IV

Oito dias depois, com grave assombro da visinhança, a tia Marianna,

envolta n'um capotezinho azul, apparecia de novo á janela da sua casa.

Os effeitos da febre amarella haviam-lhe passado desapercebidos pela sua

organização de ferro. Ao vel-a, ninguem poderia acreditar que essa

mulher, aos sessenta e seis annos, podesse haver resistido aos golpes

d'uma doença, que tanta gente nova e robusta ceifára n'aquellas

immediações.

Todos viam na sua convalescença, começando pela beata, um favor da

Providencia; e nem uma só bocca se abriu para dizer, quanto a dedicação

da pobre Martha ajudára aquelle verdadeiro milagre.

Almas vis e denegridas que não comprehendeis o bem, como poderieis

soltar a voz para elogiardes a virtude, se nos vossos corações não

existe mais do que a inveja e a podridão!

Sem valor de praticardes o bem, fere-vos o goso que experimenta o

coração, que se entrega aos deleites da caridade.

A apotheose do proximista, echoando nos ouvidos do misanthropo, deve

produzir-lhe um effeito atroador, como o som do ouro espalhado pela

pobresa, no tympano do avarento.

Ninguem da visinhança se atrevera a soccorrer a pobre doente, ninguem

repartira o seu jantar com a infeliz; porém, quando a viram de pé,

salva, proclamando por toda a parte o quanto era devedora á familia do

operario, todas as visinhas, consumindo-se de inveja, lhe voltavam as

costas para não ouvirem os elogios que a velha do coração lhe

prodigalizava.

Desde esse momento, a pouca affeição que todos consagravam á familia de

Jeronymo, tornára-se em decidida aversão. Começando pelo sr. regedor, e

acabando na sr.ª Margarida da Silva, ninguem podia supportar aquella

pobre gente, que, fechada quasi sempre em sua casa, de mais coisa alguma

se importava a não ser dos seus arranjos domesticos.

Quanto mais a tia Marianna proclamava em alto e bom som as virtudes de

Martha, maiores antipathias ia inspirando a filha do operario. Quando,

acompanhada por sua mãe, saía aos domingos para ir á missa da Lapa, as

visinhas zombavam sempre ao vel-a passar. Hoje, porque o seu lenço

estava mal engommado, ámanhã porque o seu capote de panno azul já

começava a mostrar o fio. A pobre victima fazia que nada percebia dos

continuos gracejos que contra ella dirigiam. Chegou a pedir a sua mãe,

por tudo quanto havia, que não a obrigasse a ir á missa das onze.

--Que te importa o que diz toda essa gente? exclamava ás vezes o sr.

Jeronymo. O que elles têem é inveja do teu comportamento. Não tardará

muito, se Deus quizer, que tenha ahi uns _ganchosinhos_ que me devem

render um par de moedas, verás então como lhes hei de fazer estalar a

castanha na bocca, quando te virem o bom capote aos hombros, e o bom

cordão de seis moedas ao pescoço.

--Pouco me importa com o que elles dizem, respondia lhe Martha. Não

tenham de abocanhar no meu credito, o mais, tanto se me dá como se me

deu. O que eu queria era ajudar a pobre velhinha.

--Pois tambem não tardará muito que lhe façamos algum bem, respondeu o

mestre Jeronymo, como se um pensamento lhe acudisse ao espirito. Ámanhã

tenciono ir a casa de tua madrinha, para que ella lhe possa obter alguma

esmola da senhora Condessa. Que te parece, Martha? Continuou o mestre de

obras, cravando os olhos no rosto candido de sua filha, e revelando no

gesto o prazer que lhe ia n'alma, ao comparal-a com todas as raparigas

suas visinhas.

--Muito estimarei que isso não fique no rol dos esquecimentos, respondeu

a criança sorrindo-se ternamente para seu pae. Salvamos a pobresinha da

morte, é mister não a desampararmos, nem deixal a morrer de frio ou de

fome.

--De frio não morrerá ella por certo, acudiu Balbina, collocando o ferro

de engommar sobre o descanço. Ainda esta manhã lhe dei o capote que

punhamos no leito.

