José d'Azevedo diz a respeito do escandalo do Credito Predial:--Não são
sessenta contos que faltam, são oitocentos! A escripta está toda
viciada. Venderam-se obrigações, deram-se juros entrando-se pelo
capital, emfim um descalabro medonho, que se não podia fazer sem
auctorisação dos governadores.
* * * * *
É um politico reservado e frio? Não sei. É um homem audacioso e
inteligente, que parece calmo. Mas ha n'elle uma parte em carne viva.
Sente-se a ferida sob aquella aparencia forte. Escreve sem uma emenda,
linguado atraz de linguado; nem hesitações nem duvidas e um prazer que
synthetisa n'estas palavras:--Babo-me... Não escrevo, babo-me...--Não
crê senão em si mesmo, e não deve ter um amigo, como todos os que contam
apenas com as suas proprias forças. A mulher d'um diplomata que viajou
com elle, dizia:--As maneiras encantaram-me, os olhos meteram-me
medo.--São os olhos dos Brocas.
--Sou das raras pessoas que teem assistido ao suplicio dos chinezes. Fui
com o meu creado, a cavalo--e por signal que elle desmaiou. Cortam-lhes
primeiro a carne dos ante-braços, depois a das pernas, depois os seios,
depois os braços e as pernas pelas articulações; dão-lhes emfim um golpe
no coração e acabam por os decepar. Pois durante todo o suplicio atroz,
os desgraçados não deram um unico grito, um só gemido: erguiam a cabeça
e bufavam ou mijavam-se. Mais nada. Um d'elles prestou-se, sorrindo, a
que o photographassem, emquanto o carrasco levantava a espada para o
degolar...
* * * * *
Uma phrase camilliana de uma tia, irmã de Camillo:--Sobrinho, Deus não
existe... ou embarcou!
* * * * *
E esta de Camillo, que tinha vindo a Lisboa muito doente, e a quem Souza
Martins, para o sacudir, começou ralhando muito. Camillo, para o José
d'Azevedo, depois do medico sahir:
--Vê, meu sobrinho, vê, não me perdoam o _Eusebio Macario_, estes filhos
de boticario!
* * * * *
Camillo para o José d'Azevedo, mostrando-lhe o filho, que já estava no
primeiro periodo de loucura:--Veja esse desgraçado... Era um rapaz
inteligente...--E depois d'uma pausa dolorosa:--E tudo isto porquê,
sobrinho? Por ter lido as obras do Theophilo Braga.
Junho--1910.
Nos quarteis continua a fazer-se uma larga propaganda republicana.
Distribuem-se aos soldados versos e folhetos. Exemplo:
|| Ide escravos quebrar os grilhões,
|| As algemas da fome homicida;
|| Armas promptas contra esses ladrões,
|| Que nos roubam a bolsa e a vida! (bis)
|| Nova aurora de Paz, Redempção,
|| Vá doirar nossos valles e cerros,
PROPAGANDA ELEIÇOEIRA || Libertando os captivos dos ferros,
DO BLOCO PREDIAL || Dando aos pobres a luz e o pão.
---------------- ||
(Musica--A MARSELHEZA) || Avante! Lusitanos!
|| Largae a servidão!
|| Unir! Unir! contra os tyramnos,
|| Salvemos a Nação!
|| Avante Lusitanos,
|| Salvemos a Nação.
||
||
|| Tareco.
E o folheto «Os Barbadões»[11]:
«O rei D. João I da gloriosa dynastia de Aviz, enamorou-se da filha
de Pero Esteves, sapateiro alemtejano, conhecido pela alcunha _O
Barbadão_; d'estes amores nasceu um filho que foi conde de
Barcellos e primeiro duque de Bragança; casando este com uma filha
do condestavel Nun'Alvares, deu origem á nobre casa que ha 267
annos reina em Portugal.
A casa de Bragança foi-se engrandecendo á custa de doações regias,
bens nacionaes que os reis cediam em usufructo apenas, e que o
capricho do soberano ou a conveniencia do Estado, podiam fazer
voltar ao seu legitimo proprietário: *A Nação*.
Não foram os serviços relevantes que engrandeceram esta casa, mas
as intrigas continuas, salientando-se entre todas a que levou o
glorioso infante D. Pedro á chacina de Alfarrobeira.
