--Acompanhas-me, Luiz? Tenho tanto desejo de ir visitar aquella gente...
e comtudo não me sinto com valor.
--Ora essa, meu capitão, da melhor vontade! Não sei o que li n'aquelles
olhos verdes de Martha; ainda se me não poderam tirar da memoria! Póde
ser que me engane, mas essa menina é um anjo! Ha na meiguice do seu
olhar um não sei quê, que me prendeu!
--Será isso uma illusão da tua parte?
--Nem por sombras! Se a visse, quando eu prometti a sua mãe que faria
com que o senhor lá fosse...
--Então mostrou muitos desejos de me ver? perguntou Manuel com essa
visivel curiosidade dos namorados, e como desejando prolongar a
conversação de Mascatudo.
--Se mostrou! Ao principio fez-se branca como a cal da parede, e em
seguida tornou-se vermelha como uma romã. Havia tanto interesse no seu
olhar, quando me falou a respeito do senhor, que logo comprehendi que
alguma coisa se passava no seu coração.
--Pois então, meu amigo, o que tem de ser, seja. É Deus que o determina:
iremos hoje vel-os. Passava-se este dialogo a bordo da galera Esperança,
no mesmo dia e á mesma hora em que o visconde de Coruche expunha a
Tristão de Almeida, no gabinete do hotel Bragança, as graves
conveniencias que lhe resultariam da sua philanthropica resolução.
Subindo á tolda, Manuel mandou apromptar o escaler e veiu para terra em
companhia de Mascatudo.
Dirigiu se ao hotel.
Ao subir a escada que conduzia aos quartos de Jeronymo, sentiu que um
mundo novo e inteiramente estranho se desenrolava a seus olhos! Receioso
pelo sentimento que lhe perturbava o espirito, o marinheiro quasi pedia
á Providencia, que qualquer circumstancia fortuita lhe viesse impedir a
realização dos seus desejos!
Batendo mansamente á porta do quarto de Jeronymo, ouviu a voz doce e
melancholica de Martha que de dentro lhe respondia. Faltou-lhe o valor;
foi necessario que Mascatudo o animasse a entrar. Entraram ambos.
Reclinado sobre uma poltrona, Jeronymo dir-se-ia um cadaver.
A seus pés, assentada n'um tamborete, Balbina olhava-o com gesto de
profundo desalento, fitando de vez em quando sua filha que de pé os
contemplava!
Martha ficou immovel!
--Venho saber da saude de seu marido, disse Manuel para Balbina,
extendendo ao mesmo tempo a mão ao mestre de obras.
Este sorriu-se brandamente para o maritimo, apertando entre as suas
aquella mão que se lhe offerecia.
--E como se sente?
--Melhor, felizmente, muito melhor! respondeu Jeronymo, olhando ao
mesmo tempo para sua mulher, e indicando-lhe que approximasse uma
cadeira.
Manuel, pegando na cadeira que Balbina lhe offerecia, sentou-se ao lado
do enfermo.
Mascatudo contentava-se apenas em observar os olhos de Martha, buscando
em cada movimento descobrir o que lhe passava n'alma.
Balbina então relatou a Manuel quanto havia succedido, sem lhe omittir
os rasgos de generosidade de que era devedora a Tristão e a toda a sua
familia.
--E quem é esse homem tão caridoso? perguntou Manuel, como se já n'esse
instante se lhe começasse a perturbar o espirito com a idéa de que essa
protecção fosse menos devida á caridade do que á formosura de Martha.
--Quem é elle, não lh'o podemos dizer, respondeu Balbina. Sabemos apenas
que é um senhor muito rico, e que todo o seu fim é fazer bem á pobreza.
Agora vae elle estabelecer um hospital para as pessoas atacadas pela
febre, hospital de que meu marido é o encarregado.
--E não só elle, como sua mulher e filhas, se tem interessado o mais
possivel por mim, ajuntou Jeronymo.
--Nunca me ha de esquecer aquella noite, menina, tartamudeou Manuel
dirigindo-se a Martha.
--Quanto lhe devemos, meu caro senhor, acudiu o operario, olhando ora
para Manuel, ora para a mulher e para a filha.
