São nove horas da noite. D. Maria Egypciaca, de pé, encostada a um
bufete, aguarda com palpitante anciedade a volta de seu marido.
Olympia, agitando-se impacientemente pelo salão, contempla de vez em
quando o mostrador de uma pendula, como implorando aos ponteiros que bem
depressa lhe marquem a hora da ceia!
Magdalena, reclinada ao parapeito da varanda, fita o astro da noite,
que, reflectindo-se sobre as aguas do Tejo as cria de um brilho triste e
melancholico.
--Não te demores ahi á janella, disse D. Maria Egypciaca, voltando-se
para sua filha. A noite, como vês, começa a arrefecer, e os tempos não
estão para brincadeiras.
--Não receíe, minha mãe, respondeu Magdalena. Sinto-me aqui tão bem.
--Faze o que quizeres.
--Em todo o caso, se minha mãe está com susto, eu retiro-me, disse
Magdalena saindo da janella.
--Sabes que já me vae dando algum cuidado esta demora de teu pae. São
estas horas e elle sem apparecer.
--E é verdade, acudiu rapidamente a filha mais nova. São perto de nove e
meia. Provavelmente jantou em casa do visconde e não se lembra que o
esperamos para ceiar.
--Decididamente não pensas n'outra coisa senão em comer, murmurou
Magdalena sorrindo-se para a irmã. Não sabes que a dieta é o melhor
preservativo.
--Pois continuem as senhoras com a sua dieta que eu, pela minha parte,
irei comendo o que me aprouver, respondeu Olympia.
Deram as nove e tres quartos e Tristão sem apparecer.
--Se teu pae se demora mais dez minutos, vou ao hospital, disse D. Maria
Egypciaca.
--Se o criado se demora mais cinco minutos, vou ao hospital ver se me
dão alguma coisa de comer, tartamudeou Olympia com visivel inquietação!
Ao terminar estas palavras abriu-se a porta e entrou Tristão acompanhado
pelo visconde.
--Não me tornes a apparecer tão tarde, disse D. Maria Egypciaca
voltando-se para o marido. Não sabes os cuidados em que temos estado,
tanto, eu como as meninas, ajuntou ella, beijando a fronte de seu esposo
e cumprimentando ao mesmo tempo o visconde.
--Desde que sairam do hospital, não podem suppôr o trabalho que tivemos
se não fôra Martha...
--Parece uma santa rapariga, disse D. Maria Egypciaca voltando-se para o
visconde.
--Tal pae, tal filha, minha senhora, respondeu o visconde.
Magdalena córou ligeiramente ao ouvir pronunciar o nome de Martha?
As suspeitas da infeliz, não eram totalmente despidas de fundamento.
Magdalena vira por duas vezes Manuel de Mendonça quando elle fôra
visitar o operario. O olhar nobre e varonil do commandante, as suas
maneiras altivas e ao mesmo tempo insinuantes, tudo concorreu para que
se tornasse sympathico. Manuel não o havia notado ou, pelo menos fingiu
ignoral-o.
Orgulhosa em demasia, Magdalena jámais teria descido a declarar-se-lhe.
Além d'isso, o seu espirito observador fizera-lhe notar que a filha do
operario não era totalmente indifferente a Manuel de Mendonça. Quanto ao
que se passava no coração de Martha, era um problema difficil de
resolver.
Uma tarde em que Magdalena deitava para o Tejo o seu magnifico
telescopio, viu um escaler com quatro remadores, e um individuo sentado
á prôa. Reconheceu n'esse homem o mysterioso personagem que lhe
apparecêra no quarto de Jeronymo! O barco seguia Tejo abaixo. Assestando
o oculo, seguiu o em todos os movimentos. Por ultimo, abordou a uma
embarcação que estava fundeada em frente da rocha do Conde de Obidos.
Manuel saía do escaler e subia para bordo.
Desde essa tarde, Magdalena não perdia ensejo de olhar para aquella
pequena embarcação, e quando por ventura sabia que Manuel de Mendonça
estava no quarto do operario, buscava sempre esse momento para o ir ver.
--É de suppôr que ainda não tenha ceiado, meu pae, disse Olympia. A ceia
deve estar prompta, acho rasoavel que vamos comer alguma coisa.
--Quem havia de ser a primeira a lembrar-se da ceia, respondeu Tristão,
passando o braço pela cintura de sua filha, e convidando o visconde a
sair da sala.
