Cada vez mais impressionado pela ingenua formosura da filha do operario,
debalde tentava o desconhecido afastar para longe da memoria aquella
imagem que o perseguia.
«Mas, pensava elle, e se tudo isto não passar de uma illusão, d'um
capricho de phantasia?
«Casar-me hoje, para d'aqui a mezes aborrecer a companheira da minha
vida? Continua solteiro Manuel de Mendonça, e se um dia te impressionar
como agora algum rosto de mulher, estuda o teu coração e a tua
intelligencia, apalpa, mede e analysa esse sentimento que experimentas,
e se o considerares estavel, firme e immorredouro, pede então a mão da
mulher que o tiver despertado, e torna-a a companheira inseparavel da
tua existencia.
«Ai, do homem só!» diz Salomão, e eu digo: ai, do homem casado, que
sente ao lado da esposa a solidão. E comtudo, é esta a primeira vez que
sinto palpitar o coração! Será o amor esta intranquillidade de espirito
que ha horas me atormenta? Esta saudade que me traz a ausencia da sua
imagem e o desejo ardente de a tornar a ver será ainda o amor? Veremos.
«Só ámanhã poderei saber o tempo que me demoro em Lisboa. Se fôr pouco,
bem vamos; no mar largo substituirei a sua imagem pela doce contemplação
das estrellas, quando por noites caladas ouvir apenas o vogar da minha
galera, e de longe em longe o canto rude, mas harmonioso dos
marinheiros. Nada, continuava Manuel de Mendonça, se essa é a minha casa
e elles a minha familia, para que abandonal-a, trocando a por outros que
me são desconhecidos e que, se eu morresse, nem talvez uma lagrima de
saudade fossem chorar sobre a minha sepultura.
«Mas se eu me demorar, se a imagem de Martha me continua a perseguir?
Não póde ser! Não ha de ser, não quero que seja! Estou ainda muito novo
para me prender. E demais, affeito a uma vida isolada, como poderia eu
cumprir todos os deveres de um bom chefe de familia? Desde os dezeseis
annos que me afastei da unica pessoa que tinha n'este mundo: minha mãe.
Só, em terra estranha, sem um amigo que me protegesse, alonguei a vista
para os horizontes da patria, e extendendo-lhe os braços, debalde lhe
pedi noticias d'ella. Desanimado ao principio, vi por ultimo que não
tinha outro remedio senão revestir-me de valor, e luctei, e soube
vencer.
«Quando, possuidor de algum dinheiro, tentei voltar á Europa afim de ver
minha mãe, disseram-me na Bahia, poucos dias antes de embarcar, que a
pobre estava reduzida á miseria. Vim para Lisboa, e ao chegar descobri a
terrivel verdade, que tinha morrido no hospital dos alienados!
«Aterrado, saí immediatamente de Portugal, buscando nos transportes de
uma vida arriscada esquecer a dôr que me feria. Como eu sorri á tormenta
que parecia zombar da minha agonia! Com que desejo ardente de seguir
minha mãe eu me lancei em tudo quanto havia de perigoso, e Deus sempre a
proteger-me, como se me estivesse guardando para algum fim sobre a
terra. E que poderei eu esperar? Que felicidade posso conceber
lembrando-me que, emquanto dispendia contos e contos de réis, jazia a
minha infeliz mãe nas palhas d'um hospital?
«Nada, continuava Manuel de Mendonça, passeiando pelo seu quarto do
hotel da Europa. Permitta Deus, ajuntava elle, que ámanhã termine o
negocio que espero e que possa levantar ferro quanto antes.»
N'este momento, baterem mansamente á porta do quarto.
--Entre, disse Manuel, volvendo os olhos para a porta.
Um individuo alto e excessivamente delgado levantou o ferrolho, e entrou
no gabinete.
O homem chamava-se Luiz, por alcunha o _Mascatudo_.
A camaradagem que Mascatudo tivera por largos annos com os irlandezes, a
bordo dos seus navios mercantes, introduziu lhe por tal forma o vicio de
mascar tabaco, que o pobre Luiz, quando o não tinha, era capaz de mascar
tudo quanto lhe apparecesse.
Contava-se d'elle a seguinte anecdota, que prova a quanto aquelle vicio
o arrastava:
N'uma viagem a Macau, acabára-se-lhe o tabaco. Receiando a tripulação
que se prolongasse a derrota, defenderam todos das maxillas do tio Luiz
a preciosa planta que começava a escassear-lhes.
Certos e mais do que certos se tornaram os seus receios, a viagem durou
mais onze dias do que esperavam. Não havia tabaco a bordo!
Dizendo mal á sua vida, a tripulação debalde vasculhava os mais
reconditos escaninhos das algibeiras! Ninguem fumava! Um marujo apenas
seguia no seu eterno ruminar. Era o tio Luiz.
--Forte velhaco! diziam uns.
--E eu que ainda o outro dia fui tão tolo que lhe dei dois charutos
havanos!
--E eu, acudiu outro, perto de meia quarta de rollo. Daria agora por
elle um mez da minha soldada.
--Um raio me parta se aquelle marau me apanha mais um cigarro em toda a
sua vida, dizia com voz rouquenha o timoneiro.
--Arrebentado morra eu da sobre gata se aquelle arenque de fumo me leva
mais uma cachimbada, acrescentava um velho marinheiro.
