Deixemos por algum tempo os preclaros bemfeitores do pobre Jeronymo; a
inconsolavel esposa rezando á Virgem Santissima; D. Maria Egypciaca
abençoando o fructo dos seus burocraticos amores, e volvamos a uma
epocha vinte annos anterior a estes successos, quando, perdida a razão,
a infeliz D. Marianna de Mendonça deu entrada no hospital de S. José.
Como o leitor deve estar lembrado, a viuva não tinha um unico parente
sobre a terra. As pessoas que frequentavam a sua casa havia muito que se
tinham afastado, em virtude das intrigas urdidas pela sua amiga intima,
que annos antes a aconselhára a depositar os capitaes nas mãos do
commendador.
Até o advogado que fôra acompanhal-a ao escriptorio no dia da fuga de
Felix Justino de Araujo, até esse a havia abandonado, para com o seu
conselho salvar as victimas do fugitivo.
Maria Gertrudes, uma das creadas que lhe era mais affeiçoada, ao vel-a
entrar n'aquella situação, dirigiu-se immediatamente a casa da amiga da
sua ama participando-lhe o estado em que D. Marianna se encontrava,
perguntando-lhe o que queriam dizer aquellas palavras que proferira o
commendador--que lhe tinham roubado todos os seus bens.
--Que a sua ama sempre propendeu para a loucura, ha muito que o
suspeitava, mas que tivesse chegado a esse ponto, é que não podia crer.
Vejo-lhe apenas um remedio: metterem-n'a no hospital dos doidos, e,
quanto a isso, quem está nas melhores condições é o regedor. E sem mais
tir'te nem guar'te, voltou as costas á fiel criada, mostrando-lhe que o
sitio por onde tinha de sair era o mesmo por onde minutos antes havia
entrado.
Esperançada no restabelecimento de D. Maria, a pobre mulher voltou para
casa.
--Já não ha meios de a soffrer, disse-lhe uma sua companheira. Tem
quebrado tudo quanto encontra á mão, e se assim continúa, não temos
ámanhã um copo por onde beber. Pela minha parte, entendo que visto a
senhora não ter amigos nem parentes, o melhor era dirigirmo-nos ao sr.
regedor.
--O mesmo disse a sr.ª D. Maria Clara. Porém, entregar a nossa ama á
justiça, nós que lhe queremos tanto! Não seria mais razoavel supportal-a
ainda alguns dias, como antes de hontem nos disse o medico? respondeu
Maria Gertrudes.
--Pois supporte-a vossemecê, que eu pela minha parte já estou farta. E
demais, nós as criadas não temos obrigação de aturar doidas. Se a tal me
quizesse sujeitar, ia para o hospital de S. José, onde tinha melhor
ordenado do que n'esta casa. Vossemecê, que é mais antiga do que eu, se
gosta, sopeteie, que quanto a mim, não tenho mais nada se não arranjar o
bahu, pôr o capote e o lenço, e pés para que te quero.
É que não sei; não sei o que hei de fazer á minha vida. Valha-me Deus,
para que estava guardada.
--Estivesse eu no seu caso; eu lh'o diria.
--Então o que havia de fazer?
--Chamar o regedor e ferrar com ella no hospital.
--E esta casa? Quem ha de ficar n'esta casa?
--Ora essa sr.ª Maria Gertrudes! Ficavamos nós emquanto o filho não
viesse.
--E sabemos por ventura aonde está o filho?
--Onde está! Está no estrangeiro. Bem se vê que a sr.ª Maria Gertrudes
não é mulher d'este tempo. Boa está. Olha que grande difficuldade! Pensa
talvez que não sei como essas coisas se fazem. Para que servem os
correios? Não tem mais nada senão pôr: ao sr. Manuel de tal, e em baixo:
pelo correio do Estrangeiro, em letras muito grandes.
--Isso lá é verdade; e quanto tempo pode levar isso tudo?
--O tempo que leva uma carta ao estrangeiro. Olhe, sr.ª Maria Gertrudes,
se vossemecê quer, não diga nada ao criado, que eu _mesmo_ me encarrego
de a escrever. Por agora o que devemos fazer é ir a casa do sr. regedor.
