Quando Manuel de Mendonça e Mascatudo sairam do hotel d'Europa,
encaminharam-se para bordo, como o leitor deve estar lembrado.
A galera que fôra em Buenos-Ayres comprada por Manuel de Mendonça, era
uma formosa barca de duzentas a trezentas toneladas.
Era muito de vêr-se o aceio e a disciplina que reinavam a bordo da
galera Esperança, habilmente commandada por Manuel de Mendonça, cujos
conhecimentos nauticos fariam inveja ao mais experimentado maritimo.
Com sobejos motivos chamava elle aos seus tripulantes os seus amigos e
companheiros! A amizade e a confiança com que os tractava jámais
concorreu para que lhe dessem o minimo desgosto de indisciplina.
Durante a folga todos o tractavam como se elle fôra um amigo, no
serviço todos o respeitavam como o seu commandante. Quando por qualquer
circumstancia se agitava a mais pequena questão entre os marinheiros, e
elle apparecia perguntando-lhes a causa, era bello de vêr como esses
homens endurecidos pelas luctas dos elementos, se enterneciam ao ouvir
as palavras do seu capitão chamando-os á ordem, e expondo-lhes em
phrases insinuantes as terriveis consequencias da má camaradagem.
Então, aquelles que momentos antes se haviam levantado exaltados pela
colera, graças á eloquencia de Manuel, acabavam sempre por se abraçarem.
A galera fundeada a pouca distancia da Rocha do conde de Obidos, parecia
na sua eterna inquietação aguardar o que era dono e commandante.
Quando um velho marinheiro divisou o escaler do capitão, e este sentado
á prôa, o maritimo debruçou-se do navio como criada velha que espera á
janella a criança que volve ao lar.
Então começaram a apparecer os outros marinheiros, esperando
anciosamente que o escaler abordasse á embarcação.
E a galera agitando-se aos movimentos da corrente, parecia tambem
esperal-o inquieta.
Finalmente, o escaler atracou, e Manuel subindo por uma pequena escada
de corda entrou a bordo seguido por Mascatudo.
Quem de perto observasse o tractamento que elle dava aos marinheiros, e
ignorasse o logar que occupava, tel-o-ia tomado por um simples
navegante.
Depois de falar a todos aquelles homens, desceu á camara, e alli, em
companhia de Mascatudo, continuou a conversação que uma hora antes havia
começado no hotel Europe.
--Estamos aqui mais sós para podermos falar, dizia elle ao marinheiro.
Ninguem poderá ouvir as nossas palavras a não ser o mar, e Deus que nos
escuta.
--O mesmo me acontece, respondia-lhe Mascatudo. Não sei o que sinto
quando passo uma noite encarcerado entre as quatro paredes de uma
hospedaria! Acordar pela noite velha sem ouvir o rumor da agua batendo
de encontro á quilha da embarcação, e sem ver o lume de alguma estrella
reflectindo-se de vez em quando como se estivesse a acompanhar o meu
dormir, parece que é acordar n'um tumulo.
--Quero pedir-te um favor, disse Manuel de Mendonça, depois de alguns
instantes de profunda meditação. Como já t'o disse, sei apenas que
ficaram no hotel de Bragança. Desejava saber quanto se tem passado, mas
falta-me o valor para ir eu mesmo proceder a indagações. Terias duvida
em ir procurar essa familia da minha parte?
--Eu! exclamou o marinheiro. E porque motivo? Foi alguma acção má a que
o sr. praticou? Ora essa! É para já. Não tem mais do que dizer-me o
sitio onde tenho de me dirigir.
--Aonde te disse, ao hotel de Bragança. Se ainda lá estiverem, pede ao
guarda portão que te conduza ao quarto. Pergunta por sua mulher ou por
Martha, e dize a qualquer das duas que vaes da minha parte saber da
saude de Jeronymo.
--É só isso o que deseja saber? Veja lá; lembre-se bem, ajuntou
Mascatudo, sorrindo-se para o seu commandante.
--É só isto.
--E o sr. fica á minha espera, aonde?
--A bordo.
--Volto portanto aqui?
--Já se vê.
--Quer que vá já?
--Quero.
--Era melhor ter-me dito isso lá em terra, ponderou judiciosamente o
marinheiro.
--Quiz antes pedir-te isso sobre as aguas do mar.
--Pois então, sr. Manuel de Mendonça, como bom maritimo que sou, irei
sondar esses mares desconhecidos, e tenho fé em Deus, que em poucos dias
poderemos navegar de vento em pôpa, sem que o mais leve indicio de
temporal nos faça perder o rumo. O que eu não quero é vel-o assim
entristecido, accrescentou o fiel marinheiro, fixando a vista na
melancolica physionomia do seu commandante.
--Pensas talvez que me sinto prezo a essa mulher? perguntou Manuel com
aquella pueril ingenuidade de que se revestem os espiritos sujeitos ás
mysteriosas influencias do amor!
--Não sei, respondeu Mascatudo, mas apostava que sim. Ás vezes, tudo
está no começar. O maior temporal principia a levantar-se por uma brisa
serena.
--Espero em Deus que essa aragem que tu adivinhas, nunca seja nuncia de
nenhuma tormenta.
--Que Santa Barbara e a Senhora da Bonança nos protejam, commandante,
disse Mascatudo, levantando-se e preparando-se para cumprir as ordens do
seu capitão.
--Amen, respondeu Manuel, reclinando a fronte na mão direita.
Mascatudo, sem esperar mais observações, saiu da camara, e, subindo ao
convez mandou preparar o escaler. Manuel olhava-o em silencio.
--Será este o anjo que Deus me mandou á terra, para me acompanhar nas
longas noites da minha solidão? pensava elle espraiando os seus olhares
entristecidos na direcção do soberbo edificio do hotel Bragança.