--Quer dizer, interrompeu Jeronymo, que de hoje em deante... se tivermos

frio...

--Que nos havemos de contentar com os cobertores, respondeu a caridosa

Balbina, tornando a pegar no ferro, e approximando-o da face para lhe

calcular o calor.

--Seja o que vossês quizerem, que eu, pela minha parte nunca as

reprehenderei por qualquer acção boa que praticarem; e já que tivemos a

felicidade de salvar a vida d'essa infeliz, é justo não a deixarmos

agora morrer ao desamparo. Estou da opinião da Martha.

--Ou eu me engano muito, ou a tia Marianna já teve melhores dias, disse

Martha. Ha na sua vida algum mysterio que ella nos encobre, mas que,

apezar de tudo, adivinhamos, respondeu Martha, com aquella intuição

particular que tantas vezes se encontra no coração da mulher.

--O mesmo penso eu, ajuntou mestre Jeronymo. Nunca fui homem que

frequentasse estas casas, porém reconheço ás vezes um não sei quê nas

maneiras da tia Marianna, que me levam a crer que os seus principios não

foram como os nossos; e tenho cá na mente, que mais dia menos dia tudo

se ha de descobrir. Quando vossês hontem foram levar aquellas camisas a

casa da fregueza, e que fiquei aqui em sua companhia, ainda mais me

convenci das minhas suspeitas. «Sr. Jeronymo, disse me a tia Marianna,

quem sabe se um dia a Providencia, lembrando se de uma desgraçada que

abandonou sobre a terra, a tomará de novo debaixo da sua protecção. Se

tal acontecer, lembre-se do que lhe digo hoje, nunca serei ingrata para

uma familia a quem tanto devo.» Ora, além d'estas palavras serem

proferidas, sim... assim como o outro que diz, com uns certos modos

finos e delicados, levam-me a pensar que a tia Marianna não é, nem nunca

foi o que parece. Em todo o caso, seja ella quem fôr, tem precisão, é

necessario soccorrel-a, e hoje mais do que nunca, quando a inveja a

começa a perseguir. Vejam lá a capellista! Até essa mesma, que eu

suppunha tão virtuosa, como se uniu a todas as visinhas para lhe

cortarem na pelle, mais a ti, minha filha! Valha nos Deus, que mundo

este! ajuntou o mestre de obras, dirigindo-se para a cosinha, em cuja

chaminé Balbina lhe havia posto a ceia a aquecer.

N'este momento bateram apressadamente ao postigo.

--Que teremos? disse Balbina.

Martha levantou-se, e ao reconhecer a voz que da rua lhe falava, abriu

immediatamente a porta.

Era a tia Monica.

--Deus seja comvosco n'esta casa, e que o Senhor lançando sobre nós a

sua divina benção, queira proteger a mais santa e a mais virtuosa de

todas as familias, disse a beata. Acaba de ser atacada pela febre

amarella a nossa visinha Margarida, ajuntou ella. No momento em que me

estava vendendo um vintem de meio grosso, a colera de Deus desceu sobre

a peccadora e alli jaz sem protecção nem abrigo, porquanto todas as

visinhas receiam que tambem o Senhor as castigue pelos actos que teem

praticado sobre a terra. Venho pedir a vossemecê, sr.ª Balbina, que se

compadeça d'essa desgraçada, e que me empreste esse milagroso frasquinho

com que tornou á vida a tia Marianna.

--Não foi o remedio que lhe deu minha mulher que fez com que a tia

Marianna melhorasse, acudiu o mestre Jeronymo, que da porta da cosinha

ouvira as exclamações da beata. Façam o mesmo que fez minha filha. Vão

chamar o sr. regedor e peçam-lhe que mande immediatamente buscar-lhe os

soccorros, ajuntou o mestre de obras com modo aspero e descontente.

Quanto ao frasco, continuou elle, voltando-se para sua mulher, podes

emprestar-lh'o se é da tua vontade, porém servir-lhe de enfermeira,

maletas me dêem se em tal consinto. Bem basta o que basta, sr.ª Monica.

