XIX

O hospital da rua de S. Francisco de Paula, em virtude dos esforços do

visconde de Coruche e da inexgotavel bolsa de Tristão, estava prompto de

tudo. Sem lisonja, podia chamar-se-lhe um hospital modelo! A boa ordem

reunida ao aceio e todas as outras condições hygienicas, tornavam

aquella instituição a melhor do seu genero.

Em Lisboa, Tristão d'Almeida era o assumpto de todas as conversações.

Todos falavam na sua caridade; todos se assombravam das sommas fabulosas

que dispendia.

Além do custeamento do hospital, Tristão collocára cincoenta contos de

réis em metal sonante na burra do seu escriptorio, para serem applicados

ás familias dos doentes que por ventura alli morressem, deixando por

unico legado a fome e a saudade.

Além d'estas circumstancias, uma outra havia mais transcendente: era a

maneira por que a sua familia se dispunha para receber e tractar os

enfermos.

D. Maria Egypciaca e suas duas filhas, todas tres com a mesma

equipendencia de valor, eram as encarregadas das enfermarias das

mulheres.

Tristão e o commendador tomaram entregue das do sexo masculino.

Oito pessoas entraram no dia da abertura. Por mais perigoso que fosse o

estado de qualquer d'esses individuos, não houve um só que deixasse de

sentir á cabeceira do leito a voz doce e animadora da mulher de Tristão

de Almeida, e de suas duas filhas, sobre tudo de Magdalena.

As principaes familias de Lisboa quasi todas desejavam relacionar-se com

aquelles quatro anjos do bem que vinham de longes terras para descançar

o seu vôo sobre a cidade agonizante!

Ao encontrar se completamente restabelecido dos ferimentos, Jeronymo

partira para o hospital afim de se encarregar da sua direcção.

Ás vêzes, na janella do terceiro andar que olhava para o Tejo, via-se

uma criança loura e formosa como os anjos: era Martha. Entristecida, ora

parecia buscar n'aquelles horizontes algum objecto que lhe prendia a

imaginação, ora descia aos salões do hospital, como se procurasse na

morte a branda paz que a sua alma havia perdido sobre a terra!

Avaliando a immensa distancia que a separava de Manuel de Mendonça,

Martha havia depositado no mais intimo do coração todos os martyrios que

a suffocavam! Vira-o pela ultima vez no dia em que seu pae saira do

hotel.

Manuel dissera-lhe que d'alli a poucos dias iria visitar sua mãe, isto a

meia voz, sem que Balbina o notasse.

Foi n'esse momento que ella começou a comprehender que lhe não era

totalmente indifferente. Mas, d'isto tudo o que poderia resultar? Quem

era Martha, para ser amada por um homem como Manuel de Mendonça, um

commandante de navios, emquanto ella não era mais do que a filha de um

operario!

N'esses momentos subiam-lhe á mente mil idéas que a torturavam. Era um

tumultuar de receios que nem a sua intelligencia tinha forças para

comprehender, nem o seu coração para os supportar.

Assim foram passando muitos dias, e Manuel sem cumprir a sua promessa.

Tel-a-ia esquecido?

Impossivel! Aquelles olhos não lhe haviam mentido! As ultimas palavras

que proferira, revelavam bem todo o interesse que ella lhe tinha

inspirado. Teria adoecido com a febre? Morrido? Não! Morrer tão novo,

tão anciosamente adorado! Deus não consentiria que elle deixasse este

mundo sem que Martha lhe houvesse assistido ao derradeiro sopro

d'aquella vida, que era todo o seu querer, todo o seu pensar, toda a sua

existencia! Manuel vivia, mas havia a esquecido por outra. Magdalena

contemplára-o com interesse, n'uma tarde em que se encontraram na

varanda do hotel! Ainda que Manuel não lhe respondeu ao seu olhar, podia

tudo isso ter sido um calculo.

«Quem sabe se eu fui um instrumento da sua vontade, fazendo-me suppôr

que era a mim e só a mim a quem elle amava, emquanto o seu coração

estava inclinado para a filha de Tristão? pensava Martha. Mas sendo

assim, tudo poderei descobrir; e se fôr, buscarei a morte como ultimo

recurso á minha desgraça.»

Immersa n'estas terriveis conjecturas, Martha desceu ás salas do

hospital.

Já haviam entrado D. Maria Egypciaca e suas filhas.

Notando a profunda pallidez da filha de Jeronymo, as fidalgas, segundo

Martha lhe chamava, começaram a receiar pela sua saude.

Magdalena foi a primeira a approximar-se-lhe, e beijando a meigamente na

fronte, pediu lhe por tudo quanto havia que não arriscasse tanto a sua

saude, perdendo as noites ao lado dos doentes.

Durante todo esse dia, aonde mais intensos reinavam o perigo e a

afflicção, alli se encontrava Martha!

Quando ao anoitecer a familia de Tristão se preparava para sair do

hospital, Magdalena insistiu com a filha do operario para que tambem se

retirasse. Foram inuteis todos os seus esforços. Pretextando que tinha

de ficar com seu pae, Martha acompanhou-as até á carruagem e voltando

depois para o terceiro andar, tornou a encostar-se áquella janella onde

a encontrámos no principio d'este capitulo.

Deixemos a infeliz criança enchugando em silencio as suas primeiras

lagrimas, e dirijamo-nos ao hotel Bragança.

O Conde de S. Luiz · 第 34 / 59 题