Na mesa, esplendidamente adornada pela baixella que Tristão havia
comprado, sobresaíam as tres netas de Apollo, com que o visconde havia
presenteado o seu amigo.
[Ilustração:--Vocemecê anda sobre as aguas do mar?... (_pag. 165_)]
--Eis a alegria da meza, disse Tristão voltando-se para o visconde e
apontando ao mesmo tempo para o magnifico centro.
--O que lhe peço, replicou o visconde, é que me não esteja todos os dias
envergonhando com esse objecto, que se algum valor teve para mim, foi o
de agradar a vossa excellencia.
--Não me cançarei de o gabar, continuou Tristão, offerecendo um logar ao
visconde entre sua esposa e Magdalena.
--Tenho vindo todo caminho a dizer a seu esposo, que deve acceitar o
titulo que brevemente lhe vae ser offerecido, disse o visconde
voltando-se para D. Maria Egypciaca. Já tres ou quatro pessoas me
disseram que el-rei o senhor D. Pedro V, encantado pelos seus serviços,
tenciona agracial o com um titulo condigno ao seu merito. Sabe o que me
respondeu? que não queria acceitar coisa alguma; que para recompensa,
bastava-lhe o prazer que experimentava em ser util á humanidade. Isto á
luz da philosophia é uma grande verdade, mas para o mundo acho uma
loucura!
--Sou quasi da opinião de meu marido. Basta que se chame Tristão de
Almeida. De seus paes herdou esse nome sem a mais pequena macula, é
razoavel o seu desejo em o querer conservar até ao ultimo momento da
vida.
--São vossas excellencias da opinião de sua mãe? perguntou o visconde
dirigindo-se ás filhas de Tristão.
--Pela minha parte é-me totalmente indifferente, respondeu Magdalena.
--E vossa excellencia... accrescentou o visconde voltando-se para
Olympia.
--Sou da opinião de todos, retrucou Olympia, mastigando o setimo
croquette.
--Se vossa excellencia resolvesse seu esposo a acceitar o titulo de
conde, compromettia-me a fazer lavrar a carta regia em menos de um mez.
Ao ouvir pronunciar o titulo de conde, os olhos de Tristão brilharam com
uma alegria selvagem. Teria dado muito para ser visconde, mas o que elle
nunca poderia suppôr, era que obtivesse o titulo de conde!
O visconde comprehendeu-o immediatamente.
«Temos homem! pensou elle. O ensejo é favoravel; ha de ser hoje mesmo!
Está proximo o dia vinte. Se até esse praso não levanto dinheiro, a
ruina é certa! Vão salvar-me as tres graças e o titulo de conde.»
A ceia correu animadissima! D. Maria Egypciaca, julgando-se condessa,
pensava de ante-mão na gloria que esse titulo lhe ia proporcionar.
Desentranhando do amago do seu bestunto todos os nomes de terras mais
harmoniosos que tinha ouvido, escolhia de entre esses o que mais
euphonico lhe parecia.
Tristão, apezar de toda a sua serenidade, olhava ora para a mulher ora
para as filhas, como que desejando que a conversação continuasse sobre o
mesmo assumpto.
Olympia continuava a comer desafrontadamente, sem cuidar na gloria que
se lhe preparava!
Uma pessoa apenas parecia indifferente ao titulo e á ceia, era
Magdalena.
A pobre sonhava a felicidade entre o mar e o céu! A sua ventura estava
n'aquella barca, para onde ella ao cair da tarde extendia seus olhares
entristecidos pelo labutar de uma eterna recordação.
* * * * *
Quem d'alli a duas horas tivesse entrado na sala occupada por Tristão,
teria visto o seguinte: D. Maria Egypciaca em profunda meditação,
folheando um livro que mandára comprar, cujo titulo era _Resenha das
Familias de Portugal_.
Olympia reclinada n'um sophá fazendo o chylo, e resonando profundamente.
Magdalena encostada á janella contemplando as estrellas que se
reflectiam sobre as aguas do Tejo.
E quem, movido de imperdoavel curiosidade, tivesse seguido o visconde e
Tristão de Almeida até ao patamar da escada, teria ouvido este ultimo
dizer em voz baixa ao visconde:
--Sendo tres horas da tarde, poderá ir receber os trinta contos de réis
a casa de Vaz Mendes, e se por ventura se vir n'algum outro apuro, peço
lhe encarecidamente que se lembre de mim.
--Ha de ser com uma condição, respondia lhe o visconde.
--Qual?
--Acceitar o titulo de conde.
--Acceito.