Com a revolução de 1640 que libertou Portugal do jugo da Espanha, o
oitavo duque de Bragança foi aclamado rei com o nome de João IV;
beato e poltrão liga-se aos jesuitas, e para salvar a pelle e o
titulo de rei, não hesita em negociar por intermedio do padre
Antonio Vieira (jesuita) a entrega do seu paiz á França, ou
novamente á Espanha, a troco de o reconhecerem como rei do Brazil;
a sua pessoa era tudo, o seu paiz era nada. Os melhores servidores
do Estado foram lançados em prisões ou conduzidos ao cadafalso (o
ministro Lucena, o marquez de Montalvão, Mathias d'Albuquerque
vencedor de Montijo, etc.). O seu reinado foi coroado pelo presente
que fez á Inglaterra, como dote de sua irmã, das cidades de Bombaim
e Tanger, ricas flores de laranjeira que a infante portugueza levou
prezas ao seu vestido de noiva!
Seu filho _Afonso VI_ que no throno lhe sucedeu, corria de noite as
ruas da cidade, com a sua purria fidalga, assaltando os cidadãos
indefezos; era doido, e d'isso se aproveita seu irmão _Pedro II_
para lhe tirar a corôa e... a mulher, com o consentimento do papa;
este (Pedro II) dominado pelos jesuitas tambem, desterra o conde de
Castello Melhor, glorioso ministro (que por tres vezes salvou
Portugal da dominação espanhola), e celebra com a Inglaterra o
vergonhoso tratado de Methwen, que nos tira o comercio do Oriente e
nos impossibilita de montar fabricas e oficinas.
*João V* que lhe sucede, gasta o oiro que do Brazil lhe vem, na
construção de conventos, em festas de egreja e em presentes ao
padre santo; deixa perder sem enviar socorros, as nossas colonias
da India, Ceylão e Oceania, porque o dinheiro era pouco para
presentear as freiras de quem fez amantes e o papa de quem se fez
lacaio.
*José I* faz morrer no cadafalso toda a familia Tavora, por meio de
horriveis tormentos, com o pretexto de serem cumplices na
conspiração do duque de Aveiro, o que se não provou, sendo a causa
verdadeira a oposição que essa familia fazia aos seus amores
adulteros com a marqueza; nada escapou ao seu furor sanguinario:
nem velhos, nem mulheres, nem creanças. Para dignamente coroar o
seu reinado, abandona aos mouros as cidades que possuiamos em
Marrocos, e que tanto sangue portuguez custaram.
[Figura: _Teixeira de Sousa._]
*Maria I* tira o poder ao Marquez de Pombal, entrega-o aos frades e
endoidece; seu filho _João VI_ que em seu nome governou e lhe
sucedeu, foge covardemente para o Brazil abandonando o povo de que
era rei, quando os francezes invadiram o paiz; Junot entra em
Lisboa á frente de 70 soldados!!! Portugal revolta-se contra os
francezes, e o rei entrega-o aos desprezos de Wellington e ás
brutalidades de Beresford; os inglezes protegendo-nos, fazem-nos
peor mal que os invasores: arrazam as nossas provincias, queimam as
nossas fabricas, conquistam a Madeira, e impõem-nos os vergonhosos
tratados de 1810, ainda peores que o de Methwen. O general Gomes
Freire, por tentar libertar o paiz das garras inglezas, é enforcado
em S. Julião da Barra; outros 17 martires pagam com a vida, no
Campo de Sant'Anna, a sua dedicação patriotica. A revolução popular
de 1820 salva Portugal do leopardo britanico, obriga o rei a voltar
ao seu posto e liberta o exercito do oprobrio de ser comandado por
oficiaes inglezes.
*D. Miguel* foi quem primeiro estabeleceu em Portugal um governo de
força, á semelhança do que desejam actualmente alguns idiotas
barriguistas; nada lhe faltava: as alçadas, as forcas, o cacete,
80.000 homens de tropa e um povo fanatico e imbecil; contra si, em
todo o paiz, apenas tinha alguns liberaes desarmados; o seu retrato
figurava nos altares, e as mães pediam-lhe a honra de lhes
desflorar as filhas. Prende, enforca ou manda fuzilar toda a gente
de que suspeita, mas com toda a sua força, deixa que uma esquadra
estrangeira lhe escarre na cara e no Paiz, sem que um só tiro
partisse a repelir a afronta. Este idolo poderoso cahe do seu
pedestal de sangue, é corrido do throno pela _revolução_
triumphante; seu numeroso exercito pouco a pouco o foi abandonando,
vindo para o lado do povo liberal, e o bronco tigre que ao começar
a guerra civil tinha 80.000 homens ás suas ordens, perde a batalha
de Asseiceira com os 5.000 homens unicos que até esse momento lhe
ficaram fieis.
