1 de Maio--1910.

José d'Azevedo diz a respeito do escandalo do Credito Predial:--Não são

sessenta contos que faltam, são oitocentos! A escripta está toda

viciada. Venderam-se obrigações, deram-se juros entrando-se pelo

capital, emfim um descalabro medonho, que se não podia fazer sem

auctorisação dos governadores.

* * * * *

É um politico reservado e frio? Não sei. É um homem audacioso e

inteligente, que parece calmo. Mas ha n'elle uma parte em carne viva.

Sente-se a ferida sob aquella aparencia forte. Escreve sem uma emenda,

linguado atraz de linguado; nem hesitações nem duvidas e um prazer que

synthetisa n'estas palavras:--Babo-me... Não escrevo, babo-me...--Não

crê senão em si mesmo, e não deve ter um amigo, como todos os que contam

apenas com as suas proprias forças. A mulher d'um diplomata que viajou

com elle, dizia:--As maneiras encantaram-me, os olhos meteram-me

medo.--São os olhos dos Brocas.

--Sou das raras pessoas que teem assistido ao suplicio dos chinezes. Fui

com o meu creado, a cavalo--e por signal que elle desmaiou. Cortam-lhes

primeiro a carne dos ante-braços, depois a das pernas, depois os seios,

depois os braços e as pernas pelas articulações; dão-lhes emfim um golpe

no coração e acabam por os decepar. Pois durante todo o suplicio atroz,

os desgraçados não deram um unico grito, um só gemido: erguiam a cabeça

e bufavam ou mijavam-se. Mais nada. Um d'elles prestou-se, sorrindo, a

que o photographassem, emquanto o carrasco levantava a espada para o

degolar...

* * * * *

Uma phrase camilliana de uma tia, irmã de Camillo:--Sobrinho, Deus não

existe... ou embarcou!

* * * * *

E esta de Camillo, que tinha vindo a Lisboa muito doente, e a quem Souza

Martins, para o sacudir, começou ralhando muito. Camillo, para o José

d'Azevedo, depois do medico sahir:

--Vê, meu sobrinho, vê, não me perdoam o _Eusebio Macario_, estes filhos

de boticario!

* * * * *

Camillo para o José d'Azevedo, mostrando-lhe o filho, que já estava no

primeiro periodo de loucura:--Veja esse desgraçado... Era um rapaz

inteligente...--E depois d'uma pausa dolorosa:--E tudo isto porquê,

sobrinho? Por ter lido as obras do Theophilo Braga.

Junho--1910.

Nos quarteis continua a fazer-se uma larga propaganda republicana.

Distribuem-se aos soldados versos e folhetos. Exemplo:

|| Ide escravos quebrar os grilhões,

|| As algemas da fome homicida;

|| Armas promptas contra esses ladrões,

|| Que nos roubam a bolsa e a vida! (bis)

|| Nova aurora de Paz, Redempção,

|| Vá doirar nossos valles e cerros,

PROPAGANDA ELEIÇOEIRA || Libertando os captivos dos ferros,

DO BLOCO PREDIAL || Dando aos pobres a luz e o pão.

---------------- ||

(Musica--A MARSELHEZA) || Avante! Lusitanos!

|| Largae a servidão!

|| Unir! Unir! contra os tyramnos,

|| Salvemos a Nação!

|| Avante Lusitanos,

|| Salvemos a Nação.

||

||

|| Tareco.

E o folheto «Os Barbadões»[11]:

«O rei D. João I da gloriosa dynastia de Aviz, enamorou-se da filha

de Pero Esteves, sapateiro alemtejano, conhecido pela alcunha _O

Barbadão_; d'estes amores nasceu um filho que foi conde de

Barcellos e primeiro duque de Bragança; casando este com uma filha

do condestavel Nun'Alvares, deu origem á nobre casa que ha 267

annos reina em Portugal.

A casa de Bragança foi-se engrandecendo á custa de doações regias,

bens nacionaes que os reis cediam em usufructo apenas, e que o

capricho do soberano ou a conveniencia do Estado, podiam fazer

voltar ao seu legitimo proprietário: *A Nação*.

Não foram os serviços relevantes que engrandeceram esta casa, mas

as intrigas continuas, salientando-se entre todas a que levou o

glorioso infante D. Pedro á chacina de Alfarrobeira.