Para outra qualquer pessoa talvez que nem fosse preciso que me pedisse

por duas vezes, mas para a sr.ª Margarida! Nem que me pezassem a ouro,

ou que santo me fizesse o sr. padre prior. Estou farto e mais que farto

da ingratidão, sr.ª Monica. Não foi a sr.ª Margarida a primeira a cortar

na pelle de minha filha, por ella ter ido acudir á tia Marianna? E não

foi só ella como tambem as outras visinhas! Pois agora que se aguentem

como melhor lhes parecer. Que se ajudem umas ás outras, que eu pela

minha parte, não consinto que lá ponham o pé, nem minha mulher nem minha

filha.

[Ilustração: N'este momento a viuva acabava de assignar... (_pag. 15_)]

--Cruzes! Credo! Mãe Santissima! Que modos, sr. Jeronymo! E eu que

julgando-o um Santo, me atrevi a vir a sua casa. Que a ira de Deus

descendo sobre esta morada castigue o maior de todos os peccadores,

resmungou a tia Monica á medida que se approximava da porta por onde

momentos depois saía apressadamente, olhando ao mesmo tempo para

Jeronymo, cujo olhar, incendiado pelo desespero que a praga lhe havia

produzido, incutia certos receios no animo da corretora de orações.

--Que lhes pareceu o traste? perguntou o mestre Jeronymo depois de

alguns momentos de profunda reflexão.

--Se meu pae me deixasse ao menos ver o estado em que se encontra essa

pobre mulher?... perguntou ingenuamente a caridosa Martha.

--Nem por sombras, respondeu o operario. Vamos pedir a Deus pela saude,

e depois descançarmos o corpo para o trabalho de ámanhã.

Momentos depois, ouvia-se apenas em casa do operario o ciciar d'esta

curta, mas eloquente oração:

Bom Jesus, todo Poderoso,

Filho da Virgem Maria,

Soccorrei-nos esta noite

E ámanhã por todo o dia.

Se na terra não coubermos,

Levae-nos Senhor aos céos,

Rogae por nós peccadores,

Virgem Santa, Mãe de Deus.

V

Havia dias que tinha chegado a Lisboa, vindo do Rio Grande do Sul, um

abastado capitalista por nome Tristão de Almeida, segundo rezava o seu

passaporte. Acompanhavam-n'o sua mulher e duas filhas.

Trazia apenas tres cartas de recommendação, uma para o visconde de

Coruche, outra para o commendador Lopes de Miranda, e a terceira para a

casa bancaria de Vaz Mendes e C.ª, extraordinariamente acreditada n'esta

capital, não só pela notavel amabilidade dos seus gerentes, como pelo

facto de já ter fallido tres vezes.

O visconde, o commendador e o banqueiro abraçaram gostosamente o seu

recommendado. Como bons farejadores reflectiram que a caça era rara de

mais para se abandonar por essas mattas de Lisboa, onde o genero tanto

escasseia.

Disputada calorosamente entre todos tres a preza que promettia dar para

succulenta refeição, transigiram, promettendo, como quaesquer jogadores

da vermelhinha, que dividiriam entre todos os despojos da caçada.

Deixando-se de vogar na torrente de eternas adulações, Tristão de

Almeida olhava para as facecias dos seus aduladores com aquelle olhar de

experimentada velhacaria com que todo o homem do mundo se deixa levar,

quando, porventura, no amago das lisonjas que lhe disparam, antolha, ou

pelo menos fareja o mais leve indicio de estremado calculo.

Sem patentear a sua intelligencia ou, ainda mais, deixando-se passar por

zote, Tristão ia cercando de lisongeiras esperanças o filão d'essa

inexgotavel mina que os tres inseparaveis amigos julgavam descobrir na

sua aurifera individualidade.

Mulher e filhas ainda não haviam entrado em scena. Constava porém que

uma das meninas era de formosura extrema, e d'uma superior

intelligencia. Não tardou uma semana que esse homem, ou para melhor

dizer esse mysterio fosse discutido em todos os circulos.

