XVIII

São dez horas da manhã. Deitado no seu leito de precioso ebano, e

fazendo mil conjecturas ácerca de Tristão, a quem na vespera havia

convidado para almoçar, o visconde de Coruche, como homem experimentado,

palpa, estuda e analysa o terreno por onde tem de caminhar.

Tudo estava prevenido para o almoço. Uma grande parte da baixella, que

dias antes tinha sido substituida no _prégo_ por outros objectos cuja

ausencia se não fazia notar, já estava sobre os aparadores. Entre os

riquissimos trabalhos de prata destacava-se um pelo seu grande valor e

merito artistico.

Era um centro de mesa. Representava as tres graças sustentando uma

enorme concha.

Era esta, por assim dizer, a ultima reliquia que lhe restava do seu para

sempre chorado tio!

«Fiz mal, pensava elle, em não ter convidado o commendador e Vaz

Mendes, para almoçarem commigo. Podem prever n'isto alguma insidia e

intrigarem-me com o meu Cresus! É mais prudente escrever-lhes. E sem

mais delonga, levantou-se e desceu ao escriptorio, formoso aposento ao

rez do jardim, esplendida e custosamente mobilado.

«E pensar que tudo isto é sol de pouca dura! accrescentava elle olhando

para as estufas do jardim. Não terei valor para cair com a minha ruina?

Hei de ver de pé firme e olhar sereno, sair d'esta casa para o poder dos

agiotas, até á ultima, todas estas reliquias? Deus não póde permittir

que um homem que tem vivido e gozado como eu, se encontre um dia a

braços com a miseria! É forçoso tomar uma deliberação. Tenho ainda uns

seis mezes para viver, é pouco; prolongue-se a existencia, custe o que

custar. Homicidio é um crime, e deixar-me escorregar na pendente do meu

infortunio é um suicidio. Não quero ser criminoso.

«Arvores a cuja sombra me abriguei na minha infancia, nem vós já me

pertenceis! continuava elle olhando para o vetusto arvoredo do jardim.

«Tectos que vistes expirar meus paes, que impia mão de atroz capitalista

te manchará o culto? Aqui nasceu meu avô, aqui morreram todos os que

tiveram melhor senso do que este desgraçado! «Soberbo choupo para me

enforcar com o cordão do meu chambre», dizia elle como se quizesse

zombar de si mesmo e contemplando ao mesmo tempo a arvore, que parecia

convidal-o ao passo mais acertado que podia dar em toda a sua vida.

Abandonando estes lugubres pensamentos, o visconde sentou-se á carteira,

e escreveu duas cartas, uma ao commendador, e outra a Vaz Mendes. Pedia

em ambas a honra de virem almoçar em sua companhia.

Tocou a campainha e entregando as cartas a um criado para que as

levasse sem demora ao seu destino, o visconde deu ainda algumas voltas

pelo jardim e dirigiu-se á casa de banho.

Ao meio-dia em ponto entraram Vaz Mendes e o commendador Lopes de

Miranda.

--Quanto folgo me não tivessem faltado, disse-lhes o visconde

conduzindo-os para a sala de visitas. Tristão, acrescentou elle, vem

hoje almoçar commigo, era forçoso pedir que mais alguem lhe tornasse

menos pezado o sacrificio. Vamos discutir largamente sobre o hospital.

Sabem que já temos a casa arrendada?

--Sabemos, responderam ambos.

--Um magnifico palacio á Pampulha.

--O local não podia ser mais bem escolhido, disse o commendador

reclinando-se n'uma poltrona. E quando principiam os arranjos? perguntou

Vaz Mendes.

--Hoje mesmo; para esse fim os mandei chamar. Vamos comprar tudo o que

fôr necessario para que principie a funccionar de hoje a oito dias.

--Realmente é um homem de muita caridade este Tristão, interrompeu Vaz

Mendes, olhando para uma soberba aguarella de Howell.

--Basta o que elle tem feito pelo mestre de obras, ajuntou Lopes de

Miranda.

--E quem seria capaz, já não digo de mais, mas de tanto? acudiu o

visconde. Isto é que é a verdadeira caridade, sem alarde nem ostentação.

--Tambem, disse Vaz Mendes, quem tem uma fortuna superior a dois mil

contos, o que deve fazer senão dividil-a com a pobreza?

--E quantas pessoas conhece o meu amigo, que não são capazes de gastar

um ceitil com os pobres? perguntou o visconde.

--Concordo, respondeu o banqueiro, olhando de soslaio para um Salvator

Rosa, unica pintura que restava da galeria do conde de ***.

Ao ouvir-se o rodar de um trem, o visconde approximou-se da janella

para se certificar se era a carruagem de Tristão que chegava.

Não se enganára.

Deixando os dois convidados, desceu ao pateo para o receber.

Quando entraram na sala foi uma agradavel surpreza para Tristão de

Almeida o encontro dos seus dois amigos.

Á hora designada dirigiram-se todos para a sala de jantar, onde um

variado e bem servido almoço os esperava.

Ao contemplarem a magnificencia da baixella, Vaz Mendes e o commendador

entreolhavam-se, assombrados por tanta riqueza.

Tristão olhava para tudo com um gesto de profunda indifferença! Um

objecto apenas se tornou o alvo da sua attenção: foi o centro de prata,

de que já falamos ao leitor.

Havia muito que elle desejava occultar a sua admiração; por ultimo não

se conteve.

--É de suppôr que saiba o que alli tem, disse Tristão voltando-se para o

visconde, e apontando ao mesmo tempo para as tres graças.

--Sei. É magnifico! Atribuem-n'o ao cinzel não sei de que artista

notavel, cujo nome me não lembra, respondeu o visconde.

--Vale um bom par de contos de réis, replicou Tristão dirigindo-se a Vaz

Mendes.

«Forte asno, murmurou o banqueiro para comsigo.

«Está doido! pensou o commendador.

«Achei! disse o visconde falando com o seu coração.

«Fortes nescios! reflectiu Tristão, que pelos differentes jogos das suas

physionomias, lhe adivinhára os pensamentos.»

Ás quatro horas da tarde sairam todos tres, tendo previamente combinado

com o visconde, para que os esperasse no hotel das seis para as sete

horas da noite.

«Estou salvo! dizia o visconde, á proporção que os via desapparecer. Por

qualquer dos dois meios venço. Desfazendo me das tres graças, que já

para mim não tem graça, posso vender-lh'as talvez por dez ou doze

contos. Mas espera, accrescentou elle como se uma idéa lhe acudisse

subitamente, é mais decente, mais elegante mesmo: presenteal-o com esse

objecto. Ninguem chegou a mais de mil libras, e, para isso, foi

necessario que encontrasse um inglez que as julgava Benevenuto! Mas

quando viu que o não era, creio que me não daria nem mais dez libras do

que o seu pezo. Se elle o attribue a cinzel, bem estamos; deve pelo

menos avalial-o em vinte contos, portanto, em vinte contos avaliará o

presente. Não ficarei habilitado a pedir-lhe vinte e cinco ou trinta? Ao

centro, visconde, e chegarás ao teu fim! E, sem mais reflectir, chamou o

_groom_ e mandou embrulhar as tres graças em finissima toalha de

Flandres, ordenando-lhe que as collocasse dentro do _coupé_.

Ao cair da tarde, acompanhadas pelo visconde, as tres filhas de

Eurynome abandonavam a casa do fidalgo para entrarem de graça em casa de

Tristão, que bem caro teria de pagar aquella graça.

O Conde de S. Luiz · 第 33 / 59 题