XXV

Alguns esclarecimentos ácerca de Manuel de Mendonça, de quem vossa

excellencia e a pallida Martha, ha tempos a esta parte, nada tem sabido.

Quando verdadeiramente fascinado pela formosura da filha do operario,

saiu do hotel Bragança--vespera da retirada de Jeronymo para sua casa--o

maritimo havia-lhes promettido de brevemente os visitar; porém,

reflectindo mais pausadamente sobre esse gravissimo assumpto, quiz ainda

forcejar com o coração, abafando-lhe quanto podesse a chamma que o

consumia!

Tudo foi inutil! Ao cabo de dez dias, a pobre alma, cada vez mais preza

á recordação de Martha, ia a tal ponto identificando-se com ella, que

Manuel resolveu de si para si, ou sahir immediatamente de Portugal ou

pedir a filha de Jeronymo.

No dia seguinte ao romper da manhã já elle tinha procurado Mascatudo.

Fechando-se ambos na camara, participára-lhe a sua resolução.

O marinheiro, cujo unico desejo era a felicidade de Manuel, abraçou de

boa mente a sua determinação: elle, que sobretudo não comprehendia a

verdadeira ventura sem os verdadeiros regozijos da familia!

--Hoje mesmo, disse-lhe Manuel de Mendonça, irás informar-te pela

visinhança sobre a conducta de Martha, e se fôr como eu supponho, e

espero em Deus que seja, ámanhã mesmo irei pedil-a a seu pae.

«Que me importa que seja uma triste filha do povo, se o seu

comportamento for virtuoso, pensava Manuel de Mendonça, encostando-se á

amurada da sua galera. Quem sou eu? continuava elle, um homem sem

familia, sem parentes! Que me importam os brazões dos meus antepassados!

Em que concorreram elles para esta pequena posição que hoje tenho na

sociedade? Quanto sou, devo-o a mim, e só a mim! Está decidido, em oito

dias, Martha será minha mulher.»

D'alli a meia hora, Mascatudo com o seu fato domingueiro, approximou-se

de Mendonça.

--Á ordem, meu commandante.

--Estás prompto?

--Prompto.

--Sabes o serviço que me vaes fazer?

--Ora essa!

--Serás discreto, reservado?

--Como uma carranca de prôa.

--Bem estamos. Sabes aonde ella mora?

--Rua do Meio, á Lapa.

--Numero?

--Cento e doze.

--Tal e qual. Chegas assim como quem não quer a coisa, e pergunta alli

pela visinhança, quem é pouco mais ou menos o Jeronymo; se a sua vida é

moral e religiosa, se é um homem trabalhador, etc., etc.

--Bem sei como essas coisas se fazem, meu commandante.

--Em primeiro logar, para que se não desconfie, é falar só de Jeronymo;

o resto, vem mesmo sem o perguntares. Entendes bem?

--Se entendo... O commandante vem tambem p'ra terra?

--Não, espero aqui a resposta.

--Então ás ordens, e que a Senhora da Bonança vá em minha companhia.

Descendo para o escaler sentou-se á prôa e mandou remar.

Uma hora depois, Mascatudo entrou n'uma pequena tenda da rua da Lapa,

que ficava quasi em frente da casa de Jeronymo.

Approximou-se do balcão e pediu de comer.

Á proporção que comia e bebia, o marujo ia adquirindo uma certa

intimidade com o caixeiro, offerecendo-lhe de vez em quando do seu copo,

em que elle pegava sem se fazer rogar.

--Diga-me uma coisa, perguntou emfim Mascatudo. Dá-me noticias d'um

mestre de obras, que d'antes aqui morava, chamado Jeronymo? Ha quantos

annos o não vejo!

--Olhe, respondeu o caixeiro, apontando ao mesmo tempo para a casa do

pae de Martha, ainda alli mora n'aquella casinha.

--É um bom homem!... E sua mulher ainda vive?

--Ainda.

--A filha é que deve estar uma senhora?