E gritando e vociferando, iam todos contra o tio Luiz, e elle sempre
sereno, tranquillo, ruminando e salivando ao mesmo tempo.
Finalmente chegaram a Macau.
Á tarde, o commandante chamou o tio Luiz e ordenou-lhe que se vestisse
afim de o acompanhar a terra.
O marujo empallideceu, mas não teve mais remedio do que cumprir as
ordens do commandante.
Meia hora depois ouviu-se á ré um grande motim, e viu-se entre os apupos
e os risos da tripulação o tio Luiz gravemente compromettido, com uma
bota de cano no pé direito e no esquerdo uma especie de sapato de mulher
completamente franjado.
O tabaco que os seus companheiros injustamente lhe attribuiam, era o
cano da bota esquerda, que o tio Luiz mascára durante os onze dias de
atrazo. O marujo preparava-se para entrar pelo pé esquerdo se por
ventura não deitam ferro defronte da grande cidade.
Os creditos foram-lhe de novo restituidos, e desde esse dia o tio Luiz
foi conhecido a bordo pela alcunha de Mascatudo.
O tio Luiz tinha quarenta e dois annos. O seu valor e honradez faziam
com que todos o estimassem.
Quando Manuel de Mendonça comprou em Buenos-Ayres uma galera, Mascatudo
foi-lhe o mais recommendado entre os tripulantes que lhe inculcaram.
Desde esse dia até ao momento que o vemos entrar no hotel, Manuel de
Mendonça nunca teve um momento de se arrepender da profunda confiança
que n'elle tinha depositado. De todos os seus amigos, como chamava aos
seus tripulantes, Mascatudo era o mais intimo, sem que nenhum dos outros
jámais levantasse a voz para deprimir as nobres qualidades do seu
companheiro de perigos.
Mascatudo havia perdido sua mãe, unico parente que lhe restava, e que
elle adorava com todo o ardor do seu coração, coração grande e ingenuo,
como de todo o homem que passa a vida separado do resto da humanidade,
entre a colera dos elementos e a mercê do Creador!
Seria esta circumstancia que fazia com que essas duas almas se casassem?
Era o! Nos espiritos irmãos pelo infortunio, vasa Deus o balsamo da
sympathia para que possam juntos enlaçar os soffrimentos que os pungem.
Era bello vel-os, quando á noite, ao lado um do outro, contemplavam em
religioso silencio a solidão das aguas, olhando de vez em quando para o
céo, como se alli procurassem algum vestigio d'aquellas que lhes haviam
dado o ser. Outras vezes, sosinhos na sua camara, Mascatudo contava a
Manuel as suas viagens, acabando quasi sempre por lhe ler as cartas que
sua mãe lhe escrevia, e que aquelle já ha muito sabia de cór.
Era portanto este o amigo a quem Manuel abria inteira a sua alma, e em
cujo coração depositava todos os segredos da sua vida aventurosa.
--Venho participar-lhe que não poderemos sair d'aqui em menos de
cincoenta dias, o que deveras sinto, porquanto é um tempo precioso o que
estamos perdendo, disse Mascatudo, encostando-se desembaraçadamente a
uma commoda que estava no quarto de Manuel. Se imagino que tal
acontecia, juro por Santa Barbara que não era eu que o tinha aconselhado
a vir a Portugal.
-Pois sinto-o deveras, respondeu Manuel de Mendonça, sobretudo n'esta
occasião; e fazendo sentar Mascatudo a seu lado, contou-lhe em poucas
palavras a aventura da vespera, não sem lhe mostrar os graves receios
que atormentavam a sua alma.
--Nunca se arrependa de que a sua presença tenha feito a felicidade de
alguem. Dizia minha mãe, que Deus haja, que tudo quanto o Senhor fazia
era para melhor. Ora quem nos diz a nós que atraz d'essa borrascasita
que lhe arrebentou no coração, não está perto a bonança?
--Parece-te portanto... que devo dar azas a isto, que nem eu mesmo sei
como hei de chamar?
--Olhe, sr. Manuel de Mendonça, dizia minha mãe, que Deus tenha, que
o homem só n'este mundo é alvo da perdição. E eu digo o mesmo.
Antigamente não pensava assim, porém hoje, que me sinto cançado de
trabalhar, parece-me que, apezar das muitas saudades que me ficariam do
mar, viveria talvez mais feliz ao lado de minha mulher, tendo a barca
sempre em ordem e o porão cheio de mantimentos para sustentar os
filhitos, vendo-os alegres a todos, e trepando por este velho mastro,
açoitado dos vendavaes. Ha lá nada melhor n'este mundo, como dizia minha
mãe, que Deus haja, do que ter a gente umas sopas para comer ao pé de
sua familia! Basta a gente lembrar-se que tem quando morrer quem lhe
feche os olhos, e lá de vez em quando, quem se recorde da nossa alma,
resando-lhe uma oração sobre a sepultura do corpo. Emfim, faça o sr. o
que quizer, que eu cá por mim deixo correr a embarcação.
O prazer que Manuel de Mendonça experimentava ao ouvir falar do objecto
amado, era mais uma prova do seu amor.
Foi então que elle reconheceu de verdade o seu estado.
--Esperemos, disse elle finalmente de si para comsigo, e vestindo-se
saíu com Mascatudo, dirigindo-se a bordo.
[Ilustração:--Como se acha? perguntou Martha levantando se da
cadeira... (_pag. 85_)]