VII

Mudando de rumo, o visconde e Tristão de Almeida dirigiram-se

primeiramente a casa de Vaz Mendes.

Depois de os escutar, o banqueiro annuiu gostosamente aos desejos do seu

recommendado, promettendo-lhe desde logo fazer tudo quanto estivesse ao

seu alcance para animar uma idéa tão philantropica.

D'alli partiram todos tres para casa do commendador Lopes de Miranda.

Egual acolhimento, como era de esperar, acrescentando que a mesma idéa

exposta por Tristão de Almeida havia sido formulada por elle tres dias

antes.

Tristão sorriu-se com a velhacaria que lhe era habitual, agradecendo á

Providencia que os seus pensamentos se houvessem encontrado com os do

excellentissimo commendador.

Historiando o atropellamento e matizando a historia dos mais lisongeiros

epithetos para Tristão, o visconde de Coruche contou ao commendador o

que se havia passado com o operario.

--Se vossa excellencia não deu a morte a esse desgraçado, estou

certissimo que fará a sua felicidade, disse o commendador, piscando ao

mesmo tempo o olho para o visconde.

--Ha males que vem por bens, acudiu este fazendo uma careta para Lopes

de Miranda.

--Mysterios de Deus, respondeu Tristão em voz alta. Fortes nescios,

ajuntou elle de si para comsigo. Mal sabem que lhes percebo os signaes.

Momentos depois, entravam todos quatro no hotel de Bragança e

dirigiam-se ao quarto do ferido.

O operario encontrava-se no mesmo estado de anemia. Pessoa alguma havia

podido arrancar-lhe uma só palavra.

A sr.ª D. Maria Egypciaca, segundo o havia ordenado o seu philanthropico

esposo, não tinha abandonado o leito do enfermo. Magdalena e Olympia, de

vez em quando approximavam se do quarto.

Depois de cumprimentarem a esposa de Tristão, os tres amigos chegaram-se

ao enfermo.

--Faz pena! disse o commendador, Deus sabe ajuntou elle, se este pobre

homem terá alguma pessoa a quem esteja dando sérios cuidados. É uma

lastima que se lhe não possa saber o nome. Se descobrissemos quem é a

familia, mandar lhe-iamos dizer que estava sob a protecção de vossa

excellencia. N'estas epochas de epidemia, a mais pequena demora faz com

que todos estejam em cuidados.

--Vejamos se é possivel fazel o falar, disse Vaz Mendes, debruçando se

sobre o leito do operario.

O enfermo continuava no mesmo lethargo.

Eram perto de seis horas. Como não houvesse meios de lhe arrancar uma

palavra, D. Maria Egypciaca lembrou que seria mais prudente irem jantar

emquanto durasse aquelle estado morbido, e deixando o doente entregue a

um creado, convidou as visitas a dirigirem-se á casa de jantar.

Ao chegarem alli, já Olympia, a filha mais nova de Tristão de Almeida,

aguardava que seus paes tivessem dado treguas á caridade para

desfructarem o unico gozo da vida, o comer. Minutos depois, appareceu

Magdalena, a irmã mais velha.

O jantar correu animadissimo! Formosas eram ambas as filhas de Tristão

de Almeida; juntando-se á formosura e juventude um dote de duzentos

contos de reis, que lhes poderia faltar?

Ventilado pela vigessima vez o caso do atropellamento, bem como o valor

do visconde de Coruche, que fizera convencer Tristão de Almeida do risco

que havia corrido a sua existencia em se ter approximado, do cavallo da

sella, discutiu-se a fundação do hospital.

D. Maria Egypciaca, que de antemão havia sido prevenida por seu esposo,

falou eloquentemente sobre este assumpto, deixando assombrados os

hospedes tanto pela sua verbosidade como pelas idéas philantropicas que

defendia.

Olympia contentava se de atacar com vigor extraordinario cada prato de

cosinha que o servente lhe apresentava pelo lado do coração, viscera que

apenas lhe estremecia consoante o apimentado dos molhos onde o guizado

se mergulhava!

Fitando o olhar na comida, Olympia manejava o talher com mais

desembaraço do que qualquer malabar de feira, pegando depois n'um oitavo

de pão de meio arratel para limpar o prato com o artistico intuito de

admirar o bom gosto do estampador.

Olympia tinha duas paixões: a cosinha e a ceramica. Se lhe dissessem

que morrendo de uma indigestão de ninhos de andorinhas seria depositada

n'um sarcophago de Sévres, a filha de Tristão de Almeida apanharia a

indigestão de bom grado.

Debalde o visconde de Coruche se desfazia em melifluas olhaduras, tudo

era inutil; o estomago de Olympia concedía-lhe apenas que as suas vistas

se dirigissem ora para o prato que limpava, ora para a porta por onde

entrava o criado com o seguimento do _menu_.

E, apezar de tudo, essa creatura que tão desenvoltamente usava e abusava

dos orgãos da mastigação, perguntando ao criado durante o jantar o que

tencionava guardar-lhe para a ceia, tinha o poetico nome de Olympia,

como o leitor não ignora, e era formosa, formosa a fazer enraivar de

inveja todas as do seu sexo, menos a amavel leitora que sobre estas

paginas se debruça.

Olympia era uma pomba. Dizia sua mãe que até aos dezoito annos, o unico

desgosto que lhe havia dado fôra ter atirado com uma travessa ao rosto

pallido de Magdalena, por esta lhe ter comido duas queijadas de

Reinholas, resto de tres duzias que seu pae lhe havia trazido de Cintra.

Magdalena era a sua antithese. Afôra aquelles dois pasteis, poder-se-ia

julgar impolluta no que dizia respeito ao quinto peccado.