--É toda _mystica_! disse o caixeiro; e enthusiasmando-se com a

formosura de Martha, despejou, sem Mascatudo lh'o offerecer, o resto do

vinho que estava no copo.

--Conheci aquillo uma criancinha, accrescentou Mascatudo, olhando de

soslaio para a meia canada que o moçoilo acabava de despejar.

--Ha pouco tempo succedeu uma _disinfelicidade_ ao pobre Jeronymo,

continuou o caixeiro, que lhe ia custando uma grande _felicia_.

--Sim? perguntou Mascatudo.

--É verdade.

--Então como foi isso?

--Eu lh'o conto. Foi atropellado por um fidalgo muito rico, que tem

agora um hospital para a rua de S. Francisco de Paula, e como elle

ficasse muito mal tractado, sabe o que o fidalgo fez? levou-o para a

hospedaria onde estava, tractou d'elle sem lhe faltar nada, e por ultimo

empregou o, dando-lhe quinze tostões por dia. Ora veja vossemecê como o

diabo as tece! Ha males que vem por bem! Quem me dera a mim encontrar um

fidalgo que me atropellasse com a condição de me dar, já não digo quinze

porém cinco tostões por dia. Ha dois annos que estou n'esta maldita

casa, e o miseravel do patrão ainda me não augmentou o ordenado. Aqui

estou ganhando dois mil reis por mez, que como o outro que diz, não me

chega nem para beber uma pinga aos domingos. Agora por isso, ajuntou

elle, mudando de tom, creio que já despejou todo o vinho. Quer que torne

a encher?...

--Encha, respondeu Mascatudo, occultando a custa um sorriso.

--E ainda ahi não fica, como ia dizendo. Em tal graça caiu a sua familia

para com os fidalgos, que é raro o dia, em que as meninas não vém no seu

proprio trem buscar a filha de Jeronymo.

--E ella porta-se bem?

--Diziam que sim, porém agora, já ha quem lhe rosne no credito. Ora

aqui para nós tem razão! Uma rapariga tão bonita como a Martha, e pobre

como é, andar no luxo em que anda!

--Mas talvez que esse luxo lhe tenha sido dado pelas filhas do tal

fidalgo, respondeu Mascatudo, sentindo um grande estremecimento no

coração.

--Tambem isso é verdade; póde muito bem ser, e n'esse caso então, não

lhe deviam cortar na pelle.

--E quem é que lhe corta na pelle?

--Olhe, alli vem uma das visinhas que não lhe faz lá muito boas

ausencias: a tia Monica.

N'esse momento, a beata, de quem o leitor deve estar lembrado, involta

na sua mantilha de merino preto, entrou na tenda.

--Deus seja n'esta casa, disse ella, olhando ao mesmo tempo para

Mascatudo.

--Amen, respondeu este, cravando os olhos no rosto cadaverico da

intrusa.

--Então como vae isso hoje lá por baixo a respeito da febre, perguntou o

caixeiro, que já sabia que era a hora em que ella vinha da baixa.

--A colera de Deus continua a castigar os peccadores, respondeu a misera

abaixando ao mesmo tempo a cabeça. Hontem, continuou ella, disseram-me

que houve uma mortandade espantosa. E estes herejes do sitio sem fazerem

uma procissão como tantas vezes lhes tenho pedido!

--Porque não mette n'isso o mestre Jeronymo? perguntou o caixeiro á tia

Monica, piscando ao mesmo tempo o olho para Mascatudo.

--Cruzes! Credo! Virgem da Soledade! Pedir uma coisa d'essas a

similhante creatura! De que Deus me livrasse, sr. André!

--Pelo que vejo, não é muito amiga do nosso visinho!

--E como queria o senhor que uma mulher como eu fosse amiga de

similhante homem?

--Pois olhe, basta o que elle fez pela tia Marianna, para mostrar que

tem bom coração. Lá o que é verdade, deve-se dizer sempre! Ha de haver

mez e meio, proseguiu o caixeiro voltando-se para Mascatudo, foi aqui

atacada uma mulher pela febre amarella, e ninguem se atreveu a entrar em

sua casa; a unica pessoa que o fez, foi Martha, a filha de Jeronymo. Com

tanto amor a tractaram, que hoje está viva e sã.

