Meia hora depois d'esta veridica scena, que acabamos de descrever,
appareceu o medico.
--É alli, disse-lhe o regedor, apontando para a porta da tia Marianna.
--Siga me, disse o doutor, voltando-se para a autoridade.
O lance era fatal, não havia que hesitar. Amaldiçoando n'esse momento a
má estrella, que o conduzira áquella posição, com as faces lividas de
susto e de terror, o sr. Venancio seguiu o medico.
Junto ao leito de Marianna, fazendo lhe uma fricção nos joelhos, Martha,
a filha do operario, debalde tentava chamar á vida essa que, n'um olhar
turvo e desvairado, parecia contemplar lhe a angelica formosura.
Balbina, com um pequeno frasco chegado ao labio superior da enferma
tentava fazel a aspirar o conteùdo do vidro. De pé, contemplando este
doloroso quadro, Jeronymo pedia a Deus se compadecesse de sua familia.
Approximando-se da enferma, o medico tomou-lhe brandamente o pulso, e
voltando-se em seguida para Martha, pediu-lhe uma véla, afim de melhor
analysar a vista da moribunda.
--Encontro-a muito debil, disse o esculapio em voz baixa; é de suppôr
que não a possamos salvar; comtudo, far-se-ha a diligencia, ajuntou elle
cravando os olhos no rosto pallido e abatido de Martha.
Abrindo em seguida a caixa dos medicamentos, começou de applicar lhe os
que o seu estado exigia.
--Esta senhora pertence á sua familia? ajuntou o medico voltando se para
Jeronymo.
--Não, senhor; comtudo minha filha interessa se muito por esta
desgraçada; e se não fosse Martha, talvez a tivessem mandado para o
hospital.
--Se a teem removido d'este leito, ao chegar lá seria um cadaver,
retorquiu o doutor, palpando a fronte da enferma.
--Parece lhe que poderemos ter esperanças? perguntou Martha,
approximando se do leito.
--Veremos á noite. Sendo sete horas, se poder, voltarei; e,
despedindo-se dos circumstantes, saiu d'aquella casa, levando impressa
na memoria a imagem candida e celeste da filha do operario.
Os moveis da tia Marianna reduziam se ao pequeno leito de espinheiro
onde jazia, uma enorme papelleira, um bahu, e quatro cadeiras de
palhinha, completamente estragadas nos assentos.
Roupas, se as havia, estavam fechadas; e nem ella lh'o podera responder,
nem era dado a Balbina o perguntar-lh'o n'esse momento. Dirigindo se a
casa, trouxe d'alli quanto necessario lhe pareceu afim de alliviar no
que podesse os incommodos da enferma.
--Sempre lhe gabo a pachorra, disse a sr.ª Margarida, ao ver os lençoes
alvos como a neve, que a mulher do operario levava no braço. Estar
estragando assim as suas roupas brancas com quem pouco póde viver! Não
era eu, que Deus me livrasse! E demais, sr.ª Balbina, uma pobre de
Christo como a tia Marianna, mais lhe valera o ir para o hospital.
Supponha a senhora que fica para ahi entrevada, quem ha de sustental-a?
--Deus nunca faltou a pessoa alguma, sr.ª Margarida; e demais, cada qual
que se metta com a sua vida, que eu pela minha parte nunca me intrometto
com as alheias, respondeu Balbina, cortando pelo fio as palavras da
capellista, e dirigindo-se para casa da tia Marianna, onde a esperavam
Martha e seu marido.
A velha havia recobrado a razão, e sorria-se brandamente para a filha do
operario, como se n'aquelle olhar significativo estivesse agradecendo a
Deus o anjo que a Providencia lhe havia deparado n'esse momento de
suprema angustia.
Jeronymo e Balbina, assentados n'um bahu, olhavam para aquelle quadro
enternecedor, pedindo ao mesmo tempo nas suas preces silenciosas que lhe
livrassem sua pobre filha.
Meia hora depois de arranjada a cama, a velha sentiu-se mais alliviada.
As horriveis dôres por que passara, iam-lhe diminuindo a pouco e pouco,
e á face, de pallidez mortal, subira-lhe de novo o calor e a vida.
Nem uma só das visinhas, approximando se á sua porta, foram pelo menos
indagar o estado da sua doença.
Ás sete horas, como o havia promettido, voltou o doutor. A enferma
estava livre de perigo.