trezentas e tantas moedas? interrompeu Gil de

Carvalho voltando-se para o visconde. Aquillo é que foi sorte,

accrescentou elle, sem notar o espanto que a sua interrupção havia

produzido nos circumstantes. Fez um circo, depois outro, depois outro, e

bumba, lambeu tudo quanto havia sobre a banca.

--Mas a que proposito vem isso, sr. Gil de Carvalho? perguntou o

visconde, emquanto Tristão de Almeida o contemplava com simulado

espanto.

--Isto veiu a proposito... d'aquillo em que eu estava pensando,

respondeu Gil de Carvalho tornando a cahir no mesmo estado de profunda

reflexão.

--Excentricidade do nosso amigo Gil, acudiu Bernardo de Paiva, olhando

intelligentemente para o visconde.

O magnate conservava-se frio e sereno como um _yankee_, entre os quaes

largos annos havia habitado.

--Gosta de jogar? perguntou Gil de Carvalho voltando-se para Tristão.

O visconde e Bernardo estremeceram de raiva.

--É uma coisa que ás vezes me diverte, respondeu-lhe Tristão. Não

admitto o jogo por vicio, mas, assim de vez emquando, depois de um

jantar ou de uma ceia, encontro-lhe alguma distracção, ainda que as

poucas vezes que tenho jogado tem sido quasi sempre com uma infelicidade

extraordinaria! A ultima foi em França, aonde perdi n'uma só noite

duzentos mil francos. O divertimento foi caro, é verdade, mas

distrahi-me.

Ao ouvir estas palavras, os olhos de Gil de Carvalho brilharam de

visivel alegria. Tinha as suas esperanças realizadas!

O visconde nem pestanejou!

Assim estiveram conversando sobre varios assumptos até que appareceram

todos os individuos que o visconde havia convidado.

Ás seis horas foram para a sala de jantar, cuja mesa brilhantemente

adornada, revelava a opulencia e bom gosto do dono d'aquella habitação

maravilhosa. O jantar correu animadissimo! Bernardo de Paiva, como

sempre, esteve esplendido de graça. Tristão de Almeida com grave

assombro dos convivas que pela primeira vez o viam e sobre tudo do

visconde, que o julgava um homem trivial, apresentou-se totalmente

opposto ao que o suppunham.

«Este homem é um mysterio», pensava o visconde, ao mesmo tempo que

saudando-o em repetidas libações, fazia as maiores diligencias de o

toldar.

Inuteis foram porém todos os seus esforços; o convidado bebia por elles

todos, sem que o mais leve indicio de incommodo lhe transtornasse a

serenidade da sua imperturbavel physionomia.

Ás nove horas, levantaram-se todos da mesa, e foram para outra sala,

onde os esperava o café.

Tristão de Almeida, como o leitor deve fazer ideia, conhecia todos os

individuos que estavam presentes, e melhor do que a elles todos a Gil de

Carvalho, com quem por mais de uma vez se havia associado.

Ou por calculo ou porque lhe recordassem com saudade as sensações do

jogo, Tristão propoz ao visconde que se fizesse monte.

--Estão em sua casa, respondeu-lhes o visconde. Eu também não desgosto

de vez em quando arriscar duas ou tres duzias de libras.

Gil de Carvalho estremeceu de jubilo; Bernardo de Paiva exultou de

contentamento. Encontrava um meio de adquirir uma ou duas duzias de

moedas, jogando sempre na _alforreca_.

--Quem ha de fazer o monte? eu não por certo, disse o visconde, foi

coisa para que nunca tive geito.

--Nem eu tão pouco, acudiu o commendador.

--Visto vossa excellencia ser banqueiro, ajuntou Bernardo de Paiva,

dirigindo se para Vaz Mendes, o banqueiro de Tristão de Almeida,

pertence-lhe por direito.

--Que o faça o sr. Gil de Carvalho que está mais acostumado a pegar em

cartas.

--Resta agora saber se ha cartas em casa. Mas isso pouco importa,

mando-as alli buscar ao Club, disse o visconde.

--Estranha coincidencia! exclamou Gil de Carvalho, mettendo as mãos no

bolso do peito da casaca, minha mulher tinha-me pedido hoje que lhe

levasse dois ou tres baralhos para fazer a paciencia, e ainda aqui

estão. Podem servir estas.

--Que favoravel acaso! disse Bernardo de Paiva, sorrindo-se

intelligentemente para o visconde.

«Está a mesma coisa», murmurou Tristão de Almeida, de si para comsigo.

--Vamos fazer uma _vaca_? disse o visconde e em voz baixa olhando para

o seu hospede, emquanto Gil de Carvalho se approximava d'uma banca para

melhor contar os baralhos.

--Jogaremos de sociedade, visconde, replicou Tristão de Almeida.

--Seja.

* * * * *

D'alli a dez minutos, as cem moedas que Gil de Carvalho fizera de monte,

haviam passado para defronte de Tristão de Almeida, acompanhadas por

mais do dobro que os outros peritos tinham perdido.

Segundo, terceiro e quarto monte, e o mesmo resultado.

Tristão jogava com uma sorte espantosa! Gil de Carvalho tinha perdido a

força moral.

--Tem dinheiro? perguntou elle ao visconde.

--Sirva se, disse-lhe Tristão de Almeida empurrando-lhe um maço de

notas.

O banqueiro acceitou.

Outro monte de cem moedas, e em tres cartadas, todo o dinheiro que

estava na mão do intrepido jogador havia passado para o banqueiro.

Os olhos de Gil de Carvalho brilharam como uma alegria feroz.

Tristão de Almeida, acendeu tranquillamente um magnifico charuto, e

sorriu-se para o visconde.

--Era justo que se perdessem algumas paradas, murmurou elle, tirando da

algibeira do peito uma carteira de chagrin.

--Continua a sociedade, visconde? disse o magnate voltando-se para o seu

amphitrião.

--Continua, meu amigo.

Gil de Carvalho baralhou as cartas e deu-as a partir a Tristão de

Almeida.

--Topo tudo no duque, disse este rapidamente, ao sair a segunda carta

do algor debaixo. Gil voltou as cartas a tremer, e á segunda appareceu

um duque.

--Vou a casa buscar dinheiro, não tenho fé alguma em jogar com capitaes

emprestados, disse Gil de Carvalho, collocando o baralho sobre a banca,

e saindo sem quasi dar tempo a Tristão de Almeida e ao visconde de lhe

fazerem os seus offerecimentos.

Tristão havia ganho tres contos e seiscentos mil réis.

--Que lhe parece? disse elle voltando-se para o visconde, damos hoje a

desforra ao seu amigo Gil de Carvalho, ou guardamos isso para outro dia?

--Ficará para outro dia. Convinha me muito ir ao segundo acto do

Trovador.

* * * * *

Ás onze horas os convidados retiravam se, e Tristão de Almeida na

carruagem do visconde seguía com elle para o hotel.

Mais tarde parava um trem á porta do visconde. Era Gil de Carvalho que

fôra a casa buscar mais dinheiro, e uns certos baralhos em que as cartas

se pegavam umas ás outras. Descendo rapidamente, entrou no patim.

--Os senhores já lá vão para o theatro, disse-lhe o guarda-portão.

Gil cuidou morrer de desespero!

O Conde de S. Luiz · 第 39 / 59 题