Mascatudo sorriu d'alegria ao ouvir a boa acção de Martha.

--E porque fez elle isso tudo? resmungou a beata. Sô para que depois se

dissesse pela visinhança que eram uns santinhos. Que santinhos de pau

carunchoso!

--Seja lá pelo que fôr, o grande caso é que salvaram aquella embarcação

que ia dar á costa, acudiu Mascatudo.

--Pelo que vejo respondeu Monica contemplando o marinheiro, vossemecê

anda sobre as aguas do mar? Que o Senhor dos Navegantes, a quem mesmo

agora acabo de rezar duas estações, o livre de todos os perigos, meu

filho; e possa tambem a Senhora da Bonança andar sempre em sua

companhia. Padre nosso que estaes nos céos... continuou ella.

--Então o que se diz por ahi de Jeronymo, tia Monica, perguntou

Mascatudo, começando a tratal-a com certa confiança.

--Ora! O que se ha de dizer! O que se diz sempre d'um homem que

consente que sua filha esteja fóra de casa, e que venha a altas horas da

noite, muitas vezes acompanhada por um individuo, que vem sósinho com

ella dentro d'um trem. Quem elle é ainda eu não pude descobrir, mas,

agora que felizmente já consegui encaixar-me no hospital e fazer

conhecimento com as meninas... vou descobrir quem é o melro.

Mascatudo sentiu um estremecimento por todo o corpo. Elle que a julgava

pura como um anjo, começava a duvidar da sua virtude. E não tinha mais

remedio senão contar tudo que ouvira.

--Agora que já tenho lá entrada como lhe ia dizendo, é que hei de saber

qual dos amigos do fidalgo, é o que está acostumado a acompanhal-a. E a

boa da tia Marianna, sempre por toda a parte a dizer d'ella mil

maravilhas, e eu a saber como os meus dedos, a peça que é a creancinha!

Dizem-me que anda sempre muito triste. Deus sabe como ella andará! Que

Deus me perdoe de fazer maus juizos!... exclamou a beata curvando a

cabeça.

Outro que não fosse Mascatudo, teria regeitado as opiniões da execravel

beata, porém ferido por aquella primeira impressão, o caracter fogoso e

ao mesmo tempo selvagem do marinheiro, levou-o a acreditar em tudo

quanto lhe haviam dito! Sem descer a mais indagações, e abandonando ao

caixeiro a segunda meia canada que mandara encher, Mascatudo pagou o que

devia, e sem quasi se despedir nem d'um nem d'outro, saiu apressadamente

da loja. Seguindo pela rua da Lapa, desceu a rua de S. Domingos, e

entrando nas Janellas Verdes, alcançou a rocha do Conde de Obidos, aonde

embarcou para bordo da galera.

Manuel de Mendonça, passeiando á prôa, aguardava com impaciencia o

resultado da commissão do marinheiro.

Os olhos de Mascatudo arrazados de lagrimas, seguiam os movimentos do

seu commandante. O pobre homem receiava os instantes que o approximavam

de Manuel de Mendonça, afim de lhe participar o que se havia passado.

O escaler abordou finalmente á galera e Mascatudo subiu a escada.

--Que soubeste? perguntou Manuel conduzindo-o á sua camara.

Revestindo-se de valor Mascatudo contou-lhe quanto tinha ouvido.

Manuel de Mendonça sorriu-se brandamente, e olhando para aquelles

horisontes, toldados então por uma neblina espessa, fitou a vista no

oceano, como que dizendo-lhe que o esperasse.

N'essa mesma noite adoeceu com uma febre gravissima, de que lhe resultou

estar quinze dias de cama.

Foi durante esse tempo, emquanto ao infeliz, entre as visões da febre,

se lhe desenhava a imagem da supposta peccadora, que Magdalena na

varanda do hospital, assestava de vez em quando o telescopio para

descobrir o rasto do commandante da galera.

O Conde de S. Luiz · 第 40 / 59 题