Emquanto o visconde de Coruche ordena aos seus criados que lhe preparem
um lauto jantar, dirijamo-nos á Rua do Meio, a casa de Jeronymo.
São tres horas da tarde. O operario, á mesa do jantar, entre Marianna e
sua mulher, olha de vez em quando para a vidraça, como para ver se ainda
continúa a chuva.
Na face pallida de Balbina, desenha-se-lhe o soffrimento. Marianna
parece acompanhal a nas suas tristes meditações.
--Vossês não me dirão o que têem? murmurou Jeronymo. Quando a nossa vida
se apresenta debaixo dos melhores auspicios, é que principiam a
entristecer? O mesmo notei em Martha. Antigamente, era sempre alegre e
jovial, agora, custa os dias da vida, primeiro que se lhe arranque um ar
de riso. Valha-nos Deus! Não ha felicidade completa.
--Isso é uma desconfiança tua, respondeu Balbina.
--A mim não me enganam vossês, replicou Jeronymo, levando aos labios um
copo de vinho. Pela minha parte, ando cá como o outro que diz, meio
desconfiado de uma coisa. Permitta Deus que me engane, ajuntou elle,
voltando-se para a tia Marianna, que dirigira um olhar significativo á
esposa do operario.
--E de que estás desconfiado, Jeronymo? accudiu Balbina, voltando se
para seu marido.
--Se eu não desabafasse com vossês, que são a minha familia, com quem
havia de fazel o? Creio que não era com a tia Monica ou outras
quejandas! Lá vae. Ando desconfiado, como ha pouco lhes dizia que a
nossa Martha está assim meia apaixonada pelo sr. Manuel. Isto foi uma
pancada que me deu o coração; talvez que não passe de um máu juizo. Mas
o que é certo, é que nunca mais lhe tenho visto brilhar os olhos de
alegria, senão duas ou tres vezes que esteve defronte d'elle. Lá isso é
que ninguem me póde negar.
--Pois uma vez que foste tu o primeiro a falar sobre isso, pergunta
agora á tia Marianna o que estavamos dizendo quando tu entraste,
respondeu Balbina, olhando ao mesmo tempo para a sua amiga.
--Ha mais de oito dias que andamos a pensar n'isso, disse a tia Marianna
voltando se para o operario.
--Valha nos Deus, Balbina! E como havemos de impedil-o?
--Não sei, respondeu Balbina, profundamente entristecida. Sabes o que me
disse a tia Marianna? accrescentou ella. Que o sr. Manuel era por força
um homem muito de bem; bastava ver a maneira como elle se portou com a
nossa filha.
--Tudo isso é uma grande verdade, Balbina, mas, em qualquer dos casos é
sempre uma infelicidade. O coração de Martha é... nem eu mesmo sei a que
o compare. É uma especie d'estas fasquias que a mais pequena aragem as
dobra, mas se lá vem um tufão... ficam logo quebradas pelo meio. Além
d'isso, ella bem conhece a distancia que a separa do sr. Manuel, e é
capaz como o outro que diz de afogar em si tudo quanto está soffrendo.
--Sou da sua opinião, sr. Jeronymo; Martha é um anjo, e será capaz de
morrer, confiando apenas a Deus o segredo que a assassina!
--Eu só o que desejava saber era a maneira de nos encaminharmos em tudo
isto, continuou Jeronymo levantando-se da mesa.
--A sr.ª Marianna que nos aconselhe, que é mais velha e tem mais mundo
do que qualquer de nós, acudiu Balbina dirigindo-se á sua amiga e
companheira.
--Que lhes poderei eu aconselhar, meus bons amigos? respondeu a tia
Marianna. Se esse individuo é um homem de bem como eu supponho, e se
Martha lhe não foi indifferente, é de crêr que mais dia menos dia o
possamos tornar a ver, e, n'esse caso estarei muito prompta a falar-lhe.
Não lhe vejo outro remedio, sr. Jeronymo. Prouvera a Deus que fosse hoje
o dia. Quanto ao que vossemecê diz, que uma grande distancia os separa,
não me parece. Não póde elle ser como Martha, um filho do povo? E sendo
assim, não vejo desegualdade de pessoas.
--E se o não fôr? perguntou Jeronymo. Se fôr um fidalgo, um ricasso...
--Torno a repetir-lhe, respondeu Marianna, homem de bem é que eu tenho a
certeza que elle é. E a prova foi não ter tornado a apparecer.
--Isso lá é que é a pura da verdade, acudiu Balbina. Tinha trezentos
meios para a ter visto.
N'este momento, parou um trem á porta do operario. Eram as filhas de
Tristão que vinham trazer a casa a sua amiga.
