IX

A physionomia doce e melancholica de Martha impressionára de mais o

desconhecido para que a sua promessa deixasse de ser cumprida.

Quando ao apear-se no Largo das Duas Egrejas se demorou alguns segundos

para pagar ao bolieiro, olhou instinctivamente para um grupo composto de

quatro individuos que estavam discutindo.

--Se fosse algum de nós que tivesse atropellado o homem, provavelmente

estava preso, dizia um d'elles.

--Mas como foi o sr. Tristão d'Almeida... acudiu outro.

--E o visconde de Coruche, accrescentou terceiro.

--Mas elle morreu ou não morreu?

--Dizem que está melhor.

--Veremos como se porta o brazileiro.

--Até agora, não ha razão de queixa, segundo me disseram. Lá ficou n'um

bello quarto do hotel, tendo por enfermeiras a mulher do magnata, e as

duas filhas.

--Tenho pena de não ter sido eu o atropellado, só para ter taes

enfermeiras.

--Vocês vão d'aqui para o Marrare de Polimento, ou ficam ainda a

descobrir a mysteriosa individualidade do menino de ouro, como se diz na

minha terra?

--Vamos para o Marrare, responderam os outros tres, dirigindo-se pela

rua do Chiado.

Reflectindo em que o atropellado podia muito bem ser o pae de Martha, o

mysterioso protector da infeliz criança seguiu os quatro individuos até

á sua entrada no Marrare de Polimento.

Entrou tambem.

O que primeiro falára do acontecimento ficou á porta assobiando

alegremente; os outros dirigiram-se para os bilhares.

--Deve estranhar uma pergunta que lhe vou fazer, disse o desconhecido

interrompendo o assobio do _dilettante_. Ha tres horas que procuro um

individuo que desappareceu de sua casa. Quando me apeei de um trem no

Largo das Duas Egrejas, percebi que falavam ácerca de uma pessoa que

tinha sido atropellada, e confesso-lhe que commetti a indiscrição de os

escutar. Póde ser que seja esse o mesmo individuo que procuro.

--Talvez, respondeu amavelmente a pessoa a quem estas palavras foram

dirigidas. O que sinto é não lhe poder dizer o seu nome. Sei apenas que

está no Hotel de Bragança.

Retribuindo n'um aperto de mão a amabilidade com que fôra recebido, o

protector de Martha correu immediatamente para o sitio que lhe haviam

indicado.

Ao chegar perguntou ao guarda portão se ainda alli estava um sugeito que

de manhã fôra pizado por um brazileiro.

--E não só por um brazileiro como tambem por um visconde, respondeu o

guarda portão, como se n'estas palavras quizesse tornar mais illustre o

atropellamento, ou diminuir a culpabilidade dos animaes dividindo-a por

todos quatro.

--É possivel falar lhe?

--É possivel vel-o; emquanto a falar-lhe isso fia mais fino, respondeu o

guarda portão. Ainda não tornou a si.

--Pois obsequiava-me muito se me podesse conduzir ao seu quarto.

Minutos depois entrava no quarto do ferido.

Jeronymo ainda se encontrava no mesmo estado lethargico. A dôr das

feridas havia-lhe diminuído progressivamente, comtudo a perda de sangue

tinha sido abundante, e ao pobre operario nem forças restavam para pedir

que chamassem a sua familia, de quem n'esse instante tão amargamente se

recordava. A imagem de Balbina e de sua filha passava-lhe por entre as

visões da febre, como se as visse alli, pregadas á sua cabeceira.

Sentia na fronte a mão fina e delicada de Martha, e pousando lhe sobre o

coração, que fortemente lhe palpitava, a face de sua mulher incendida

pelo terror.

Jeronymo via tudo isto como atravez de um sonho.

Junto ao leito o desconhecido olhava-o caridosamente, levando-lhe de vez

em quando a mão á fronte.