Com a revolução de 1640 que libertou Portugal do jugo da Espanha, o

oitavo duque de Bragança foi aclamado rei com o nome de João IV;

beato e poltrão liga-se aos jesuitas, e para salvar a pelle e o

titulo de rei, não hesita em negociar por intermedio do padre

Antonio Vieira (jesuita) a entrega do seu paiz á França, ou

novamente á Espanha, a troco de o reconhecerem como rei do Brazil;

a sua pessoa era tudo, o seu paiz era nada. Os melhores servidores

do Estado foram lançados em prisões ou conduzidos ao cadafalso (o

ministro Lucena, o marquez de Montalvão, Mathias d'Albuquerque

vencedor de Montijo, etc.). O seu reinado foi coroado pelo presente

que fez á Inglaterra, como dote de sua irmã, das cidades de Bombaim

e Tanger, ricas flores de laranjeira que a infante portugueza levou

prezas ao seu vestido de noiva!

Seu filho _Afonso VI_ que no throno lhe sucedeu, corria de noite as

ruas da cidade, com a sua purria fidalga, assaltando os cidadãos

indefezos; era doido, e d'isso se aproveita seu irmão _Pedro II_

para lhe tirar a corôa e... a mulher, com o consentimento do papa;

este (Pedro II) dominado pelos jesuitas tambem, desterra o conde de

Castello Melhor, glorioso ministro (que por tres vezes salvou

Portugal da dominação espanhola), e celebra com a Inglaterra o

vergonhoso tratado de Methwen, que nos tira o comercio do Oriente e

nos impossibilita de montar fabricas e oficinas.

*João V* que lhe sucede, gasta o oiro que do Brazil lhe vem, na

construção de conventos, em festas de egreja e em presentes ao

padre santo; deixa perder sem enviar socorros, as nossas colonias

da India, Ceylão e Oceania, porque o dinheiro era pouco para

presentear as freiras de quem fez amantes e o papa de quem se fez

lacaio.

*José I* faz morrer no cadafalso toda a familia Tavora, por meio de

horriveis tormentos, com o pretexto de serem cumplices na

conspiração do duque de Aveiro, o que se não provou, sendo a causa

verdadeira a oposição que essa familia fazia aos seus amores

adulteros com a marqueza; nada escapou ao seu furor sanguinario:

nem velhos, nem mulheres, nem creanças. Para dignamente coroar o

seu reinado, abandona aos mouros as cidades que possuiamos em

Marrocos, e que tanto sangue portuguez custaram.

[Figura: _Teixeira de Sousa._]

*Maria I* tira o poder ao Marquez de Pombal, entrega-o aos frades e

endoidece; seu filho _João VI_ que em seu nome governou e lhe

sucedeu, foge covardemente para o Brazil abandonando o povo de que

era rei, quando os francezes invadiram o paiz; Junot entra em

Lisboa á frente de 70 soldados!!! Portugal revolta-se contra os

francezes, e o rei entrega-o aos desprezos de Wellington e ás

brutalidades de Beresford; os inglezes protegendo-nos, fazem-nos

peor mal que os invasores: arrazam as nossas provincias, queimam as

nossas fabricas, conquistam a Madeira, e impõem-nos os vergonhosos

tratados de 1810, ainda peores que o de Methwen. O general Gomes

Freire, por tentar libertar o paiz das garras inglezas, é enforcado

em S. Julião da Barra; outros 17 martires pagam com a vida, no

Campo de Sant'Anna, a sua dedicação patriotica. A revolução popular

de 1820 salva Portugal do leopardo britanico, obriga o rei a voltar

ao seu posto e liberta o exercito do oprobrio de ser comandado por

oficiaes inglezes.

*D. Miguel* foi quem primeiro estabeleceu em Portugal um governo de

força, á semelhança do que desejam actualmente alguns idiotas

barriguistas; nada lhe faltava: as alçadas, as forcas, o cacete,

80.000 homens de tropa e um povo fanatico e imbecil; contra si, em

todo o paiz, apenas tinha alguns liberaes desarmados; o seu retrato

figurava nos altares, e as mães pediam-lhe a honra de lhes

desflorar as filhas. Prende, enforca ou manda fuzilar toda a gente

de que suspeita, mas com toda a sua força, deixa que uma esquadra

estrangeira lhe escarre na cara e no Paiz, sem que um só tiro

partisse a repelir a afronta. Este idolo poderoso cahe do seu

pedestal de sangue, é corrido do throno pela _revolução_

triumphante; seu numeroso exercito pouco a pouco o foi abandonando,

vindo para o lado do povo liberal, e o bronco tigre que ao começar

a guerra civil tinha 80.000 homens ás suas ordens, perde a batalha

de Asseiceira com os 5.000 homens unicos que até esse momento lhe

ficaram fieis.

