23 de Dezembro--1909.

O Julio de Vilhena deixou hoje de ser chefe do partido regenerador.

Conta o João Pinto dos Santos, que o Vilhena falou ao rei de cabeça

alta, e por tal forma, que D. Manuel sahiu afogueado d'essa ultima

entrevista, dizendo a alguem:--Só lhe faltou bater-me...

Dezembro--1909.

O Mardel é um homemzinho pitoresco e anecdotico que conhece Lisboa como

as suas mãos. Ninguem como elle desenha um tipo ou vae ao passado buscar

uma figura. Sabe tudo e inventa o resto. É um prazer ouvil-o. Constroe

genealogias, negoceia em _bric-à-brac_ e escreve satyras. D'uma vez, a

um figurão que se dizia filho natural de D. Pedro IV e que mostrava

desvanecido a toda a gente o retrato do rei que tinha na sala,

perguntando:--Hein, com quem se parece?...--escreveu elle a seguinte

quadra:

Do Imperador, de quem diz que é filho,

Tem o retrato na sala,

Mas da p... que o pariu

Não tem retrato nem fala...

* * * * *

Encontro em casa do Mardel o marquez da Foz, de barbas brancas e aspecto

venerando, que desata a narrar conversas extraordinarias, surprehendidas

a meninas do _Sacre Coeur_ sobre a masculinidade dos creados... Depois

fala d'arte, de mobilia, quadros e maravilhas que comprou e vendeu. Vive

hoje arredado em Torres Novas.

--D'uma vez, quando se vendeu a mobilia do palacio de Oeiras, dos

Pombaes, os que fizeram a liquidação, pediram-me para lhes ceder um

andar d'uma casa que eu tinha com escriptos na rua do Ferragial, para se

fazer o leilão. Cedi e antes da praça fui lá, agradaram-me diferentes

coisas e comprei-as. Custaram-me oito contos. Entre varias trapalhadas

iam cinco vasos da China, cinco maravilhas, como nunca tinha visto. Eram

precisas duas pessoas para lhes pegarem. Ao centro de cada vaso viam-se

as armas de Pombal. Quatro coloquei-os á entrada da minha casa, o outro

levei-o para a sala de jantar e pul-o defronte d'uma estufa... Um dia

reparei: por causa do calor o verniz estalára. Levantei-me, olhei: sob a

casca aparecia outro desenho. Tirei com uma faca o _craquelé_--e debaixo

das armas, do Pombal apareceram as armas dos Tavoras! Tão certo é que

até os grandes homens estão sujeitos a estas miserias...

Depois trata da baixela do Paço, que no tempo de D. Luiz estudou a

fundo, e que então andava a trouxe-mouxe pelos armarios. São peças

magnificas, _signé Germain_, e que valem um milhar de contos.--D'uma vez

disse a D. Luiz:--Deixe-me V. Magestade arranjar-lhe uma sala de jantar

com a _boiserie_ de Queluz e a sua baixela, que nenhuma côrte da Europa

apresenta uma sala assim.--Ainda hoje não ha côrte nenhuma, nem a da

Russia, que tenha uma baixela tão rica. São mil e tantas peças

admiraveis. É falso que lá esteja tambem a baixela do duque de Aveiro.

Vi as contas todas, photographei tudo...

* * * * *

--Um dia fui ao Leitão ourives, a esse artista...--e sorri com

ironia--comprar qualquer joia. Ia a sahir quando dei com uma prata

antiga a um canto.--Que é aquillo?--Está alli para derreter.--Deixem-me

vêr.--Eram três peças esplendidas, com as armas do duque d'Aveiro--uma

salva enorme, a que faltava um bocado da aza, com desenhos

magnificamente gravados, e duas enormes compoteiras de prata com festões

d'ervilhas, tudo marcado, assignado, admiravel.--São para derreter?

Então venda-m'as. Quanto pezam?--Quinhentos mil reis.--Dou

seiscentos.--Venderam-mas, levei-as para casa. Tinham feito uma

tentativa para lhe apagar as armas. Quando depois as vendi deram-me

alguns contos de reis.

Por fim fala de ninharias, d'isto, d'aquillo--e d'algumas peças que

tinham pertencido ao D. Fernando e «nas quaes alguem fez mão baixa»...

