O hospital da rua de S. Francisco de Paula, em virtude dos esforços do
visconde de Coruche e da inexgotavel bolsa de Tristão, estava prompto de
tudo. Sem lisonja, podia chamar-se-lhe um hospital modelo! A boa ordem
reunida ao aceio e todas as outras condições hygienicas, tornavam
aquella instituição a melhor do seu genero.
Em Lisboa, Tristão d'Almeida era o assumpto de todas as conversações.
Todos falavam na sua caridade; todos se assombravam das sommas fabulosas
que dispendia.
Além do custeamento do hospital, Tristão collocára cincoenta contos de
réis em metal sonante na burra do seu escriptorio, para serem applicados
ás familias dos doentes que por ventura alli morressem, deixando por
unico legado a fome e a saudade.
Além d'estas circumstancias, uma outra havia mais transcendente: era a
maneira por que a sua familia se dispunha para receber e tractar os
enfermos.
D. Maria Egypciaca e suas duas filhas, todas tres com a mesma
equipendencia de valor, eram as encarregadas das enfermarias das
mulheres.
Tristão e o commendador tomaram entregue das do sexo masculino.
Oito pessoas entraram no dia da abertura. Por mais perigoso que fosse o
estado de qualquer d'esses individuos, não houve um só que deixasse de
sentir á cabeceira do leito a voz doce e animadora da mulher de Tristão
de Almeida, e de suas duas filhas, sobre tudo de Magdalena.
As principaes familias de Lisboa quasi todas desejavam relacionar-se com
aquelles quatro anjos do bem que vinham de longes terras para descançar
o seu vôo sobre a cidade agonizante!
Ao encontrar se completamente restabelecido dos ferimentos, Jeronymo
partira para o hospital afim de se encarregar da sua direcção.
Ás vêzes, na janella do terceiro andar que olhava para o Tejo, via-se
uma criança loura e formosa como os anjos: era Martha. Entristecida, ora
parecia buscar n'aquelles horizontes algum objecto que lhe prendia a
imaginação, ora descia aos salões do hospital, como se procurasse na
morte a branda paz que a sua alma havia perdido sobre a terra!
Avaliando a immensa distancia que a separava de Manuel de Mendonça,
Martha havia depositado no mais intimo do coração todos os martyrios que
a suffocavam! Vira-o pela ultima vez no dia em que seu pae saira do
hotel.
Manuel dissera-lhe que d'alli a poucos dias iria visitar sua mãe, isto a
meia voz, sem que Balbina o notasse.
Foi n'esse momento que ella começou a comprehender que lhe não era
totalmente indifferente. Mas, d'isto tudo o que poderia resultar? Quem
era Martha, para ser amada por um homem como Manuel de Mendonça, um
commandante de navios, emquanto ella não era mais do que a filha de um
operario!
N'esses momentos subiam-lhe á mente mil idéas que a torturavam. Era um
tumultuar de receios que nem a sua intelligencia tinha forças para
comprehender, nem o seu coração para os supportar.
Assim foram passando muitos dias, e Manuel sem cumprir a sua promessa.
Tel-a-ia esquecido?
Impossivel! Aquelles olhos não lhe haviam mentido! As ultimas palavras
que proferira, revelavam bem todo o interesse que ella lhe tinha
inspirado. Teria adoecido com a febre? Morrido? Não! Morrer tão novo,
tão anciosamente adorado! Deus não consentiria que elle deixasse este
mundo sem que Martha lhe houvesse assistido ao derradeiro sopro
d'aquella vida, que era todo o seu querer, todo o seu pensar, toda a sua
existencia! Manuel vivia, mas havia a esquecido por outra. Magdalena
contemplára-o com interesse, n'uma tarde em que se encontraram na
varanda do hotel! Ainda que Manuel não lhe respondeu ao seu olhar, podia
tudo isso ter sido um calculo.
«Quem sabe se eu fui um instrumento da sua vontade, fazendo-me suppôr
que era a mim e só a mim a quem elle amava, emquanto o seu coração
estava inclinado para a filha de Tristão? pensava Martha. Mas sendo
assim, tudo poderei descobrir; e se fôr, buscarei a morte como ultimo
recurso á minha desgraça.»
Immersa n'estas terriveis conjecturas, Martha desceu ás salas do
hospital.
Já haviam entrado D. Maria Egypciaca e suas filhas.
Notando a profunda pallidez da filha de Jeronymo, as fidalgas, segundo
Martha lhe chamava, começaram a receiar pela sua saude.
Magdalena foi a primeira a approximar-se-lhe, e beijando a meigamente na
fronte, pediu lhe por tudo quanto havia que não arriscasse tanto a sua
saude, perdendo as noites ao lado dos doentes.
Durante todo esse dia, aonde mais intensos reinavam o perigo e a
afflicção, alli se encontrava Martha!
Quando ao anoitecer a familia de Tristão se preparava para sair do
hospital, Magdalena insistiu com a filha do operario para que tambem se
retirasse. Foram inuteis todos os seus esforços. Pretextando que tinha
de ficar com seu pae, Martha acompanhou-as até á carruagem e voltando
depois para o terceiro andar, tornou a encostar-se áquella janella onde
a encontrámos no principio d'este capitulo.
Deixemos a infeliz criança enchugando em silencio as suas primeiras
lagrimas, e dirijamo-nos ao hotel Bragança.