O Julio de Vilhena deixou hoje de ser chefe do partido regenerador.
Conta o João Pinto dos Santos, que o Vilhena falou ao rei de cabeça
alta, e por tal forma, que D. Manuel sahiu afogueado d'essa ultima
entrevista, dizendo a alguem:--Só lhe faltou bater-me...
Dezembro--1909.
O Mardel é um homemzinho pitoresco e anecdotico que conhece Lisboa como
as suas mãos. Ninguem como elle desenha um tipo ou vae ao passado buscar
uma figura. Sabe tudo e inventa o resto. É um prazer ouvil-o. Constroe
genealogias, negoceia em _bric-à-brac_ e escreve satyras. D'uma vez, a
um figurão que se dizia filho natural de D. Pedro IV e que mostrava
desvanecido a toda a gente o retrato do rei que tinha na sala,
perguntando:--Hein, com quem se parece?...--escreveu elle a seguinte
quadra:
Do Imperador, de quem diz que é filho,
Tem o retrato na sala,
Mas da p... que o pariu
Não tem retrato nem fala...
* * * * *
Encontro em casa do Mardel o marquez da Foz, de barbas brancas e aspecto
venerando, que desata a narrar conversas extraordinarias, surprehendidas
a meninas do _Sacre Coeur_ sobre a masculinidade dos creados... Depois
fala d'arte, de mobilia, quadros e maravilhas que comprou e vendeu. Vive
hoje arredado em Torres Novas.
--D'uma vez, quando se vendeu a mobilia do palacio de Oeiras, dos
Pombaes, os que fizeram a liquidação, pediram-me para lhes ceder um
andar d'uma casa que eu tinha com escriptos na rua do Ferragial, para se
fazer o leilão. Cedi e antes da praça fui lá, agradaram-me diferentes
coisas e comprei-as. Custaram-me oito contos. Entre varias trapalhadas
iam cinco vasos da China, cinco maravilhas, como nunca tinha visto. Eram
precisas duas pessoas para lhes pegarem. Ao centro de cada vaso viam-se
as armas de Pombal. Quatro coloquei-os á entrada da minha casa, o outro
levei-o para a sala de jantar e pul-o defronte d'uma estufa... Um dia
reparei: por causa do calor o verniz estalára. Levantei-me, olhei: sob a
casca aparecia outro desenho. Tirei com uma faca o _craquelé_--e debaixo
das armas, do Pombal apareceram as armas dos Tavoras! Tão certo é que
até os grandes homens estão sujeitos a estas miserias...
Depois trata da baixela do Paço, que no tempo de D. Luiz estudou a
fundo, e que então andava a trouxe-mouxe pelos armarios. São peças
magnificas, _signé Germain_, e que valem um milhar de contos.--D'uma vez
disse a D. Luiz:--Deixe-me V. Magestade arranjar-lhe uma sala de jantar
com a _boiserie_ de Queluz e a sua baixela, que nenhuma côrte da Europa
apresenta uma sala assim.--Ainda hoje não ha côrte nenhuma, nem a da
Russia, que tenha uma baixela tão rica. São mil e tantas peças
admiraveis. É falso que lá esteja tambem a baixela do duque de Aveiro.
Vi as contas todas, photographei tudo...
* * * * *
--Um dia fui ao Leitão ourives, a esse artista...--e sorri com
ironia--comprar qualquer joia. Ia a sahir quando dei com uma prata
antiga a um canto.--Que é aquillo?--Está alli para derreter.--Deixem-me
vêr.--Eram três peças esplendidas, com as armas do duque d'Aveiro--uma
salva enorme, a que faltava um bocado da aza, com desenhos
magnificamente gravados, e duas enormes compoteiras de prata com festões
d'ervilhas, tudo marcado, assignado, admiravel.--São para derreter?
Então venda-m'as. Quanto pezam?--Quinhentos mil reis.--Dou
seiscentos.--Venderam-mas, levei-as para casa. Tinham feito uma
tentativa para lhe apagar as armas. Quando depois as vendi deram-me
alguns contos de reis.
Por fim fala de ninharias, d'isto, d'aquillo--e d'algumas peças que
tinham pertencido ao D. Fernando e «nas quaes alguem fez mão baixa»...