*Pedro IV*, o que tem estatua no Rocio, revolta o Brazil contra
Portugal, faz-se seu imperador e manda fuzilar no Rio de Janeiro os
soldados portuguezes á traição; corrido do Brazil, volta a Portugal
a tentar fortuna, dirigindo a guerra civil contra o irmão; emquanto
esta se não decide a seu favor, não tem vergonha de offerecer á
Inglaterra, em troca de auxilio desta, o pouco que nos restava do
nosso imperio indiano.
*Maria II* para se aguentar no throno chama marujos inglezes e
30:000 soldados de Espanha; faz invadir a sua patria e assassinar o
seu povo, para satisfação do seu orgulho de rainha _liberal_.
*Pedro V* não poude passar sem irmãs de caridade, e deixa que
mansamente de novo se estabeleçam entre nós as congregações
religiosas; novamente, um almirante estrangeiro (Lavaud) nos faz o
mesmo que Roussin fizera em tempo de D. Miguel.
*Luiz I* arvora o cynismo em governo e faz reinar a bandalheira;
deixa que na conferencia de Berlim nos roubem a maior parte do
nosso territorio Africano, e conduz o paiz á bancarrota que estala
pouco tempo depois da subida ao throno de seu filho _Carlos_. Este,
esbofeteado pela Inglaterra, curva-se rasteiramente, chama
piolheira á nação que lhe paga, e... rouba-a; rouba-lhe o seu
dinheiro e rouba-lhe a liberdade; no seu reinado perdemos vastos
territorios nas nossas colonias de Moçambique, Angola e Guiné. O
seu ultimo ministro João Franco, que queria pôr tudo isto no _xão_
atirou com elle ao chão. Seu filho _Manuel II_ que lhe succedeu,
com sua bella e radiosa mocidade, já deu a seu povo uma explendida
amostra do muito amor que lhe tem: a chacina de 5 de abril (14
mortos e 100 feridos!); em troca o seu primeiro ministerio entendeu
que o povo lhe devia dar mais ordenado; ainda não roubou como o
papá, mas paga-se melhor; passa a sua vida de rozario na mão,
envergando a roupêta de jezuita, seguindo os conselhos das fraldas
femeninas reaccionario-palatinas.
Até hoje 14 reis da casa de Bragança teem governado o Paiz, e como
se vê são os legitimos representantes duma nação de idiotas,
barriguistas e poltrões; tambem não resta duvida que esta dynastia
é, como tem sido, a mais solida garantia da integridade do nosso
imperio ultramarino. Grandes são os beneficios que a Nação lhe
deve: uma divida colossal de *oitocentos mil contos*, nenhumas
industrias, nenhum commercio, uma agricultura atrazadissima, um
povo tuberculoso e analphabeto, esmagado com impostos á mercê dos
pontapés estrangeiros; nem exercito nem marinha; estradas ao
abandono e bufos com fartura, taes são as fontes de riqueza que os
Braganças nos deixam, e tudo isto por pouco dinheiro, baratinho:
*365 contos* por anno só para elle, mais *60 contos* para a mamã,
*outros 60* para a vóvó e *16* para o titi; tem tambem para
alfinetes *160 contos* a mais por anno que o generoso Amaral lhe
deu, pagamos tambem á sua guarda real de archeiros, á orchestra da
sua real Camara, e ao seu yacht, e como isto é pouco, damos-lhe
dinheiro pela honra que nos faz em alojar os seus cavallos e carros
nas nossas casas e pela licença que nos deu de utilisarmos em
serviço do Estado os nossos palacios; tudo isto, bem entendido,
nada tem com os rendimentos da casa de Bragança que disfructa.
Quando casar, se S. M. nos der essa felicidade, dar-lhe-hemos mais
*60 contos* para os alfinetes de sua esposa; e se tiver meninos?
então morreremos de alegria e daremos *20 contos* annuaes por cada
pimpolho.
Como veem, não é pagar cara a certeza que temos de ganhar o reino
do ceu pela mão do nosso radioso soberano, com a benção de Pio X,
as indulgencias de Merry del Val e as preces solemnes do sr.
patriarcha e do reverendo bispo de Beja.
* * * * *
Oliveira Martins, que foi ministro de D. Carlos, diz na sua
historia de Portugal: Força é reconhecer que na familia dos
Braganças não vingou a semente da nobre raça dos Nun'Alvares;
viu-se em todos elles a descendencia do crasso sangue alemtejano da
filha do _Barbadão_.