Quem era? Qual o seu passado, ninguem o sabia; ao passo que elle

conhecia a todos, e de todos sabia as chronicas. Se este, antes de ser

visconde de tal era apenas Manuel Pinto com barracas de fressureiro, se

aquelle, antes de barão, empregava a casca de polvo para tirar em baixo

relevo a vera effigie de qualquer monarcha, ensaiando por esta forma a

sua industria até conseguir a tiragem por meio do balancé; se

aquell'outro, profundo amador do sexo fragil, tivera casa de alcouce no

Brazil com o unico fim de matar o tempo.

Tristão de Almeida sabia o passado de todos, e todos ignoravam o seu

preterito.

«É forçoso votar uma quantia para estes tres individuos, pensava elle,

passeiando pela varanda do hotel e contemplando as aguas do Tejo que

pareciam conhecel-o e sorrir-lhe. Se com vinte ou trinta contos de réis

se contentam, satisfarei os seus desejos e poderei conseguir os meus

fins. Graças a sir Francis Strolopp, tornei-me desconhecido.[1] Hoje

pessoa alguma poderá descobrir que antes de ser Tristão de Almeida fui

Felix Justino de Araujo como antes de ser Felix Justino de Araujo fôra

Domingos de Andrade.

«É forçoso que me arranjem um titulo pelo menos de visconde. Quero ver

minha mulher viscondessa, tenho n'isso o maior de todos os meus

caprichos. Não que me seja preciso, para casar minhas filhas é-lhes

sufficiente o seu dote de duzentos contos de réis. Brevemente

encontrarão algum fidalgo arruinado, que tenha por unicos restos de

grandeza o seu titulo, e isso... é genero que abunda muito em Portugal.

Está decidido, quero um titulo. Começarei por ser apresentado em casa de

alguma senhora protectora d'essas escolas de caridade, e dar-lhe-hei uma

avultada esmola, afim de a applicar aos seus protegidos. Mas agora me

recordo, ajuntava elle, desencostando-se do parapeito da varanda; o

ensejo é favoravel. A febre amarella, levando a desgraça a centenares de

familias, enlucta-lhes as suas habitações. Vou fundar um hospital. Serei

o anjo dos tristes! Beatifica-te, Domingos de Andrade. Eleva-te aos

olhos de Deus, Felix de Araujo. Derrama esse ouro que tanto te custou a

adquirir, Tristão de Almeida, e serás um dia aquillo que te aprouver.»

N'este momento, bateram á porta da sala. Tristão mandou que abrissem, e

entrou um criado annunciando o visconde de Coruche.

--Que entre, disse lhe Tristão de Almeida retirando-se da varanda e

dirigindo-se para o salão.

O visconde era um homem de cincoenta annos, mas que parecia ter

quarenta quando muito.

Dotado d'uma inteligencia regular, já pelos dotes physicos de que Deus

fôra prodigo para com ele, já pela riqueza de que por duas vezes havia

disposto, era ainda, apezar da sua decadencia, o primeiro rapaz d'esta

terra, onde se não envelhece antes dos setenta e seis a setenta e sete

annos, graças á temperatura do seu clima.

Quando entrava no Marrare de Polimento, toda a moderna geração se

curvava deante d'aquelle que havia sido o chefe da velha guarda.

Não havia rapaz que não escutasse avido de curiosidade as mil aventuras

que se haviam dado n'aquella existencia tumultuosa. Havia sido o terror

da banca portugueza no salão do theatro de S. Carlos, como na caixa do

mesmo theatro fôra o invejado emulo de todos os seus contemporaneos, em

resultado das innumeras conquistas que em cada epocha se permitia.

Ninguem montava como o visconde! Os seus cavallos eram os primeiros de

Lisboa. Tivera por sotas da sua magnifica sege o Feliciano e o Bem Bom!

Aos vinte anos, casara-se com uma prima, a filha do conde de ***. Quinze

dias depois, n'um camarote de primeira ordem da Rua dos Condes, estava a

viscondessa e defronte dela, noutro camarote da mesma ordem, miss Ellen

Barkshead, voltando de vez em quando o rosto para a rectaguarda para

melhor falar com o marido da viscondessa.