* * * * *
Uma anecdota que elle tem como absolutamente autentica e que andou
sempre na tradição da sua familia:
--O D. João VI estava para morrer. O patriarcha procurou a D. Carlota
Joaquina para a reconciliar com o rei. Recebido na sala do throno, em
Queluz, diz-lhe as palavras banaes do costume--mas ella não cede. Pede,
suplica--perde o seu tempo. A rainha está renitente. Então retira-se
depois das contumelias da pragmatica--e, ao sahir, volta-se de repente e
dá com ella a fazer-lhe um grande, um imponente, um magestoso
manguito...
* * * * *
Ha dias comprou por cento e cincoenta mil reis um quadro de Alberto
Durer, absolutamente autentico e com a assignatura perfeita.--É o
_pendant_ do que está no Museu. E estou em vesperas de comprar mais
quatro, entre os quaes um Corregio. Suspeito, pela proveniencia, que
todos estes quadros pertenceram á galeria do duque d'Aveiro.
Janeiro--1910.
Contam-me hoje a morte tragica do Marianno de Carvalho. Estava doente,
de cama, e a familia sahiu, deixando-lhe uma campainha á cabeceira. Os
creados aproveitaram a oportunidade e safaram-se tambem. Quando voltaram
foram dar com elle morto, agarrado á campainha, n'um ultimo desespero...
Janeiro--1910.
O juiz d'instrucção criminal, dr. Antonio Emilio, a um amigo meu:
--No dia vinte e oito de Janeiro os soldados apanharam junto a qualquer
quartel da municipal um homem com um caixote de bombas e duas pistolas
automaticas. Meteram-no no calabouço--e confessa, não confessa... o
homem nada! Então o oficial chamou um soldado e disse-lhe:--Nós vamos
alli para a porta do calabouço e tu diz-me a tudo que sim. Vamos lá.--E
começou:--Carrega lá essa pistola para darmos cabo d'esse diabo, que
vinha aqui para nos atirar bombas!--Quando o oficial abriu a porta do
calabouço o preso atirou-se-lhe aos pés:--Não me matem que eu confesso
tudo.--Então quem te entregou o caixote?--Foi o Alfredo Costa.--Veio a
participação para o governo civil--mas só chegou ás mãos do juiz depois
da morte do rei...
[Figura: _José Maria de Alpoim._]
* * * * *
O juiz:
--Estamos sobre um vulcão. Prendi varios homens das associações
secretas, podia prender mil. Já ninguem salva isto a não ser uma forte
dictadura militar. E eu vou-me embora porque não quero incorrer nas iras
populares.
* * * * *
O dr. Antonio Emilio ao Beirão:
--Ou vamos para a frente, ou os senhores metam-se em casa á espera que
os chacinem.
E garante que a explosão de outro dia na Baixa, atribuida a gaz
extravasado, foi devida a uma bomba de dinamite.
Janeiro--1910.
Os brincos de brilhantes que o Pedro d'Araujo deu á mulher do José
Luciano quando o fizeram par, custaram cem mil francos. Diz-se,
diz-se...
Fevereiro--1910.
O Paço está rodeado de piquetes. Forças vigiam a Tapada. Garante-se por
ahi que, emquanto os regicidas não forem presos, o rei não casa. O
Maximiliano d'Azevedo, oficial do campo entrincheirado, conta-me que as
forças do campo foram ante-hontem (1 de Fevereiro) postas sob as ordens
do general de divisão e com ordem de marcharem sobre Lisboa ao primeiro
aviso.
* * * * *
O que se diz por ahi baixinho, de ouvido para ouvido, é tremendo. Diz-se
o que _O Povo d'Aveiro_, que está tendo tiragens enormes, publicou nos
ultimos numeros[9].
* * * * *
O T..., d'_O Mundo_, disse-me que janta duas vezes por semana com o
Alpoim, e já se tem gabado que é elle um dos auctores do _Diz-se_...
* * * * *
O Colen, n'um jantar intimo, onde esteve alguem que m'o conta:
--No dia vinte e oito de Janeiro estava tudo preparado e seriamente
preparado para a deposição de D. Carlos--marinha, tropa, organisações,
tudo. E tudo falhou porque o Afonso Costa não quiz dar o signal sem que
o João Franco estivesse morto.
Março--1910.
Á reunião celebre do Castello, onde se decidiu a morte do rei,
assistiram trinta pessoas.
