No dia seguinte áquelle em que praticâmos a indiscrição de fazer com que
o leitor tambem escutasse as ultimas palavras trocadas entre Tristão de
Almeida e o visconde de Coruche, achava se este, antes do meio dia,
assentado á secretaria do seu escriptorio, chamando todos os criados, e
ordenando a cada um que lhe apresentasse as suas contas.
Os moços estavam como que assombrados! Nenhum podia acreditar que elle
estivesse habilitado a falar d'aquelle modo. Todos sabiam o estado da
sua casa, e a unica esperança que lhes restava, eram as promessas de um
agiota a quem tencionavam vender as dividas.
--Aquillo foi obra de jogo, dizia o cocheiro, refinado velhaco, a quem o
visconde havia arrancado á miseria.
--Ora, saude! acudiu o trintanario, quem caiu d'ahi abaixo! Quem lhe
havia de dar dinheiro para fazer jogo? Ainda não ha muitos dias que elle
perdeu cincoenta moedas, e, a respeito de pagal-as, _xó rôlla_.
--Dê-me elle o que me deve, o mais tanto se me dá como se me deu! Venha
o _baguinho_, e tanto m'importa que fosse ganho ao jogo, como achado,
como roubado!
--O mesmo digo eu, mestre Domingos, interrompeu o criado de quarto.
Tomára eu sempre que elle estivesse muito endinheirado. Ha lá melhor
patrão! Já o viram olhar para alguma conta? Mais ainda; quando lhe
apresentavamos os roes, e que elle tinha dinheiro na gaveta da
secretaria preta, quantas vezes me dizia: Põe lá a conta e tira o
dinheiro. Patrões assim, agarral-os é que custa.
--Pois sim, tudo isso é uma grande verdade, mas, o que é certo, é que
está aqui está sem vintem, disse judiciosamente o cosinheiro.
--Isso é lá com elle, mas quem te diz a ti que esse individuo a quem deu
os bonecos de prata...
--O quê?
--Lhe tenha emprestado algum dinheiro.
--Anda cá dinheiro, que te quero ver. Tambem tu vives de caretas? Lá que
elle tenha querido encostar o homem, não me admira, mas que o brazileiro
caisse ao tiro... essa é que não pega.
--Que elle está muito contente, é que não ha duvida.
--Já tem o _bago_ na mão, hein? Ora adeus? Se o tivesse, a estas horas
ninguem o aturava.
--Não sei falar n'essas coisas. Venham os soberanos e o mais tanto se me
dá que a agua corra para baixo como para cima!
--O que parece impossivel é que vossês estejam aqui n'este conluio,
murmurando de um senhor que os trata como sua excellencia, disse um
velho de perto de setenta annos que acabava de entrar. Aqui estou eu, a
quem elle deve mais do que a vossês todos juntos, e ainda não abri bico
contra elle.
--E o que tem vossemecê com o que nós estavamos falando? disse o
cocheiro approximando-se do ancião.
--Se lhe parece, bata-me, tartamudeou o velho, encostando-se serenamente
a um aparador. Se o sr. visconde souber o que se passou, podem ter a
certeza que vae tudo para o meio da rua.
--E quem lh'o _havera_ de dizer? acudiu um moço de cavallariça.
--Eu! Não serei capaz de lhe contar tudo, _tim tim, por tim tim_?
--Eu perca a minha liberdade, se vossemecê tornasse a comer mais pão.
--Pensa talvez que me assusta com as suas fadistices? Meu amigo, tenho
perto de setenta annos, mas, frangãos assim, para os depennar basta-me a
mão esquerda.
--Está bom, está bom! Leva de rumor! acudiu o cosinheiro. Quem quizer
fazer _banzê_, vá para o meio do pateo, que não é este o logar para dize
tu direi eu. E demais aquelle senhor tem toda a razão, ajuntou elle
olhando para o velho. É o mordomo do sr. visconde, conheceu-o de criança
e não gosta de ver o seu amo offendido. Nada mais natural do que tomar
as palhinhas por elle.
--Entre vossemecê tambem, se lhe parece, ajuntou o cocheiro, tomando o
partido do moço da cavallariça.
--Olhe, meu amigo, disse o cosinheiro, dirigindo-se ao cocheiro, commigo
não faz vossê vasa. Cá por mim, não lhe digo quantos annos tenho, mas se
me faz chegar a mostrada ao nariz, desabo-lhe d'aqui com esta mão de
vacca que fica sem saber da cara por tres dias.
N'este comenos ouviu-se a campainha do escriptorio. Era o visconde que
mandava chamar o mordomo.
--Vossa excellencia mandou-me chamar? disse o mordomo ao entrar no
escriptorio.
--Mandei, respondeu o visconde. Dei ordem a todos os criados para que
apresentassem as suas contas. Toma-as a cada de um de per si; bem sabes
que não me chama Deus para esses caminhos. É preciso tambem tomar conta
dos credores mais teimosos para se lhes dar alguma coisa por conta.
Comprehendes?
--Perfeitamente.
--Lembra-te de gratificares os criados, pobres diabos! Não te parece?
--Eu dava lhes, mas era com um pau, sr. visconde. Não ha maior cafila do
que são os criados d'este tempo.
--Porque dizes tu isso?
--Tenho os meus motivos. Isso fica para mais tarde. Não imagina o prazer
que terei se vossa excellencia se pozer em dia com toda esta gente.
--Bem, podes retirar-te.
D'alli a uma hora, dirigia-se o visconde para o escriptorio de Vaz
Mendes onde Tristão de Almeida havia mandado ordem pela manhã para que
entregasse trinta contos de réis ao visconde de Coruche.
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--E para que é todo este dinheiro, sr. visconde? perguntou-lhe o
banqueiro, lendo-se-lhe nos olhos a inveja e a cobiça. É para algum
outro hospital aonde os meus serviços estão dispensados?
--É para a infancia desvalida, respondeu o visconde, mettendo
n'algibeira--sem os contar--os maços de notas que recebêra da mão de Vaz
Mendes.
--Repare vossa excellencia que não contou esse dinheiro, ponderou-lhe o
usurario.
--Nunca contei dinheiro; para esse fim lá tenho em casa um criado que
não faz outra coisa, respondeu altivamente o visconde de Coruche.
Pondo insolentemente o chapéu, o fidalgo cortejou o banqueiro e
retirou-se para casa.
--Salvo! exclamou o visconde, extendendo se commodamente n'um sophá.
Falta agora o titulo, ajuntou elle olhando ao mesmo tempo para um
magnifico charuto havano, cujo fumo subindo em espiral inundou os
aposentos de um perfume doce e innebriante!