XIII

Emquanto se estão passando estas veridicas scenas, entremos em casa do

visconde de Coruche.

--Vê como pões esse pó de arroz, imbecil! Olha que me estás arranhando

as costas! dizia o visconde voltando-se para o seu _groom_.

--Não é da minha mão, sr. visconde, é uma borbulha que v. ex.ª aqui tem.

--Uma borbulha! exclamou o visconde, eu nunca tive a mais pequena

excrescencia na pelle. Dá-me d'alli aquelle espelho.

Sem proferir uma palavra, o _groom_ dirigiu-se ao toucador, e tirando de

dentro um espelho em fórma de ellipse, entregou-o ao visconde.

--Vejamos, disse este, voltando as costas para um toucador. Com effeito

tinhas razão.

--D'isso tenho eu tido aos centos e não faço caso algum, ajuntou o

criado.

--Queres tu comparar a tua á minha pelle?

--Eu tambem não digo a vossa excellencia que a minha pelle seja como a

sua, digo só que d'isso tenho eu aos centos. Olhe, sr. visconde, se

vossa excellencia quer, verá como lhe curo isso n'um momento. Tome o sr.

visconde uma... que digo eu? meia pilula das Monicas, ou uma receita que

tem as irmãs do padre Bernardo que moram em Jesus, e verá como fica bom

no mesmo instante. Isto provavelmente são os humores que andam

levantados.

--Será o que tu quizeres, respondeu o visconde. Dá-me d'alli uma camisa.

--Que camisa quer?

--Das mais finas, e põe-lhe os botões de camafeu.

--Ou é _serviço_ ou grande pantomimice, resmungou o criado em voz baixa,

abrindo ao mesmo tempo a gaveta do guarda roupa e tirando de dentro uma

finissima camisa de cambraia. Agora por isso, ajuntou elle

approximando-se do visconde, veiu cá hontem e já voltou hoje um

individuo que trouxe para vossa excellencia a conta da camisaria.

--Dize-lhe que volte no fim do mez.

--Recordo a vossa excellencia que estamos hoje no dia 30, e que ámanhã é

o ultimo de outubro.

--Pois sim; mas eu quando disse no fim do mez, quiz dizer que era para o

mez que vem.

--Cumprirei as ordens de vossa excellencia. Que fato quer? perguntou

elle, dirigindo-se para uma commoda á Luiz XV, sobre a qual estava um

cofre de tartaruga.

--Um fraque e collete preto, com quaesquer calças de côr.

--Agora por isso, sr. visconde, disse o criado pondo nos punhos da

camisa dois magnificos camafeus de Italia, veiu cá hontem um individuo

com uma conta do alfaiate, e como vossa excellencia não estivesse em

casa, disse-lhe que viesse ámanhã, em sendo duas horas.

--Fizeste muito mal, respondeu o visconde mergulhando uma pequena escova

de dentes n'um liquido pardacento, e levando-a repetidas vezes ao

bigode. Já te disse que nunca se mandam receber contas senão no fim dos

mezes.

--Pois foi exactamente por esse motivo que o mandei cá vir ámanhã, que é

o ultimo de outubro.

--Já te disse ha pouco que o meu fim do mez é sempre o de novembro,

respondeu o visconde encolerizado, passando a escova por sobre o labio

inferior, e deixando o côr de chocolate.

--O mesmo disse eu ao sr. Alves, quando a semana passada o procurou por

causa d'aquella letra de 600$000 réis que se vence no primeiro de

novembro.

--E elle insiste em não querer a reforma?

--Creio que insiste. O alquilé a quem vossa excellencia comprou as eguas

baias, foi dizer-lhe que o sr. visconde promettia pagar-lhe tudo no

primeiro de novembro.

--Veremos o que se ha de fazer, disse o visconde, esfregando com uma

essencia a nodoa côr de castanha que lhe descompunha a phisionomia.

Dá-me d'alli umas ceroulas de seda. É preciso que vás logo ao Baron que

me mande uma duzia de camisolas.

--Cumprirei com as ordens de vossa excellencia, respondeu o criado,

abrindo a gaveta d'uma commoda, e tirando um par de ceroulas de malha de

seda.

--Se alguem me procurar ás tres horas da tarde, dize lhe que não volte

antes do primeiro de novembro, caso não queira perder o tempo, disse o

visconde, atirando para longe com umas lindas chinellas de velludo

bordadas a oiro, e vestindo ao mesmo tempo as ceroulas.

--Vossa excellencia sae a cavallo ou de trem?

--O dia está tão bonito que me parece melhor saír a cavallo. Sim,

continuou elle, depois de reflectir alguns segundos, dize ao Marçal que

me apparelhe a egua lazã. É necessario montal-a; ha perto de oito dias

que não sáe.