* * * * *
Paçô Vieira:
--A carta que o rei escreveu ao Hintze e que fez com que o ministerio
cahisse, foi conhecida, antes de lhe ser enviada, pelos republicanos. Eu
lhe conto: um dia estava em Paçô, quando o Hintze me chamou. Parti logo,
corri logo a casa d'elle. Encontrei-o na sala de bilhar: tinha um papel
na mão.--Desculpe e obrigado. Já não é necessario. Recebi hoje esta
carta do rei que me levou a pedir a demissão.--Repliquei-lhe:--Sei
perfeitamente o que diz essa carta. Posso repetir-lha quasi phrase por
phrase.--E diante do espanto do Hintze:--Vim no comboio com o Afonso
Costa que me disse, palavra por palavra, o que continha essa
carta...--Assombro do Hintze. A copia da carta fôra mandada pelo rei aos
republicanos--naturalmente ao Bernardino--antes de ser enviada ao
Hintze.
Março--1910.
Quantos Fialhos, todos diferentes, tenho conhecido pela vida fóra! Este,
de ventre e barbicha de bode, esta figura de que os mortos se
conseguiram apoderar, agarrado á terra, conservador, discutindo com o
padre da freguezia os melhoramentos da sua egreja, este é--emfim!
emfim!--o descendente autentico dos cavadores alemtejanos. Custou... As
suas melhores obras--as que sonhou e nunca se resolveu a
escrever--leva-as elle para a cova... De quando em quando ainda tem uma
revolta:
--É horrivel a minha vida na aldeia. Se não fossem os livros já me tinha
suicidado. Cada vez preciso mais de ver gente e d'esta vida artificial
de Lisboa. Na aldeia, em Cuba, não falo com ninguem, não tenho ninguem
com quem comunicar. São de bronze aquelles filhos da p...! E nem a mais
pequena sombra de sensibilidade. E se imaginam que a gente não tem
dinheiro, estamos perdidos!...
--Fuja.
--Não posso. Quem me ha-de tratar d'aquillo? E depois criei interesse ás
oliveiras que plantei, á vinha... Ah, mas as noites!... Tenho noites em
que pego n'um livro e saio. Ha uma estrada em volta de Cuba--e eu alli
ando á roda toda a noite a falar sósinho como um condenado!
Março--1910.
Centenario d'Herculano. Missa nos Jeronymos pelo padre Matos. O S.
Boaventura diz-me que, pela avó materna, é ainda parente de
Herculano.--Que eram seus avós?--Pedreiros.--Efectivamente no retrato
Herculano parece um pedreiro da minha aldeia; efectivamente Herculano
descende de pedreiros e toda a sua obra é, na realidade, a d'um homem
que moe e lavra com solemnidade a pedra, a d'um d'esses extraordinarios
montantes que metem o ferro até á raiz da fraga, racham o penedo,
afeiçoam a lage, e acabam, emfim, por construir a cathedral. Herculano
edificou em granito--e no granito abriu pacientes e admiraveis
lavores... A seriedade, a obstinação, e até o amôr á terra, ao azeite e
ao pão, seu ultimo ideal e refugio, são caracteristicos e o ideal tambem
d'essa legião de trabalho imensa e obscura, cuja alma, á força de lidar
com a pedra, adquire dureza e grandeza tambem. Essas figuras, só osso e
pelle, descarnadas, que partem de manhã com o saquitel e a borôa, que só
pronunciam palavras graves, e ao dar do meio dia se descobrem e mastigam
o pedaço sêco de pão com um ar solemne,--acabaram, emfim, por encontrar
um descendente como elles austero e grave, capaz de exprimir o
universo--o que sentiram, o que sofreram e o que sonharam--e capaz de
edificar com alicerces para seculos. Tudo, até a falta de phantasia e
imaginação, até o miudo lavor pacientemente trabalhado, até a casa
simples, vulgar e mal repartida, até a companheira, até a austeridade,
veio a Herculano d'essa grande geração de pedreiros portuguezes, que
antes d'elle fizeram obra digna de homens e desapareceram para sempre no
pó--mas poderam transmitir, filho atraz de pae, a solemnidade e a
grandeza, a quem um dia erguesse uma cathedral mais vasta e com raizes
mais fundas do que elles todos juntos. Mas todos trabalharam tambem,
sabe Deus durante quantos seculos, com tenacidade e firmeza, para a obra
do pedreiro maximo de toda a sua geração.
Março--1910.
José d'Azevedo:
--Anno passado o rei chamou-me e pediu-me para votar o projecto da União
Vinicola. Disse-lhe logo:--Não, meu senhor, não voto. E V. Magestade
pede-me isso porque não sabe de que se trata. O projecto é ruinoso.
Abril--1910.