* * * * *

Uma anecdota que elle tem como absolutamente autentica e que andou

sempre na tradição da sua familia:

--O D. João VI estava para morrer. O patriarcha procurou a D. Carlota

Joaquina para a reconciliar com o rei. Recebido na sala do throno, em

Queluz, diz-lhe as palavras banaes do costume--mas ella não cede. Pede,

suplica--perde o seu tempo. A rainha está renitente. Então retira-se

depois das contumelias da pragmatica--e, ao sahir, volta-se de repente e

dá com ella a fazer-lhe um grande, um imponente, um magestoso

manguito...

* * * * *

Ha dias comprou por cento e cincoenta mil reis um quadro de Alberto

Durer, absolutamente autentico e com a assignatura perfeita.--É o

_pendant_ do que está no Museu. E estou em vesperas de comprar mais

quatro, entre os quaes um Corregio. Suspeito, pela proveniencia, que

todos estes quadros pertenceram á galeria do duque d'Aveiro.

Janeiro--1910.

Contam-me hoje a morte tragica do Marianno de Carvalho. Estava doente,

de cama, e a familia sahiu, deixando-lhe uma campainha á cabeceira. Os

creados aproveitaram a oportunidade e safaram-se tambem. Quando voltaram

foram dar com elle morto, agarrado á campainha, n'um ultimo desespero...

Janeiro--1910.

O juiz d'instrucção criminal, dr. Antonio Emilio, a um amigo meu:

--No dia vinte e oito de Janeiro os soldados apanharam junto a qualquer

quartel da municipal um homem com um caixote de bombas e duas pistolas

automaticas. Meteram-no no calabouço--e confessa, não confessa... o

homem nada! Então o oficial chamou um soldado e disse-lhe:--Nós vamos

alli para a porta do calabouço e tu diz-me a tudo que sim. Vamos lá.--E

começou:--Carrega lá essa pistola para darmos cabo d'esse diabo, que

vinha aqui para nos atirar bombas!--Quando o oficial abriu a porta do

calabouço o preso atirou-se-lhe aos pés:--Não me matem que eu confesso

tudo.--Então quem te entregou o caixote?--Foi o Alfredo Costa.--Veio a

participação para o governo civil--mas só chegou ás mãos do juiz depois

da morte do rei...

[Figura: _José Maria de Alpoim._]

* * * * *

O juiz:

--Estamos sobre um vulcão. Prendi varios homens das associações

secretas, podia prender mil. Já ninguem salva isto a não ser uma forte

dictadura militar. E eu vou-me embora porque não quero incorrer nas iras

populares.

* * * * *

O dr. Antonio Emilio ao Beirão:

--Ou vamos para a frente, ou os senhores metam-se em casa á espera que

os chacinem.

E garante que a explosão de outro dia na Baixa, atribuida a gaz

extravasado, foi devida a uma bomba de dinamite.

Janeiro--1910.

Os brincos de brilhantes que o Pedro d'Araujo deu á mulher do José

Luciano quando o fizeram par, custaram cem mil francos. Diz-se,

diz-se...

Fevereiro--1910.

O Paço está rodeado de piquetes. Forças vigiam a Tapada. Garante-se por

ahi que, emquanto os regicidas não forem presos, o rei não casa. O

Maximiliano d'Azevedo, oficial do campo entrincheirado, conta-me que as

forças do campo foram ante-hontem (1 de Fevereiro) postas sob as ordens

do general de divisão e com ordem de marcharem sobre Lisboa ao primeiro

aviso.

* * * * *

O que se diz por ahi baixinho, de ouvido para ouvido, é tremendo. Diz-se

o que _O Povo d'Aveiro_, que está tendo tiragens enormes, publicou nos

ultimos numeros[9].

* * * * *

O T..., d'_O Mundo_, disse-me que janta duas vezes por semana com o

Alpoim, e já se tem gabado que é elle um dos auctores do _Diz-se_...

* * * * *

O Colen, n'um jantar intimo, onde esteve alguem que m'o conta:

--No dia vinte e oito de Janeiro estava tudo preparado e seriamente

preparado para a deposição de D. Carlos--marinha, tropa, organisações,

tudo. E tudo falhou porque o Afonso Costa não quiz dar o signal sem que

o João Franco estivesse morto.

Março--1910.

Á reunião celebre do Castello, onde se decidiu a morte do rei,

assistiram trinta pessoas.