De uma formosura menos provocadora do que sua irmã, Magdalena sabia

insinuar-se no coração de todos os que tinham a felicidade de lhe

merecer sympathia.

Tinha na tristeza vaga e scismadora do seu olhar uns longes de

melancolia que prendiam quem a contemplasse.

Sobretudo, o que mais espantava em Magdalena era a harmonia da voz.

Assombrava! Os anjos deviam aprendel-a, para espalharem nos seus

canticos a musica da palavra.

Falava pouco, porém a phrase era sempre correcta. Reservada mais por

calculo do que por organização, a irmã de Olympia atravessava a

sociedade com a consciencia segura e mathematica dos mil escolhos de que

ella se compõe!

Ferira-a a aza negra da tormenta? A ave da desgraça esvoaçára-lhe sobre

os seus louros cabellos? Desfizera-se-lhe algum sonho luminoso? Sentira

o seu coração immenso, golpeado pelo punhal do desengano?

Todos o ignoravam, ou para melhor dizer, pessoa alguma se havia demorado

a estudar aquella peregrina organização.

Magdalena nunca havia amado, porém o seu coração tinha necessidade de

amar como os pulmões do ar que respiram.

Creando um dia na sua phantasiosa imaginação o typo que ambicionara,

quiz-lhe dar vida, formas e animação. Quando mais tarde se lhe sumiu o

vago, o impalpavel, o ideal que concebêra e que tombára na tristissima

realidade, esmoreceu e curvou-se resignada para chorar a sós as suas

lagrimas.

Prophetisa da amargura, como veremos na continuação d'esta singela

historia, Magdalena parecia adivinhar as supremas angustias que mais

tarde lhe haviam de escruciar a pobre alma!

Debalde, repetimos, se esforçava o visconde para merecer um olhar de

Olympia.

Era invulneravel!

--Se o homem já terá dado accordo de si, disse o visconde para não estar

calado.

--Deus sabe! murmurou o amphitrião defendendo uma perna de perdiz da

insaciavel voracidade da filha!

--Daria tudo para que esse infeliz tornasse á vida, disse D. Maria

Egypciaca dirigindo-se ao commendador. Como estará a sua pobre familia!

ajuntou ella despejando um copo de vinho do Rheno.

--Feliz d'elle, tartamudeou o visconde, se podesse abrir os olhos no

momento em que vossa excellencia estivesse á cabeceira do seu leito.

Pela minha parte, abençoaria fosse que circumstancia fosse que me

trouxesse tal ventura, ajuntou elle, dirigindo-se a Olympia.

--Passa me aquelle prato de carne de porco assada, disse Olympia tocando

no hombro de sua irmã e sem se atrever a olhar para o visconde.

--Não ouves o que te diz aquelle cavalheiro? perguntou D. Maria

Egypciaca, voltando-se com modo agastado para sua filha.

--Não repare, meu caro amigo, acudiu Tristão, Olympia é muito

envergonhada, e demais está pouco acostumada á sociedade. Não ouves o

que te diz o sr. visconde? acrescentou elle dirigindo-se á gastronoma.

--Ouço, sim senhor, mas não sei o que hei de responder.

Magdalena estremeceu de pejo ao ouvir a resposta de Olympia.

N'este comenos, o criado que ficara junto do ferido entrou na casa de

jantar para participar que elle havia tornado a si, dizendo poucos

instantes depois o seu nome e a rua onde morava. Ajuntou em seguida o

criado que um sujeito muito bem vestido pedira ao guarda portão para vir

reconhecer o doente.

--E esse individuo... ainda lá está? perguntou Tristão.

--Não senhor. Saiu logo que lhe soube o nome. Disse que ia dar parte á

familia que estava com muito cuidado julgando que tinha sido atacado

pela febre.

--E quem é o doente e como se chama? perguntou vivamente o visconde.

--Chama-se Jeronymo e é mestre de obras.

--E onde mora? interrompeu Vaz Mendes.

--Na rua do Meio á Lapa, respondeu o criado.

--Quanto estimo! quanto estimo! exclamou D. Maria Egypciaca.

Provavelmente foram chamar-lhe a familia. Que venha, que venha. Pobre

gente! Talvez ainda abençõem a fatalidade que lhes aconteceu! Pódes

retirar-te, Manuel, ajuntou ella, dirigindo-se ao criado.

--Agora, disse Vaz Mendes, já temos por onde começar a nossa obra de

caridade. Principiaremos por esse pobre Jeronymo.

--Apoiado! bradou o commendador despejando o decimo copo de vinho do

Porto, e olhando de soslaio para Olympia, cujos olhos pardos se fitavam

ardentemente n'uma torta de maçã.

--Se m'o permittem, vou ver o meu protegido disse Tristão, levantando se

ao mesmo tempo da cadeira.

--E se tambem m'o permittem?... accrescentou o visconde, imitando o

movimento do seu amigo.

--Mas com o maior prazer, respondeu D. Maria Egypciaca. E não tardará

muito que lá vamos, eu e minhas filhas.

--Querem vel o? perguntou o visconde voltando-se para o banqueiro e para

o commendador.

--Da melhor vontade, responderam os dois a um tempo.

Levantando se rapidamente seguiram o seu amphitrião.

* * * * *

--Ora ahi tem a mamã porque eu não gosto de comer á mesa quando temos

visitas. Levanto-me sempre com fome. Só eu á minha parte seria capaz de

comer toda aquella carne assada, disse Olympia entristecidamente

voltando se para sua mãe.

--Pois é possivel que ainda tivesses mais vontade? perguntou Magdalena.

--Abençoado estomago! disse D. Maria Egypciaca levantando-se da mesa.

O Conde de S. Luiz · 第 23 / 59 题