--Como elle se portou com a nossa filha! Não temos modos de agradecer!
disse Balbina visivelmente reconhecida.
--É merecedora de tudo! Nada tem que me agradecer, respondeu Manuel
olhando ao mesmo tempo para a interessante Martha.
Quando a filha do operario, mais familiarizada com a presença do
maritimo, se preparava para lhe dirigir a palavra, soaram uns passos no
corredor e abriu-se em seguida a porta do quarto.
Eram Tristão e o visconde.
--Venho prevenil-os de que já temos casa para o hospital, e que ámanhã
por estas horas--graças á actividade do sr. visconde--já devem começar
os trabalhos, disse Tristão de Almeida, reparando ao mesmo tempo em
Manuel de Mendonça e Mascatudo.
Estes ultimos olhavam para os recemchegados, sem poderem occultar que as
suas presenças se lhes não tinham tornado muito sympathicas.
--Estes senhores pertencem á sua familia? perguntou o visconde
dirigindo-se a Martha.
--Não, senhor, respondeu Martha. E indicando Manuel de Mendonça,
accrescentou: este senhor foi quem me encontrou na rua, e que mais tarde
descobriu aonde estava meu pae.
--Ah! foi este senhor! acudiu Tristão. Quanto folgo em ter o gosto de o
conhecer. Se me não engano, n'aquella mesma noite tive o prazer de o
encontrar; porém, quando ia para lhe extender a mão, já vossa senhoria
tinha saido d'este quarto, ajuntou Tristão dirigindo-se a Manuel de
Mendonça e extendendo-lhe brandamente a mão.
Se n'aquella noite do atropellamento os olhos de Manuel de Mendonça se
haviam cravado particularmente no rosto de Tristão, mais cuidadosamente
o fixaram n'aquelle momento.
O mesmo se passou com o magnate. Dir-se-ia que esses dois homens já se
haviam encontrado alguma vez na vida! Onde? Sabia-o Deus, que n'esse
instante os não illucidava!
O physionomista que de perto observasse o rosto de Manuel, ter-lhe-ia
notado um estremecimento de repulsão no momento em que, extendendo a
mão, a sentiu em contacto com a de Tristão de Almeida.
A Mascatudo não lhe passou desapercebido.
--Queira Deus, pensava elle comsigo, que o sr. Manuel de Mendonça não
comece já a imaginar que lhe querem estorvar a pesca. Se elle vê que lhe
lançam a fisga, põe-se de ventas á enchente e vae tudo com trezentos mil
diabos. Elle é bom, isso lá é que não ha duvida, mas, se lhe pegam fogo
ao paiol da polvora, vae tudo pelos ares em mil estilhaços.
Tristão e o visconde trocaram ainda algumas palavras entre si, e depois
de alguns momentos de silencio, despediram-se de Jeronymo e de sua
familia, e sairam do quarto cumprimentando affavelmente Manuel de
Mendonça.
--Conhece aquelle senhor? perguntou Martha a Manuel de Mendonça,
referindo-se a Tristão de Almeida.
--Não conheço, respondeu o maritimo, comtudo, parece-me já ter visto
aquelle individuo, aonde não me recordo.
--O mesmo me pareceu a mim, acudiu Mascatudo. E a elle, se me não
engano, tambem o senhor não lhe era estranho.
--O que elle me parece é um santo homem, disse Balbina, que não via em
Tristão mais do que o protector de seu marido.
--Assim o julgo, respondeu Manuel, levantando-se e despedindo-se de
Jeronymo.
--Já se retira? perguntou Martha, lendo-se-lhe nos olhos o que
principiava a sentir no coração.
--Tenho de ir para bordo, respondeu Manuel despedindo-se de Martha, e
promettendo-lhe voltar no dia seguinte.
* * * * *
--Então o que me diz, meu capitão? perguntava Mascatudo ao sairem o
pateo do hotel.
--Que gosto muito d'ella, respondeu Manuel de Mendonça olhando para as
paredes do edificio como se buscasse a janella do quarto onde havia
ficado a familia do operario.