*Pedro IV*, o que tem estatua no Rocio, revolta o Brazil contra

Portugal, faz-se seu imperador e manda fuzilar no Rio de Janeiro os

soldados portuguezes á traição; corrido do Brazil, volta a Portugal

a tentar fortuna, dirigindo a guerra civil contra o irmão; emquanto

esta se não decide a seu favor, não tem vergonha de offerecer á

Inglaterra, em troca de auxilio desta, o pouco que nos restava do

nosso imperio indiano.

*Maria II* para se aguentar no throno chama marujos inglezes e

30:000 soldados de Espanha; faz invadir a sua patria e assassinar o

seu povo, para satisfação do seu orgulho de rainha _liberal_.

*Pedro V* não poude passar sem irmãs de caridade, e deixa que

mansamente de novo se estabeleçam entre nós as congregações

religiosas; novamente, um almirante estrangeiro (Lavaud) nos faz o

mesmo que Roussin fizera em tempo de D. Miguel.

*Luiz I* arvora o cynismo em governo e faz reinar a bandalheira;

deixa que na conferencia de Berlim nos roubem a maior parte do

nosso territorio Africano, e conduz o paiz á bancarrota que estala

pouco tempo depois da subida ao throno de seu filho _Carlos_. Este,

esbofeteado pela Inglaterra, curva-se rasteiramente, chama

piolheira á nação que lhe paga, e... rouba-a; rouba-lhe o seu

dinheiro e rouba-lhe a liberdade; no seu reinado perdemos vastos

territorios nas nossas colonias de Moçambique, Angola e Guiné. O

seu ultimo ministro João Franco, que queria pôr tudo isto no _xão_

atirou com elle ao chão. Seu filho _Manuel II_ que lhe succedeu,

com sua bella e radiosa mocidade, já deu a seu povo uma explendida

amostra do muito amor que lhe tem: a chacina de 5 de abril (14

mortos e 100 feridos!); em troca o seu primeiro ministerio entendeu

que o povo lhe devia dar mais ordenado; ainda não roubou como o

papá, mas paga-se melhor; passa a sua vida de rozario na mão,

envergando a roupêta de jezuita, seguindo os conselhos das fraldas

femeninas reaccionario-palatinas.

Até hoje 14 reis da casa de Bragança teem governado o Paiz, e como

se vê são os legitimos representantes duma nação de idiotas,

barriguistas e poltrões; tambem não resta duvida que esta dynastia

é, como tem sido, a mais solida garantia da integridade do nosso

imperio ultramarino. Grandes são os beneficios que a Nação lhe

deve: uma divida colossal de *oitocentos mil contos*, nenhumas

industrias, nenhum commercio, uma agricultura atrazadissima, um

povo tuberculoso e analphabeto, esmagado com impostos á mercê dos

pontapés estrangeiros; nem exercito nem marinha; estradas ao

abandono e bufos com fartura, taes são as fontes de riqueza que os

Braganças nos deixam, e tudo isto por pouco dinheiro, baratinho:

*365 contos* por anno só para elle, mais *60 contos* para a mamã,

*outros 60* para a vóvó e *16* para o titi; tem tambem para

alfinetes *160 contos* a mais por anno que o generoso Amaral lhe

deu, pagamos tambem á sua guarda real de archeiros, á orchestra da

sua real Camara, e ao seu yacht, e como isto é pouco, damos-lhe

dinheiro pela honra que nos faz em alojar os seus cavallos e carros

nas nossas casas e pela licença que nos deu de utilisarmos em

serviço do Estado os nossos palacios; tudo isto, bem entendido,

nada tem com os rendimentos da casa de Bragança que disfructa.

Quando casar, se S. M. nos der essa felicidade, dar-lhe-hemos mais

*60 contos* para os alfinetes de sua esposa; e se tiver meninos?

então morreremos de alegria e daremos *20 contos* annuaes por cada

pimpolho.

Como veem, não é pagar cara a certeza que temos de ganhar o reino

do ceu pela mão do nosso radioso soberano, com a benção de Pio X,

as indulgencias de Merry del Val e as preces solemnes do sr.

patriarcha e do reverendo bispo de Beja.

* * * * *

Oliveira Martins, que foi ministro de D. Carlos, diz na sua

historia de Portugal: Força é reconhecer que na familia dos

Braganças não vingou a semente da nobre raça dos Nun'Alvares;

viu-se em todos elles a descendencia do crasso sangue alemtejano da

filha do _Barbadão_.

* * * * *

*Portuguezes!* façamos votos pela conservação d'esta gloriosa

dynastia--*Oremos*--*Padre Nosso*--*Ave-Maria*.