* * * * *
*Portuguezes!* façamos votos pela conservação d'esta gloriosa
dynastia--*Oremos*--*Padre Nosso*--*Ave-Maria*.
Junho--1910.
Fui hoje a casa do Fernando Martins de Carvalho consultal-o. Não sae
ainda com medo aos republicanos. É pequeno, inteligente, arguto. Está
livido.
--A rainha D. Amelia é que quiz forçosamente que o ministerio João
Franco fôsse abaixo e até se opunha a que se lavrassem os decretos como
habitualmente.
--E o rei?
--O rei, como dizia o Totenbach, não é um homem... Oh, vivemos dias
horriveis! Olhe, tenho provas moraes absolutas de que os republicanos
quizeram assassinar o João Franco, quando elle viesse de Carnide no
automovel. Ha na estrada uma azinhaga: de repente uma carroça surgia,
fazia parar o automovel e os assassinos cahiam-lhe em cima...
Julho--1910.
Do João de Menezes:
--Possuo documentos (que hão-de aparecer a seu tempo) e que provam que
foi a rainha D. Amelia, d'acordo com a condessa de Paris e a duqueza de
Monpensier, quem introduziu as ordens religiosas no paiz. Foram ellas
que deram dinheiro para jornaes e o resto.
* * * * *
A dissidencia, o assassinato do rei, o caso do Credito Predial, foram
golpes profundos e certeiros vibrados na monarchia. Está efectivamente
tudo minado... E os ataques dos republicanos ao juiz de instrução
criminal demonstram que elle lhes tocou na ferida... Mas quem ha ahi que
se queira comprometer a serio pela monarchia, sobretudo depois do
exemplo de João Franco?--A um ministro foi preciso escrever-lhe uma
ordem necessaria «porque a mão lhe tremia...» O que resta de pé não
passa de ficção. Quem manda, quem governa, mesmo na oposição, são os
republicanos, que o Alpoim leva pela mão até ás questões importantes.--O
exercito é nosso.--E o João Chagas, para convencer um oficial incredulo,
manda desfilar certa noite no Rocio os soldados d'um regimento, que, por
senha, um a um lhe fazem todos a continencia. Sucedem-se os governos,
mas a força é outra, que se sente por traz do scenario... O José
d'Azevedo desafia-os:--Venham para a rua!--Fiado em quê? O pacto de Vila
Viçosa efectivamente existe?[12] Já o João Franco dizia tambem com
arrogancia:--Se podem fazer a republica façam-na depressa, porque d'aqui
a dois annos garanto-lhes que a não fazem.--Mas será este rei um
chefe?--pergunta necessaria e decisiva, a que os proprios monarchicos
respondem d'esta forma n'_O Liberal_:
«O rei de Portugal está exautorado, está reduzido a uma chancella
de quem lhe bate os pés.
«Podia ser um rei, e é um simulacro da realeza.
«Em tempo algum se curvaram os reis perante ameaças de qualquer
natureza e ainda menos, quando tendentes a esquecer os nossos
protestos e juramentos a que está ligada a propria dignidade e a
honra de uma nação.
«Póde asseverar-se que o snr. D. Manuel não chegou a ser rei. No
momento em que se esqueceu do que devia á sua dignidade de nós
todos, *que lhe confiamos um cargo, que é incapaz de conservar sem
o deixar cair, o snr. D. Manuel deixou de ser rei*».
A excitação politica não tem diminuido, e o Teixeira de Souza, no poder,
ignora tudo que o juiz d'instrucção repete a quem o quer ouvir:--Estamos
sobre um vulcão!--A audacia dos republicanos todos os dias
augmenta:--Lisboa é nossa!--exclama o Chagas.--Se os republicanos
fizessem um comicio ao alto da Avenida e viessem por ali abaixo, a
republica estava feita!--afirma o Silva Graça--E o Porto e a
provincia?--pergunto eu ao Chagas.--Que me importa a provincia! Que
importa mesmo o Porto! A republica fazemol-a depois pelo
telegrapho.--Outro diz-me:--A marinha está toda comnosco. Tem havido
ocasiões em que a esquadrilha do Algarve nos pertence desde o oficial
mais graduado até ao ultimo fogueiro. O dificil tem sido
contel-os...--Todos os dias corre um boato e a agitação popular augmenta
pela carestia da vida[13]. Que vae sahir d'aqui? Uma grande revolução, o
terror, mortes?...--Não, soceguem, quando se fizer a republica--já o
anunciou ha annos o pontifice maximo Guerra Junqueiro--o que se ha-de
ouvir não é um grande ruido de espadas, é um grande ruido de talheres...