Depois de collocar sobre uma ottomana o fato do visconde, o criado abriu

a porta do toucador, e saíndo foi transmittir as ordens que seu patrão

lhe dera.

--Sim senhores! a coisa não vae feia, dizia o visconde de si para

comsigo. Se não levanto o dinheiro do deposito estou arruinado. O

credito escassea-me, os credores, longe de me sustentarem a posição que

seria o unico recurso para se embolsarem do que lhes devo, começam a

negar-se e até me atormentam. Fazem bem, o futuro lhes dará o pago e

tambem Deus, que de vez em quando ainda se recorda de mim.

«Não encontro meio algum de salvação! Se apeio os trens, se revelo,

ainda que por sombras, o estado da minha casa, não tarda a ruina,

seguindo-se a poucos passos a miseria, com toda a sua hediondez que me

assusta.

«Devo a todos, e aos que me devem não me atrevo a pedir-lhes contas;

não, seria uma loucura para a situação em que me encontro. Exigindo-lhes

essas miseraveis quantias, seria mostrar-lhes que as necessito, e eu não

tenho mais remedio senão representar que estou rico. Quanto custa esta

falsa posição! Á custa de quantas insomnias se adquire um nome que não

dá honra no presente nem tão pouco no futuro! Que luctas inglorias! Quem

me dera ter nascido filho de um lavrador, e gosar em branda paz os

encantos d'uma vida tranquilla. E os homens julgam me feliz! quantos

dariam metade dos seus haveres para terem o meu nome! Pobres nescios!

Vêem os meus trens, os meus cavallos, os meus vestuarios, e mal pensam

as horas que todo esse fausto me rouba ao somno.

«Vi a meus pés as primeiras mulheres de Lisboa, por mais de uma vez, com

as faces incendiadas pela colera do ciume, vi os maridos a

contemplarem-me, e eu mudo, indifferente, com o sorriso nos labios,

desprezando-as a ellas, e escarnecendo d'elles.

«Quanto dera agora por ter amado uma unica vez, e ter consagrado a esse

objecto do meu amor toda a exuberancia da minha vida, todo o ardor das

minhas paixões.

«Rico, saudavel, com uma intelligencia clara e algum tanto cultivada,

porque não creei a melhor de todas as instituições: a familia?

«Que futuro me espera? Poderei eu sustentar por muitos annos esta vida,

sem dinheiro, alicerce indispensavel d'este edificio? Se ámanhã,

completamente desanimados os meus credores, comprehenderem a nenhuma

vantagem de me conservarem n'esta situação, que poderei fazer? Sair de

Lisboa? e para onde?

«Que sei eu fazer? Montar a cavallo ou guiar bem um tilbury. É isto o

sufficiente? E demais, affeito a este luxo que me rodeia, teria eu

bastante valor para lançar mão de qualquer modo de vida, que não

estivesse em harmonia com o que hoje tenho?

«Se eu podesse encontrar um homem que me emprestasse dez a doze contos

de réis, talvez ainda conseguisse levantar-me. Por isso me liguei com o

commendador e com o banqueiro, a fim de explorarmos o Tristão, mas ou eu

me engano muito ou d'aquella moita não sae coelho.

«Aquillo é homem para duzentas ou trezentas libras, que nada me podem

remedeiar. Se eu me convencesse do contrario, ajuntava o visconde

abotoando o collete, cujos magnificos botões de coral contrastavam com a

pallidez morbida do seu aristocratico semblante, se aquelle Tristão de

Almeida fosse homem para emprestar uma duzia de contos de réis,

separava-me totalmente dos meus companheiros e recorria á sua bolsa. E

quem sabe? Quem me diz que a minha salvação se aninha na sua algibeira!

«Quem sabe, continuava elle, mirando-se ao espelho, se as suas idéas

ácerca do hospital tem no amago o conseguir um titulo. Se assim fosse

estava salvo. Tenho alguns amigos no ministerio, homens que até já

dispozeram da minha bolsa, póde ser que elles me sirvam para isto. Se

fosse dinheiro tinha eu a certeza que m'o negariam, porém um titulo...

«Experimentemos, e se são esses os seus desejos, ficarei salvo. E se não

forem? Embora, convencel o hei de que um homem na sua posição necessita

um titulo, e que para o alcançar basta ter dinheiro».

Quando no meio d'estas judiciosas reflexões se preparava o visconde de

Coruche para, afastando-se de Lopes de Miranda e do banqueiro, se lançar

aos fundos de Tristão de Almeida, entrou de novo o seu _groom_

annunciando lhe o commendador.

--Que teremos? disse o visconde comsigo mesmo, pondo ao mesmo tempo as

esporas.

--Disse lhe que vossa excellencia se estava vestindo, porém, foi tal a

sua insistencia que não tive remedio senão fazel-o entrar para a sala.