Momentos depois os olhos do operario, até alli brandamente cerrados,

abriram-se como que para contemplar o desconhecido, que fitando-o

parecia descobrir-lhe nas feições alguma similhança com as da pobre

Martha. N'este comenos o enfermo fez um movimento como se tentasse

falar.

Manuel, o creado que lhe servia de enfermeiro, approximando-se

suavemente, perguntou-lhe se desejava alguma cousa.

--Falar... mas... não posso, murmurou o infeliz Jeronymo, deixando cair

sobre o colchão o braço direito que tentára levantar.

O desconhecido approximou-se ainda mais.

--E ainda não houve meio de se saber quem é este homem?

--Ouviu aquellas palavras que elle disse? Foram as primeiras! respondeu

o creado.

--Como se chama vossemecê, perguntou o desconhecido debruçando-se sobre

o leito.

--Jeronymo, balbuciou o pobre; e a minha familia mora na rua do Meio, á

Lapa.

--Basta! bradou rapidamente o desconhecido, e saindo do quarto sem que o

criado tivesse tido tempo de lhe perguntar aonde se dirigia,

encaminhou-se para o Loreto, afim de procurar uma sege.

Martha havía-lhe dado o nome da rua e o numero da porta. Dizendo ambas

as cousas ao bolieiro, ordenou-lhe que trouxesse Martha e sua mãe ao

Hotel de Bragança o mais depressa que lhe fosse possivel.

Foi n'este momento que Manuel desceu á casa do jantar para dizer a

Tristão de Almeida que o ferido estava no uso das suas faculdades.

Deixemos o mysterioso descobridor do pae de Martha esperando á porta do

hotel a mulher e a filha de Jeronymo, e vejamos o que se está passando

no quarto do ferido.

X

--Ora graças a Deus que está livre de perigo, exclamou Tristão de

Almeida approximando-se do leito de Jeronymo. Não calcula o quanto me

tem feito soffrer a sua prostração. Quero que nos perdôe todo o mal que

involuntariamente lhe causamos, eu e o meu amigo visconde.

--Mas agora, felizmente, sente-se melhor! perguntou o visconde

approximando-se de Tristão.

--Nem mesmo sei como me sinto, meus caros senhores, respondeu Jeronymo,

como se ainda estivesse sendo victima de uma allucinação. De quanto se

passou, continuou elle, com uma voz muito enfraquecida, lembro-me apenas

que fui atropellado por um trem, e de nada mais me recordo. Sei que

tenho tido umas dôres horríveis tanto na cabeça como em todo este lado

direito, e nada mais posso responder a vossa senhoria. O que apenas me

mortifica é lembrar-me os cuidados em que deve estar minha pobre mulher

e filha, o resto será o que Deus quizer. Tratamento, graças aos

senhores, vejo que me não tem faltado. O que eu tambem agora desejava

pedir-lhe eram dois favores; o primeiro, que me dissessem onde estou, e

o segundo, que mandassem immediatamente a minha casa participar a Martha

e a minha mulher que estou aqui, vivo e bem tractado. As infelizes a

esta hora cuidam que fui atacado pela febre amarella, e andam á minha

procura por toda a parte.

--Emquanto ao sitio aonde se encontra, respondeu Tristão, bastará

dizer-lhe que está entre amigos, e que nada lhe faltará; emquanto a

mandar chamar sua familia, queira dizer-me aonde mora.

--Moramos na rua do Meio n.º 7, Lapa, respondeu Jeronymo, fazendo ao

mesmo tempo uma dolorosa contracção.

--Que é isso, meu amigo? acudiu rapidamente o commendador dirigindo-se

ao mestre de obras.

--É uma dôr muito grande que me toma a cabeça toda, respondeu elle,

levando á fronte ambas as mãos.

--Veja se póde socegar um momento, e tranquillize se porque vamos

immediatamente chamar a sua familia.

--Para que venham mais depressa vou mandar o meu trem, disse o visconde

dirigindo-se para a porta.

--Bom será, visconde, ajuntou o commendador, quanto mais depressa

descançarmos aquella pobre gente tanto melhor para todos.