O Fernando de Serpa, agora em foco por causa das cartas que o Afonso
Costa leu no Parlamento[10] e se teem publicado n'_O Mundo_--esteve
estes dias para se suicidar. A mulher não dorme e o irmão d'ella entrou
hoje n'_O Imparcial_ e disse ao José d'Azevedo:--Se isto assim continua
minha irmã endoidece, e se minha irmã endoidece eu mato o Afonso
Costa.--Segundo elle, esse Fernando de Serpa que se metia em tantos
negocios, deve afinal quinze contos de reis e tem agora os seus
vencimentos suspensos...
* * * * *
Porque o José d'Azevedo não foi ministro com o Hintze:
--O Hintze tinha por mim uma grande admiração, mas nunca me fez
ministro, porque a sua vida economica andava muito atrapalhada e um dia
em que me mostraram uma lista de pares que elle ia fazer, entre os quaes
estava o meu nome, eu disse:--Mas isso não é uma lista de pares--é uma
lista de credores.--Soube-o logo e nunca me perdoou.
* * * * *
Quem roubou ao Paçô as celebres cartas de que o Afonso Costa se serviu
no parlamento, foi o creado. Soube-o hoje por acaso. O Urbano Rodrigues
vendo um rapaz de dezeseis annos na redacção d'_O Imparcial_,
disse:--Este é o creado do Paçô, que vae muito ao _Mundo_ e pertence ás
associações secretas.
* * * * *
--O José Luciano foi sempre um homem pernicioso--diz o José d'Azevedo.
--Emquanto fôr uma sombra ha-de mandar--conclue o Fuschini. E
acrescenta:--Quem manda é o seu _salão_ onde se fazem os negocios mais
escuros e mais porcos d'este paiz.
* * * * *
--Esse ministro italiano que ahi está--conta o José d'Azevedo--foi um
dos que mais concorreu para salvar Dreyfus. Paulucci, então secretario
de legação em Paris, viu os documentos da embaixada e convenceu-se da
inocencia de Dreyfus. Falou ao embaixador, seu tio, que lhe
disse:--Prohibo-te que te metas n'isso.--Não se importou. Procurou
Bernard Lazare, que o recambiou para o José Reinach.--Isso é
extraordinario. Vamos ter com Max Nordau e com Zola.--Reuniram-se e
examinaram os documentos da legação italiana. Dos papeis não só se
deprehendia que era outro o traidor, mas resaltava nitida e clara esta
preciosa informação: o adido encarregado da espionagem alemã possuia a
esse respeito vinte e nove cartas absolutamente decisivas. Max Nordau
partiu para Berlim e pediu ao imperador da Alemanha a publicação das
cartas. O imperador opoz-se. Paulucci não desanimou: foi a Roma, bateu á
porta d'um cardeal, pediu-lhe que o partido catholico tomasse a defeza
de Dreyfus inocente, o que assegurava ao catholicismo um papel
triumphante no mundo; falou emfim a Leão XIII, a quem só arrancou boas
palavras. (E d'ahi veio o combate da França republicana contra o
clericalismo. Que outro não seria o papel da Egreja se Leão XIII se
manifesta!) Nem assim Paulucci desanima. Insiste com o tio:--Pois meu
tio tem nas suas mãos documentos que provam a inocencia de Dreyfus e
pode dormir descançado! Apresento-me como testemunha.--O embaixador
conseguiu que todos os secretarios fossem testemunhas no processo.
Paulucci tinha doze mil e setecentos documentos (copias) da questão
Dreyfus, que arderam no ultimo fogo da embaixada italiana no campo de
Santa Clara. Paulucci dizia muitas vezes:--Andei dois annos com febre!
* * * * *
José d'Azevedo:
--Fui eu que machinei e atirei com o ministerio Ferreira do Amaral a
terra. Tinha-me feito um agravo que, se é directo, m'o pagava n'um
conflicto pessoal. Fui eu que fiz tudo. O José Luciano não queria.
Procurei-o na Anadia. Obstinava-se. Mas eu fui ao Porto--e venci. Uma
tarde o Campos Henriques recebeu uma carta do Paçô, que encontrára o
Tavares Festas no comboio (o Tavares Festas vinha de casa do José
Luciano), carta em que lhe dizia: «Ouvi que vae formar ministerio com
estes nomes...» O Campos Henriques mostrou a carta á mulher:--Olha o que
me diz o Paçô...--E riu-se. No dia seguinte era chamado ao Paço e
organisava o ministerio, tal qual o Paçô lhe dizia na carta. Ordens de
José Luciano.