Junho--1910.

Fui hoje a casa do Fernando Martins de Carvalho consultal-o. Não sae

ainda com medo aos republicanos. É pequeno, inteligente, arguto. Está

livido.

--A rainha D. Amelia é que quiz forçosamente que o ministerio João

Franco fôsse abaixo e até se opunha a que se lavrassem os decretos como

habitualmente.

--E o rei?

--O rei, como dizia o Totenbach, não é um homem... Oh, vivemos dias

horriveis! Olhe, tenho provas moraes absolutas de que os republicanos

quizeram assassinar o João Franco, quando elle viesse de Carnide no

automovel. Ha na estrada uma azinhaga: de repente uma carroça surgia,

fazia parar o automovel e os assassinos cahiam-lhe em cima...

Julho--1910.

Do João de Menezes:

--Possuo documentos (que hão-de aparecer a seu tempo) e que provam que

foi a rainha D. Amelia, d'acordo com a condessa de Paris e a duqueza de

Monpensier, quem introduziu as ordens religiosas no paiz. Foram ellas

que deram dinheiro para jornaes e o resto.

* * * * *

A dissidencia, o assassinato do rei, o caso do Credito Predial, foram

golpes profundos e certeiros vibrados na monarchia. Está efectivamente

tudo minado... E os ataques dos republicanos ao juiz de instrução

criminal demonstram que elle lhes tocou na ferida... Mas quem ha ahi que

se queira comprometer a serio pela monarchia, sobretudo depois do

exemplo de João Franco?--A um ministro foi preciso escrever-lhe uma

ordem necessaria «porque a mão lhe tremia...» O que resta de pé não

passa de ficção. Quem manda, quem governa, mesmo na oposição, são os

republicanos, que o Alpoim leva pela mão até ás questões importantes.--O

exercito é nosso.--E o João Chagas, para convencer um oficial incredulo,

manda desfilar certa noite no Rocio os soldados d'um regimento, que, por

senha, um a um lhe fazem todos a continencia. Sucedem-se os governos,

mas a força é outra, que se sente por traz do scenario... O José

d'Azevedo desafia-os:--Venham para a rua!--Fiado em quê? O pacto de Vila

Viçosa efectivamente existe?[12] Já o João Franco dizia tambem com

arrogancia:--Se podem fazer a republica façam-na depressa, porque d'aqui

a dois annos garanto-lhes que a não fazem.--Mas será este rei um

chefe?--pergunta necessaria e decisiva, a que os proprios monarchicos

respondem d'esta forma n'_O Liberal_:

«O rei de Portugal está exautorado, está reduzido a uma chancella

de quem lhe bate os pés.

«Podia ser um rei, e é um simulacro da realeza.

«Em tempo algum se curvaram os reis perante ameaças de qualquer

natureza e ainda menos, quando tendentes a esquecer os nossos

protestos e juramentos a que está ligada a propria dignidade e a

honra de uma nação.

«Póde asseverar-se que o snr. D. Manuel não chegou a ser rei. No

momento em que se esqueceu do que devia á sua dignidade de nós

todos, *que lhe confiamos um cargo, que é incapaz de conservar sem

o deixar cair, o snr. D. Manuel deixou de ser rei*».

A excitação politica não tem diminuido, e o Teixeira de Souza, no poder,

ignora tudo que o juiz d'instrucção repete a quem o quer ouvir:--Estamos

sobre um vulcão!--A audacia dos republicanos todos os dias

augmenta:--Lisboa é nossa!--exclama o Chagas.--Se os republicanos

fizessem um comicio ao alto da Avenida e viessem por ali abaixo, a

republica estava feita!--afirma o Silva Graça--E o Porto e a

provincia?--pergunto eu ao Chagas.--Que me importa a provincia! Que

importa mesmo o Porto! A republica fazemol-a depois pelo

telegrapho.--Outro diz-me:--A marinha está toda comnosco. Tem havido

ocasiões em que a esquadrilha do Algarve nos pertence desde o oficial

mais graduado até ao ultimo fogueiro. O dificil tem sido

contel-os...--Todos os dias corre um boato e a agitação popular augmenta

pela carestia da vida[13]. Que vae sahir d'aqui? Uma grande revolução, o

terror, mortes?...--Não, soceguem, quando se fizer a republica--já o

anunciou ha annos o pontifice maximo Guerra Junqueiro--o que se ha-de

ouvir não é um grande ruido de espadas, é um grande ruido de talheres...

Memórias · 第 35 / 45 题