--Forte delambida! dizia a tia Monica voltando-se para uma visinha,
quando Martha se apeava do trem.
--Deixe estar, respondia-lhe a visinha, mais dia menos dia, verá aonde
aquillo vae parar.
--Ainda bem que já lhe fiz a cama, quando o outro dia me vieram pedir
informações a seu respeito.
--Não sabia d'isso, visinha, não me tinha dito... Quem foi?
--Era um homem que me pareceu assim do trato do mar.
--Desde que se meteu com as fidalgas já não póde andar se não de trem.
Saffa, demonio! E não tem medo das más linguas....
--Nem da colera do Senhor, tia Monica, respondia-lhe a visinha,
mettendo-se para dentro de casa como se os seus olhos invejosos não
podessem resistir ao olhar candido e celeste de Martha, o anjo dos
tristes.
Despedindo-se das filhas de Tristão, Martha entrou em sua casa.
Vinha excessivamente pallida. Uma breve mancha azulada, partindo das
palpebras inferiores até ás proeminencias malares, tornavam-lhe mais
scismadores os seus olhos esplendidamente bellos! Dir-se-hia que se
tinha levantado de uma grande enfermidade. O busto, ligeiramente
inclinado, dava-lhe aspecto de profunda melancolia.
A Jeronymo arrasaram-se-lhe os olhos de lagrimas.
--Que tem, meu pae? perguntou Martha, approximando-se e beijando-o
ternamente na fronte.
--Que tenho, filha?! Que hei de ter! Dia a dia te vejo mais triste, e
ainda perguntas o que tenho? Saudades da tua alegria, dos teus olhos;
onde estão as rosas d'essas faces, que eram a inveja das tuas
companheiras de collegio? Onde estão emfim os teus sorrisos, que eram a
minha ventura? Pensas que só eu tenho notado a tua tristeza, ha oito
dias a esta parte? Enganas-te. Já tua mãe a percebeu e a tia Marianna, e
todos, até o teu cão! para quem já não tens um só carinho. Dize-me o que
sentes, filha, e se eu, ou tua mãe n'alguma coisa te podemos valer, sê
franca, Martha. Quem melhor do que teus paes poderão saber os teus
segredos? Martha, lembra-te que és a unica alegria que eu e tua pobre
mãe temos n'esta vida. Se és boa, como te creio e como todos te
consideram, abre-me o teu coração, não me occultes coisa alguma. Vem,
filha; deposita no meu peito todos os segredos que te obrigam a olhar
para a terra para onde eu não quero que te deixes ir.
Pobre Jeronymo! A dôr tornara-o eloquente! Balbina e a tia Marianna
tinham se afastado para occultarem as lagrimas.
Apenas Martha se conservava serena como a estatua da resignação.
--Que me respondes, Martha? continuava o operario.
--Que lhe posso eu responder meu pae.
--Senta-te aqui nos meus joelhos, accrescentou Jeronymo, apertando a
cintura da filha e approximando-a para si. Vou contar te uma historia.
«Um dia, um pobre operario, que tinha por unica familia sua mulher e sua
filha, ao sair do trabalho foi atropellado por um trem. Levaram-n'o em
seguida para uma grande hospedaria aonde foi caridosamente tratado, sem
lhe faltar coisa alguma a não ser a sua familia que ignorava aonde elle
estivesse. As horas passavam, passavam, e elle sem apparecer. Então a
filha, pondo o capote aos hombros, saiu de casa, procurando o pae como
uma louca.
«Pessoa alguma lhe dava relação d'elle. A triste desanimára!
«Finalmente encontrou um individuo moço, bello, virtuoso. Esse
prometteu-lhe procurar seu pae! A infeliz respirou! D'ahi a duas horas o
desconhecido dizia-lhe aonde elle estava.
«Grata a esta primeira prova de dedicação, a filha do operario
principiou a amal-o em silencio!
--Não me fale n'isso, meu pae, interrompeu Martha, tentando
desembaraçar-se dos braços de Jeronymo.
«Depois, proseguiu o operario prendendo-a cada vez mais ao coração, essa
criança cheia de ternura, continuou a amar esse homem, sem confiar a
pessoa alguma o afecto que a consumia, e hoje, Martha, hoje... está como
tu, pallida, triste, adoentada, e seu pae como um louco por a vêr
assim.»
--Ahi tens a historia, ajuntou elle largando a dos braços e fitando a
com os olhos cheios de lagrimas.
Martha não proferiu uma palavra.
--Não me illudas, filha, esse homem é amado por ti.
--Esse homem, balbuciou Martha, é amado pela filha do nosso protector!
Hoje mesmo a encontrei olhando para a sua galera, ajuntou ella, caindo
desanimada nos braços de seu pae.