--Se vossas senhorias fossem tão bons que tal fizessem, seria uma grande

obra de caridade, disse Jeronymo, tentando sentar-se sobre o leito.

--Não faça similhante loucura. Conserve-se como está, e tenha a certeza

que d'aqui a meia hora terá a seu lado as pessoas que tanto deseja.

N'este momento entrou a sr.ª D. Maria Egypciaca, acompanhada por suas

duas filhas.

--Já sabemos, graças a Deus, quem é o nosso doente, e onde mora, disse

a D. Maria Egypciaca o visconde, que n'esse momento saía do quarto, com

o fim de dar ordem ao cocheiro para trazer a familia do ferido.

--Quanto estimo, meu Deus! respondeu D. Maria, erguendo para o tecto os

seus grandes olhos azues.

--Em que sustos estará a sua pobre familia! disse Magdalena olhando para

Olympia.

--Talvez que nem hoje tivessem que jantar.

--Enfim! disse D. Maria Egypciaca depois de ter contemplado o ferido por

alguns instantes, Deus tudo quanto faz é para melhor. É certo que teve

esta pequena contrariedade, mas graças ao Senhor, está livre de perigo,

e vae fazer a felicidade de sua familia. Não é verdade, Tristão? ajuntou

ella dirigindo-se ao esposo.

--Quantos desejariam ter egual sorte! disse o commendador

intromettendo-se na conversação.

--Magnifico achado para dirigir as obras do nosso hospital, disse o

banqueiro voltando se para Lopes de Miranda.

--Do hospital?! perguntou admirado o commendador.

--Não ouviste dizer ha pouco que era mestre de obras?

--Lembra bem, lembra bem, meu amigo, disse Tristão sentando se n'um

pequeno sophá.

N'este momento, ouviu se o rumor de muitos passos subindo apressadamente

a escada que dava para o segundo andar. Segundos depois abriu se a porta

e appareceram duas mulheres. Eram Balbina e Martha. O desconhecido

seguia-as de perto.

No momento em que Balbina e sua filha se precipitavam sobre o leito de

Jeronymo, este fez um supremo esforço para se erguer, porém as dôres que

lhe atacavam a cabeça e todo o lado direito tornaram a prostral-o

completamente.

Todos se compadeceram ao contemplar aquella scena de amargura, até a

propria Olympia arrancou dos fundos penetraes do estomago, unica viscera

onde a sensibilidade se lhe refugiára, um par de lagrimas que vinham em

turvos crystaes, rescendendo mais a fricassé do que a natural piedade.

O desconhecido, com os olhos fitos n'aquelle grupo, parecia contemplar a

physionomia de Tristão, como se uma vaga reminiscencia lhe houvesse

acudido á memoria.

O mesmo se passava no espirito do magnata; aquelle individuo não lhe era

estranho.

Seguido da esposa, approximou-se do leito de Jeronymo e contou a sua

familia tudo quanto tinha acontecido.

O mesmo fez Balbina e sua filha.

--É portanto a este cavalheiro que devemos tudo? disse Tristão. Quanto

folgo que tenha concorrido para a felicidade d'esta familia, ajuntou

elle extendendo a mão ao desconhecido.

Este, retribuindo-lhe o aperto de mão, cumprimentou rapidamente a todas

as pessoas e saiu d'aquelle gabinete.

--Quem será este moço? perguntou Tristão voltando-se para o banqueiro.

--Deus sabe; respondeu Vaz Mendes. Acho-o pouco delicado.

--Quer tornar-se mysterioso, acudiu Lopes de Miranda.

--Provavelmente é algum rapaz acanhado que não sabe estar entre gente

fina, disse D. Maria Egypciaca.

--Não sou d'essa opinião; pelo contrario, pareceu-me um moço de um

trato finissimo, mas excessivamente modesto para se conservar n'este

quarto. Receiava que o cobrissem de elogios. Não achas Magdalena?

ajuntou Tristão dirigindo-se a sua filha.