--Dize-lhe que vou immediatamente. Espera! accrescentou elle como

mudando de pensamento. Entre rapazes não ha cerimonias. Que venha para

aqui mesmo.

O _groom_ retirou-se, e acompanhou d'alli a minutos o commendador.

--Deve estranhar o tel o procurado tão cedo, exclamou o commendador,

dando-se ares de janota, palavra que n'esse tempo principiava a estar em

voga.

--Por caso nenhum! Estou sempre ás suas ordens.

--Podemos conversar á vontade?

--Pois não, respondeu o visconde, visivelmente importunado pela presença

do commendador, que viera interrompel-o nas suas profundas meditações.

Ou por esquecimento, ou por pouca importancia concedida áquella

entrevista, o visconde não havia mandado retirar o _groom_.

Lopes de Miranda não tardou em fazer-lh'o notar.

Córando ligeiramente, o visconde comprehendeu aquelle reparo e mandando

retirar o criado, assentou-se n'um sophá, offerecendo um logar ao

commendador.

--Preciso fazer lhe uma pergunta. Que idéa fórma de Tristão de Almeida?

--A melhor que se póde formar; que é uma excellente alma, e desambicioso

de todas as grandezas do mundo.

--Fala serio?

--Quanto se póde falar.

--Julga portanto?...

--O quê?

--Que o seu projecto a respeito do hospital seja movido, pura e

simplesmente, pela idéa de pôr em pratica uma obra de caridade?

--Assim o creio.

--Outro tanto não penso eu, meu nobre amigo. Ha em tudo aquillo um

_arrière pensée_, ajuntou Lopes de Miranda, querendo mostrar ao visconde

os seus conhecimentos linguisticos. O homem deseja um titulo.

Feliz em que o seu pensamento se tivesse encontrado com o do

commendador, o visconde, como homem experimentado, calculou que o unico

partido de que podia lançar mão, seria o dissuadil-o completamente das

suas suspeitas.

--Crê portanto o commendador que essa caridade que antes de hontem viu

dispensar ao mestre de obras, era movida apenas por um calculo? Quanto

se illude! Seria necessario ter avaliado todas as circumstancias que se

deram, para formar o seu juizo. O mesmo suppunha eu, mas logo vi o

contrario. Ha factos que se não podem fingir, sr. Lopes de Miranda.

Seria necessario que Tristão fosse um grande actor, para tão

desassombradamente poder jogar com todas as paixões, como fez antes de

hontem quando atropellámos esse infeliz. Seria tambem um calculo o

interesse com que sua esposa se approximou do leito do moribundo, e

calculo foi tambem de suas filhas, quando com as lagrimas nos olhos

pediram ao medico informações do doente? Não me considero de uma

credulidade parva, sr. commendador, mas a Cezar o que é de Cezar. Se

Tristão, tem ou não desejo de entrar na sociedade precedido por um

titulo, não me atrevo a dizel-o, o que lhe affianço, é que, se realmente

tem esse desejo, não é elle o movel da sua caridade. Homens tem havido

muito caridosos que desejam possuir um titulo, e Tristão póde muito bem

ser um d'esses individuos.

--Pois eu é que não sou da sua opinião, e venho propôr-lhe o seguinte:

Como sabe, tenho tido ha dois annos a esta parte consideraveis perdas em

resultado da escassez do vinho, e o sr. visconde, creio que tambem

n'esta occasião não abunda em dinheiro. Lembrava me por isso que

propozessemos a Tristão, mediante um emprestimo de doze a quatorze

contos de réis, o obter-lhe um titulo de visconde, ou mesmo de conde.

Que lhe parece?

--Em primeiro logar, sr. commendador, nem vossa excellencia nem pessoa

alguma está auctorizada a saber se eu abundo ou não em dinheiro, e em

segundo devo dizer-lhe que estranho sobremaneira que se atreva a

propôr-me similhante indignidade! Creio que nunca, nem ao sr., nem a

outra pessoa extendi a minha mão para pedir dinheiro, por maior ou menor

que fosse a quantia; estou portanto habilitado a pedir-lhe o favor de

mudar de assumpto.

Comprehendendo a loucura que tinha practicado, o commendador mudou

immediatamente de conversação.

Pretextando em seguida varios negocios que tinha de tractar, Lopes de

Miranda despediu-se do visconde, seguindo d'alli para casa de Vaz

Mendes, esperançado de encontrar melhor acolhimento no banqueiro.

Dez minutos depois, perfumado, burnido e penteado, o visconde de Coruche

n'um irreprehensivel _pied fé_ fazia em branda flexão voltar o pescoço á

_Andorinha_, a egua lazã que mandara apparelhar.

Saindo do pateo em duas upas obrigadas, a _Andorinha_ levou o visconde,

que formulando o seu plano, se dirigia ao hotel Bragança.

O Conde de S. Luiz · 第 28 / 59 题