Mudando de rumo, o visconde e Tristão de Almeida dirigiram-se
primeiramente a casa de Vaz Mendes.
Depois de os escutar, o banqueiro annuiu gostosamente aos desejos do seu
recommendado, promettendo-lhe desde logo fazer tudo quanto estivesse ao
seu alcance para animar uma idéa tão philantropica.
D'alli partiram todos tres para casa do commendador Lopes de Miranda.
Egual acolhimento, como era de esperar, acrescentando que a mesma idéa
exposta por Tristão de Almeida havia sido formulada por elle tres dias
antes.
Tristão sorriu-se com a velhacaria que lhe era habitual, agradecendo á
Providencia que os seus pensamentos se houvessem encontrado com os do
excellentissimo commendador.
Historiando o atropellamento e matizando a historia dos mais lisongeiros
epithetos para Tristão, o visconde de Coruche contou ao commendador o
que se havia passado com o operario.
--Se vossa excellencia não deu a morte a esse desgraçado, estou
certissimo que fará a sua felicidade, disse o commendador, piscando ao
mesmo tempo o olho para o visconde.
--Ha males que vem por bens, acudiu este fazendo uma careta para Lopes
de Miranda.
--Mysterios de Deus, respondeu Tristão em voz alta. Fortes nescios,
ajuntou elle de si para comsigo. Mal sabem que lhes percebo os signaes.
Momentos depois, entravam todos quatro no hotel de Bragança e
dirigiam-se ao quarto do ferido.
O operario encontrava-se no mesmo estado de anemia. Pessoa alguma havia
podido arrancar-lhe uma só palavra.
A sr.ª D. Maria Egypciaca, segundo o havia ordenado o seu philanthropico
esposo, não tinha abandonado o leito do enfermo. Magdalena e Olympia, de
vez em quando approximavam se do quarto.
Depois de cumprimentarem a esposa de Tristão, os tres amigos chegaram-se
ao enfermo.
--Faz pena! disse o commendador, Deus sabe ajuntou elle, se este pobre
homem terá alguma pessoa a quem esteja dando sérios cuidados. É uma
lastima que se lhe não possa saber o nome. Se descobrissemos quem é a
familia, mandar lhe-iamos dizer que estava sob a protecção de vossa
excellencia. N'estas epochas de epidemia, a mais pequena demora faz com
que todos estejam em cuidados.
--Vejamos se é possivel fazel o falar, disse Vaz Mendes, debruçando se
sobre o leito do operario.
O enfermo continuava no mesmo lethargo.
Eram perto de seis horas. Como não houvesse meios de lhe arrancar uma
palavra, D. Maria Egypciaca lembrou que seria mais prudente irem jantar
emquanto durasse aquelle estado morbido, e deixando o doente entregue a
um creado, convidou as visitas a dirigirem-se á casa de jantar.
Ao chegarem alli, já Olympia, a filha mais nova de Tristão de Almeida,
aguardava que seus paes tivessem dado treguas á caridade para
desfructarem o unico gozo da vida, o comer. Minutos depois, appareceu
Magdalena, a irmã mais velha.
O jantar correu animadissimo! Formosas eram ambas as filhas de Tristão
de Almeida; juntando-se á formosura e juventude um dote de duzentos
contos de reis, que lhes poderia faltar?
Ventilado pela vigessima vez o caso do atropellamento, bem como o valor
do visconde de Coruche, que fizera convencer Tristão de Almeida do risco
que havia corrido a sua existencia em se ter approximado, do cavallo da
sella, discutiu-se a fundação do hospital.
D. Maria Egypciaca, que de antemão havia sido prevenida por seu esposo,
falou eloquentemente sobre este assumpto, deixando assombrados os
hospedes tanto pela sua verbosidade como pelas idéas philantropicas que
defendia.
Olympia contentava se de atacar com vigor extraordinario cada prato de
cosinha que o servente lhe apresentava pelo lado do coração, viscera que
apenas lhe estremecia consoante o apimentado dos molhos onde o guizado
se mergulhava!
Fitando o olhar na comida, Olympia manejava o talher com mais
desembaraço do que qualquer malabar de feira, pegando depois n'um oitavo
de pão de meio arratel para limpar o prato com o artistico intuito de
admirar o bom gosto do estampador.
Olympia tinha duas paixões: a cosinha e a ceramica. Se lhe dissessem
que morrendo de uma indigestão de ninhos de andorinhas seria depositada
n'um sarcophago de Sévres, a filha de Tristão de Almeida apanharia a
indigestão de bom grado.
Debalde o visconde de Coruche se desfazia em melifluas olhaduras, tudo
era inutil; o estomago de Olympia concedía-lhe apenas que as suas vistas
se dirigissem ora para o prato que limpava, ora para a porta por onde
entrava o criado com o seguimento do _menu_.
E, apezar de tudo, essa creatura que tão desenvoltamente usava e abusava
dos orgãos da mastigação, perguntando ao criado durante o jantar o que
tencionava guardar-lhe para a ceia, tinha o poetico nome de Olympia,
como o leitor não ignora, e era formosa, formosa a fazer enraivar de
inveja todas as do seu sexo, menos a amavel leitora que sobre estas
paginas se debruça.
Olympia era uma pomba. Dizia sua mãe que até aos dezoito annos, o unico
desgosto que lhe havia dado fôra ter atirado com uma travessa ao rosto
pallido de Magdalena, por esta lhe ter comido duas queijadas de
Reinholas, resto de tres duzias que seu pae lhe havia trazido de Cintra.
Magdalena era a sua antithese. Afôra aquelles dois pasteis, poder-se-ia
julgar impolluta no que dizia respeito ao quinto peccado.
