VIII

Deixemos por algum tempo os preclaros bemfeitores do pobre Jeronymo; a

inconsolavel esposa rezando á Virgem Santissima; D. Maria Egypciaca

abençoando o fructo dos seus burocraticos amores, e volvamos a uma

epocha vinte annos anterior a estes successos, quando, perdida a razão,

a infeliz D. Marianna de Mendonça deu entrada no hospital de S. José.

Como o leitor deve estar lembrado, a viuva não tinha um unico parente

sobre a terra. As pessoas que frequentavam a sua casa havia muito que se

tinham afastado, em virtude das intrigas urdidas pela sua amiga intima,

que annos antes a aconselhára a depositar os capitaes nas mãos do

commendador.

Até o advogado que fôra acompanhal-a ao escriptorio no dia da fuga de

Felix Justino de Araujo, até esse a havia abandonado, para com o seu

conselho salvar as victimas do fugitivo.

Maria Gertrudes, uma das creadas que lhe era mais affeiçoada, ao vel-a

entrar n'aquella situação, dirigiu-se immediatamente a casa da amiga da

sua ama participando-lhe o estado em que D. Marianna se encontrava,

perguntando-lhe o que queriam dizer aquellas palavras que proferira o

commendador--que lhe tinham roubado todos os seus bens.

--Que a sua ama sempre propendeu para a loucura, ha muito que o

suspeitava, mas que tivesse chegado a esse ponto, é que não podia crer.

Vejo-lhe apenas um remedio: metterem-n'a no hospital dos doidos, e,

quanto a isso, quem está nas melhores condições é o regedor. E sem mais

tir'te nem guar'te, voltou as costas á fiel criada, mostrando-lhe que o

sitio por onde tinha de sair era o mesmo por onde minutos antes havia

entrado.

Esperançada no restabelecimento de D. Maria, a pobre mulher voltou para

casa.

--Já não ha meios de a soffrer, disse-lhe uma sua companheira. Tem

quebrado tudo quanto encontra á mão, e se assim continúa, não temos

ámanhã um copo por onde beber. Pela minha parte, entendo que visto a

senhora não ter amigos nem parentes, o melhor era dirigirmo-nos ao sr.

regedor.

--O mesmo disse a sr.ª D. Maria Clara. Porém, entregar a nossa ama á

justiça, nós que lhe queremos tanto! Não seria mais razoavel supportal-a

ainda alguns dias, como antes de hontem nos disse o medico? respondeu

Maria Gertrudes.

--Pois supporte-a vossemecê, que eu pela minha parte já estou farta. E

demais, nós as criadas não temos obrigação de aturar doidas. Se a tal me

quizesse sujeitar, ia para o hospital de S. José, onde tinha melhor

ordenado do que n'esta casa. Vossemecê, que é mais antiga do que eu, se

gosta, sopeteie, que quanto a mim, não tenho mais nada se não arranjar o

bahu, pôr o capote e o lenço, e pés para que te quero.

É que não sei; não sei o que hei de fazer á minha vida. Valha-me Deus,

para que estava guardada.

--Estivesse eu no seu caso; eu lh'o diria.

--Então o que havia de fazer?

--Chamar o regedor e ferrar com ella no hospital.

--E esta casa? Quem ha de ficar n'esta casa?

--Ora essa sr.ª Maria Gertrudes! Ficavamos nós emquanto o filho não

viesse.

--E sabemos por ventura aonde está o filho?

--Onde está! Está no estrangeiro. Bem se vê que a sr.ª Maria Gertrudes

não é mulher d'este tempo. Boa está. Olha que grande difficuldade! Pensa

talvez que não sei como essas coisas se fazem. Para que servem os

correios? Não tem mais nada senão pôr: ao sr. Manuel de tal, e em baixo:

pelo correio do Estrangeiro, em letras muito grandes.

--Isso lá é verdade; e quanto tempo pode levar isso tudo?

--O tempo que leva uma carta ao estrangeiro. Olhe, sr.ª Maria Gertrudes,

se vossemecê quer, não diga nada ao criado, que eu _mesmo_ me encarrego

de a escrever. Por agora o que devemos fazer é ir a casa do sr. regedor.