* * * * *

Paçô Vieira:

--A carta que o rei escreveu ao Hintze e que fez com que o ministerio

cahisse, foi conhecida, antes de lhe ser enviada, pelos republicanos. Eu

lhe conto: um dia estava em Paçô, quando o Hintze me chamou. Parti logo,

corri logo a casa d'elle. Encontrei-o na sala de bilhar: tinha um papel

na mão.--Desculpe e obrigado. Já não é necessario. Recebi hoje esta

carta do rei que me levou a pedir a demissão.--Repliquei-lhe:--Sei

perfeitamente o que diz essa carta. Posso repetir-lha quasi phrase por

phrase.--E diante do espanto do Hintze:--Vim no comboio com o Afonso

Costa que me disse, palavra por palavra, o que continha essa

carta...--Assombro do Hintze. A copia da carta fôra mandada pelo rei aos

republicanos--naturalmente ao Bernardino--antes de ser enviada ao

Hintze.

Março--1910.

Quantos Fialhos, todos diferentes, tenho conhecido pela vida fóra! Este,

de ventre e barbicha de bode, esta figura de que os mortos se

conseguiram apoderar, agarrado á terra, conservador, discutindo com o

padre da freguezia os melhoramentos da sua egreja, este é--emfim!

emfim!--o descendente autentico dos cavadores alemtejanos. Custou... As

suas melhores obras--as que sonhou e nunca se resolveu a

escrever--leva-as elle para a cova... De quando em quando ainda tem uma

revolta:

--É horrivel a minha vida na aldeia. Se não fossem os livros já me tinha

suicidado. Cada vez preciso mais de ver gente e d'esta vida artificial

de Lisboa. Na aldeia, em Cuba, não falo com ninguem, não tenho ninguem

com quem comunicar. São de bronze aquelles filhos da p...! E nem a mais

pequena sombra de sensibilidade. E se imaginam que a gente não tem

dinheiro, estamos perdidos!...

--Fuja.

--Não posso. Quem me ha-de tratar d'aquillo? E depois criei interesse ás

oliveiras que plantei, á vinha... Ah, mas as noites!... Tenho noites em

que pego n'um livro e saio. Ha uma estrada em volta de Cuba--e eu alli

ando á roda toda a noite a falar sósinho como um condenado!

Março--1910.

Centenario d'Herculano. Missa nos Jeronymos pelo padre Matos. O S.

Boaventura diz-me que, pela avó materna, é ainda parente de

Herculano.--Que eram seus avós?--Pedreiros.--Efectivamente no retrato

Herculano parece um pedreiro da minha aldeia; efectivamente Herculano

descende de pedreiros e toda a sua obra é, na realidade, a d'um homem

que moe e lavra com solemnidade a pedra, a d'um d'esses extraordinarios

montantes que metem o ferro até á raiz da fraga, racham o penedo,

afeiçoam a lage, e acabam, emfim, por construir a cathedral. Herculano

edificou em granito--e no granito abriu pacientes e admiraveis

lavores... A seriedade, a obstinação, e até o amôr á terra, ao azeite e

ao pão, seu ultimo ideal e refugio, são caracteristicos e o ideal tambem

d'essa legião de trabalho imensa e obscura, cuja alma, á força de lidar

com a pedra, adquire dureza e grandeza tambem. Essas figuras, só osso e

pelle, descarnadas, que partem de manhã com o saquitel e a borôa, que só

pronunciam palavras graves, e ao dar do meio dia se descobrem e mastigam

o pedaço sêco de pão com um ar solemne,--acabaram, emfim, por encontrar

um descendente como elles austero e grave, capaz de exprimir o

universo--o que sentiram, o que sofreram e o que sonharam--e capaz de

edificar com alicerces para seculos. Tudo, até a falta de phantasia e

imaginação, até o miudo lavor pacientemente trabalhado, até a casa

simples, vulgar e mal repartida, até a companheira, até a austeridade,

veio a Herculano d'essa grande geração de pedreiros portuguezes, que

antes d'elle fizeram obra digna de homens e desapareceram para sempre no

pó--mas poderam transmitir, filho atraz de pae, a solemnidade e a

grandeza, a quem um dia erguesse uma cathedral mais vasta e com raizes

mais fundas do que elles todos juntos. Mas todos trabalharam tambem,

sabe Deus durante quantos seculos, com tenacidade e firmeza, para a obra

do pedreiro maximo de toda a sua geração.

Março--1910.

José d'Azevedo:

--Anno passado o rei chamou-me e pediu-me para votar o projecto da União

Vinicola. Disse-lhe logo:--Não, meu senhor, não voto. E V. Magestade

pede-me isso porque não sabe de que se trata. O projecto é ruinoso.

Abril--1910.