De uma formosura menos provocadora do que sua irmã, Magdalena sabia
insinuar-se no coração de todos os que tinham a felicidade de lhe
merecer sympathia.
Tinha na tristeza vaga e scismadora do seu olhar uns longes de
melancolia que prendiam quem a contemplasse.
Sobretudo, o que mais espantava em Magdalena era a harmonia da voz.
Assombrava! Os anjos deviam aprendel-a, para espalharem nos seus
canticos a musica da palavra.
Falava pouco, porém a phrase era sempre correcta. Reservada mais por
calculo do que por organização, a irmã de Olympia atravessava a
sociedade com a consciencia segura e mathematica dos mil escolhos de que
ella se compõe!
Ferira-a a aza negra da tormenta? A ave da desgraça esvoaçára-lhe sobre
os seus louros cabellos? Desfizera-se-lhe algum sonho luminoso? Sentira
o seu coração immenso, golpeado pelo punhal do desengano?
Todos o ignoravam, ou para melhor dizer, pessoa alguma se havia demorado
a estudar aquella peregrina organização.
Magdalena nunca havia amado, porém o seu coração tinha necessidade de
amar como os pulmões do ar que respiram.
Creando um dia na sua phantasiosa imaginação o typo que ambicionara,
quiz-lhe dar vida, formas e animação. Quando mais tarde se lhe sumiu o
vago, o impalpavel, o ideal que concebêra e que tombára na tristissima
realidade, esmoreceu e curvou-se resignada para chorar a sós as suas
lagrimas.
Prophetisa da amargura, como veremos na continuação d'esta singela
historia, Magdalena parecia adivinhar as supremas angustias que mais
tarde lhe haviam de escruciar a pobre alma!
Debalde, repetimos, se esforçava o visconde para merecer um olhar de
Olympia.
Era invulneravel!
--Se o homem já terá dado accordo de si, disse o visconde para não estar
calado.
--Deus sabe! murmurou o amphitrião defendendo uma perna de perdiz da
insaciavel voracidade da filha!
--Daria tudo para que esse infeliz tornasse á vida, disse D. Maria
Egypciaca dirigindo-se ao commendador. Como estará a sua pobre familia!
ajuntou ella despejando um copo de vinho do Rheno.
--Feliz d'elle, tartamudeou o visconde, se podesse abrir os olhos no
momento em que vossa excellencia estivesse á cabeceira do seu leito.
Pela minha parte, abençoaria fosse que circumstancia fosse que me
trouxesse tal ventura, ajuntou elle, dirigindo-se a Olympia.
--Passa me aquelle prato de carne de porco assada, disse Olympia tocando
no hombro de sua irmã e sem se atrever a olhar para o visconde.
--Não ouves o que te diz aquelle cavalheiro? perguntou D. Maria
Egypciaca, voltando-se com modo agastado para sua filha.
--Não repare, meu caro amigo, acudiu Tristão, Olympia é muito
envergonhada, e demais está pouco acostumada á sociedade. Não ouves o
que te diz o sr. visconde? acrescentou elle dirigindo-se á gastronoma.
--Ouço, sim senhor, mas não sei o que hei de responder.
Magdalena estremeceu de pejo ao ouvir a resposta de Olympia.
N'este comenos, o criado que ficara junto do ferido entrou na casa de
jantar para participar que elle havia tornado a si, dizendo poucos
instantes depois o seu nome e a rua onde morava. Ajuntou em seguida o
criado que um sujeito muito bem vestido pedira ao guarda portão para vir
reconhecer o doente.
--E esse individuo... ainda lá está? perguntou Tristão.
--Não senhor. Saiu logo que lhe soube o nome. Disse que ia dar parte á
familia que estava com muito cuidado julgando que tinha sido atacado
pela febre.
--E quem é o doente e como se chama? perguntou vivamente o visconde.
--Chama-se Jeronymo e é mestre de obras.
--E onde mora? interrompeu Vaz Mendes.
--Na rua do Meio á Lapa, respondeu o criado.
--Quanto estimo! quanto estimo! exclamou D. Maria Egypciaca.
Provavelmente foram chamar-lhe a familia. Que venha, que venha. Pobre
gente! Talvez ainda abençõem a fatalidade que lhes aconteceu! Pódes
retirar-te, Manuel, ajuntou ella, dirigindo-se ao criado.
--Agora, disse Vaz Mendes, já temos por onde começar a nossa obra de
caridade. Principiaremos por esse pobre Jeronymo.
--Apoiado! bradou o commendador despejando o decimo copo de vinho do
Porto, e olhando de soslaio para Olympia, cujos olhos pardos se fitavam
ardentemente n'uma torta de maçã.
--Se m'o permittem, vou ver o meu protegido disse Tristão, levantando se
ao mesmo tempo da cadeira.
--E se tambem m'o permittem?... accrescentou o visconde, imitando o
movimento do seu amigo.
--Mas com o maior prazer, respondeu D. Maria Egypciaca. E não tardará
muito que lá vamos, eu e minhas filhas.
--Querem vel o? perguntou o visconde voltando-se para o banqueiro e para
o commendador.
--Da melhor vontade, responderam os dois a um tempo.
Levantando se rapidamente seguiram o seu amphitrião.
* * * * *
--Ora ahi tem a mamã porque eu não gosto de comer á mesa quando temos
visitas. Levanto-me sempre com fome. Só eu á minha parte seria capaz de
comer toda aquella carne assada, disse Olympia entristecidamente
voltando se para sua mãe.
--Pois é possivel que ainda tivesses mais vontade? perguntou Magdalena.
--Abençoado estomago! disse D. Maria Egypciaca levantando-se da mesa.