Já com este são cinco dias que estamos aturando aquella doida, e bem vê

que isto não póde durar por muito tempo.

--Lá n'isso tem muita razão.

--Ora ainda bem; então mãos á obra.

* * * * *

Maria Gertrudes resolveu-se a ir falar ao regedor.

N'essa mesma tarde, a infeliz senhora, que cinco dias antes se

considerava rica e cheia de ventura, entrava na enfermaria das alienadas

como uma simples pedinte sem protecção e sem abrigo. Quando dois mezes

depois, informado pelos visinhos, soube o regedor o que se estava

passando em casa de D. Marianna de Mendonça e como os seus creados de

dia para dia iam roubando os haveres, entendeu-se com o juiz eleito, e

entrando em casa, viram com effeito que não eram mal fundadas as

suspeitas da visinhança.

A carta remettida para o estrangeiro ainda não tinha chegado ás mãos de

Manuel de Mendonça, e a desgraçada continuava no hospital sem que nenhum

dos creados fosse indagar o seu estado.

No dia seguinte, o juiz mandou tomar posse de tudo quanto existia, e

depois de competentemente inventariado, collocou no meio da rua aquelles

dedicados servos que tão tranquillamente habitavam a casa de sua ama sem

ao menos saberem se ainda existia ou não.

Pelo espaço de sete annos, esteve D. Marianna nas enfermarias de S.

José. Finalmente, recobrou a razão e deram-lhe alta.

Antes da saida pediu para falar com o director. Depois de lhe confiar

todos os pormenores da sua vida, perguntou-lhe se durante a sua

enfermidade alguem tinha vindo informar-se da sua saude.

Sympathizando com as maneiras da viuva e condoido pela sua desgraça, o

director levou-a para casa da sua familia.

Finalmente, graças ás relações do seu protector, D. Marianna tomou posse

do que lhe restava. Entre louça, moveis e roupas brancas apurou dois

contos e duzentos mil réis.

Alugou uma casa proxima á dos seus protectores, entregou-lhes o resto

para lh'o empregarem no que melhor lhes parecesse, até que o destino,

cançado de a torturar, lhe proporcionasse a maior de todas as

felicidades: devolver-lhe o filho querido da sua alma!

Debalde se passaram annos e annos, e o destino sem se compadecer da sua

desventura.

Os dezeseis vintens que pouco mais ou menos lhe rendiam as inscripções,

juntos aos ganhos que os seus bordados lhe produziam, eram mais do que

sufficiente para o seu alimento. Infeliz de todo não se considerava D.

Marianna, e ingrata seria para com Deus se da sua sorte se queixasse.

Era já muito o amparo que lhe concedia a Providencia representada nas

pessoas do director e de sua mulher; porém a desgraça que parecia ter-se

aninhado no seu coração, não podia permittir-lhe que descesse á

sepultura sem que primeiro a bafejasse uma vez ainda com o seu halito

envenenador. Levou-lhe em menos d'um anno as duas unicas pessoas que

tinha sobre a terra: o director e sua esposa!

Aterrada com esse golpe, julgou de novo enlouquecer!

Querendo mudar-se do bairro, que lhe recordava os seus protectores, á

sombra de cuja amizade tanto tempo se abrigára, lembrou-se de ir viver

para a Lapa.

Uma tarde saiu, e dirigindo-se para aquelles sitios encontrou na rua do

Meio a casa que lhe convinha. Dois dias depois, alugou e mudou para alli

a sua pequena mobilia. Foi onde oito annos depois a encontramos atacada

pela febre amarella.

A pobre senhora, na doce esperança de ainda tornar a vêr seu filho,

economizava, quanto cabia em suas forças, os poucos haveres que lhe

restavam.

«Este dinheiro, dizia ella ás vezes comsigo olhando para as inscripções,

não me pertence, é de meu filho; cumpre-me fazer tudo quanto possivel me

fôr para lh'o augmentar.»

Explicado está portanto o seu modo de viver.

O Conde de S. Luiz · 第 24 / 59 题