Como se vê, era um homem completo.

Dois anos depois entregou a viscondessa a sua meia alma a Deus deixando

sobre a terra a outra metade, para ser previamente repartida por uma

multidão de mulheres que disputavam entre si o voluvel coração do

visconde.

Extravagante mais por indole do que por ostentação, o fidalgo

deliciava-se nos encantos dos seus desvarios, saboreando as commoções

que d'elles lhe resultavam, com o mesmo deleite com que o gastronomo

delicia o palladar nos prazeres d'uma variada mastigação. Era o

verdadeiro sybarita da estroinice.

Senhor d'uma casa de vinte contos de renda, não tardou muito que a visse

desbaratada em custosas viagens.

Aos trinta annos estava pobre! Tinha por unico recurso a morte de um tio

de quem era herdeiro forçado, porém a pertinaz saude do velho fazia com

que o pobre visconde estivesse quasi a esmorecer no caminho da vida,

onde se assentava desanimado, como o peregrino, a quem o desalento feriu

no começo da sua jornada.

Um dia, finalmente, o velho aristocrata, mais talvez para acceder aos

ardentes desejos do seu arruinado sobrinho do que para descer aos

abysmos do inferno, que por direito de conquista lhe pertencia, cerrou

brandamente as palpebras, e partiu d'esta para peior, segundo a opinião

das suas victimas, deixando por seu universal herdeiro o visconde de

Coruche.

As privações porque este passára foram completamente esquecidas desde

que se encontrou novamente possuidor d'um vinculo cujo rendimento

excedia seis contos de réis, e esquecidos tambem se julgaram os seus

crédores, porquanto lhes foi necessario lançarem mão de meios pouco

brandos para adquirirem, senão a totalidade do devido, pelo menos o

capital confiado ao visconde, com juro modico e rasoavel. O fogo

d'aquella eterna juventude, amortecido durante cinco annos de amargura,

reanimou-se então com todo o esplendor do seu brilho! O visconde tornou

a entregar-se a todos os prazeres, com o ardente desejo de quem apenas

se recordava d'elles.

A sua vida era um mysterio. Todos os dias se dizia que estava

arruinado, porém tanto a casa como o trem conservavam-se como no tempo

do apogeu da sua riqueza.

D'onde lhe viria o dinheiro para tanto? Eis o misterio que a pessoa

alguma era dado descortinar.

Ao cabo de alguns annos, o vinculo que herdára teve o mesmo resultado

que havia tido o que seus pais lhe deixaram, porém desta vez a situação

era mais difficil, não tinha parente algum para quem apellar.

Não podendo recorrer aos mortos, decidiu-se a explorar os vivos.

Escudado pela prestigiosa fama que o acompanhava, fez do seu nome uma

industria.

Os rapazes que entravam na sociedade desejavam todos ser-lhe

apresentados. O visconde conhecia isto, e, esquivando-se a principio,

anuia finalmente, não sem mostrar quanta honra ele lhes dispensava

colocando-os no rol de seus intimos.

Todos á uma dariam metade do que possuiam para se tratarem por tu com o

visconde, no que ele era assaz difficil; a sua intimidade era um genero

de superior qualidade para que muitos se podessem ufanar de o possuir.

Ainda que as suas gentilezas eram por todos conhecidas, todos ou quasi

todos lhas desculpavam. Estimado nos principais circulos onde aparecia,

nem uma só pessoa se atrevia a dar-lhe a mais pequena mostra de

desconsideração.

Foi pois o visconde um dos tres individuos a quem Domingos de Andrade,

ou o commendador Felix de Araujo, ou Tristão de Almeida, para maior

exactidão desta veridica historia, foi apresentado.