Já com este são cinco dias que estamos aturando aquella doida, e bem vê
que isto não póde durar por muito tempo.
--Lá n'isso tem muita razão.
--Ora ainda bem; então mãos á obra.
* * * * *
Maria Gertrudes resolveu-se a ir falar ao regedor.
N'essa mesma tarde, a infeliz senhora, que cinco dias antes se
considerava rica e cheia de ventura, entrava na enfermaria das alienadas
como uma simples pedinte sem protecção e sem abrigo. Quando dois mezes
depois, informado pelos visinhos, soube o regedor o que se estava
passando em casa de D. Marianna de Mendonça e como os seus creados de
dia para dia iam roubando os haveres, entendeu-se com o juiz eleito, e
entrando em casa, viram com effeito que não eram mal fundadas as
suspeitas da visinhança.
A carta remettida para o estrangeiro ainda não tinha chegado ás mãos de
Manuel de Mendonça, e a desgraçada continuava no hospital sem que nenhum
dos creados fosse indagar o seu estado.
No dia seguinte, o juiz mandou tomar posse de tudo quanto existia, e
depois de competentemente inventariado, collocou no meio da rua aquelles
dedicados servos que tão tranquillamente habitavam a casa de sua ama sem
ao menos saberem se ainda existia ou não.
Pelo espaço de sete annos, esteve D. Marianna nas enfermarias de S.
José. Finalmente, recobrou a razão e deram-lhe alta.
Antes da saida pediu para falar com o director. Depois de lhe confiar
todos os pormenores da sua vida, perguntou-lhe se durante a sua
enfermidade alguem tinha vindo informar-se da sua saude.
Sympathizando com as maneiras da viuva e condoido pela sua desgraça, o
director levou-a para casa da sua familia.
Finalmente, graças ás relações do seu protector, D. Marianna tomou posse
do que lhe restava. Entre louça, moveis e roupas brancas apurou dois
contos e duzentos mil réis.
Alugou uma casa proxima á dos seus protectores, entregou-lhes o resto
para lh'o empregarem no que melhor lhes parecesse, até que o destino,
cançado de a torturar, lhe proporcionasse a maior de todas as
felicidades: devolver-lhe o filho querido da sua alma!
Debalde se passaram annos e annos, e o destino sem se compadecer da sua
desventura.
Os dezeseis vintens que pouco mais ou menos lhe rendiam as inscripções,
juntos aos ganhos que os seus bordados lhe produziam, eram mais do que
sufficiente para o seu alimento. Infeliz de todo não se considerava D.
Marianna, e ingrata seria para com Deus se da sua sorte se queixasse.
Era já muito o amparo que lhe concedia a Providencia representada nas
pessoas do director e de sua mulher; porém a desgraça que parecia ter-se
aninhado no seu coração, não podia permittir-lhe que descesse á
sepultura sem que primeiro a bafejasse uma vez ainda com o seu halito
envenenador. Levou-lhe em menos d'um anno as duas unicas pessoas que
tinha sobre a terra: o director e sua esposa!
Aterrada com esse golpe, julgou de novo enlouquecer!
Querendo mudar-se do bairro, que lhe recordava os seus protectores, á
sombra de cuja amizade tanto tempo se abrigára, lembrou-se de ir viver
para a Lapa.
Uma tarde saiu, e dirigindo-se para aquelles sitios encontrou na rua do
Meio a casa que lhe convinha. Dois dias depois, alugou e mudou para alli
a sua pequena mobilia. Foi onde oito annos depois a encontramos atacada
pela febre amarella.
A pobre senhora, na doce esperança de ainda tornar a vêr seu filho,
economizava, quanto cabia em suas forças, os poucos haveres que lhe
restavam.
«Este dinheiro, dizia ella ás vezes comsigo olhando para as inscripções,
não me pertence, é de meu filho; cumpre-me fazer tudo quanto possivel me
fôr para lh'o augmentar.»
Explicado está portanto o seu modo de viver.