--N'isso mesmo pensava eu, meu pae, respondeu Magdalena. Quando o sr.

Vaz Mendes o alcunhou de indelicado, de mysterioso o sr. Lopes de

Miranda, e de pouco sociavel minha mãe, não concordei com opinião

nenhuma d'essas. Julgo o como meu pae: modesto de mais para escutar os

elogios de que é merecedor.

--Que innocencia! gargalhou Vaz Mendes. Quem se esquiva a ser elogiado?

--Muita gente, sr. Vaz Mendes, ainda que não seja senão por egoismo. O

elogio frivolo e banal, inscripto no codigo da civilidade, é uma ironia

pungente para o que tem a consciencia do seu merito. Ha o louvor que

anima e a adulação que fere. O incenso nem sempre é agradavel; está

muitas vezes pendente da mão que balança o thuribulo, e comtudo sempre é

incenso.

--Quer vossa excellencia dizer que os nossos encomios o poderiam

offender? perguntou o visconde.

--Nem por sombras, sr. visconde! Não era essa a minha intenção,

respondeu Magdalena approximando se de sua irmã.

--Não seria melhor deixarmos em paz esta pobre gente? disse Olympia em

voz baixa para sua mãe. E demais, acrescentou ella, já se vão

approximando as horas do chá, e se quer que lhe diga a verdade, estou

sentindo uma fraqueza...

--Bemdito Deus, respondeu D. Maria Egypciaca, sempre, sempre pensando em

comer.

--Em que quer a minha mãe que eu pense? tartamudeou Olympia, fazendo-se

vermelha como a fita que lhe cingia o collo.

No entretanto, o visconde, Vaz Mendes e Lopes de Miranda conversavam em

voz baixa n'um dos angulos do quarto.

--O que lhes peço, disse Tristão approximando-se de Balbina e de sua

filha, é que estejam aqui tanto á sua vontade como em casa propria.

Fiquem certas que coisa alguma lhes faltará. Se necessario fôr que seu

homem aqui se demore, o que espero em Deus tal não permitta, não

consinto que d'aqui se afastem. E emquanto a vossemecê, ajuntou Tristão

dirigindo-se a Jeronymo, não se persuada que fica sem trabalho; apenas

estiver melhor, ha de fazer-me o plano de uma obra que vamos

immediatamente principiar e de que o meu amigo fica encarregado.

Nos olhos do pobre Jeronymo deslizaram duas lagrimas de gratidão.

Absortas na contemplação de Jeronymo, Balbina e sua filha ouviam as

palavras de Tristão como se não as comprehendessem.

--Agora que terminaram os cuidados, e que seu marido está livre de

perigo, disse o visconde approximando-se do leito do operario, agradeçam

á Providencia o ter lhes deparado a mão que os veiu arrancar da pobreza,

ajuntou elle, voltando-se para Balbina que o contemplava como que

assombrada.

--Minha santinha, ás vezes, d'onde a gente menos o espera, é d'ahi que

provém ou grande mal ou uma grande ventura, disse Lopes de Miranda

approximando-se do visconde.

--Será a ultima, acudiu rapidamente D. Maria Egypciaca, collocando

protectoramente sobre os hombros de Balbina a sua mão direita, cujos

dedos cravejados de brilhantes feriram os olhos verdes e entristecidos

da pobre Martha.

--Vamos dar ordem para que tragam alguma coisa de comer a esta gente,

disse Olympia, puxando pela saia de sua mãe.

--Safa, inimigo! Que esta rapariga não pensa n'outra coisa senão em

comer, resmungava D. Maria Egypciaca á proporção que, seguida dos seus

hospedes, saía do quarto de Jeronymo.

* * * * *

--Que bem que alli cheira, dizia Olympia dirigindo-se para sua irmã e

aspirando os aromas culinarios que rescendiam no corredor por onde

atravessavam. Provavelmente foi algum hospede que mandou vir o jantar ao

seu quarto. Quem me dera fazer o mesmo!

O Conde de S. Luiz · 第 25 / 59 题