--Quanto estranhei não o ter encontrado hontem no theatro, meu caro

amigo, disse o visconde, reclinando-se commodamente n'uma poltrona. Ha

muito tempo que não vejo S. Carlos tão brilhante. O tenor, como sempre,

cantou admiravelmente. E no que diz respeito ás toilettes, não póde

calcular, e impossivel seria descrever-lh'as. Felizmente não se tem

espalhado muito o panico em Lisboa. O cholera de 1833, de que eu tenho

uma vaga reminiscencia, aterrorizou muito mais os habitantes do que esta

innocente epidemia. Ha um tempo a esta parte, tudo aqui em Lisboa é

pobre e acanhado. Da febre amarella, diz-se: tem morrido muita gente; do

cholera, dizia-se com espanto: assim mesmo tem escapado alguem. Isso é

que foi uma epidemia, meu amigo.

--Assim ouvi dizer. N'essa epocha estava eu em Buenos Ayres, respondeu o

commendador, notando ao mesmo tempo a estudada desenvoltura com que o

visconde o tentava seduzir. Pois eu hontem não fui a S. Carlos, ajuntou

elle, por ter tido minha filha alguma coisa indisposta.

--N'esse caso fez muito bem, sr. Tristão. O tempo não está para

brincadeiras. Eu mesmo, que tenho uma saude de ferro, se n'este momento

sentisse a mais leve indisposição, começava por me tractar como estando

realmente ameaçado pela epidemia. Em primeiro logar está a nossa saude.

Prefiro-a a tudo, até á riqueza.

--Porêm quando se reunem essas duas venturas... acudiu Tristão de

Almeida, simulando um gesto de pueril ingenuidade.

--Então o mundo é um verdadeiro paraiso, pelo menos assim o julgo.

Muitos rapazes que por ahi conheço possuem, como eu, saude e dinheiro.

Encontro-os sempre curvados ao pezo de uma terrivel fatalidade. Nunca se

consideram felizes! Fazem da melancolia a sua companheira inseparavel, e

dando-se ares de Antonys, arranjam um farnel de desventuras, e vão com

elle por essas ruas da capital armando á compaixão das suas Lesbias. Eu

sou o contrario; a minha alegria é chronica. Se eu não tenho coisa

alguma que me entristeça, para que demonio hei de dizer mal do mundo que

tantos deleites me faz experimentar?

--Sou da sua opinião, sr. visconde. O mundo é apenas mau para os tolos,

ainda que ha muita gente que diz o contrario. Quem dispozer de boa saude

e tiver alguns meios, deve pedir a Deus que o conserve largos annos

sobre a terra. Mas voltando agora a outro assumpto, ajuntou Tristão de

Almeida, que já começava a impacientar-se, como o leitor, do estirado

dialogo do visconde; quanto estimo que me tenha dado a honra d'esta

visitasinha, não só pelo prazer da sua companhia, como pela necessidade

que tenho de lhe falar. Preciso um conselho seu.

--Um conselho meu! exclamou o visconde profundamente admirado. É a

primeira pessoa que m'o pede! Todos me chamam um rapaz extravagante,

continuou elle, olhando ao mesmo tempo para um espelho que lhe ficava

fronteiro; vossa excellencia quer guiar-se pela minha opinião?

Provavelmente trata-se da compra d'algum palacio, e alguem houve que

teve o mau senso de lhe dizer que eu era um homem de gosto.

--Nada, não se trata d'isso.

--Então, provavelmente, quer me consultar ácerca da mobilia, ou das

carruagens, ou dos cavallos?

--Tão pouco, respondeu serenamente Tristão de Almeida. Isso ficará

para mais tarde. Por agora trata-se apenas de uma obra de

misericordia;--fazer bem aos desgraçados.

--Se tal fôr, acho muito justo, e desde já me offereço a ajudal-o em

tudo quanto me seja possivel.

--Sentemo nos, disse Tristão apontando lhe para o sophá. Minha esposa,

que tem o habito de empregar na pobreza a mezada que lhe dou para os

seus alfinetes, lembrou-se ha dias de gastar uns contos de réis n'um

asylo de creanças desvalidas. Que lhe parece a idéa?