O Fernando de Serpa, agora em foco por causa das cartas que o Afonso

Costa leu no Parlamento[10] e se teem publicado n'_O Mundo_--esteve

estes dias para se suicidar. A mulher não dorme e o irmão d'ella entrou

hoje n'_O Imparcial_ e disse ao José d'Azevedo:--Se isto assim continua

minha irmã endoidece, e se minha irmã endoidece eu mato o Afonso

Costa.--Segundo elle, esse Fernando de Serpa que se metia em tantos

negocios, deve afinal quinze contos de reis e tem agora os seus

vencimentos suspensos...

* * * * *

Porque o José d'Azevedo não foi ministro com o Hintze:

--O Hintze tinha por mim uma grande admiração, mas nunca me fez

ministro, porque a sua vida economica andava muito atrapalhada e um dia

em que me mostraram uma lista de pares que elle ia fazer, entre os quaes

estava o meu nome, eu disse:--Mas isso não é uma lista de pares--é uma

lista de credores.--Soube-o logo e nunca me perdoou.

* * * * *

Quem roubou ao Paçô as celebres cartas de que o Afonso Costa se serviu

no parlamento, foi o creado. Soube-o hoje por acaso. O Urbano Rodrigues

vendo um rapaz de dezeseis annos na redacção d'_O Imparcial_,

disse:--Este é o creado do Paçô, que vae muito ao _Mundo_ e pertence ás

associações secretas.

* * * * *

--O José Luciano foi sempre um homem pernicioso--diz o José d'Azevedo.

--Emquanto fôr uma sombra ha-de mandar--conclue o Fuschini. E

acrescenta:--Quem manda é o seu _salão_ onde se fazem os negocios mais

escuros e mais porcos d'este paiz.

* * * * *

--Esse ministro italiano que ahi está--conta o José d'Azevedo--foi um

dos que mais concorreu para salvar Dreyfus. Paulucci, então secretario

de legação em Paris, viu os documentos da embaixada e convenceu-se da

inocencia de Dreyfus. Falou ao embaixador, seu tio, que lhe

disse:--Prohibo-te que te metas n'isso.--Não se importou. Procurou

Bernard Lazare, que o recambiou para o José Reinach.--Isso é

extraordinario. Vamos ter com Max Nordau e com Zola.--Reuniram-se e

examinaram os documentos da legação italiana. Dos papeis não só se

deprehendia que era outro o traidor, mas resaltava nitida e clara esta

preciosa informação: o adido encarregado da espionagem alemã possuia a

esse respeito vinte e nove cartas absolutamente decisivas. Max Nordau

partiu para Berlim e pediu ao imperador da Alemanha a publicação das

cartas. O imperador opoz-se. Paulucci não desanimou: foi a Roma, bateu á

porta d'um cardeal, pediu-lhe que o partido catholico tomasse a defeza

de Dreyfus inocente, o que assegurava ao catholicismo um papel

triumphante no mundo; falou emfim a Leão XIII, a quem só arrancou boas

palavras. (E d'ahi veio o combate da França republicana contra o

clericalismo. Que outro não seria o papel da Egreja se Leão XIII se

manifesta!) Nem assim Paulucci desanima. Insiste com o tio:--Pois meu

tio tem nas suas mãos documentos que provam a inocencia de Dreyfus e

pode dormir descançado! Apresento-me como testemunha.--O embaixador

conseguiu que todos os secretarios fossem testemunhas no processo.

Paulucci tinha doze mil e setecentos documentos (copias) da questão

Dreyfus, que arderam no ultimo fogo da embaixada italiana no campo de

Santa Clara. Paulucci dizia muitas vezes:--Andei dois annos com febre!

* * * * *

José d'Azevedo:

--Fui eu que machinei e atirei com o ministerio Ferreira do Amaral a

terra. Tinha-me feito um agravo que, se é directo, m'o pagava n'um

conflicto pessoal. Fui eu que fiz tudo. O José Luciano não queria.

Procurei-o na Anadia. Obstinava-se. Mas eu fui ao Porto--e venci. Uma

tarde o Campos Henriques recebeu uma carta do Paçô, que encontrára o

Tavares Festas no comboio (o Tavares Festas vinha de casa do José

Luciano), carta em que lhe dizia: «Ouvi que vae formar ministerio com

estes nomes...» O Campos Henriques mostrou a carta á mulher:--Olha o que

me diz o Paçô...--E riu-se. No dia seguinte era chamado ao Paço e

organisava o ministerio, tal qual o Paçô lhe dizia na carta. Ordens de

José Luciano.

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