VI

--E já lá vão as cinco, as seis, e as sete, e Jeronymo sem chegar!

Virgem Santissima que lhe terá acontecido?

Isto dizia a infeliz Balbina, olhando ora para o relogio, ora para uma

pequena imagem de Nossa Senhora da Conceição, defronte da qual ardia a

luz frouxa e melancholica de uma lamparina de azeite.

--Ha dezoito annos que somos casados, continuou ella voltando se para a

tia Marianna, e nunca tal me aconteceu! E sobretudo n'este tempo! Quem

nos diz que elle foi atacado pela febre, e que o levaram; morto talvez;

morto, o meu querido Jeronymo? Deus permitta que Martha se não demore.

Ella já tinha tempo e mais do que tempo para voltar.

--Não se apoquente, sr.ª Balbina. D'aqui á rua de S. Francisco não é

tão perto como julga, e demais ainda não ha uma hora que foi.

Coitadinha! Desacostumada como está de andar por essas ruas! Porque não

havia de me ter deixado ir em sua companhia? Valha-nos Deus! Não ha

senão desgostos para os que são bons como vossemecê.

--Isso é coisa sabida, tia Marianna; parece que quanto mais a gente

quer--como o outro que diz--estar nas graças de Deus, mais o demo que as

tece está puxando pelo fio da felicidade! Eu estou como doida! Se Martha

se demora mais algum quarto de hora, sou eu quem os vae procurar a

_ambos e dois_. Vossemecê fica aqui para o que der e vier, ajuntou a

pobre Balbina, passeiando desassocegadamente de um para o outro lado do

quarto.

--Ainda não tem razão para estar dizendo mal á sua vida. Quem sabe se

ambos se encontraram?...

--Tenho na mente que não, sr.ª Marianna; e demais, não sei o que me diz

o coração. Parece que tudo se está preparando para que haja n'esta casa

uma grande desgraça. Se a minha amiga visse a maneira por que hoje nos

olhou a tia Monica! Não lhe bastou ter-nos rogado a praga que nos

rogou...

--Ora deixe-se d'isso, sr.ª Balbina! Não creia em bruxarias. Deus é bom

de mais para conceder similhante poder aos mortaes.

--Se ouvisse como hoje esteve a _ouviar_ a minha cadella! Diga-o ella!

Por mais que pozesse as cadeiras de pernas para o ar, e que voltasse um

sapato de solla para cima, não houve meios de fazer com que se calasse o

pobre animal! Eu bem sei que tudo isto são coisas, como o outro que diz,

que não vem nada ao caso, mas a gente cá tem os seus enguiços, e

desgraçadamente a maior parte das vezes saem certos como dois e dois

serem quatro.

--Pois sim, pois sim, socegue a minha boa amiga, e verá que não tarda

muito que os veja entrar por essa porta. É preciso que a gente não seja

tão desanimada. De que nos serviria a religião se nos não desse

conformidade? Estar agora duvidando da graça de Deus, porque seu marido

se demora mais duas ou tres horas!

--E como explica vossemecê o elle não ter vindo jantar?

--Quem sabe lá se encontrou o seu ganchosinho com que podesse ganhar

algum vintem? Ignora vossemecê o seu genio? Aquillo é uma formiga para a

familia. Parece-me que se o dia tivesse quarenta e oito horas, quarenta

e oito horas seria capaz de trabalhar por dia.

N'este momento bateram á porta e a voz de Martha soou melancholicamente

atravez das fendas do postigo.

Balbina ergueu-se rapidamente para lhe abrir a porta.

Martha vinha desfigurada.

--O pae, disse ella entre soluços, saíu da obra ao meio dia para vir

jantar a casa. Ninguem me pôde dar noticias d'elle. Pedi a um pedreiro

para me ajudar a procural-o, mas o pobre sentia-se muito incommodado e

esquivou-se a acompanhar-me. Outro que lá encontrei começou a sorrir-se

para mim de tal forma que não tive valor de lhe dizer quanto soffria,

ajuntou Martha tornando-se vermelha como o lenço que lhe occultava os

seus magnificos cabellos.