--Não a póde haver melhor, respondeu o visconde, e se vossa excellencia

m'o permitte, desde já me comprometto a fazer com que minha tia, a sr.ª

condessa de Villa Velha, venha immediatamente procural-o afim de o

iniciar n'essas associações. Recordo me d'ella, porquanto é uma das mais

assiduas obreiras do grande monumento da caridade. Não ha asylo para que

não seja consultada e é sempre a sua opinião a que prevalece sobre todas

as outras. Se vossa excellencia quer, o meio é muito simples, e torno a

repetir-lhe, hoje mesmo me encarrego de tudo.

--Pois meu caro amigo, acudiu fleugmaticamente Tristão de Almeida, não

me associo á opinião de minha mulher nem á sua. Tenho outra idéa, e

creio que será muito mais razoavel.

--Sim?...

--É verdade. Lembrava-me de fundar um hospital para os enfermos atacados

de febre amarella. Isso em primeiro logar; depois, quando este terrivel

flagello tiver abandonado Lisboa, então sim, então adoptarei a idéa que

teve minha mulher.

--Approvo, e desde já devo confessar que tanto eu como sua

excellentissima esposa ficamos completamente vencidos.

--Approva?

--Applaudo.

--E dispensa-me a sua protecção n'esta pequena obra de caridade?

--Conte commigo, respondeu o visconde puxando pela charuteira e

offerecendo um magnifico havano ao seu interlocutor.

--Poderemos hoje mesmo começar os nossos trabalhos? perguntou Tristão

de Almeida, acceitando o charuto que lhe fôra offerecido.

--Quando queira, respondeu o visconde de Coruche, tirando da algibeira

do collete uma caixa de phosphoros magnificamente cinzelada.

--Vamos então procurar o commendador e seguiremos d'alli para casa de

Vaz Mendes. Tanto um como o outro é de suppôr que nos possam ajudar em

muito.

--Assim o creio, murmurou o visconde, accendendo o charuto e passando-o

a Tristão de Almeida.

* * * * *

Momentos depois entrava este para dentro do trem do visconde. Quando a

carruagem saia o portão e voltava para a rua do Ferregial, espantou-se o

cavallo da sella, e esbarrando no passeio, atropellou um individuo,

deixando-o sem sentidos. Sairam ambos e levantaram o desgraçado.

Pegando elles mesmos no corpo inerte da victima, transportaram n'a para

o hotel de Bragança.

Tristão de Almeida expediu logo dois creados em procura de medico. Por

excepção, o doutor não tardou meia hora!... Das feridas que o

atropellado recebera na cabeça nenhuma era de gravidade, comtudo não

havia tornado a si.

Tristão de Almeida, com a mão do enfermo entre as suas, parecia com

profundo interesse procurar-lhe a vida nas pulsações. Seria calculo ou

verdadeira caridade? Sabia o Deus!

Terminado o curativo, o homem descerrou as palpebras, fitando o que

havia em torno de si com olhar turvo e desvairado.

É melhor deital-o immediatamente, não lhe sobrevenha alguma congestão,

disse o doutor tomando o pulso do enfermo.

Depois de ordenarem ao criado de mesa que arranjasse um quarto, Tristão

de Almeida e o visconde levaram em braços o ferido e deitaram-n'o sobre

um leito, pedindo ambos ao medico que voltasse antes da noite.

--Começa hoje a espalhar as joias da sua caridade, disse-lhe o visconde

com falsa ingenuidade.

--Quizera antes ter perdido dez ou doze contos de réis do que ter sido

causa de similhante desgraça, respondeu-lhe Tristão. Agora, sr.

visconde, ajuntou elle, emquanto vamos tratar dos nossos negocios, será

bom recommendar a minha mulher e a minhas filhas que venham para a

cabeceira do ferido.

--Será uma grande alma, pensava o visconde.

--Foi um magnifico prologo, dizia comsigo Tristão.

Meia hora depois dirigiam-se ambos para casa do commendador.

[Nota de rodapé 1: Tristão de Almeida lera a preclarissima obra de sir

Francis Strolopp, e procurando um celebre chimico allemão, conseguira

que este lhe transformasse a physionomia a ponto de se tornar

desconhecido de si mesmo.]

O Conde de S. Luiz · 第 21 / 59 题