--Infame! exclamou Balbina approximando-se cada vez mais da filha.

--Fugi desorientada, continuou Martha suffocada pelas lagrimas, e

quando vinha pelo Chiado, encostei-me a uma esquina quasi sem saber de

mim. Então senti que me tocavam brandamente no hombro. Despertei como de

um sonho, e vi um senhor muito bem vestido, perguntando me o que tinha.

Disse-lhe que ia em busca de meu pae, pois receiava que tivesse sido

atacado pela febre. O tal individuo compadeceu-se da minha sorte.

Aquelle sim; nem siquer reparou se eu era bonita ou se era feia. Teve

apenas tempo de me ver as lagrimas e não a côr dos olhos. «Não me atrevo

a dizer-lhe que entre commigo n'uma sege, disse-me elle; seria

offendel-a; mas espere, que vou chamar dois trens.»

Esperei, chegaram duas traquitanas.

--Entre, disse-me elle pegando-me na mão esquerda. Do coração lhe

affianço, que póde estar tão segura como se fosse ao lado de seu pae,

que espero em Deus encontrará com vida, acrescentou o individuo

mettendo-me no trem.

Entrei sem saber como. Senti bater o guarda lama e os cavallos seguirem

a trote.

De repente, a sua traquitana tomou a deanteira á minha.

Andámos, andámos até que chegou a um sitio onde havia um hospital. Os

cavallos pararam. Elle então apeiou-se e perguntou-me os signaes do pae.

Dei-lh'os. Entrou para dentro do edificio onde se demorou por alguns

minutos, e voltou dizendo-me que não tinha entrado n'aquella casa.

Os trens partiram a galope. Fomos a dois hospitaes; o mesmo resultado.

Faltava apenas o da rua do Sol. Esse, já eu conhecia de nome quando a

tia Marianna adoeceu. Ninguem alli tinha entrado desde as nove horas da

manhã.

--Vá tranquilla para sua casa, e diga-me onde mora.

Dei-lhe o nome da rua e o numero da porta.

Pagou ao bolieiro dizendo-lhe que me viesse pôr em casa, o que não

acceitei por causa da visinhança.

--E quem será esse individuo, para que lhe possamos beijar as mãos?

exclamou Balbina, n'um transporte de profundo reconhecimento.

--Deus sabe! Oh! mas elle não me mentiu! respondeu Martha. Tenho tanta

fé nas suas palavras! Se a mãe visse como elle me disse: «vá para casa,

que ainda hoje hei de descobrir onde está seu pae.»

--E é muito novo esse homem? interrompeu Marianna.

--Uns trinta annos.

--Felizmente, ainda se pode dizer que a mocidade não está perdida de

todo.

N'este momento, Balbina approximava-se da porta, preparando-se para

sair.

--Mas onde vae? exclamou Martha. Pelo amor de Deus, minha mãe... Tenha

prudencia! Onde pretende encontral-o? Na rua? Já vê que se lhe tivesse

acontecido alguma desgraça, estaria infallivelmente em algum dos

hospitaes, e graças a Deus, tal não succede.

--Embora! hei de encontral o, respondeu a pobre mulher tentando dar

volta á chave para sair.

Marianna e Martha, ajoelhadas deante da pobre esposa, tentavam

impedir-lhe a passagem.

E ella então, comprehendendo a inutilidade da sua saida, caiu de joelhos

deante da imagem de Nossa Senhora. Imitando-a, Martha e Marianna

acompanharam-n'a na sua oração.

E o relogio, seguindo n'um rumor compassado, continuava na sua material

indifferença marcando os segundos e os minutos, ao som da chuva que,

batendo de encontro aos vidros, ainda mais sombrio tornava aquelle

quadro de amargura.

O Conde de S. Luiz · 第 22 / 59 题